Gabriel permaneceu em silêncio por alguns instantes, encarando a mesa enquanto ligava cada uma das peças da história que Kaelis acabara de lhe contar. As palavras de Riven, que antes pareciam carregadas apenas de desprezo, agora assumiam um significado completamente diferente.
O silêncio que se seguiu explicou aqueles três túmulos muito melhor do que qualquer outra palavra poderia, e agora Gabriel compreendia por que Riven sempre o afastava.
— Com o tempo consegui fazê-lo voltar a sorrir um pouco, e dois anos depois fui nomeada heroína e formei um novo grupo com Lilith, Aeron, Alastor e Amara, e estamos juntos desde então.
Gabriel sorriu discretamente.
— Então era por isso que ele sempre foi tão... arisco comigo.
— Sim, mas eu acredito que, com o tempo, ele vai aceitar você, você é um bom garoto.
Após a refeição, Gabriel retornou para seu quarto. Fechou a porta, caminhou lentamente até a janela e observou a lua iluminando os jardins do castelo. Se lembrando de tudo o que havia perdido naquele dia, da destruição de sua vila, dos gritos, da mãe sendo levada e da sensação sufocante de impotência.
E ele cerrou o punho.
— Você ainda vai me reconhecer, Riven... eu vou salvar minha mãe... e também vou impedir que outras pessoas passem pelo que eu passei.
Na manhã seguinte, Gabriel foi acordado pela luz invadindo seu quarto.
— Bom dia.
Kaelis abriu as cortinas enquanto o garoto ainda esfregava os olhos.
— Kaelis...? O que faz aqui tão cedo?
— Vim explicar como será seu treinamento a partir de agora.
Gabriel imediatamente prestou atenção.
— Hoje você ficará comigo e aprenderá combate e Thyr. Amanhã você será treinado por Lilith e Amara em Éter, enquanto Alastor assumirá seu treinamento de furtividade no fim do dia. No terceiro dia será a vez de Aeron trabalhar exclusivamente seu condicionamento físico. Depois repetiremos esse ciclo mais uma vez, totalizando seis dias de treino, você terá dois dias de descanso antes de reiniciar o processo.
Gabriel assentiu.
— Então é praticamente um treinamento intensivo...
— Exatamente. — Ela sorriu levemente. — Agora vá tomar café. Nos encontramos no pátio.
Pouco depois, Gabriel encontrou Kalchas no salão principal.
— Bom dia, filho.
— Bom dia, pai. Como está?
Kalchas movimentou discretamente a prótese da perna.
— Muito melhor, ainda estou me acostumando, mas essa prótese é realmente incrível. — Ele sorriu orgulhoso. — E seu treinamento?
Gabriel respondeu quase sem perceber.
— Está indo muito bem, ontem fiz minha primeira missão e consegui nocautear um javali selvagem com um único soco.
Os olhos de Kalchas brilharam.
— Fico feliz... muito feliz.
Durante alguns segundos ele apenas observou o filho sorrindo.
"Astradamas... você iria adorar vê-lo assim..."
Os olhos dele se encheram de lágrimas, mas ele rapidamente as conteve antes que Gabriel percebesse, após terminarem o café, ambos trocaram um abraço, até Gabriel seguirpara o pátio, onde Kaelis já o aguardava ao lado de Lilith, Amara, Alastor e Aeron.
— Preparado para mais um dia?
— Sim! — Respondeu de imediato — Ela lançou uma espada de madeira em sua direção.
— Então venha. Hoje aprenderá combate.
Gabriel segurou a espada instintivamente e assumiu uma postura de guarda, os demais heróis trocaram alguns olhares.
— Essa postura... — Murmurou Lilith.
— Não é igual...? — Aeron comentou.
— À da Kaelis. — Completou Alastor.
A própria Kaelis demonstrou surpresa.
— Uauu... a minha guarda?
Ela avançou imediatamente, mas Gabriel conseguiu bloquear o primeiro golpe, depois o segundo.
— Eu observava vocês treinando todos os dias da enfermaria, e já que não podia participar naquela época então passei a estudar seus movimentos. — Explicou enquanto se defendia e tentava golpear.
Kaelis sorriu.
— Fico honrada. — Logo em seguida deslizou a espada contra a dele, girou o corpo e aplicou uma rasteira precisa, fazendo Gabriel cair.
Mas antes que ele pudesse se levantar, a ponta da espada de Kaelis já estava apontada sobre seu peito.
— Mas copiar não basta. — Ela estendeu a mão para ele, o ajudando a se levantar. — Minha postura não é exatamente igual à sua, seus pés estão muito afastados, sua guarda está aberta demais e você desperdiça movimentos, grave isso, Gabriel... cada golpe deve carregar uma intenção, nunca ataque apenas por atacar, se lembre dos treinos de Sentire. — Ela recuou alguns passos. — Então me diga... o que sua espada almeja?
Gabriel permaneceu imóvel por alguns segundos, e as lembranças do ataque dos orcs voltaram, e ele ergueu lentamente a espada.
— Quero impedir que outras pessoas passem pelo que eu passei, quero trazer paz para este reino... e salvar minha mãe.
Os heróis permaneceram em silêncio.
— O garoto falou sério... — Aeron comentou.
— Até eu arrepiei. — Amara sorriu.
Nesse instante, uma voz surgiu atrás deles.
— Determinação sozinha nunca salvou ninguém.
Todos olharam para trás, Riven caminhava calmamente pelo pátio.
— E ele continua sendo apenas um garoto.
— Ah... lá vem você estragar o clima. — Amara reclamou.
Gabriel ignorou completamente o comentário, respirou fundo e ajustou novamente sua postura. Dessa vez criou sua própria base, aproveitando o que aprendeu observando Kaelis, mas adaptando os movimentos ao próprio corpo.
Ela abriu um pequeno sorriso.
— Agora sim.
Os dois voltaram a lutar, diferente de antes Gabriel já não defendia apenas, ele contra-atacava, ele reforçava os músculos com o Éter e respondia cada abertura.
— Ele está revidando. — Amara comentou surpresa.
Riven observava tudo.
— Ainda é muito bruto. — Virou as costas indo embora.
— Chato... — Amara mostrou a língua.
Enquanto duelavam, Kaelis continuava corrigindo cada detalhe.
— Não desperdice movimentos. — As espadas colidiram. — Use menos força. — Um novo impacto. — Faça da espada uma extensão do seu braço.
E Gabriel começou a analisá-la.
"Ela sempre recua apoiando primeiro a perna esquerda..." — Ele forçou uma investida.
E como esperado, Kaelis saltou para trás, no instante em que seu pé esquerdo tocou o chão, Gabriel deslizou rapidamente e aplicou uma rasteira, a fazendo perder o equilíbrio.
"Consegui!" — Sorriu ele.
Os demais heróis arregalaram os olhos, Kaelis realmente havia sido surpreendida, Gabriel avançou imediatamente para a golpear, mas, ainda caindo, Kaelis apoiou uma mão no chão, girou o corpo e chutou sua espada, a arma escapou de sua mão, e em seguida, outro chute acertou sua perna de apoio, desestabilizando Gabriel e o fazendo cair.
— Rift.
Por um breve instante, o olho direito de Kaelis brilhou em azul, a espada de Gabriel que estava prestes a tocar no chão surgiu em sua mão, e após ela se estabilizar ela a apontou para ele.
— Quase.
Lilith sorriu.
— Muito bem.
— O garoto tem inteligência em combate. — Comentou Aeron.
— Você me obrigou a usar Rift, está evoluindo rápido. — Kaelis elogiou. — Parabéns
Gabriel respirava pesadamente.
— Ainda acho que isso foi trapaça...
Ela riu.
— Talvez.
Após um breve descanso, Kaelis guardou a espada.
— Agora vamos ao segundo treinamento de hoje.
Gabriel respirou fundo.
— Thyr?
Ela assentiu.
— Mais especificamente... Aegis.
Os demais assistiam ao fundo.
— O Aegis é uma armadura invisível criada pela força da sua própria vontade, ela protege seu corpo, reduz impactos e, em níveis elevados, pode até repelir ataques, mas antes de blindar seu corpo... — Ela apontou para a testa dele. — Você precisa blindar sua mente.
Kaelis olhou para Lilith.
— Por favor.
Lilith suspirou e caminhou até eles.
— Desculpa, Gabriel.
Ele apenas sorriu.
— Tudo bem.
Os olhos de Lilith brilharam, e por um instante o mundo desapareceu para Gabriel, e ele voltou para aquela noite, o ataque, os gritos, seus pais, o sangue, a impotência. E durante horas ele reviveu a mesma cena repetidas vezes, e sempre terminava da mesma maneira, sempre caído, sua mãe levada, e o fracasso, ainda no mundo fora da mente de Gabriel, suas lágrimas escorriam enquanto ele se mantinha em pé tentando superar aquele trauma.
Até que após longas horas algo finalmente mudou.
"Naquele dia eu era fraco..." — Ele olhou para o orc. "Mas não preciso continuar sendo."
Quando a criatura avançou novamente, Gabriel não congelou, ele desviou, girou o corpo e desferiu um único golpe, atravessando o corpo do orc, o fazendo desaparecer em uma névoa escura, e logo após Gabriel abriu lentamente os olhos, enquanto algumas lágrimas escorriam por seu rosto.
Já era quase o entardecer, mas Kaelis sorriu.
— Você conseguiu. — Afirmou
— Blindou sua mente. — Lilith comentou, com um certo tom de alívio.
Gabriel respirou fundo, enquanto se sentia um pouco mais leve.
— Agora vem a parte difícil. — Disse Kaelis, se aproximando. — Ela o deu um cascudo com força mediana. — Faça o mesmo com seu corpo.
Gabriel fechou novamente os olhos e tentou procurar uma "fonte" da própria força de vontade, mas sem sucesso, e Kaelis lhe deu outro cascudo.
— Ai!
— Não procure uma fonte. — Ela sorriu. — A vontade não é algo que você encontra. — Ela colocou a mão sobre o próprio peito. — Ela já está aí.
Gabriel permaneceu imóvel.
"Minha vontade..."
Sua mãe, seu pai, sua vila, as pessoas que desejava proteger, a determinação começou a preencher lentamente seu corpo, uma película quase invisível surgiu sobre sua pele, mas logo ela se dissipou, e Kaelis golpeou novamente.
— Sentiu alguma diferença? — Perguntou após o soco
Gabriel balançou a cabeça.
— Não... — A dor ainda é a mesma.
— Então continue.
E o treino se estendeu até o anoitecer, apesar do pequeno progresso, Gabriel não conseguiu manifestar o Aegis, e após o exaustivo treino, todos os heróis voltaram para dentro, e Gabriel retornou ao seu quarto com as dores dos cascudos da Kaelis.
Ao entrar, encontrou uma bandeja sobre a mesa, alguns lanches preparados a mão, carne e seu doce preferido, juntamente a um bilhete ao lado
"Espero não ter perdido a mão. Sei que não ficam tão bons quanto os da sua mãe, mas fiz o meu melhor. Boa sorte em sua nova jornada, meu filho. Eu te amo."
As lágrimas escorreram silenciosamente e Gabriel sorriu comendo lentamente tudo, saboreando emocionado, enquanto as lágrimas escorriam, e depois olhou para a faca que veio junto a refeição, respirou fundo e encostou cuidadosamente a lâmina na ponta do dedo.
"Proteger..."
Uma fina camada translúcida surgiu sobre sua pele, e quando ele a pressionou contra seu dedo a faca parou, ela não penetrava seu dedo, em seguida seus olhos brilharam.
— Eu consegui...
A felicidade, porém, durou apenas um instante, a sua concentração vacilou e a fina película desapareceu, fazendo ele furar seu dedo.
— Ai!
Gabriel levou o dedo à boca, rindo sozinho.
— Ainda preciso treinar bastante...
Após levar os talheres para a cozinha retornou ao seu quarto, escovou os dentes, tomou um banho e dormiu. Na manhã seguinte levantou antes mesmo do sol nascer, e após o café, correu até o pátio, onde os heróis terminavam de se organizar.
— Ora ora, chegou cedo hoje. — Comentou Aeron ao fundo, enquanto alongava o corpo.
— Vejo que está ansioso. — Deduziu Lilith.
— Um pouco animado. — Respondeu Gabriel um pouco animado por ter conseguido manifestar uma fina camada de Aegis.
— Bom senhor animadinho, hoje é nossa vez. — Amara sorriu.
Kaelis, Aeron e Alastor permaneceram observando de longe, Amara ergueu uma pequena esfera de água retirada da fonte.
— Hoje você aprenderá a manipular o Éter presente no mundo. — A água começou a girar ao redor dela.
— O Éter existe em tudo. — Complementou Lilith, estendendo a mão sobre o solo e fazendo vários blocos de pedra flutuarem. — Aprenda a conversar com ele. — Instruiu. — Colocando uma pedra diante de Gabriel. — Comece por algo simples.
Ele fechou os olhos e começou a se lembrar dos treinos anteriores, sentindo o próprio Éter, deixando-o fluir para o seu braço e guiando até a pedra, e em poucos instantes depois conseguiu preenchê-la completamente, a fazendo levitar ao redor de si a sua própria vontade.
Lilith e Amara trocaram olhares.
— Já? — Lilith estava surpresa.
— Em apenas alguns dias... — Amara sorriu. — Tente agora a água.
Gabriel aproximou-se da fonte atrás delas e repetiu o processo, e ao invés de tentar controlá-la, apenas deixou seu Éter acompanhar o fluxo da água, que lentamente começou a responder, primeiro em pequenas ondas, depois correntezas completas, e por fim passou a circular ao redor de seu corpo como uma serpente líquida.
Amara arregalou os olhos.
— Em... poucos minutos...
Lilith sorriu.
— Você realmente é um prodígio.
Gabriel sorriu timidamente.
— Acho que meu Éter ajuda bastante... — Respondeu guiando a água de volta para a fonte.
— E é justamente por isso que precisa tomar cuidado. — Lilith respondeu. — Seu Éter de Afinidade pode acelerar seu crescimento de maneira absurda, mas também pode fazê-lo depender dele, e se isso acontecer, você será como um canhão poderoso feito de vidro.
Gabriel assentiu seriamente.
— Bom, acho que isso conclui o treino de hoje não é Lili? — Amara perguntou.
— Eu creio que sim. — Respondeu.
Logo após Alastor caminhou até eles.
— Bom pequeno prodígio, veremos se você vai conseguir passar pelo treino de hoje.
Gabriel engoliu seco, sentindo a aura e intenção pesadas de Alastor sobre si, mas não recuou, ele assentiu e partiram para a mesma sala em que sempre treinavam, e assim que Alastor pisou o pé na porta do quarto, sua presença simplesmente desapareceu por completo, enquanto Gabriel entrava logo atrás, ele fechou os olhos após fechar as portas.
Alguns segundos depois um leve arrepio percorreu sua pele.
— Atrás do armário... na diagonal. — Afirmou.
Um breve silêncio, e então uma risada.
— Me encontrou. — Alastor respondeu
Gabriel sorriu.
— Não exatamente... só senti uma leve presença ameaçadora.
— Ótimo.
A voz de Alastor desapareceu juntamente a sua presença.
— Agora tente me pegar.
A perseguição durou horas, e nenhum dos dois conseguia surpreender completamente o outro. Gabriel não alcançava Alastor, enquanto o mesmo também não conseguia acertá-lo, e quando finalmente saíram da sala, Gabriel respirava pesadamente.
— Você ainda é muito fácil de ler. — Comentou Alastor. — Sempre que me encontra fica empolgado e seu foco e concentração simplesmente vacilam.
Gabriel coçou a cabeça.
— Vou melhorar.
— Eu sei que vai.
Já era noite quando Gabriel resolveu fazer um pequeno lanche antes de dormir. Ao entrar na cozinha encontrou Lilith sozinha diante de um enorme bolo.
Fatias inteiras flutuavam até sua boca enquanto uma taça de vinho a acompanhava e um pequeno pano limpava automaticamente seus lábios. Gabriel ficou alguns segundos observando a cena.
— Você... come assim todo dia?
Lilith olhou para o lado, vendo Gabriel parado a observando com um leve espanto e surpresa.
— Facilita bastante. — Ela respondeu naturalmente enquanto escrevia vários pergaminhos ao mesmo tempo.
Os dois começaram a conversar, e Lilith elogiou sua velocidade de evolução, mas voltou a alertá-lo sobre os riscos do Éter de Afinidade.
— Aprenda a crescer sozinho, passe a usar seu Éter apenas quando realmente precisar, em situações críticas.
Gabriel assentiu, e após uma longa conversa sobre ambos, e Gabriel comia o bolo junto a Lilith, bebendo algumas taças de suco, Gabriel fez uma breve pausa.
— Posso fazer uma pergunta?
— Vai perguntar sobre meu passado, não vai?
Ele sorriu sem graça.
— Bom... a Kaelis contou o dela...
Lilith suspirou.
— Imaginei. — Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos. — Eu não gosto muito de falar sobre mim.
Gabriel rapidamente tentou mudar de assunto.
— Tudo bem, esquece...
— Mas posso mostrar.
Ela estendeu um dedo até a testa dele.
— Memoriam. — E fragmentos da sua memória invadiram a mente de Gabriel.
Uma garota pequena, solitária, tendo apenas livros sobre magia, Éter e Arcano, rejeitada pelas demais crianças de seu antigo vilarejo por causa do Éter de Mimetismo Demoníaco, e aos doze anos, tornando-se a aventureira mais jovem da história e finalmente conhecendo Kaelis.
As lembranças terminaram e Gabriel abriu lentamente os olhos.
— Uau...
Lilith sorriu discretamente.
— É... eu sei.
Ela terminou o último pedaço de bolo, levantou-se da cadeira e caminhou até a porta.
— Boa noite, pequeno prodígio.
Gabriel sorriu.
— Boa noite, Lilith.
Enquanto voltava para seu quarto, pensava em tudo o que aprendera nos últimos dias, seu corpo ainda estava longe do ideal, seu controle sobre o Éter era espantoso, mas arriscado, e sobre seu Thyr, o Sentire ainda em estágio básico, e um Aegis quase inexistente.
Mas Gabriel ainda tinha algumas semanas para se desenvolver mais para acompanhar Kaelis e os demais heróis no resgate a sua mãe.