Gabriel despertou lentamente quando os primeiros raios de sol atravessaram as cortinas de seu quarto.
Seu corpo ainda doía por causa do treinamento do dia anterior, mas não tanto quanto imaginava. Com um bocejo, levou a mão até a cabeça para afastar os cabelos do rosto, e parou imediatamente.
"...Ué?" — Gabriel analisou seu corpo.
Seus cabelos estavam limpos, ele piscou algumas vezes antes de aproximar uma mecha do nariz.
"Cheiro de sabonete."
Gabriel olhou para as roupas dobradas sobre a cadeira.
— Não acredito... — Seu rosto começou a corar. — A Kaelis... me deu banho?! — Ele cobriu o rosto com as duas mãos. — AAAAAAAAAAH...
Ele ficou alguns segundos completamente envergonhado antes de caminhar lentamente até o banheiro.
— Nunca mais vou conseguir olhar pra ela... — Ele lavou o rosto com água fria tentando afastar aquele pensamento da cabeça, escovou os dentes, arrumou os cabelos da melhor forma que conseguiu e respirou fundo diante do espelho. — Tá tudo bem... ela provavelmente fez isso porque eu apaguei... foi só isso...
Mesmo dizendo aquilo para si mesmo, ele continuava completamente vermelho. Pouco tempo depois já estava no grande salão tomando café ao lado dos demais heróis que estavam presentes, Gabriel se sentou a mesa e começou a comer
Amara olhou para ele e sorriu.
— Dormiu bem?
Gabriel quase engasgou com o pão.
— D-Dormi!
Kaelis apenas tomou um gole de chá, completamente indiferente.
"Ela tá agindo normalmente..." — Gabriel desviou o olhar. — "Talvez eu seja o único fazendo tempestade por causa disso."
Depois do café, Kaelis o chamou.
— Venha comigo.
— Hoje não vamos treinar? — Gabriel perguntou, com uma quantidade notável de nervosismo em sua voz.
— Vamos. — Ela sorriu discretamente. — Mas antes... faremos sua primeira missão.
Os olhos de Gabriel brilharam imediatamente, e os dois atravessaram os portões de Aethernys acompanhados de alguns guardas. O vento da manhã balançava os campos ao redor do reino enquanto caminhavam por uma antiga estrada de terra.
— Nervoso? — perguntou Kaelis.
— Um pouco.
Ela olhou para ele por alguns segundos.
— Quer deixar a missão para outro dia?
Gabriel balançou a cabeça.
— Não.
Kaelis sorriu de leve, e ambos continuaram caminhando por mais alguns minutos até deixarem a estrada principal, a vegetação começou a ficar mais fechada.
— Antes de encontrarmos nosso alvo... quero ensinar uma coisa.
Ela apontou para o chão.
— O que vê?— Gabriel olhou.
— Terra...
Kaelis permaneceu em silêncio, Gabriel observou novamente e então percebeu.
"...Pegadas?"
Ela se ajoelhou.
— Profundas.
Ela apontou para algumas árvores próximas.
— Arranhões. — Gabriel murmurou.
Depois mostrou uma pequena parte da vegetação quebrada.
"Galhos partidos."
Por fim fechou os olhos por um instante.
— E o vento.
Gabriel olhou confuso.
— Nunca caminhe contra o vento quando estiver caçando.
— Por quê?
— Porque seu cheiro chega antes de você. — Ele assentiu prestando atenção em tudo. os.
Eles voltaram a caminhar, e não demorou muito para ouvirem um estrondo ao longe, os dois se esconderam entre alguns arbustos, e olhando mais a diante, encontraram um enorme javali que destruía completamente a barraca de um comerciante abandonada na estrada.
"Enorme..."
Tinha aproximadamente o tamanho de uma carroça de mão, presas grossas e músculos que ondulavam sob a pele escura.
— Preparado? — perguntou Kaelis.
Gabriel assentiu.
— Sim.
— Ótimo.
Ela olhou para ele.
— Mas não o mate.
Gabriel respirou fundo.
— Certo.
Ele começou a avançar silenciosamente, controlando a respiração como Alastor havia ensinado, ocultando sua presença, cada passo era calculado. Ele se aproximou lentamente.
"Mais um pouco..."
O javali parou de destruir a barraca, ergueu a cabeça e farejou o ar.
"...Droga."
Os olhos da criatura encontraram Gabriel, ela rugiu e investiu imediatamente, Gabriel respirou fundo.
"Sentire."
Seu corpo reagiu antes mesmo de pensar, e no último instante desviou para o lado entrando no ponto cego do animal, fazendo o javali passar reto, Gabriel revestiu rapidamente o braço com Éter Magenta, e sem hesitar girou o corpo, desferindo um único soco contra a lateral da cabeça do animal, o impacto ecoou pela estrada, e o enorme javali perdeu completamente o equilíbrio antes de desabar inconsciente no chão. Gabriel permaneceu parado respirando fundo.
— Consegui...
Kaelis saiu dos arbustos, um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.
— Muito bem.
Gabriel olhou para ela.
— Mas ele me percebeu.
— É um instinto animal, não diminua sua conquista por isso. — Ela acariciou a cabeça do javali desacordado. — Ele teria percebido até mesmo a minha presença.
Gabriel relaxou os ombros.
— Então...
— Você foi muito bem.
Ela fez um breve sinal para os guardas que aguardavam mais atrás e eles rapidamente prenderam o javali e começaram a levá-lo de volta para Aethernys. Enquanto caminhavam de volta ao castelo, Gabriel parecia bem mais animado.
— Qual vai ser meu treino hoje?
Kaelis deu uma pequena risada.
— Um que vai fazer você implorar pela sua cama durante o resto do mês.
Gabriel ficou em silêncio.
"...Ela tá brincando." — Ele olhou para ela, e ela continuava séria. — "...ELA NÃO TÁ BRINCANDO!."
Poucos minutos depois chegaram ao pátio, onde Aeron estava sentado em um banco lendo um livro.
Sem a enorme armadura habitual, seu corpo parecia ainda mais impressionante. Braços largos, músculos bem definidos e inúmeras cicatrizes espalhadas pelo peito e pelos ombros que denunciavam décadas de batalhas.
Assim que viu os dois fechou o livro.
— Finalmente chegaram.
Kaelis caminhou até ele.
— Ele é todo seu.
— Pode deixar. — Ambos deram um toque de cumprimento.
Ela sorriu para Gabriel.
— Boa sorte.
Gabriel observou Kaelis ir embora e depois voltou o olhar para Aeron.
— Bom...
Sorriu.
— Com você já são cinco dos seis.
— E o que você vai me ensinar?
Aeron ficou alguns segundos em silêncio.
Então começou a gargalhar.
— Ensinar?
— Hã?
— HAHAHAHAHA!
Gabriel começou a ficar preocupado, até que Aeron se levantou.
— Eu não vou te ensinar nada. — Seu sorriso tornou-se quase maligno. — Eu vou transformar sua vida daqui até o fim do mês em um inferno.
Gabriel engoliu seco.
— Hoje.
Aeron apontou para o pátio.
— Cem voltas.
— O quê?
— Duzentos agachamentos.
Gabriel empalideceu.
— Trezentas flexões.
— Espera...
— Todos os dias em que treinarmos. — Silêncio. — Até o final do mês.
— O QUÊ?! — Gabriel exclamou.
Aeron cruzou os braços.
— Você precisa construir músculos, resistência, fôlego e velocidade.
Gabriel ainda tentava processar.
— Mas... por quê?
Aeron hesitou por alguns segundos, olhou discretamente para os lados e depois abaixou um pouco a voz.
— Você não ouviu isso de mim.
Gabriel aproximou o rosto.
— Lilith acredita que encontrou o covil principal onde sua mãe está sendo mantida.
Gabriel congelou.
— O quê...?
— A princípio Kaelis pretendia resolver tudo sozinha. — Ele fez uma pausa. — Mas depois de conhecer você... — Ele sorriu. — Ela quer levar você junto no resgate.
O coração de Gabriel acelerou.
"Fim do mês... mamãe... ela está... viva!"
Gabriel fechou os olhos por alguns segundos e então bateu as duas mãos contra o próprio rosto.
— Certo! — Ele se virou imediatamente. — E disparou pelo pátio antes mesmo de Aeron terminar de falar.
Aeron ficou o olhando por alguns segundos e depois abriu um enorme sorriso.
— Esse é o espírito, garoto.
Ao anoitecer, depois de horas sendo torturado pelo treinamento de Aeron, Gabriel já não possuía forças sequer para reclamar. Seus músculos pareciam feitos de chumbo e seus passos haviam desaparecido muito antes do fim dos exercícios. E em determinado momento simplesmente apagou.
Quando voltou a abrir os olhos, estava sendo carregado nos ombros de Aeron enquanto os dois atravessavam os corredores do castelo, ou melhor... tentou abrir os olhos.
Sua visão ainda estava completamente embaçada.
— Esse é o Gabriel...? — A voz de Kalchas surgiu logo à frente. — Ele está bem?
Aeron sorriu de canto.
— Está. Só foi um dia... um pouquinho exaustivo.
Kalchas observou o filho desacordado por alguns segundos e soltou um pequeno suspiro de alívio.
— Obrigado por cuidar do meu garoto.
Ele fez uma leve reverência, apertando discretamente a própria mão em um gesto de ansiedade que Aeron percebeu, mas preferiu não comentar.
— Não precisa agradecer.
Aeron continuou andando até o quarto de Gabriel, abriu a porta com o pé, atravessou o cômodo e entrou direto no banheiro e então jogou um balde inteiro de água fria sobre Gabriel.
— AAAAAAAAAAAAHHHH!! — Ele saltou no mesmo instante desesperado. — QUE FRIO!!
Aeron gargalhou alto.
— Funcionou.
Gabriel tremia dos pés à cabeça.
— Eu achei que tinha morrido!
— Ainda não.
Aeron caminhou até a porta.
— Tome um banho morno, coma alguma coisa e vá dormir.
Ele abriu a porta.
— Nos vemos daqui a dois dias.
Gabriel piscou.
— ...Dois dias?
Aeron assentiu.
— Amanhã você treina com os demais. — E saiu logo após.
Gabriel permaneceu parado por alguns segundos.
"...Dois dias sem o Aeron." — Um sorriso de alívio começou a surgir. — Espera... EM DOIS DIAS EU VOU TREINAR COM ELE DE NOVO... — Gabriel sentiu um arrepio percorrer sua espinha. — Ah... não...
Ele levou as duas mãos ao rosto.
— Eu vou morrer.
Depois de finalmente tomar um banho de verdade, dessa vez com água quente, vestiu roupas limpas e deixou o quarto. Só então percebeu o quanto estava faminto. Seu estômago roncou tão alto que ele mesmo olhou para baixo, assustado.
— Eu sinto que conseguiria comer um javali inteiro...
Guiado pelo aroma que vinha do corredor, caminhou até o grande salão de banquetes do castelo, e assim que atravessou as enormes portas de madeira, ficou completamente imóvel.
No centro da mesa principal havia um enorme javali assado. A pele dourada brilhava sob a luz dos candelabros, enquanto ervas aromáticas e legumes decoravam a travessa, o cheiro era simplesmente irresistível.
E sentado diante daquela montanha de comida estava Kaelis, ela levantou os olhos quando o viu entrar.
— Finalmente chegou. — Ela olhou para o javali.
— Achei que ia comer ele inteiro sozinha.
Gabriel apontou lentamente para o animal.
— Esse...
— Sim.
— É...
— O javali de hoje cedo.
Ela respondeu naturalmente.
— Exatamente.
Os olhos de Gabriel praticamente brilharam.
— Então... quer dizer que...
— Pode se sentar.
Gabriel nem respondeu, ele já estava praticamente mergulhando sobre a mesa quando Kaelis segurou sua testa com apenas uma mão, impedindo que avançasse mais.
Gabriel ficou balançando os braços no ar, tentando alcançar a comida.
— Quase...
— Nananinanão.
Ela sorriu.
— Hoje teremos uma aula extra.
Gabriel congelou.
— Aula?
— Etiqueta.
O garoto lentamente virou o rosto para ela.
— ...Sério?
— Sim.
— Mas isso é importante agora?
— Muito.
Ela respondeu sem mudar a expressão.
— Como heróis somos convidados para banquetes, reuniões diplomáticas, celebrações, cerimônias e jantares oficiais o tempo todo.
Um garçom aproximou-se silenciosamente, e com movimentos elegantes começou a cortar o javali diante dos dois, servindo porções perfeitamente preparadas em pratos de porcelana, Kaelis o esperou terminar antes de continuar.
— Primeira lição. — Ela ajeitou a própria postura. — Mantenha as costas eretas, nunca coma inclinado sobre a mesa.
Gabriel imediatamente endireitou a coluna.
— O guardanapo sempre fica sobre o colo.
Ela demonstrou, e Gabriel fez o mesmo.
— Os talheres são usados de fora para dentro.
— Certo...
— Mastigue sempre de boca fechada.
Gabriel assentiu.
— Leve a comida até a boca, nunca a boca até o prato.
Ele assentiu outra vez, pondo em pratica tudo o que ouvia.
— Não apoie os cotovelos sobre a mesa.
Gabriel retirou rapidamente os braços da mesa.
— Use o guardanapo apenas para limpar discretamente os lábios. — Ela gesticulou. — Garfadas pequenas, mastigue bem, nunca fale de boca cheia e coma devagar.
Gabriel olhou para o enorme pedaço de javali.
"...Comer devagar vai ser a parte mais difícil..."
Kaelis percebeu exatamente o que ele estava pensando.
— Eu vi essa cara.
Gabriel sorriu sem graça, e os dois começaram a comer.
Por mais faminto que estivesse, Gabriel tentava seguir todas as instruções ao mesmo tempo, em alguns momentos esquecia da postura, e em outros quase levava a faca à boca por distração, Kaelis apenas corrigia calmamente cada pequeno erro, rindo discretamente.
— Cotovelos.
Gabriel rapidamente os retirou.
— Devagar.
Ele diminuiu o ritmo.
— Guardanapo.
Ele limpou discretamente os lábios, e após alguns minutos, Gabriel percebeu que, apesar de tantas regras, comer daquela forma era... estranhamente agradável. Quando terminaram a primeira porção, Kaelis pousou os talheres sobre o prato.
— Última regra.
Ela dobrou o guardanapo.
— Sempre que terminar a refeição ou precisar se ausentar da mesa, peça licença e deixe o guardanapo sobre a mesa, e não o coloque novamente no colo.
Gabriel repetiu o gesto.
— Entendido. — Ele sorriu. — Uau...
Kaelis ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
— Como você sabe tanta coisa sobre isso?
Ela permaneceu alguns segundos em silêncio, seu olhar caiu sobre o próprio prato.
— Bom... — Ela respirou fundo. — ...na verdade... — Ela hesitou. — ...é porque... — Ela levantou lentamente os olhos para Gabriel.
— Tudo bem, não precisa contar se não qui... — Gabriel tentou a interromper após ver seu nervosismo, mas ela finalmente disse.
— Eu era uma princesa.
Gabriel ficou a encarou por alguns segundos, e depois soltou uma curta risada.
— Hahaha... boa piada.
Mas antes que terminasse de rir, Kaelis acertou sua testa com um pequeno osso do javali.
— Ai!
Gabriel levou a mão à testa.
— Era sério?!
— Muito...
Ela respondeu tranquilamente, Gabriel piscou algumas vezes tentando digerir a informação.
— Espera... você era mesmo uma princesa?
Kaelis assentiu, seu semblante mudou completamente, sua expressão serena deu lugar a uma nostalgia silenciosa.
— Antes de ser Kaelis... — Ela fitou o vazio por alguns instantes. — Eu era Andrômeda. — Revelou o nome sem qualquer orgulho, como quem mencionava alguém que havia morrido há muito tempo. — Nasci como princesa de um reino que provavelmente nem existe mais.
Ela soltou um pequeno sorriso amargo.
— Desde o meu nascimento eu já estava prometida em casamento para um nobre de outro reino.
Gabriel arregalou os olhos.
— Desde bebê?
— Sim. — Ela assentiu.
— Minha vida inteira foi decidida antes mesmo de eu aprender a falar. — Os dedos dela brincavam distraidamente com o cabo do garfo. — Desde pequena me ensinavam como sentar... como andar... como sorrir... como falar...
Ela respirou lentamente.
— Diziam que qualquer coisa que eu gostasse era inadequada para uma princesa. — Seu sorriso desapareceu. — Para meus pais... eu nunca fui uma filha.
Ela fez uma breve pausa.
— Eu era uma moeda de troca. — O salão permaneceu em silêncio. — Eu odiava vestidos cheios de rendas... joias... bailes...
Ela deu uma pequena risada.
— Sempre preferi correr pelo jardim, subir em árvores e treinar com os guardas do castelo.
Ao lembrar daquilo, seus olhos ganharam um leve brilho.
— Minha verdadeira paixão sempre foi a espada.
Gabriel sorriu.
— Eu já imaginava.
— Mas quando descobriram que eu treinava escondida... — Ela abaixou os olhos. — Os guardas foram punidos e expulsos. — O brilho desapareceu. — E eu fiquei sozinha novamente.
Ela permaneceu alguns segundos em silêncio, e então um pequeno sorriso sincero surgiu.
— Até conhecer o Riven.
Gabriel prestou ainda mais atenção.
— Encontrei ele treinando sozinho um dia em uma rua próxima ao castelo.
Ela parecia enxergar aquela lembrança diante de si.
— Ele havia feito uma espada de madeira com as próprias mãos e estava golpeando uma árvore sem parar. — Kaelis sorriu discretamente. — Ele devia ter uns dezessete anos.
— Foi a primeira pessoa que nunca me tratou como uma princesa frágil. — Ela riu. — Nem como alguém importante, para ele eu era só mais uma garota.
Gabriel ouviu tudo em silêncio.
— Nós começamos a treinar juntos escondidos.
Ela levou inconscientemente a mão até a própria bochecha, como se ainda pudesse sentir algo.
— Até que um dia...
Sua voz ficou mais baixa.
— Meu noivo apareceu.
O brilho em seus olhos desapareceu.
— Ele nos viu treinando juntos. — Ela respirou fundo antes de continuar.
— Eu estava feliz naquele dia, pela primeira vez em muito tempo eu podia segurar uma espada sem precisar esconder aquilo de ninguém, nós estávamos apenas treinando... rindo... nada além disso.
Gabriel permaneceu em silêncio.
— Mas para ele aquilo era inaceitável.
Sua voz endureceu.
— Mandou que os soldados prendessem o Riven imediatamente.
Gabriel arregalou os olhos.
— O... o quê?
— Eu tentei impedir.
Ela apertou levemente o punho.
— Entrei na frente, gritei, empurrei os guardas... implorei para que parassem.
Sua mão desceu lentamente da bochecha.
— Foi então que ele me deu um tapa.
O salão se afundou em um silêncio novamente, Gabriel fechou lentamente os punhos sobre a mesa.
— Depois disso...
Kaelis continuou, como se estivesse apenas contando a história de outra pessoa.
— Passei a viver trancada. — Seu olhar parecia distante. — Grades nas janelas, guardas na porta, sem espadas, amigos, ou liberdade... — Ela sorriu sem humor. — E durante dois anos... aquele quarto foi o meu mundo.
Gabriel sentiu um aperto no peito.
— Até que chegou o dia do casamento.
Ela respirou fundo.
— Eu já havia desistido.
Ele levantou os olhos.
— Achei que aquela seria minha vida para sempre. — Ela apoiou os cotovelos na mesa por um instante, mas logo percebeu o próprio gesto e sorriu, corrigindo a postura.
— Engraçado... logo eu quebrando as regras de etiqueta.
Gabriel riu baixinho.
— Na igreja...
Ela voltou ao assunto.
— O padre já estava prestes a fazer a última pergunta. — Seu sorriso desapareceu. — Bastava eu responder, até que... — Ela sorriu, mas dessa vez um sorriso verdadeiro. — As portas da igreja explodiram.
Gabriel arregalou os olhos.
— Riven entrou.
O brilho em seus olhos voltou.
— Junto com aqueles mesmos guardas que haviam treinado comigo quando eu era criança e foram punidos. — Ela deu uma pequena risada.
— Nunca vou esquecer a cara dos meus pais.
Gabriel acabou rindo também.
— Eles simplesmente invadiram tudo, Riven apontou a espada para mim e disse... — Ela mudou um pouco a voz, tentando imitá-lo.
— "Você vem ou vai continuar aí parada?"
Gabriel sorriu.
— Eu nem pensei duas vezes. — Ela fez um pequeno gesto com a mão. — Levantei o vestido, pulei do altar e saí correndo.
Os dois riram.
— Mas não foi tão simples.
Seu semblante voltou a ficar sério. — Meu antigo noivo era usuário de Éter, por mais que não fosse tão habilidoso, ele lançou uma enorme bola de fogo contra nós.
Gabriel prendeu a respiração.
— Os antigos guardas conseguiram desviar o feitiço. — Ela sorriu. — E nós fugimos. — Ela fez uma pequena pausa. — Pela primeira vez... Ela olhou pela janela do salão. — Eu era livre.
O silêncio voltou a dominar a mesa.
— E naquela mesma noite... — Kaelis levou a mão ao peito. — Eu abandonei o nome Andrômeda, eu nunca mais quis ouvi-lo, e adotei o nome Kaelis, inspirada por uma heroína que eu lia escondida nos meus livros quando era criança. — Ela sorriu. — Era a mulher mais forte daquela história, e eu queria ser como ela.
Gabriel voltou a sorrir.
— E eu acho que você conseguiu.
Kaelis riu discretamente.
— Talvez. — Ela pegou outro pedaço do javali antes de continuar. — Depois chegamos a outro reino distante de Aethernys, eu e Riven nos tornamos aventureiros, éramos muito jovens, eu tinha dezesseis anos e ele dezessete.
Gabriel ouviu atentamente.
— E nós crescíamos muito rápido, missão após missão, monstros após monstro, o nosso nome começou a se espalhar. — Ela apoiou o queixo na mão. — E isso nos subiu à cabeça.
Seu tom ficou pesado.
— Nós realmente acreditávamos que éramos invencíveis.
Gabriel já estava imaginando como seria o desfecho.
— Formamos um grupo de cinco pessoas, nós éramos os mais fortes do reino — Ela sorriu com tristeza. — Todos eram incríveis.
Seu olhar perdeu o foco por alguns segundos.
— Nos tornamos amigos... família. — Ela respirou lentamente. — Até que aceitamos uma missão acima do nosso nível.
Gabriel permaneceu imóvel.
— Um erro. — Ela fechou os olhos. — Apenas um.
Quando voltou a abri-los, havia um peso enorme neles.
— Riven tomou uma decisão errada durante a batalha... e os três morreram.
O salão mergulhou em um silêncio novamente, Gabriel abaixou lentamente os olhos.
Agora tudo fazia sentido, os túmulos, a tristeza escondida, a frieza, a obsessão em impedir que Gabriel lutasse.
Kaelis continuou olhando para o prato.
— E desde aquele dia, ele nunca mais se perdoou.
Gabriel respirou fundo.
— Eu... segui o Riven ontem.
Kaelis não pareceu surpresa.
— E o vi diante a três montes de pedras, mas eu não sabia ao certo se eram túmulos.
Ela sorriu de leve.
— Riven visita aquele lugar praticamente todas as noites desde que viemos para Aethernys, logo após o fracasso nós viemos para cá, e Riven montou os túmulos para eles.
Gabriel abaixou a cabeça.
— Então... é por isso que ele me odeia?
Kaelis balançou a cabeça negativamente.
— Não. — Ela respondeu sem hesitar. — Riven não odeia você.
Gabriel ergueu o rosto.
— Ele odeia a possibilidade de ver outra pessoa jovem, indo para a linha de frente. — Gabriel permaneceu completamente imóvel. — Quando ele olha para você... — Kaelis continuou. — ...ele não vê um futuro herói.
Ela fez uma pequena pausa.
— Ele vê um garoto com um futuro incrível pela frente, sendo imprudente e arrogante tentando se exibir, como nós fizemos no passado. — Seus olhos encontraram os de Gabriel. — E ele já viu esse filme antes.
O silêncio voltou.
— Por isso ele tenta fazer você desistir, porque, na cabeça dele... — Ela sorriu com tristeza. — É melhor destruir seus sonhos, do que assistir você morrer perseguindo por eles.
Gabriel ficou olhando para a mesa por longos segundos.
As palavras de Riven começaram a ganhar um significado completamente diferente.
"Você nunca chegará ao nosso nível."
"Vocês dois vão morrer."
"Desista de ser aventureiro."
Antes elas pareciam puro desprezo e rejeição, mas agora., elas soavam como o desespero de alguém que já havia perdido pessoas demais.
Gabriel respirou lentamente.
— Mesmo assim...
Ele levantou a cabeça.
— Eu ainda vou salvar minha mãe.
Kaelis o encarou, e nos olhos daquele garoto não havia arrogância ou imprudência, havia apenas uma determinação simples e honesta. Ela sorriu.
— Eu sei.
Os dois permaneceram em silêncio por alguns instantes, enquanto terminavam a refeição. Quando Gabriel terminou, lembrou-se da aula e pousou cuidadosamente os talheres sobre o prato, pegou o guardanapo e limpou discretamente os lábios, e depois o colocou sobre a mesa.
— Com licença.
Kaelis observou cada movimento e após sorriu satisfeita.
— Muito bem.
Gabriel abriu um sorriso orgulhoso.
— Passei na aula?
— Passou.
Ela respondeu, se levantando.
— Mas amanhã começa outra.
Gabriel congelou.
— Outra?
Kaelis começou a caminhar em direção à saída.
— Amanhã veremos posturas em combate. — Ela olhou para ele por cima do ombro, e um pequeno sorriso surgiu em seu rosto. — E você vai desejar sua cama pelos próximos meses inteiros.
Gabriel suspirou profundamente, mas assentiu determinado.