Após o encontro na floresta, Gabriel retornou para o seu quartoem silêncio.
Sua mente estava uma completa bagunça, mesmo depois do banho, as palavras de Riven continuavam ecoando em sua cabeça. Enquanto a água quente escorria por seu corpo, ele se lembrava da espada encostada em seu pescoço, dos túmulos escondidos na floresta e daquela estranha tristeza que havia visto nos olhos dele por um breve instante. Quando finalmente se deitou, encarou o teto por longos minutos.
"Talvez Riven esteja certo sobre algumas coisas... talvez eu seja mesmo fraco, até para salvar minha mãe... Mas desistir não é uma opção". — Apertando os punhos sobre o peito, Gabriel fechou os olhos. — Não importava quanto tempo leve... eu vou ficar mais forte.
Na manhã seguinte, acordou cedo novamente. Escovou os dentes, arrumou os cabelos da melhor forma que conseguiu e deixou o quarto em direção ao salão principal para o café da manhã. Durante o caminho, porém, encontrou alguém que nunca havia visto antes. Um homem de aparência completamente desleixada caminhava pelo corredor bocejando alto, seus cabelos estavam bagunçados como se ele tivesse acabado de sair da cama, suas roupas pareciam amassadas e desalinhadas, e ele coçava a barriga enquanto andava sem prestar atenção em nada ao redor, ao virar um corredor, os dois acabaram se chocando.
— Ah! Desculpa! — Gabriel rapidamente se levantou estendendo a mão para ajudá-lo a levantar. — Está tudo bem senhor?
O homem apenas piscou algumas vezes, ainda sonolento.
— Hm...? Ah... está.
— Bom dia.
— Bom dia...
Gabriel sorriu educadamente e continuou caminhando rumo ao salão, o homem permaneceu parado observando o garoto se afastar até desaparecer na curva do corredor.
— Então esse é ele... — Murmurou para si mesmo antes de voltar a caminhar.
Pouco tempo depois, Gabriel terminou o café e seguiu para o pátio de treinamento. Assim que chegou, percebeu algo diferente. Kaelis, Lilith, Amara e Alastor estavam sentados observando de longe, enquanto Aeron permanecia no centro do pátio com os braços cruzados, e ao seu lado havia uma grande caixa de madeira.
— Bom dia, garoto! — Cumprimentou Aeron com um sorriso.
— Bom dia! — Gabriel respondeu animado. — Espera... hoje é o seu dia?
— Exatamente.
Os olhos de Gabriel brilharam.
— Então você vai me ensinar a lutar?
Aeron começou a rir.
— Não.
Gabriel piscou.
— Não?
— Hoje eu não vou ensinar nada para você.
— Hã?
— Vou ensinar para o seu corpo.
O sorriso de Aeron aumentou.
— Hoje começa seu treinamento físico.
No mesmo instante, Amara começou a rir ao fundo.
— Coitado...
Kaelis desviou o olhar.
— Ai ele vai sofrer.
Até Lilith pareceu sentir um pouco de pena, enquanto isso Gabriel engoliu seco.
— O que exatamente significa treinamento físico?
Aeron abriu a caixa.
— Significa dor.
Dentro dela havia um colete de couro grosso, braçadeiras metálicas e tornozeleiras pesadas.
— Vista isso.
Gabriel obedeceu, e nos primeiros segundos após vestir não pareceu tão ruim, até ele ficar completamente ereto.
— Ugh...
Suas pernas afundaram levemente.
— Pesado né? — Aeron perguntou com um pouco de sarcasmo.
— Um pouco... — Gabriel se esforçava para se manter de pé
— Ótimo... agora corra quatro voltas completas no pátio.
Gabriel olhou para o tamanho do lugar.
— Quatro?
— Quatro.
Aproximadamente um quilômetro inteiro.
— Depois faremos cem agachamentos.
Gabriel arregalou os olhos.
— Depois cem flexões.
— Espera...
— Depois cem abdominais.
— AERON!
— E depois de amanhã fazemos tudo de novo.
Amara gargalhou.
— Eu adoro assistir o sofrimento dos outros.
— Você é horrível. — Comentou Alastor.
— Obrigada. — Agradeceu com um sorriso no rosto.
Sem ter muita escolha, Gabriel iniciou a corrida, e nos primeiros metros conseguiu manter um ritmo aceitável, mas antes mesmo de completar cem metros suas pernas já vacilavam.
— Minhas pernas vão quebrar...
Quando chegou perto dos cento e cinquenta metros simplesmente parou.
— As pernas dele vão se quebrar assim. — Amara comentou ao fundo.
Aeron observava com os braços cruzados.
— Terminou?
— Não consigo sentir minhas pernas... — Gabriel respondeu, caindo de bunda no chão
— Entendo.
Aeron apontou para uma pedra próxima, para que Gabriel pudesse se encostar nela.
— Cinco minutos.
E Gabriel quase chorou de felicidade pelo tempo de descanso, porém após os cinco minutos, Aeron voltou a falar.
— Sabe, garoto... você quer salvar sua mãe. — Gabriel ficou em silêncio. — Quer proteger pessoas. — Silêncio. — Talvez até se tornar realmente um de nós... ou alcançar a Kaelis. — Ser aceito por Riven. — Gabriel apertou os punhos. — Mas não consegue correr nem um quilômetro? — Aquilo atingiu em cheio.
Gabriel respirou fundo, se levantou mesmo com dificuldades, e continuou correndo. Ele novamente aos oitocentos metros, completamente destruído, mas voltou a correr, caiu e se levantou algumas vezes, mas continuou em frente, e depois de muito esforço conseguiu concluir as quatro voltas completas.
E no instante em que concluiu as voltas ele caiu de joelhos.
— Eu... consegui... — Gabriel arfava, com a respiração pesada.
Então algo inesperado aconteceu, as braçadeiras, tornozeleiras e o colete começaram a emitir um brilho verde suave e uma energia agradável percorreu seu corpo, fazendo a dor, exaustão e cansaço de Gabriel diminuírem mesmo que um pouco.
— O quê? — Gabriel se levantou facilmente, mesmo cansado, o estado em que estava agora era suportável.
Aeron sorriu.
— Ethyrium. — Afirmou
Gabriel piscou.
— Ethyrium?
— Um metal especial usado para equipamentos de treinamento, essas peças se ajustam ao usuário e devolvem parte da energia gasta após um esforço extremo.
Gabriel arregalou os olhos.
— Isso é incrível!
— É mesmo.
O sorriso de Aeron aumentou.
— Pena que você só recebe a recuperação completa se terminar o treino diário inteiro.
O sorriso de Gabriel desapareceu no mesmo instante.
— O quê?
— Hoje foi apenas uma exceção, então se esforce de agora em diante.
— AERON!
Os heróis começaram a rir. O restante do dia continuou sendo um verdadeiro inferno, agachamentos, flexões, abdominais, corridas curtas, exercícios de resistência e equilíbrio, sempre que Gabriel achava que tinha terminado, Aeron encontrava algo novo para fazê-lo sofrer. O sol atravessou o céu lentamente até o entardecer finalmente chegar.
Quando tudo terminou, Gabriel estava estirado no chão do pátio, encarando o céu sem forças sequer para mexer um dedo e coberto por suor.
— Acho que meus braços caíram...
— Ainda estão aí. — Disse Aeron.
— Minhas pernas desapareceram.
— Elas também estão aí.
— Tenho certeza que morri.
Aeron apenas começou a rir antes de se aproximar e dar alguns tapinhas em suas costas.
— Você foi muito bem hoje, garoto.
Gabriel virou o rosto lentamente.
— Sério...?
— Sério.
O sorriso de Aeron era sincero.
— Você reclamou bastante.
— Obrigado...
— Mas não desistiu nenhuma vez.
Gabriel sorriu com os elogios de Aeron e seu desempenho, talvez ainda fosse fraco, talvez ainda estivesse muito longe de alcançar os heróis. Mas naquele momento, deitado naquele pátio enquanto o sol desaparecia no horizonte, ele teve certeza de uma coisa, ele estava ficando mais forte.
Ele permaneceu estirado na grama por alguns instantes, encarando o céu alaranjado do fim da tarde. Seu corpo inteiro doía. braços, pernas, costas, até músculos que ele nem sabia que existiam pareciam estar gritando por socorro. Até que, novamente, as braçadeiras, tornozeleiras e o colete de Ethyrium emitiram um brilho esverdeado suave. Uma sensação agradável percorreu seu corpo, devolvendo parte de sua energia e aliviando um pouco da exaustão acumulada.
— Ahhh... isso é tão bom... — Murmurou.
Mesmo com dificuldade, conseguiu se sentar na grama.
— Agora você parece menos morto. — Disse Kaelis se aproximando.
Gabriel ergueu o olhar.
— Menos morto?
— Sim, antes você parecia completamente morto.
— Que reconfortante...
Kaelis sorriu discretamente.
— Ótimo. Vamos continuar.
— O quê?!
Gabriel quase caiu para trás.
— Não se preocupe. — Ela respondeu calmamente. — Só quero aproveitar que seu sangue ainda está quente.
Gabriel suspirou derrotado, ele já havia aprendido que reclamar raramente funcionava com os heróis, e com algum esforço ele se levantou, alongando braços e pernas enquanto tentava dispersar a dor.
— Você já desenvolveu o básico do Sentire. — Disse Kaelis. — Que tal irmos um pouco além?
Ela olhou para Lilith. Lilith assentiu e ergueu uma das mãos, uma pedra do tamanho de um barril emergiu do chão e passou a flutuar diante deles.
— Talvez ainda seja cedo... — Comentou ela.
Kaelis caminhou até a rocha.
— Talvez.
Ela ergueu o punho, enquanto Gabriel observou atentamente, não havia força acumulada, não havia impulso, nem mesmo postura, ela parecia apenas alguém prestes a dar um soco comum na pedra.
"Com as mãos vazias..." — Gabriel sequer piscava.
— Thyr Impetus. — Uma aura avermelhada envolveu seu punho.
E então ela golpeou, a pedra explodiu em dezenas de fragmentos, e Gabriel arregalou os olhos.
— O QUÊ?!
— Foi um soco fraco. — Respondeu Kaelis.
— FRACO?!
— Similar ao de um civil.
Gabriel olhou para os destroços espalhados pelo chão.
— Eu acho que temos definições diferentes para "fraco".
Kaelis ignorou completamente o comentário e acenou para Alastor.
— Sua vez.
Ao longe, Alastor soltou um suspiro profundo.
— Ahhh... que saco...
— Deixa de ser um chatonildo e ensina ele. — Repreendeu Amara.
E bufando, Alastor se aproximou, pegando no caminho um dos fragmentos da pedra destruída.
— Observe. — Disse ele.
Seu dedo foi envolvido por uma fina camada de energia vermelha, e então ele simplesmente pressionou o pedaço de rocha, o dedo atravessou a pedra como se fosse barro, Gabriel sentiu um arrepio.
— O Impetus. — Disse Alastor. — Não é força.
— É vontade. — Completou Kaelis.
Os dois passaram os minutos seguintes explicando os conceitos básicos.
— Se o Éter era imaginação, percepção e fluxo.
— O Thyr era intenção.
— Convicção.
— Vontade.
— Era o desejo de atravessar.
— De romper.
— De cortar.
— De esmagar.
— De transformar o próprio corpo em uma arma.
— Quando ataca. — Disse Alastor. — Você não pode hesitar. — Você deve querer atingir o alvo.
— Deve acreditar que vai atravessá-lo.
— Que nada pode impedir o golpe.
— Que ele já aconteceu.
Gabriel tentava absorver tudo, até que Alastor começou a usar explicações cada vez mais estranhas.
— Você precisa abandonar a dualidade do eu e transcender a manifestação da intenção através da projeção metafísica da agressão subconsciente...
Gabriel ficou imóvel.
— Hã?
— O que ele quis dizer? — Perguntou Kaelis.
— Nem eu sei. — Respondeu Lilith.
— Fala igual gente normal! — Gritou Amara ao fundo.
Alastor suspirou.
— Imagine que você quer muito socar alguma coisa.
— Ahhh. — Gabriel suspirou entendendo enfim.
— Melhorou. — Comentou Kaelis
E o treinamento começou, Lilith ergueu uma nova pedra do chão, desta vez muito maior.
— Boa sorte. — Disse ela.
Pouco depois começou a se afastar.
— Não vai ficar? — Perguntou Kaelis.
— Tenho livros me esperando. — Respondeu.
— Nerd...
— Eu ouvi isso, Amara.
Aeron também começou a ir embora.
— Eu também vou.
— Mentira. — Respondeu Amara imediatamente. — Vai ler aquele romance que comprou na missão passada.
Aeron congelou.
— Fica quieta.
— Hahahaha!
— AMARA!
Ela gargalhou ainda mais enquanto Aeron desaparecia corredor adentro completamente vermelho, restando apenas Gabriel, Kaelis, Alastor diante da pedra e Amara, que assistia ao fundo. Durante horas Gabriel golpeou a rocha, tentando imaginar, sentir, ele tentou se lembrar da luta contra os orcs, da dor, da raiva, do medo.
Mas nada acontecia.
— Não é ódio. — Corrigia Kaelis.
— Então o que é?!
— Vontade.
— Isso não ajuda!
Mais algumas horas se passaram, dezenas de golpes, centenas, e a pedra permanecia intacta, o céu foi escurecendo lentamente, as estrelas surgiam junto a lua, enquanto isso Gabriel continuava tentando.
Suas mãos começaram a sangrar, os nós dos dedos estavam vermelhos, seus músculos tremiam, mas ele continuava golpeando.
Até que em algum momento Amara simplesmente adormeceu sentada na grama.
— Zzz...
Alastor olhou para ela, ele permaneceu alguns segundos em silêncio, até que desapareceu nas sombras, pouco depois voltou carregando um cobertor, e ele cobriu Amara cuidadosamente. E retornou para perto de Kaelis sem dizer uma palavra.
Gabriel observou a cena.
— Você é gentil.
— ... — Alastor não respondeu nada, apenas o encarou.
— Tá... entendi o recado.
A noite avançou, e mesmo assim nada, nenhuma manifestação, brilho, Impetus, apenas dor, por fim Kaelis suspirou.
— Chega por hoje.
Gabriel ficou imóvel, então fechou os punhos e desferiu mais um soco... mas pedra nem se moveu.
— Droga! — Gabriel bufou furioso.
Ele ficou olhando para a pedra durante alguns segundos, até simplesmente cair de costas na grama devido a exaustão.
— Eu odeio essa pedra...
Alastor caminhou até Amara.
— Acorda.
— Cinco minutinhos...
— Você dormiu por quase quatro horas.
— Hã?
Ela abriu os olhos confusa.
— Por que tá escuro?
— Porque é noite.
— Ah...
Ainda sonolenta, ela esfregou os olhos.
— Cure as mãos do Gabriel, e você vai poder voltar a dormir. — Alastor pediu.
— Tá bom... — Amara ainda estava sonolenta
Uma luz suave surgiu em suas mãos, e ela as apontou para Gabriel, e seus ferimentos começaram a desaparecer lentamente.
— Boa noite gente... — Murmurou bocejando. — Zzz...
— Dorminhoca. — Murmurou Alastor sorrindo levemente.
Sem dificuldade alguma ele a colocou nas costas.
— Boa noite. — Disse antes de partir.
Restando apenas Kaelis e Gabriel. O silêncio tomou conta do pátio, Gabriel encarava as estrelas, frustrado, cansado, derrotado, até que Kaelis se sentou ao lado dele.
— Você foi bem.
— Mas eu não consegui.
— Ainda assim foi bem.
— Nem arranhei a pedra.
— E continuou tentando.
Gabriel permaneceu em silêncio, ela ficou ao seu lado por alguns minutos, sem o pressionar, ou o cobrar, ela apenas permaneceu presente, e pouco a pouco os olhos dele começaram a pesar.
O cansaço finalmente o venceu.
— Kaelis... — Murmurou sonolento
— Hm? — Ela se virou para ele
— Eu vou te superar.
Ela piscou surpresa, se preparando para o responder, mas Gabriel já estava dormindo, e por alguns segundos ela apenas ficou observando aquele garoto exausto.
Então um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.
— Boa sorte com isso, Gabriel.
E com cuidado ela o colocou nas costas caminhando pelos corredores silenciosos do castelo enquanto a lua iluminava Aethernys. Mais um dia de treinamento havia chegado ao fim. E sem perceber, Gabriel estava dando mais um passo em direção a um grande futuro