Era de manhã quando Sebastian acordou de novo, e na verdade, ele percebeu que era madrugada - a luz que tinha irradiado seus olhos era apenas de um abajur.
Pela claridade do céu, ele supôs que eram por volta das cinco da manhã.
Ele saiu pela janela do quarto, se moveu em silêncio pelo jardim e encarou a grande lua cheia, sentindo sua luz sobre si; ouvindo de longe os insetos.
Ele tinha seis anos de idade agora, em um mundo ainda estranho, mas que ele estava se acostumando.
Não era um sonho, ele sabia que não. Teria durado demais para ser um e nem em uma paralisia do sono seria tão vivido quanto isto era.
Olhando a água na fonte do jardim, ele encarou seu reflexo, ainda se acostumando com a aparência que atualmente possui.
Ele tem cabelos loiros, quase como se fios se ouro tivessem saído de sua cabeça; seus olhos são prateados, no entanto, como se tivesse espelhos de metal no lugar das íris. Ele ainda é baixo, se acostuma com os seus pequenos membros e sua mobilidade um tanto melhor — muito melhor — do que era no seu antigo corpo, quando ele ainda era Jason; quando ainda era tão doente que apreciar a lua num horário como esse seria um sonho impossível.
Mas ele não tinha saído cedo apenas para apreciar a lua. Ele tinha um motivo mais nobre, mais digno de interromper seu maravilhoso sono (que ele de fato gostou muito por causa desse corpo), que era praticar o impensável, aquilo que só existia nos livros de fantasia e na ficção geral...isto era Magia, o elemento que mudou tudo!
— Meu pai não deve ficar bravo se eu devolver o livro ao escritório depois. — Disse ele pensando na figura de seu pai, chamado Magnus. Magnus era um pai rígido, porém afetuoso, ele era disciplinado e queria passar isso aos filhos - estes que eram quatro, com Sebastian sendo o mais novo.
Magia era algo praticado principalmente depois dos oito anos, por quê? Porque era - para simplificar - perigoso.
O potencial mágico de uma criança é geralmente medido no nascimento ou na gestação, um mago experiente viria junto de uma assistente fazer o parto ou avaliar a saúde e potencial da criança, através de uma magia chamada ‹Mallarus›, essa magia levava o nome do mago que a descobriu.
Um feitiço capaz de fazer uma análise futurística ao inspecionar o futuro do núcleo mágico de uma alma, e então determinar se seria de alto nível ou não.
Quanto menor era o potencial de uma criança, mais instável era o seu núcleo mágico, ela correria diversos ricos se usasse seu [Refless] (termo equivalente a mana) sem acompanhamento.
Não que indivíduos de potencial baixo fossem inúteis, é claro. O mundo era composto por diversos tipos de pessoas e talentos, mas num mundo onde grandes magos, feiticeiros, alquimistas e diversos outros existem...pode-se dizer que os de potencial baixo não foram vistos com bons olhos culturalmente. Principalmente neste lugar, que era Magnólia — o continente da magia — o lugar onde Sebastian havia nascido.
De tudo que foi dito, pode-se resumir que Sebastian está praticando escondido algo que deveria esperar mais dois anos para começar. Bem, não que ele se sinta como se tivesse de fato seis anos.
Ele estava segurando um grimório, tratou de se pôr próximo a um rio.
Ele estava sentado agora, lendo o enunciado que explicava a introdução básica a magia.
— "Para começar, não se chama a energia mágica de "mana", como os elfos e os elfos negros constantemente alegam ser o termo legítimo. Chama-se "Refless", o reflexo da alma do indivíduo; sua energia vital e a energia espalhada pelo mundo, cuja a fonte é a Quintessência; ainda oculta para nós, mas que será alcançada um dia. Esta limpa energia, capaz de coisas maravilhosas e desastres imensos, é a área de estudo de todo mago, feiticeiro, alquimista ou o que seja. É Onipresente no universo, com ela se deu forma, cor e substância às coisas. Os humanos, assim como todas às criaturas que tem um núcleo mágico, tem a capacidade de manifestar o Refless. Alguns mais do que outros, outros menos, e há raros casos onde se nasce com o núcleo mágico destruído ou deteriorado, mas ninguém assim vive sequer até aos vinte anos. O núcleo mágico é o recipiente invisível dentro da alma do indivíduo, que através da imaginação, da vontade e da consciência, molda o Refless e dá forma a energia, manifestando-a no mundo em algum elemento ou feitiço visível, e alguns até invisíveis. A variedade total do Refless é impossível de ser mensurada, portanto, a vida dos magos é geralmente testar até onde vão os seus limites de núcleo — o quanto conseguem e não aprender, e como exercer a total excelência de sua capacidade no mundo. Eu, Vladmir Telles, que escrevo esta introdução — me dediquei a ser professor e introduzir os grandes talentos a pesquisa do Refless, pois acredito que é através do bom uso desta força inimaginável que chegaremos a era de ouro da humanidade.” —
Sebastian leu toda a introdução com atenção, olhou para a própria mão direita — pequena, e deu um pequeno sorriso. Refless, esse nome ficou ecoando em sua mente agora, um poder de capacidade inimaginável...e esse poder pode estar fluindo por ele agora. Diferente do habitual, nem sua mãe ou seu pai tinham feito o acompanhamento mágico, pelo menos ao que ele sabia. Não era um comportamento incomum.
Ele era de família nobre, e nobres sempre prezam pela discrição em seus domínios, principalmente sobre os seus assuntos familiares. Fizeram isso muito provavelmente para evitar "caçadores de talentos", feiticeiros experientes e rebeldes, que roubavam crianças com alto potencial mágico para criar aprendizes ou testar em seus próprios experimentos macabros. O mundo não era confiável, e era um dos motivos das crianças só terem permissão de praticar magia depois dos oito anos, para que ninguém botasse reparo.
Sebastian, no entanto, apenas quase eufórico. Tinha vivido duas décadas em uma vida decadente como Jason, estudou desde a neurociência até toda a teoria dos conjuntos, ele se encheu de conhecimento teórico e nunca teve onde praticar sua criatividade senão em trabalhos home office, alguns jogos que criou e, principalmente, livros anônimos que escreveu.
Seu corpo funcionava direito neste mundo, ele testou se alongar com seu pequeno corpo enquanto fechava os olhos. Segundo o grimório que vinha lendo a semanas repetidas e repetidas vezes, o Refless é tanto de dentro para fora quanto de fora para dentro. Pode ser tanto a quantidade massiva de energia mágica dentro do indivíduo, quanto o que está permeando o ar. É claro, o que estava dentro de si era muito mais difícil de alcançar, pois necessitava de um profundo conhecimento sobre o núcleo mágico e do próprio núcleo mágico pessoal, além de que o Refless que está dentro ser o mesmo Refless de fora, sua propriedade de uso também tornava sua aplicabilidade mais complicada...era uma energia espiritual, e portanto, seu foco seriam ataques espirituais. A forma de tornar esses ataques em físicos seria através de imbuir eles com a imaginação, a vontade e a consciência de um elemento como água e terra, e então se tornaria um ataque comum.
Por que Sebastian está interessado logo no mais difícil?
Porque desde de seu antigo mundo, ele não aceitou ser medíocre. Medíocre, sim...ou miserável, como era sua antiga situação.
Fraco, doente, incapaz de colocar seus ideais em prática, incapaz de alcançar a plenipotência que sempre almejou, incapaz de ser livre, incapaz de se conectar com o potencial mágico de si mesmo, incapaz de ajudar as pessoas e o mundo.
Todas às ilusões dele haviam sido esmagadas pela realidade brutal de seu mundo anterior, mas não agora, não aqui...
Ele abriu os olhos novamente, buscou lembrar de cada um dos mais de trinta grimórios que leu escondido na biblioteca escondida do escritório de Magnus, seu pai.
Ele apontou uma mão para a lua e proclamou:
— Eu, sem nenhuma dúvida, alcançarei a plenitude necessária para tocar essas estrelas. —
Ele então começou a prática da magia, do uso do Refless, em prol de um objetivo impossível.
~ ~ ~
Eram cinco da manhã quando acordou de seu sono a senhorita Beatrix Albamoon.
Está havia sido creditada como a obra-prima desta geração, estando agora com seus onze anos de idade. Nascida de cabelos pálidos e olhos brancos, considerados um sinal divino, ela desde cedo foi submetida às expectativas mais excelentes — oh, e como estavam certas essas expectativas, tão certas que se tornaram obsoletas rapidamente enquanto ela avançou na vida até agora.
Beatrix se levantou, através de sua própria furtividade, não foi difícil para ela abrir sua janela sem qualquer empecilho. Ela flutuou no ar — magia de voo, que se aprendia geralmente aos quinze quando se entrava na academia de magia, ela já dominara como não sendo mais do que uma extensão de si.
Ficou sobre o telhado e se ajeitou, se sentando entre às telhas. Sua casa era uma grande mansão no sul de Ballen, o condado de seu pai, Aurelius Albamoon, do reino Magnólia.
A visão de cima desse exagero estético era para ela, embora nada além disso. Sua face, que geralmente por nada se alternava em seu semblante inexpressivo, encarou a lua. Essa talvez fosse sua única confidente, a qual ela falava de ilusões que escondia profundamente em seu coração.
Ilusões estas não de poder, ela tinha poder, poder demais até, tendo já alcançado o nível de um Grande Mago, a class mais alta do reino, antes mesmo dos onze anos que tem agora.
Não, eram ilusões, ânsias de seu coração por algo que - ela não pronunciaria em voz alta - a alcançasse.
Não um oponente, mas um companheiro. Ela sabia seu destino, que por ser tão forte deveria lutar para proteger o reino e a humanidade da ameaça das outras raças, de lidar com monstros, mas temia a solidão que isso a traria. Temia que não aproveitasse nada do mundo além da guerra, o poder e a morte.
Ela sussurrou um pequeno lamento a lua:
— Será que se existisse alguém como eu...eu poderia ser vista ao invés do meu poder? —
Ela engoliu esse pensamento com seu coração novamente.
Se levantou e, parecendo um espectro de tão branca que era tanto em tudo que vestia, quanto na própria pele, olhos e cabelo, ela flutuou, suspirou um pouco, e praticou um pouco do Refless que estava desenvolvendo. Não inesperado, o sistema mágico atual existia faziam mil anos, o Grande Mago, Mallarus, foi o responsável por escrever diversos grimórios deixando diversos detalhes de como manipular e usar o Refless, reflexo do que aprendeu nos dois séculos de vida que teve antes de partir, para não se sabe onde, e não retornar até aos dias de hoje.
Beatrix, no entanto, decidiu criar seu próprio sistema mágico, assimilando às noções do antigo.
Se ela criasse uma complexidade pessoal na história de seu Refless, ficaria extremamente mais complicado de lidar com ela e entender o que fazia. Poucos são os que se arriscam a tentar ir além ou aquém das camadas de conhecimento que Mallarus deixou; mas ela não.
Foi dito isto pelo mago que acompanhou sua gestação: “Se o mundo e a magia tem regras, essa menina será sempre uma exceção.”
E Beatrix decidiu atender a essa expectativa.
Enquanto testava suas capacidades, ela sentiu uma pontada no peito que não era nada a ver com isso. Ela só foi... preenchida com um sentimento de calor. Como se seu coração tivesse detectado algo no mundo, uma conexão com alguma coisa ou alguém, mas uma boa conexão...
Ela virou rapidamente seu rosto a uma direção. Não viu ninguém além da florestal que cercava sua mansão oculta.
Foi apenas um bom sentimento. Muito bom.
Ele tocou o próprio peito, expressou um leve sorriso, que ela mesma se surpreendeu, e retornou ao foco de sua ação.
Quem ou o que será?
Será que ela vai conhecer o que quer que for quando sair para o mundo?
...De repente, ela se sentiu muito interessada no mundo exterior.
Onde estaria a plenitude da perfeita Beatrix Albamoon ?
Quem sabe em alguém que nunca se sentiu pleno.