PREFÁCIO: RELATÓRIO K-HD-07

Por meio deste documento, viso esclarecer a natureza dos primeiros testes do Projeto Karigma, conduzidos em ambiente controlado. Embora parte dos dados tenha se perdido, a equipe acredita que o registro abaixo contenha impressões diretas do sujeito experimental sob exposição ao campo de informação.
Não sei como começar isso, oi, saudações! Tudo aqui é muito técnico e branco, sou uma pessoa, é claro. É, sou um andarilho e dá para assumir que não me garanto com dinheiro, então tem esse laboratório aqui, invadi a sala e estou escrevendo no relatório de alguém, eu acho.
Meu nome não é relevante para eles, então sou conhecido, quero dizer, eles me conhecem porque sou cobaia aqui há algum tempo. Ele me paga o suficiente para ficar quieto e participar de seus testes estranhos, ele me faz perguntas, eu respondo.
Então, me deram um código por ser uma cobaia frequente, conheci o doutor Benício no bar da periferia do leste, não faço a mínima ideia do porquê ele estava lá. Mas ele me viu e deu um sorriso estranho, achei que íamos brigar, até que ele levantou e quase caiu completamente podre.
Um cara mais composto segurou ele e o doutor acenou, me chamando para perto. Ele me convidou para ser cobaia, falou que pagaria cem conto pela hora, aceitei no mesmo instante. É, não quis saber o que era e nem fiz questão, cenzinho só para estar lá não parecia coisa ruim.
E foi tranquilo inicialmente, na primeira vez que fui ao laboratório, ele ainda estava podre, mas não sei se era ressaca ou se andava bebendo no trabalho. Ele me mandou sentar na banqueta e não pude deixar de reparar no quão branco e iluminado aquele espaço era, um completo horror.
Ah é, o doutor me fez algumas perguntas muito pessoais, tipo, muito íntimas, daquelas que nem se conta para a mãe, sabe? Enfim, uma delas ainda me é muito desconfortável, o que não posso deixar de relatar aqui, nesse relatório que roubei de alguém.
Esqueci de contar, peguei esses papéis do laboratório do cara e me escondi, rolou muita coisa desde este começo com ele, tipo, agora ele tem um assistente, eu acho. Estou ouvindo muitos zumbidos e vendo tudo mais lentamente do que o normal, e te garanto que estou mais sóbrio do que o doutor.
Voltando aqui, ele me perguntou sobre a minha resistência à drogas e se eu acreditava em alguma coisa, tipo Deus. Foi muito esquisito essa troca repentina, o que drogas tinham a ver com uma divindade? Agora eu entendo, mas não vem ao caso neste momento, tem mais coisa.
Depois das perguntas exaustivas, ele me pediu para assinar um contrato de confidencialidade, quero dizer, achei bem engraçado quando vi aquilo. Assim, não pensei que aconteceria grande coisa naquela sala ou na casa dele, ou em qualquer outro canto que aquele filho da puta me levou.
Mas como já percebeu, não foi bem assim. Na segunda vez que fui convidado, já era noite, no entanto, ele não se importou, perguntou se eu aceitaria usar drogas de forma controlada. O doutor dobrou o valor quando hesitei, e é claro que eu aceitei, que merda.
E até que valeu a pena naquele dia, acabei passando a noite inteira lá, totalmente entorpecido, lembro muito vagamente do que houve. Lembro de fungos, eles falavam comigo, cara, tipo, eles realmente falaram comigo, me disseram que o olho que tudo vê estava de olho em mim.
Ri pacas, um cu querendo me dar, que papo torto, foi o que pensei naquele dia, mas o que um drogado como eu saberia, né. Hoje vejo o que eles queriam me dizer, tem motivo meu momento escondido aqui, estou escutando o doutor gritando na sala, ele tem dessas, ele é super agressivo.
Esqueci de novo, meu código é K-HD-07. Me pergunto o que aconteceu com os outros seis, não acho que o doutor tenha dado um fim neles, ou talvez tenha. Continuando, na terceira vez que estive aqui, ele já estava com esse assistente e fizemos na casa do doutor.
Um completo contraste, tudo muito moderninho, nunca fiquei sabendo de um cientista ricasso como esse, tinha até piscina na casa desse desgraçado. O assistente era mais de boa, muito certinho e profissional, em oposição, tinha o doutor, estava no rosto dele a ressaca.
Foram só perguntas pessoais de novo, o valor dobrado se manteve e eu juro, juro por qualquer coisa que vocês acreditam. Eu estava sendo vigiado por algo a mais naquela casa, não eram câmeras ou sei lá, outras pessoas, e eu poderia achar que não era nada demais se não fosse o chiado.
A porra do rádio havia ligado e o doutor falou que estava tendo muitas quedas de energia, tornando instável os eletrodomésticos. Não pude botar fé, eu sentia uma estranheza naquele lugar, como se eu não pudesse mais acreditar no doutor, tinha algo ali, bizarro.
Na quarta vez que me chamaram, foi o próprio assistente que me ligou, o doutor estava péssimo, seus olhos vermelhos, seu corpo tremendo, sua boca seca, aquela merda não era só ressaca. Ambos me prenderam contra a cadeira após minha permissão, é claro, o valor triplicou do valor que já era dobrado.
Me drogaram de novo, e eu juro, sim, de novo, eu juro que a porra dos fungos falaram comigo novamente. Havia uma coisa estranha no ambiente, daquela vez, havia duas plantações de fungos, em cada extremidade, tinha uma, sei lá, fissura, não sei dizer.
Parecia que o mundo estava turvo, como se eu pegasse uma pintura de aquarela ainda molhada e jogasse água nela. Pensei ter ficado dias naquela cadeira, me senti mais observado do que antes, os fungos me diziam estarem preparados para a fusão e apaguei total.
Não sei quando acabou ou quando fui embora, acordei no bar rodeado de outros homens me olhando torto. Na quinta vez, foram só perguntas, repito, só perguntas estranhas. Me perguntaram como eu estava indo, creio ter delirado um pouco porque ambos ficaram se entreolhando.
Respondi que me sentia observado toda hora, que o mundo era barulhento, porque respirava, tudo inspirava e expirava, não havia calor ou frio, só o estar. As plantas se comunicaram a respeito da ordem, tudo tinha uma informação que eu não queria ouvir, mas ouvi.
Assim que saí de lá, concordei comigo mesmo e o universo, não retorno, não adianta quando me dessem, eu não volto naquele lugar. Mas cá estamos nós, o doutor me ligou com uma voz séria, me chamando para a floresta. Como sabem, estou no laboratório, escondido, relatando.
Posso escrever um pouco sobre o projeto karigma enquanto isso, descobri muita coisa nesse meio tempo, o doutor está berrando. Sabe aquele papo de que tudo tem uma consciência, tudo tem energia e tinha algo mais, não lembro o quê.
Irrelevante, eles estão tentando criar portais, mas não só isso, um portal dentro de outro portal, pensei que era ficção e impossível, mas parece que o doutor sabe como criar um. Pelo que entendi, um portal não é uma porta, mas um ponto na realidade que possibilita transitar para outro ponto.
Isso significa que não tem borda, não é tocável. Então, se colocar um portal dentro de outro, um espaço-tempo sobre o outro, é como dobrar ele. Matematicamente, ao quadrado. E isso seria instável, tipo, muito instável. Mas o doutor, KEBHD, sim, esse é o código dele, ele sabe como est.
11/06/2018
Este documento busca elucidar o relato anterior, feito pelo responsável pelo Projeto Karigma, neste último teste, a sétima cobaia foi a solução para o nosso pequeno problema. É possível afirmar que ele explodiu, implodiu, desintegrou e permanece na não existência de um loop no espaço-tempo.
Nos próximos relatórios, conterá todos os detalhes acerca da teoria, dos experimentos e dos eventos que seguiram os responsáveis pelo Projeto. Aguardo pelo retorno da curiosidade dos respectivos interessados pelo projeto e pela assinatura do contrato de confidencialidade.
A respeito do meu assistente, este deve permanecer ignorante ao fim da cobaia K-HD-07. Dito isso, o projeto confirma que pensar e existir são a mesma coisa física, que a mente pode moldar o universo se tratada como uma força energética. Pois a consciência não apenas observa o abismo, como ela é observada por ele.
