Gabriel acordou com os primeiros raios de sol atravessando as cortinas de seu quarto. E por alguns segundos permaneceu deitado encarando o teto, até que a realidade voltou à sua mente. Sua mãe. Como todas as manhãs desde o ataque, ela era o primeiro pensamento que surgia ao abrir os olhos.
Ele se levantou da cama, caminhou até o banheiro e começou a escovar os dentes. Enquanto fazia isso, lembranças surgiam naturalmente. Astradamas, que sempre insistia para que ele escovasse os dentes direito antes de qualquer coisa.
"— Gabriel, escovou os dentes?
— Já escovei.
— Não escovou.
— Escovei sim!
— Então por que ainda tem migalha de pão na boca?"
Gabriel sorriu sozinho ao lembrar. Depois arrumou os cabelos diante do espelho, tentando deixá-los apresentáveis, mas sua mãe sempre fazia melhor, a saudade apertou seu peito novamente, enquanto uma única lágrima escorria.
Ao sair do quarto encontrou a mesma empregada da noite anterior.
— Bom dia, jovem Gabriel.
— Bom dia.
— O café já está servido. E os heróis estão aguardando.
Ela o guiou pelos corredores do castelo até o grande salão principal, e assim que entrou ouviu gargalhadas.
— HAHAHAHAHA!
Aeron quase caía da cadeira de tanto rir, Amara estava apoiada na mesa segurando o estômago, até mesmo Kaelis escondia um sorriso.
Gabriel piscou confuso.
— O que aconteceu?
Kalchas apontou imediatamente para ele.
— Estava contando sobre quando você comeu a ração dos gados achando que era comida, e achou bom.
O rosto de Gabriel ficou vermelho instantaneamente.
— PAI!
As gargalhadas aumentaram.
— Você disse que seria um boi daquele dia em diante, e até mugiu... muuuuu. — Continuou Kalchas.
— PAI!
Até Lilith levou a mão à boca para conter uma risada.
Constrangido, Gabriel se sentou e começou a comer rapidamente enquanto todos continuavam se divertindo às suas custas, mas pelo menos durante aqueles momentos ele conseguia esquecer um pouco da dor.
Após o café, seguiram novamente para o pátio de treinamento. Desta vez Lilith e Amara seriam responsáveis pelo treino, enquanto Kaelis, Aeron e Alastor permaneceriam sentados observando, e Riven, como esperado, não estava presente.
Lilith caminhou até o centro do pátio e ergueu uma das mãos. Uma esfera cristalina surgiu diante dela, girando lentamente no ar antes de parar diante de Gabriel.
— Esta é uma Esfera de Ressonância, ela mede a quantidade de Éter presente em uma alma.
Amara cruzou os braços.
— Ela muda de cor conforme o nível de energia.
A esfera brilhou.
— Branco.
Depois azul.
— Azul.
Verde.
— Verde.
Amarelo.
— Amarelo.
Laranja.
— Laranja.
Rosa.
— Rosa.
Vermelho.
— Vermelho.
Roxo.
— Roxo.
Prata.
— Prata.
E por fim uma tonalidade negra tão profunda que parecia absorver a luz.
— Preto.
Gabriel observava fascinado.
Amara colocou a mão sobre a esfera, e a luz começou a subir rapidamente até alcançar um rosa intenso quase tocando o vermelho.
— Nada mal. — Disse Aeron, ao fundo.
— Eu sei. — Respondeu ela orgulhosa.
Então Lilith tocou a esfera, a energia ultrapassou o vermelho e estabilizou entre vermelho e roxo.
Gabriel arregalou os olhos.
— Uau...
— Sua vez. — Disse Lilith.
Gabriel respirou fundo e tocou a esfera.
E a luz subiu lentamente, branco, azul, verde, amarelo, e então parou. Porém algo chamou atenção imediatamente, no centro do amarelo existia um pequeno núcleo rosa brilhando suavemente.
Amara piscou surpresa.
— Espera...
Lilith estreitou os olhos.
— Interessante.
— O quê? — Perguntou Gabriel.
— Para alguém que despertou há tão pouco tempo... seu nível de Éter é incomum.
Gabriel não entendeu muito bem, mas antes que pudesse perguntar, Lilith estendeu a mão novamente, e um enorme grimório antigo surgiu diante dela.
O livro parecia absurdamente velho. Runas brilhavam em sua capa enquanto as páginas se folheavam sozinhas.
— Agora vamos descobrir qual é seu tipo de Éter.
Ela olhou diretamente para Gabriel.
— Toque na esfera e infunda seu Éter nela.
Gabriel ergueu levemente a mão, mas hesitou, parando por um instante, antes de olhar para Lilitih.
— Eu não sei como fazer isso.
Lilith assentiu.
— Então feche os olhos.
Gabriel obedeceu.
— Lembre-se da primeira vez que o despertou. — O rosto de Gabriel mudou de expressão. — Da invasão dos orcs, os gritos de seus vizinhos, do desespero, do sangue, da sua mãe sendo levada, do medo, da raiva, da sensação de impotência... visualize. — Disse Lilith calmamente. — Sinta.
Gabriel apertou os punhos.
— O Éter existe em todas as almas, você apenas precisa encontrá-lo.
Aos poucos algo pareceu responder dentro dele, uma sensação estranha, como um pequeno fluxo percorrendo suas veias, fraco, e instável, mas presente, ele continuou se concentrando, sentindo, visualizando, se lembrando daquele dia infernal. Até que finalmente encontrou, um fino fio de energia magenta que fluindo através de si, até Gabriel abrir os olhos. Uma lágrima escorria por seu rosto, enquanto ao mesmo tempo, um brilho magenta surgiu no outro olho, e o ar ao redor dele vibrou levemente.
E antes da sensação desaparecer ele tocou a esfera, que no instante seguinte se tornou completamente magenta, e ao mesmo tempo o grimório reagiu, as páginas começaram a virar sozinhas em velocidade absurda. Símbolos surgiam e desapareciam sobre o papel até que finalmente tudo parou, e Lilith observou atentamente.
Amara se aproximou.
Ao redor de Gabriel, a energia magenta começou a assumir formas estranhas, diferente dos demais tipos de Éter, ela não produzia elementos, nem símbolos, nem distorções. A energia envolvia diretamente seu corpo, fortalecendo-o.
— Éter Físico. — Concluiu Lilith.
Gabriel piscou.
— Físico?
— Sim, cada categoria manifesta padrões diferentes, Elementais geram manifestações naturais, Arcanos produzem runas e símbolos, Manipuladores deformam o espaço ou conceitos, Mentais afetam consciência e percepção, o seu fortalece o fortalece diretamente.
Amara observava a energia magenta.
— Mas não é um físico comum.
— Eu percebi. — Concordou Lilith.
Ela fechou o grimório.
— Seu Éter reage ao perigo.
Gabriel imediatamente se lembrou do ataque dos orcs e de Riven, da sensação estranha que teve antes do golpe.
— Uma afinidade adaptativa... — Murmurou Amara.
— Ou afinidade extrema. — Deduziu Lilith. — Quanto maior a pressão, maior a resposta do corpo.
Gabriel abaixou o olhar para a própria mão enquanto o brilho magenta dançava fracamente entre seus dedos. Pela primeira vez ele conseguia sentir aquela energia de verdade.
Não era apenas uma habilidade ou um poder misterioso, era uma parte dele, algo que sempre esteve ali esperando para despertar, e ao se lembrar do orc, de sua mãe e até mesmo do ataque de Riven, ele começou a entender que seu Éter surgia justamente quando mais precisava dele.
"Então foi por isso que despertou... e é graças a ele que eu estou vivo."
Lilith estalou os dedos e, imediatamente, a espada de Gabriel surgiu flutuando diante dele.
— Agora que você sabe o básico sobre Éter e Thyr, tente infundir seu Éter através da espada, igual fez com a esfera antes.
Gabriel segurou a arma e a desembainhou lentamente, respirou fundo e tentou conduzir aquela energia magenta para dentro da lâmina, um brilho fraco percorreu o metal por alguns segundos antes de desaparecer, mas a espada não se acendeu igual das primeiras vezes.
— Reagiu. — Comentou Amara. — Mas quase nada.
— Você ainda não tem controle suficiente. — Lilith concluiu. — Está deixando o Éter escapar antes dele chegar ao destino.
Gabriel observou a espada por alguns instantes antes de guardá-la novamente na bainha a prendendo na cintura.
— Então vamos começar do começo. — Disse Amara sorrindo.
Ela ergueu a mão e dezenas de pequenas luzes douradas surgiram ao redor deles.
— O Éter nasce da imaginação, da vontade e da percepção, você não controla algo que não consegue sentir.
As luzes começaram a girar lentamente ao redor de Gabriel.
— Feche os olhos.
Gabriel obedeceu.
— Agora encontre uma delas.
— Como? — Gabriel perguntou.
— Sentindo.
Gabriel suspirou.
— Vocês gostam muito dessa palavra.
— Porque funciona. — Respondeu Lilith.
Por vários minutos Gabriel apenas ficou parado tentando perceber as pequenas partículas de Éter ao seu redor. No início não encontrou nada, mas depois começou a sentir leves diferenças na temperatura do ar, pequenas vibrações, como se existissem correntes invisíveis passando próximas dele.
"Quase como o treino de Sentire com a Kaelis..." — Tem uma... ali. — Apontou.
Amara abriu um sorriso.
— Acertou.
E o treinamento continuou, depois vieram exercícios para puxar pequenas partículas de Éter para perto do corpo, em seguida mantê-las girando ao redor da mão sem dispersar, e depois condensá-las em um único ponto. Gabriel falhou inúmeras vezes, as partículas desapareciam, explodiam, escapavam, ou simplesmente ignoravam suas tentativas.
— Concentre-se. — Dizia Lilith.
— Imagine o caminho que elas devem seguir. — Orientou Amara.
O sol já estava alto quando Gabriel finalmente conseguiu manter uma pequena esfera magenta do tamanho de uma moeda flutuando acima da palma da mão.
— Eu consegui! — Exclamou.
A esfera durou apenas dois segundos antes de desaparecer.
— E perdeu. — Respondeu Lilith.
— Eu odeio vocês.
— Nós também gostamos de você. — Disse Amara rindo.
As horas passaram entre novas tentativas até Gabriel finalmente começar a compreender o fluxo do próprio Éter, até que Amara apontou para o braço dele.
— Próxima etapa. — Disse Amara. — Cubra seu braço com o Éter, mas não deixe vazar.
Gabriel começou a visualizar o Éter se espalhando pelo seu braço e o cobrindo sem que se dispersasse para fora, conseguindo fazer o que Amara o instruiu.
— Muito bem. — Lilith o parabenizou, criando uma bola de fogo do tamanho de uma laranja e atirando em direção a Gabriel. — Segure essa bola de fogo com seu braço enquanto usa o Éter.
Gabriel ficou surpreso, fazendo ele perder um pouco de concentração.
— Não perca o foco. — Amara o alertou.
Lilith arremessou a bola de fogo, e Gabriel conseguiu a segurar.
— O que sentiu? — Lilith perguntou.
— Um pouco quente... suportável, mas não queima.
— Revestir seu corpo com Éter permite que você consiga interferir com outro Éter, assim como fez agora, também amplifica sua força, velocidade e reação, mesmo que pouco. Muitos que não conseguem despertar o Thyr optam por revestir o corpo com Éter. — Explicou Amara.
— Agora tente dissipar meu ataque. — Disse Lilith, aumentando a quantidade de Éter na esfera, a aumentando de tamanho, agora para uma cumbuca de madeira.
A bola de fogo cresceu instantaneamente.
— E como... eu faço isso?
Gabriel começou a ser empurrado para trás.
— A quantidade de Éter que ela usou deve estar próxima da sua. — Explicou Amara. — Se conseguir infundir seu Éter nela, você vai poder anular.
Gabriel aumentou a emissão de Éter, revestindo ainda mais o braço, instável, e mal feito, mas conseguiu.
— Pronto... agora infundir...
Ele começou a impregnar a esfera de Lilith com seu próprio Éter, e a bola de fogo oscilou, se desestabilizando
— Ora ora... — Lilith arqueou uma sobrancelha. — Ele é um gênio.
Ela aumentou novamente a emissão e Gabriel respondeu instintivamente, como aumento de Éter, a pressão da bola de fogo colapsava, e ela parecia prestes a explodir, mas aos poucos começou a encolher.
Amara arregalou os olhos.
— Esse garoto...
O Éter magenta consumia lentamente o de Lilith, até que a bola de fogo foi completamente consumida e desapareceu por inteiro.
— Ufaaa... — Gabriel arfou.
— Puta merda... — Amara murmurou antes de pigarrear. — Quero dizer... muito bem.
— Parabéns, Gabriel. — Disse Lilith. — Agora que consegue sentir o fluxo do Éter e revestir seu corpo com ele, será capaz de extrair muito mais da sua Afinidade quando ela despertar.
Das sombras próximas surgiu Alastor.
— O próximo serei eu.
— Irmãozão! — Amara gritou, pulando nele.
Alastor apenas segurou sua cabeça com uma mão para impedir que ela continuasse avançando.
— Eu irei te ensinar sobre furtividade, controle da mente e das intenções.
E em um piscar de olhos de Gabriel ele desapareceu, Gabriel arregalou os olhos, e então sentiu algo frio em seu pescoço, Alastor estava atrás dele, apontando uma adaga contra sua garganta.
— E você morreu.
Gabriel engoliu seco.
— Eu nem vi você se mover.
— Exatamente.
Após deixarem Lilith e Amara no pátio, os dois seguiram para uma parte menos utilizada do castelo. Um enorme cômodo escuro repleto de móveis cobertos por lençóis antigos.
Assim que entrou, Alastor desapareceu completamente.
— Agora entre, sua vez.
Gabriel atravessou a porta.
— Controle sua respiração.
A voz veio de algum lugar da escuridão.
— Eu conseguiria ouvi-la do lado de fora do castelo.
Gabriel tentou diminuir o ritmo.
— Controle seus passos também, use o ambiente.
Um vaso caiu em algum lugar, e instintivamente Gabriel virou a cabeça.
— Um erro. — Murmurou — Alastor surgiu atrás dele, com a adaga de volta em seu pescoço. — E você morreu.
— Mas que merda... — Gabriel resmungou.
O treinamento continuou durante horas, Alastor o ensinava sobre distrações, pontos cegos, controle da presença, de intenções, como esconder e mascarar emoções, como desaparecer em meio ao ambiente, e como manipular a atenção do adversário.
— Escreva a partitura... — Disse Alastor surgindo atrás dele novamente. — E faça seu inimigo dançar conforme a melodia.
— E eu morri de novo?
— Sim.
— Pela vigésima vez?
— Trigésima segunda.
— Isso não ajuda.
Quando a noite finalmente chegou, Gabriel estava sentado no chão completamente exausto.
— Cara... você se tornou um com as sombras. Como consegue isso?
Alastor permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Fui treinado para isso.
— Por quem?
— Te conto em outra oportunidade. — Respondeu, seu tom já não aparentava ser tão frio como o de costume.
Antes que Gabriel pudesse insistir, a porta se abriu, era Kaelis, que entrou acompanhada pelos outros heróis.
— Chega por hoje.
Gabriel soltou um suspiro de alívio.
— E então? — Perguntou Kaelis. — O que achou do treino?
— Exaustivo... mas muito divertido.
— Patético. — Uma voz interrompeu.
Todos se viraram e Riven estava parado próximo à entrada.
— Ele é apenas uma criança.
— Para de ser um grande babaca. — Retrucou Amara.
Riven lançou um olhar frio para ela, mas sentiu outro olhar, Alastor o encarava, silencioso, ameaçador, e por alguns segundos ninguém falou nada.
— Eu não aprovo. — Declarou Riven.
Então ele se virou e foi embora, Gabriel o observou desaparecer pelo corredor, mas dessa vez ele não abaixou a cabeça e continuou o encarando