Alguns dias após a invasão, o reino de Aethernys voltava lentamente ao normal, com alguns guardas reais ajudando a remover os cadáveres das ruas, enquanto isso em um quarto repleto por macas, pessoas enfaixadas e sendo tratadas, Gabriel que permaneceu em coma desde a invasão, finalmente despertou.
"Onde... eu estou?" — Gabriel se perguntou desnorteado e um pouco tonto, olhando à sua volta.
Vendo um lugar mais chique, com macas, vitrais, e percebendo que estava com a cabeça e peito enfaixados, junto a seu braço.
— Finalmente você acordou em. — Afirmou uma voz feminina, com o tom firme, que vinha do lado de Gabriel.
Ao virar para o lado e ver de quem era a voz, ele se deparou com Kaelis, uma forte mulher de cabelos vermelhos na altura do ombro, algumas cicatrizes em seu corpo, olhos dourados e olhar firme. O Pilar do Reino de Aethernys e heroína mais forte do continente, que estava acompanhada dos demais heróis do reino.
— Foi bastante imprudente o que você fez, por sorte a Kaelis com seu sentido extremamente aguçado percebeu algo de errado e correu para o reino. — Advertiu uma outra voz feminina, em um tom mais suave.
Lilith, uma jovem mulher de longos cabelos negros e pele morena, usando um enorme chapéu pontudo, junto a um manto negro com alguns frascos presos em si, e olhos cor de âmbar, uma maga com a alcunha de O Éter Vivo.
— Ei garoto, foi muito arriscado o que você fez sabia? — Gargalhou uma voz mais velha e um tanto rouca, caminhando até ele dando um tapinha em suas costas.
Aeron, um homem alto, musculoso, cabelos grisalhos e curto, e uma cicatriz em seu olho direito, o tanque conhecido como A Muralha de Aethernys.
— É realmente surpreendente saber que você conseguiu não só derrotar um orc, como ainda conseguiu ferir o líder deles. — Uma voz mais descontraída surgiu por de trás de um outro homem.
Os gêmeos, Alastor um rapaz alto, de cabelos pretos, um olhar apático e cinza, sem brilho, conhecido como Artesão da Morte, e sua irmã Amara uma jovem alta, com longos cabelos loiro com as pontas brancas, olhos grandes e azuis cristalinos como o mar, junto a um sorriso doce, a curandeira do grupo, com alcunha de A Santa Iluminada, que rivalizava em Éter com Lilith.
Gabriel ainda desnorteado olhava para ao seu redor continuamente, como quem procurasse por algo, ou alguém desesperadamente.
— Mã…mãe... papai? — Sussurrou.
Após alguns segundos um homem entrou correndo no quarto em que Gabriel estava de repouso, parando em pé ofegante, enquanto se apoiava na porta.
— Arf... arf... Gabriel? — Arfou o homem exausto, era Kalchas, pai de Gabriel..
— Pa…pai? O senhor está andando? — Perguntou Gabriel surpreso, a voz falhando com o espanto.
Amara deu um passo à frente.
— Ele está usando uma prótese Arc-Mech. — Revelou. — Um exoesqueleto acoplado a sua coluna, que se expandiu até sua medula e tronco, o permitindo voltar a se mover livremente quando alimentada por Éter. — Explicou Amara. — Eu me ofereci a tratar do seu pai após o incidente, mesmo estando em um estado sério, ele não parava de falar e perguntar sobre você, e eu queria que no reencontro de vocês, ele pudesse te abraçar com toda a sua força — Expressou.
Kalchas correu em direção a Gabriel, o abraçando firmemente, como nunca antes, enquanto chorava.
— Meu filho... eu achei que tivesse perdido você. — Kalchas desabava em lágrimas. — Graças aos astros... você está bem...
Gabriel estava estático ainda digerindo a informação, mas retribuiu o abraço em seguida. Mas após alguns minutos, Gabriel se afastou do pai, com uma expressão um tanto apática.
— Papai... onde está a mamãe? — Perguntou.
Seu pai não respondeu de imediato, ele apenas virou o rosto envergonhado.
— Eu... — Ele tentou responder, mas falhou.
Todos no quarto ficaram em silêncio.
— Não achamos sua mãe. — Respondeu Lilith.
— Ela deve estar viva, afinal ela não estava entre os corpos dos demais cidadãos. — Alastor afirmou a fundo.
— Ei seu grosso, cuidado com as palavras, seja mais sensível. — Amara o repreendeu, sando soquinhos nele.
— Mamãe… — Gabriel murmurou, e antes que pudesse notar as lágrimas começaram a rolar por seu rosto, ele apertou seu braço com tanta força que fez seus pontos se abrirem e a ferida voltar a sangrar.
Seu pai o abraçou fortemente.
— Vai ficar tudo bem filho, eu estava conversando com Kaelis e os demais, e eles acham que sua mãe ainda esteja viva. — Ele tentou o acalmar.
Gabriel ergueu o olhar para ele, se virando para Kaelis e os outros heróis.
— Ela está viva? — Perguntou.
— Ao que tudo indica ela estará até o final do mês. — Lilith supôs, olhando para o chão abaixo dela. — Nossa missão consistia em rastrear alguns supostos ninhos de monstros ao redor de Aethernys, e achamos uma caverna vazia, com grimórios e anotações de uma espécie de ritual, que parecia ser feito sobre uma lua de sangue, que ocorrerá em aproximadamente um mês e meio.
Gabriel parou de chorar, mas seu olhar estava sério, determinado.
— Por favor, salvem minha mãe! — Ele pediu, com os olhos ainda marejados, e a voz tremulando.
Kaelis recuou e chamou os demais heróis, se juntando com eles do lado de fora do quarto hospitalar após ouvir o pedido de Gabriel.
— O que me diz Alastor? Você também sente, não sente? — Perguntou Kaelis.
— Sim, definitivamente ele emana resquícios de Thyr. — Afirmou Alastor.
— Nessa idade, com apenas 14 anos despertando isso, deve ter sido muita força de vontade e desejo de proteger seus pais. — Deduziu Aeron.
Kaelis pensou bastante durante um longo tempo, e logo após retornou ao quarto e se digeriu até Gabriel e seu pai.
— Gabriel, pode parecer algo repentino, e você ainda está se recuperando e provavelmente traumatizado, mas o que me diz de se tornar um aventureiro, bom… um aprendiz, para ser mais exato, se juntando ao nosso grupo? — Kaelis perguntou, um pouco nervosa.
Ele se manteve estático e distraído.
— Ei... — Seu pai interveio. — O que é esse convite repentino? — Questionou.
Kaelis se sentou na maca aos pés de Gabriel.
— Eu sei que é repentino, e até ilógico. — Ela continuou. — Mas nós sentimos algo no Gabriel, um poder que somente pessoas treinadas são capazes de despertar, ele é talentoso e possui um potencial, eu posso sentir, e ele pode vir a ser de grande ajuda para o reino no futuro.
O pai de Gabriel divagava com o rosto em negação, discordando com a cabeça , enquanto Gabriel olhava para seu braço que fora arrancado.
— Como eu posso ser um aventureiro sem braço? — Ele perguntou. — Eu sou fraco, não consegui proteger meu pai... — As lágrimas voltaram. — Minha mãe!... COMO!? — Ele perguntou olhando para Kaelis com um olhar quebrado.
Amara se aproximou dele, e estendeu as mãos sobre ele, e uma luz dourada surigu nos ferimentos de Gabriel, fazendo as faixas do corpo de seu corpo se soltarem, suas feridas no peito se cicatrizaram e seu braço se regenerou no mesmo instante.
— Pra começar você precisa treinar, e pra isso você precisa estar novo em folha — Disse Amara sorrindo.
Gabriel permaneceu em silêncio encarando seu braço e tocando seu peito.
— Mas Kaelis, ele vai ter que enfrentar aqueles monstros novamente? — Kalchas questionou.
— Sim. — Ela respondeu sem rodeios. — Mas eu irei o treinar para garantir que ele nunca mais fique nesses estado novamente.
— Não… — Ele rejeitou. — De jeito nenhum, eu não vou mandar meu filho para a morte de novo.
Kaelis e os demais heróis se entreolharam, mas Gabriel interveio.
— Pai eu vou. — Respondeu, com o olhar determinado, cerrando firme o punho.
— Mas Gabriel… — Kalchas tentou o interromper.
— Mesmo sendo impulsivo, e sem treino, ou preparo, eu pude deter um deles, e se eu puder treinar... me tornar um aventureiro capaz de proteger o lugar que amo, as pessoas que amo, e acabar com qualquer mal que possa afetar outra pessoa... eu aceito! — Afirmou determinado.
Kalchas encarava Gabriel, se lembrando de sua esposa Astradamas no passado, uma mulher forte, determinada, que quando colocava algo em sua cabeça nada a fazia voltar atrás.
— Ora seu… — Ele sorriu limpando as lágrimas de seu rosto. — Tudo bem... — Ele assentiu.
— Ótimo! — Kaelis exclamou.— Assim que você tiver alta e ter se recuperado por completo, iremos começar seu treinamento.
— Nos vemos logo Gabriel. — Disse Aeron ao fundo.
— Até Gabriel. — Amara se despediu sorrindo.
— Até breve garoto. — Kaelis partiu junto ao grupo.
Restando apenas Gabriel e Kalchas no quarto, um silêncio pairava no ar, até que seu pai o quebrou.
— Filho, se torne um aventureiro, forte, tão forte que seja capaz de derrotar cem orcs daqueles. — Disse seu pai, com lágrimas nos olhos. — E por favor... não morra.
Gabriel olhou para fora, encarando a luz do sol.
— Pode deixar pai, eu prometo! — Respondeu convicto.
— Filho… — Ele parou por um instante, suas mãos tremendo. — Sua mãe sempre dizia que você se tornaria alguém espetacular, e que faria um grande bem a todos nós. — Disse ele, com a voz tremendo novamente.
Os olhos de Gabriel voltaram a se encher de lágrimas, e ele abraçou seu pai novamente. Com o passar dos dias, Gabriel continuou em repouso, mas pela janela da ala hospitalar ele podia assistir ao treino de Kaelis e dos demais heróis, pois a janela dava direto no pátio onde eles treinavam. Seus olhos se enchiam de brilho e determinação, e mesmo sem poder fazer muito, quando as enfermeiras saiam todas as noites ele praticava, replicava os movimentos que via e alguns exercícios, mesmo quando caia exausto ele se levantava novamente, com um olhar firme e determinado, até após se passar uma semana da oferta de Kaelis, Gabriel se recuperou totalmente e recebeu alta, seu pai foi o primeiro a o visitar.
— Gabriel. — Kalchas o abraçou firme. — Que alívio, te ver de pé. — As lágrimas escorriam por seu rosto. — Como está meu filho?
— Estou bem pai... — Ele tentou se afastar. — Está apertando muito forte, tá sufocando.
Kalchas o soltou no mesmo instante.
— Perdão filho... é que, hoje é o dia... — Hesitou por um momento. — Você está pronto?
Gabriel se lembrou do que Kaelis havia dito a ele anteriormente.
— É hoje… — Murmurou ele. — Mas. — Ele parou por um momento. — Mãe… — Murmurou, cerrando os punhos. — Estou!
— Tudo bem. — ele sorriu, com uma notável preocupação em seu olhar, o guiando para o pátio do castelo, onde Kaelis estava junto aos demais heróis.
Eles caminhavam por entre o castelo, e Gabriel se surpreendeu com ele.
— Uauu... tão grande, tão lindo. — Seus olhos se encheram de brilho.
— É não é mesmo? — Kalchas respondeu.
Eles finalmente chegaram no pátio, onde todos estavam o aguardando, era um pátio bastante amplo, com uma enorme fonte no seu centro, e algumas árvores plantadas ao redor, o solo era arenoso devido aos constantes treinos dos heróis, mas ele possuía algumas vegetações próxima, junto a alguns bonecos de alvo e testes espalhados.
— Olha só... — Disse Aeron
— Vejo que já está totalmente recuperado. — Afirmou Amara.
— Está pronto garoto? — Kaelis perguntou. — Hoje você dá o primeiro passo rumo a uma nova vida.
— Sim, estou! — Gabriel respondeu, engolindo seco, mas com um tom decidido.
— Bom, então vejamos qual arma você se adapta melhor. — Disse Kaelis, apontando para uma mesa com diversas armas para testar Gabriel. — Arco e flechas, lança, alabarda, machado, adaga, martelo, maça e a que você mais deve estar familiarizado, a espada. — Kaelis apresentou todas as armas para Gabriel, que escolheu a espada, sem nem pensar duas vezes.
— Essa, é a mesma espada do meu pai? Mas como? — Gabriel perguntou surpreso.
— Bom, eu pedi para Aeron reforjar ela, ele é um ótimo ferreiro, mas foi difícil. — Respondeu. — Nunca pensei que veria uma arma de Ethyrium.
— E...thyrium? — Gabriel perguntou confuso.
— O Ethyrium é um metal raríssimo. A sua formação ainda é um mistério, mas ele pode ser encontrado nas cavernas mais profundas do mundo, com grandes concentrações de Éter, e diferente de qualquer outra liga, o Ethyrium não é apenas condutor de Éter ou Thyr, ele responde ao estado interno do portador, alterando densidade, peso, fio e até a própria forma conforme a vontade ou afinidade de quem o empunha. Tradicionalmente ele é usado apenas em artefatos reais ou em selos arcanos de alto nível, forjar com Ethyrium é um ritual mais do que uma técnica. Cada peça feita desse metal torna-se praticamente única, reflete não só o Eter ou Thyr de quem a porta, mas também seu crescimento espiritual, evoluindo junto com ele, por isso, armas feitas de Aethryon são chamadas de “companheiras”, e não são meros instrumentos. — Explicou Kaelis.
— Foi um grande desafio reforja ela, mas muito gratificante ao mesmo tempo. — Afirmou Aeron, dando um passo a frente. — É uma ótima lâmina, me pergunto qual o poder que ela guarda.
Gabriel encarou Kaelis, digerindo todas as informações e novos conceitos que eram desconhecidos por ele até então.
— Eter... Thyr? — Sua cabeça se inclinou para o lado, enquanto ele buscava entender.
Lilith se aproximou flutuando, com um leve sorriso em seu rosto e ergueu uma das mãos lentamente, e pequenas fagulhas douradas começaram a surgir entre seus dedos.
— O Éter é a energia que existe em todos os seres vivos. — Explicou calmamente. — Alguns o chamam de mana, outros de essência… mas no fim, Éter é apenas a extensão da alma tocando a realidade, muitos acreditam que o Éter pertence aos mais poderosos, mas estão errados.
Uma pequena chama surgiu sobre os seus dedos.
— A quantidade de Éter apenas define o tamanho do fenômeno.
A chama mudou de forma, virou uma flor, depois uma lâmina, e depois pequenas aves.
— O verdadeiro perigo… é a imaginação.
Os olhos dela encontraram os de Gabriel.
— Um mago imagina fogo… então o Éter se torna fogo. — As duas aves se acenderam como o fogo e começaram a voar, deixando resquícios de brasas no ar. — Imaginam água… e ele flui como água. — Continuou Lilith, fazendo as brasas se tornarem pequenos peixes que saltitavam no chão até uma fonte próxima. — Alguns imaginam conceitos mais complexos. Gravidade, tempo, vida, morte, o Éter responde à percepção que o usuário possui do mundo, então mesmo um tolo com um oceano de Éter ainda é um tolo, mas alguém criativo… mesmo com uma chama pequena… pode incendiar o mundo inteiro.
um dos peixes pulou em uma fresta no solo abaixo da fonte, e logo após um pequeno cão de pedra surgiu no chão e ele correu por entre as pernas de Gabriel, o desequilibrando.
— E-Ei!
Gabriel perdeu o equilíbrio e caiu sentado no chão, Amara soltou uma risadinha abafada, junto a Lilith, enquanto Kaelis apenas sorria de canto, e Aeron gargalhava assistindo.
O cão virou poeira, e um pequeno coelho feito de grama saltou até a cabeça de Gabriel.
— O Éter não possui uma forma fixa. — Lilith explicou. — Ele assume a forma daquilo que seu portador consegue compreender… visualizar… acreditar.
O coelho se desfez em pétalas verdes.
— Quanto maior sua imaginação… maior o potencial do seu Éter.
Gabriel observava tudo com os olhos brilhando.
— Então… qualquer coisa é possível?
Lilith sorriu de leve.
— Não. — Respondeu. — Porque imaginação sem compreensão… é apenas uma fantasia vazia.
Ela então ergueu um dedo.
— Um homem pode imaginar controlar um oceano inteiro… mas sem capacidade, conhecimento e poder suficiente… o Éter simplesmente colapsaria.
Kaelis cruzou os braços ao fundo.
— Resumindo. — Ela interrompeu. — Você pode até imaginar mil coisas absurdas… mas tanto seu corpo quanto a sua mente precisam aguentar fazerem isso.
— Exatamente. — Lilith assentiu. — E é por isso que existem afinidades.
Ela então começou a criar pequenas manifestações diferentes enquanto explicava, chamas, vento, pedras, ilusões distorcidas, pequenas rachaduras espaciais, raízes crescendo pelo chão.
— Algumas pessoas nascem naturalmente conectadas a certos aspectos do Éter.
Lilith observou Gabriel por alguns instantes antes de continuar.
— Existem incontáveis formas de Éter… mas normalmente ele desperta em afinidades específicas. — Explicou calmamente. — Algumas pessoas manipulam elementos, outras fortalecem o próprio corpo, e agumas… alteram a própria existência.
Então ela ergueu lentamente a mão até o próprio rosto, e o Éter ao redor de seu corpo começou a escurecer, as sombras abaixo dela se contorceram como algo vivo fazendo Gabriel recuar um passo involuntariamente. E por um instante, os olhos âmbar de Lilith se tornaram fendidos, quase bestiais, pequenos chifres etéreos surgiram acima de sua cabeça, enquanto uma pressão sufocante cobria o pátio.
— Meu Éter é do tipo Mimético. — Disse Lilith. — Eu assumo características de existências superiores… no meu caso… demônios.
A sombra atrás dela se ergueu lentamente, tomando a forma colossal de uma criatura com dezenas de olhos brilhando na escuridão fazendo Gabriel congelar, então Lilith simplesmente estalou os dedos fazendo a manifestação e sua transformação se dissiparem.
— Mas afinidade não define poder absoluto. — Ela continuou normalmente, como se nada tivesse acontecido. — Apenas o caminho mais natural para sua imaginação percorrer.
Kaelis deu um passo à frente logo em seguida.
— O meu é mais simples. — Disse cruzando os braços.
Ela desapareceu em um piscar de olhos da vista de Gabriel, e no instante seguinte ela estava atrás dele, e deu um peteleco em sua cabeça, mas antes que ele pudesse reagir, Kaelis já estava parada exatamente no mesmo lugar de antes, seus cabelos ainda balançavam pelo deslocamento absurdo. Gabriel arregalou os olhos.
— V... você se teleportou?!
— Não. — Respondeu Kaelis. — Só me movi.
A pedra abaixo dos pés dela rachou levemente.
— Meu Éter fortalece meu corpo além dos limites normais, ossos, músculos, reflexos, percepção… tudo.
Aeron soltou uma gargalhada.
— Ela é um monstro, garoto.
— Cala a boca. — Kaelis respondeu imediatamente.
— Já eu… — Aeron colocou a mão sobre o próprio peito. — Sou bem mais simples.
Ele puxou uma pequena faca presa à cintura e fez um corte profundo no próprio braço, assustando Gabriel no mesmo segundo.
— EI!
O sangue começou a escorrer, mas no instante após a carne simplesmente se fechou, músculos, pele, nervos. Tudo regenerou em segundos.
— Meu corpo é absurdamente resistente. — Aeron explicou. — E também se adapta muito rápido aos danos. — Ele bateu no próprio peito com orgulho. — Resumindo… eu sou bastante resistente.
Lilith soltou um riso abafado, e então Amara levantou a mão animadamente.
— Minha vez!
Uma luz dourada começou a surgir ao redor dela, fazendo o ar ficou quente e confortável, enquanto pequenos fragmentos luminosos dançavam como vaga-lumes ao redor de seu corpo.
— Meu Éter é especializado em luz e vida. — Ela abriu a palma.
Uma pequena estrela dourada surgiu acima dela. O brilho era tão intenso e bonito que Gabriel ficou hipnotizado por alguns segundos.
— Eu consigo curar… purificar… fortalecer… — Amara sorriu. — E explodir coisas também.
— A última parte era desnecessária. — Alastor comentou friamente.
— Ah cala a boca, senhor trevas. — Retrucou.
As sombras ao redor de Alastor começaram a se mover lentamente, Gabriel percebeu tarde demais, as próprias sombras do castelo começaram a escorrer pelas paredes, o chão, os pilares, até as árvores. Tudo foi sendo coberto por escuridão, o céu acima do pátio pareceu escurecer junto e Gabriel sentiu um arrepio subir pela espinha. Enquanto Alastor permanecia parado fitando o vazio com os olhos cinzentos, sem emoção.
— Meu Éter manipula sombras. — Disse calmamente. — Escuridão, ausência de luz, profundidade…
As sombras atrás dele começaram a ganhar formas distorcidas. Mãos, rostos, criaturas.
— Sombrio demais! — Amara reclamou imediatamente.
Ela lançou uma esfera de luz na direção dele e em uma explosão de luz todo o pátio voltou a ser iluminado instantaneamente, fazendo todas as sombras de Alastor se dissiparem, Ele fechou os olhos irritado.
— Você sempre faz isso.
— Porque você sempre tenta transformar tudo num funeral. — Retrucou Amara.
Lilith começou a rir baixo enquanto flutuava alguns centímetros do chão.
— Vocês dois viu…
E Então, sem aviso Amara ergueu uma enorme pedra usando Éter luminoso e arremessou na direção de Kaelis.
— Hm? — Kaelis percebeu tarde demais.
E a pedra explodiu na cabeça dela, o instante seguinte foi inundado pelo silêncio, Gabriel ficou branco, sem entender nada, Kaelis lentamente virou o rosto, com uma veia saltou em sua testa.
— Amara… — Murmurou.
Lilith começou a rir imediatamente.
— CORRE AMARA. — Gargalhou após, com os olhos lacrimejando de rir
— AAAAAAAH! — Correu Amara.
Amara saiu correndo pelo pátio enquanto flutuava desesperadamente, Kaelis avançou atrás dela numa explosão absurda de velocidade. Aeron gargalhava tão forte que quase caiu sentado até Alastor desviou o olhar tentando esconder um sorriso. E pela primeira vez desde o ataque... Gabriel riu.