Ele estava inexpressivo, ele tinha acabado de acordar em uma maca.
Ah, esse inexpressão durou muito, muito pouco, o rosto familiar da enfermeira lhe disse tudo que deveria dizer.
Conectado a aparelhos no hospital, internado mais uma vez, depois de seu corpo ter funcionado incorretamente, desmaiado — não que ele estivesse muito impressionado, já tinha virado uma rotina ser um estorvo.
Estorvo, essa palavra encaixou bem a como ele se sentia agora.
Jason tinha a inteligência necessária, mas sua saúde nunca o acompanhou. Sempre precisou de remédios, de ajuda, e agora — aos vinte e três anos — ele percebeu que de nada adiantaram seus anos de tratamento e dinheiro gasto por seus pais em remédios, por ele mesmo no trabalho, ele nunca poderia escapar do inevitável.
Ele olhou para a sala no hospital, às janelas estavam fechadas e ele sentia o leve frio da noite e do ar-condicionado. A enfermeira tinha vindo checar como ele estava e, coincidentemente, ele havia acordado no mesmo momento.
Os aparelhos conectados a seu corpo lhe lembravam de sua condição mortal, a qual ele desprezava.
Ah, sim, ele tinha desprezado grandemente essa condição desde que era muito novo. Ele não conseguia correr muito, se cansava fácil demais.
Não conseguia participar das atividades que queria, pois lhe disseram que seu coração não aguentava. Ele desprezou mais do que qualquer um essa condição de mortalidade, principalmente porque ele próprio sabia que não viveria muito.
Estudou, ele conseguia fazer isso — amava a literatura e o estudo matemático, quase se dizia polímata. Sempre recebia elogios, "era talentoso!" Diziam eles, "se não fosse sua doença..." talvez não fosse sua vida que era mais no hospital do que em casa, ele tivesse tido mais oportunidades.
Frequentemente, ele divagava consigo próprio se teria se tornado tão erudito caso tivesse uma vida comum de qualquer criança, e talvez por ego ou por uma tentativa de amenizar seu próprio ânimo — dizia que não, que às condições perfeitas foram criadas para que ele — ainda que talentoso — não pudesse exercer seu talento.
Jason considerou-se uma tragédia irônica, e riu sozinho com isso.
Até pensou em puxar assunto com a enfermeira, mas vendo o horário e às olheiras dela, sabia que ela não estava com ânimo para qualquer uma das piadas ruins dele, nem para seu lamento da mortalidade e da fraqueza — o qual ele desprezava.
Jason apenas ajeitou-se um pouco, provavelmente receberia alta amanhã e deveria voltar na semana seguinte.
Ele fechou seus olhos, respirou profundamente - expirou, e, até sem notar - ele dormiu.
Após o que parece ter sido uma eternidade no vazio entre o acordar e o dormir, Jason não sentiu o próprio corpo, mas abriu os olhos.
Ele estava numa lugar grande cercado de grades, uma prisão? E qual foi seu crime?
Mas essas grades eram enfeitadas, até brancas, e com certeza ele não era um político pomposo para ser preso num lugar tão chique.
Havia um teto sobre ele, e parecia saído de um cenário de filme — haviam animaisn presos, alguns mitológicos como um dragão e um unicórnio, mas...
Ele ainda não conseguia se mexer direito, parecia estranho - mas ele tentou falar, e nenhum som além de um grunhido de uma voz que não parecia sua se fez ecoar aos seus próprios ouvidos.
E ele se sentiu...pequeno, estranhamente. Como se alguém o tivesse posto num pote, ou uma sensação semelhante a estar num lugar com coisas grandes demais e ser o menor da sala.
Tentando mexer os braços, ele viu pequenos dedos - até gordos - e com certeza estava vestindo algo branco, embora não fosse a vestimenta do hospital.
Ah, não....
— O que diabos está...? —
Tomando consciência de sua própria situação, Jason pensou:
É um sonho. Mas não era, e nem de perto algum sonho dos mais criativos dele poderia se equiparar às sensações que invadiram e se misturaram a sua mente neste momento.
Ele estava na forma de um bebê, sim, ele com certeza era um bebê. E a prova cabal de sua terrível suspeita foi o molhado que ele sentiu entre às pernas, e a avassaladora vontade que teve de exprimir esse fato com um estrondoso choro.
De fato, ele era um bebê agora. Ah, claro... Como não teria sido um bebê?
Mas o que exatamente aconteceu?
Sem conseguir articular seus pensamentos corretamente graças a mentalidade adulta misturada a sensibilidade de um bebê, ele apenas deixou que sua mente rolasse em teorias enquanto uma nobre mulher e uma que se vestia como criada, vinham ao resgate dessa criança suja pelo que lhe escapou das entranhas.
— — — — — — —
Dois dias se passaram. Esse era o dia do funeral, o jovem Jason havia falecido decorrente a sua doença no coração. Vinte e três anos, jovem talentoso e ambicioso, mas com um corpo que nunca correspondeu aos seus anseios.
Choro por parte de sua mãe, choque por parte de seu pai, e raiva, principalmente por parte dele.
Tanto dinheiro gasto com médicos e esperanças, "seu filho irá melhorar", eles disseram. "O quadro não é tão grave quanto antes..." Disseram, e tudo para quê?
Tudo para que visse sua esposa enterrar seu filho mais velho, o único que não nasceu saudável dos três, e que apesar de tudo, morreu sem nunca amaldiçoar seus pais pela vida que teve.
Jason pensou muitas vezes em culpar o destino, mas percebeu que era muita tolice acreditar que o universo inteiro teria se curvado apenas para que ele não nascesse com um corpo decente.
No entanto, em seu coração, o desejo de plenitude sempre se manteve firme como sua última fagulha de esperança.
”Eu quero fazer isso."
“Eu quero aprender aquilo.”
Ele sempre manteve esses pensamentos curiosos e gananciosos para tudo que seus olhos viam, sem que suas mãos nada tocassem.
Seu desejo era ainda maior...
Jason frequentemente fantasiou com a plenipotência, com a capacidade de ter tudo ao seu dispor. Ele detestava a própria fraqueza e só poderia culpar a própria natureza de si próprio por isso, se irritava com o quão frágil era seu corpo, e com isso fortaleceu sua mente com a filosofia, com a literatura, nas vezes que conversou com professores até renomados - alguns de suas faculdades - ele olhava o espanto das figuras como quem viam um talento único....
Mas mesmo essa satisfação logo lhe era tirada com o olhar que vinha em seguida, o olhar de que "tudo isso era desperdício", pois ele não conseguia de fato colocar tudo que queria no papel.
Isso o acompanhou até o final, essa sombra de incapacidade que o levou a insatisfação completa de sua alma — esta que agora, em outro mundo, ele considera uma oportunidade entre uma e cem decilhões.
Uma vida já é uma possibilidade ínfima, uma outra em outra realidade já era uma sorte que ele não pensou ser possível.
E com isso, o herói desta história inicia o seu sonho.
O sonho de que a sua persona mais ideal, Albus — o completo — torne-se real. Um ser incapaz de ser maculado, um ser...pleno.
Jason sorriu como uma criança, que dê fato ele era, agora nos braços de sua mãe em um jardim muito florido. Dessa nova mãe, que ele ouviu o nome...
"Sofia Avgusta Meridius"... Uma mulher bonita como saída de um conto de fadas, loira dos olhos que pareciam ser diamantes.
O bebê se aconchegou nos braços de sua mãe, que o encheu de carinhos de volta.
Ele ouviu o próprio nome, completo desta vez:
“Sebastianus Avgustus Meridius."
Por dentro, Jason ficou espantado com a nobreza do nome. Por fora, o bebê exalou um fedor inconfundível que o sorriso da mãe com certeza reconheceu...
Ah, sim, a vida de bebê. Que frágil e doce vida.
Como será este novo mundo? Nem ele sabe.
Como ele agirá? Ele decidiu desde o início:
Em prol do objetivo máximo que esteve no seu coração desde o início...
A Plenitude.