CAPÍTULO 02: DESASTRE BIOLÓGICO-MECÂNICO

13/02/2017
São Paulo, Capital.
Com o raiar em pingos tumultuosos, sem aula no campus, se refugiou em sua pesquisa após o desjejum, aproveitando o bom tempo para descansar. O que foi questão de minutos para se dispersar — estava ansioso para retornar ao laboratório e se deleitar dos dados que obteria.
Afinal, estavam trabalhando para criar um portal, dobrar o espaço-tempo e convergi-lo em um único ponto possível para atravessá-lo. Se isso não era razão de ansiedade, o mundo era o erro aqui, não ele — Rubem Ribeiro. Apesar de seu genuíno interesse em terminar a sua própria pesquisa, a incógnita persistiu.
— Por que caralhos precisamos de um conjunto de limo vibrando para construir um portal?
Ele berrou, recebendo urros de reprovação pela república masculina Xerecuda dos Maias clamando por silêncio; com toda certeza, em plena cinco horas da manhã — era a reação natural. Ao conseguir ser assistente do doutor, garantiu que pudesse continuar com o doutorado.
Sampa é careira — cada passo gasta algo do qual não tinha; pesquisador não é carreira boa — seus pais alertaram. Mas quem disse que se importou com isso? Assim que passou para o doutorado, sem bolsa, pensou que poderia babar ovo de um egocêntrico qualquer e conquistaria no papo mole alguma coisa, nem que fosse ensinar em cursinho de pré-vestibular as ciências da natureza!
Mas se enganou muito feio, três meses se passaram e suas economias vazaram pelo ralo. No auge dos seus vinte e nove anos e nada como legado! Mas graças à divina babaquice de certos doutores por aí, era só ser competente no mínimo e paciente ao extremo que dava tudo certo! E melhor ainda, o doutor não media valor com seus assistentes!
Babaca como pessoa em qualquer contexto — totalmente! Mas babaca como pagador? Nem na terra do nunca! Três salários mínimos por seis horinhas de segunda à sexta-feira e olha lá — desde o princípio de suas atividades com ele — dois diazinhos — nem sentiu a hora passando!
Era claro que entendia o porquê dos fungos verdes, eles seriam o foco dos eletrodos ao fazerem fotossíntese — mas o que garantia que isso mostraria quando um fóton deixa de ser virtual¹ no vácuo? E ainda por cima, nada garantia que isso acumularia energia, criaria curva e distorceria o espaço-tempo.
— Mas e se der certo? — balbuciou, rodando uma caneta entre os dedos.
Claro, a dobradura que ansiavam não seria criada assim e muito menos ali, precisaria de um espaço grande, enorme — não poderia ser perto de gente. Então, em Sampa o rolê não podia rolar, mas em Ribas — até pode dar certo. É uma cidade menor, tem um campus por lá e têm parentes. Além de ser um quarto de hora de distância do laboratório.
Talvez, o seu irmão funcionário do Ministério do Desenvolvimento Social casado com a secretária do Ministério da Cultura. Com uma filha colecionando doutorados na área da educação e um filho sabe-tudo, amigo até do cu de Judas — pudessem acolhê-lo no casarão durante essa jornada.
Mas até lá, precisava que o experimento desse algum tipo de resultado, no mínimo uma distorção no espaço-tempo, ali na máquina do doutor. Qualquer coisa, um sinal falhando, os fungos oscilando com padrões coerentes ou não, até se eles apodrecessem de forma instantânea já era alguma coisa!
— Se der certo, meu nome vai sair na revista Memórias do Instituto Oswaldo!² — começou a gargalhar, delirando. — E quem sabe na Science³ também! Na Nature…⁴ — a caneta caiu.
Foi questão de minutos até ouvir um som de vaso de planta sendo jogada na sua porta, se estilhaçando no chão com o baque, acompanhada pelo gritaria. Se continuasse biruta assim, seria expulso da república — o que não era boa ideia, já que era a mais barata da região.
Assim que conseguiu se recompor e o silêncio dos roncos alheios preencheu a casa, retornou aos livros, artigos e às suas anotações de sua pesquisa da faculdade. Se Célia descobrisse que seu foco diminuiu por causa de Benício, teria um treco e ainda esganaria ambos.
Seu progresso na pesquisa não foi tanto quanto desejou naquela manhã, parte do desenvolvimento precisava de dados que só poderia obter no campus. Ou, poderia aproveitar o seu experimento com Érico para fundamentar os argumentos de sua pesquisa; seria o famoso: dois coelhos com uma cajadada só!
Precisava comprovar que os nanosensores⁵ nos eletrodos no ágar⁶ computasse os nano-efeitos dos nanomateriais⁷ — o limo —, e detectasse a desgraça dos fótons virtuais! Se conseguisse isso, naquele dia, poderia comprovar com os melhores dados a sua pesquisa junto do renome do Benício!
Isso, se ele permitisse.
O contrato de confidencialidade não era brincadeira, podia morrer por causa dessa coisa se não tomasse cuidado. Apesar do quão maluco isso pudesse soar, até fictício demais, como um Sci-Fi clichê, não dava para só ignorar que assinou um acordo, onde declarava estar de boa com isso.
Com isso, fez o que qualquer um com o cu trancado faria: enviou por e-mail o seu pedido. São trezentos e quinze quilômetros de distância garantindo a sua segurança, então se ele rejeitasse e acabasse com algo fatal, tinha cinco horas e meia para sumir do mapa.
“Ah, mas com qual dinheiro, colega?”
Pensou, já se arrependendo amargamente de ter enviado o e-mail. E por azar de sua sina contra o universo, recebeu sua resposta bem rápido.
Caro, estagiário Rubem Ribeiro.
Deixo-lhe ciente que está vedado o seu uso de qualquer: imagem, vídeo, áudio e indeterminado outro meio de captar informações, análises e registros a despeito da experiência que ocorre no laboratório.
Permitido apenas às suas conclusões o uso de sua cognição: memória e intelecto; para a construção de seu fundamento argumentativo. Caso o seu pedido se refira apenas e exclusivamente ao experimento com micélio, deve poupar do conhecimento público qualquer prejuízo que possa sofrer.
Considerando, ainda, sua ausência de veto quanto o que assinou, registra-se que recebe a permissão para comprovar, a partir dos dados obtidos, a sua tese, seguindo as seguintes considerações:
• Em hipótese alguma, pode: fotografar, gravar (áudio, vídeo) e obter registros, análises e dados, que não por meios cognitivos, sem consentimento prévio.
• Ao fim da construção da fundamentação argumentativa do desenvolvimento que inclui o Experimento do Micélio, deve enviar ao seu coorientador responsável — Dr. Érico Benício (KEBHD) —, para análise e julgamento e, enfim, consentimento total de publicação.
• Em seu/sua relatório, pesquisa (de qualquer tipo), mesa redonda, roda de conversa, carta, seminário, entrevista e/ou algum intermediário de comunicação, veda-se o experimento como o assunto, tema, debate, etc.
• Qualquer objeto de incongruência e sem objeção não registrada neste e-mail, ainda é válida se citada verbalmente por KEBHD.
Coorientador, Dr. Érico Benício.
Então, isso era um sim? É um sim! Claro, vai ter que estar bem: desperto, alimentado e outras coisas, para ter a cabeça boa para quando a noite chegar, mas é um sim! Se levantou rápido demais, batendo com a cabeça na prateleira de livros acima da escrivaninha.
“Bem que mereceu” pensou, se algum colega de república tivesse visto essa palhaçada. Assim que a dor aliviou, continuou com as ideias na cabeça, rodando pela casa. Limpou a frente de sua porta, repleta de terra, formigas e uma samambaia seca — ninguém regou a coitada.
Criou coragem para cozinhar o almoço do dia, pensando nos sete homens que viviam ali também e comeriam assim que terminasse. No meio tempo, lavou a louça e plantou uns post-its pela casa, na esperança de que algum bicho limpasse algo ao invés de esperar pela doméstica a cada quinze dias.
Tentou fazer silêncio ao desligar o fogão para ter a chance de silêncio enquanto almoçava, antes de pegar a comida, mas falhou de forma miserável ao derrubar a tampa da panela no chão. O que serviu de alarme para o famoso — hora do rango — na República Xerecuda dos Maias.
Foi questão de segundos até pegar a tampa, tampar a panela e os sete — com toda certeza, não anões — chegarem na cozinha nada decentes. Tinha algumas combinações no meio: sem camisa, sem calça, sem nada e/ou só de meia! Isso quando alguém não trazia a coberta como roupa.
Três deles estavam no mestrado e os outros quatro estavam na primeira graduação ainda, Rubem era o único fazendo um doutorado naquela casa. Não que isso significasse que era o mais maduro da rep, só que era o mais velho e precisava ser o mais responsável — querendo ou não.
Beirando às três horas da tarde, organizou as suas coisas e partiu para a rodoviária, o instante em que iniciaria o teste com micélio retumbava na sua cabeça. Mas não o suficiente para mantê-lo acordado durante aquelas quase seis horas inteiras.
Quando chegou, esperou pelo inusitado como sempre, não podia contar com o doutor sendo normal em momento algum — precisava ser impassível para manter a sua vaga! Dito e feito, abriu a porta do laboratório e ele não estava lá, em contrapartida, o ágar estava sendo filmado por cinco câmeras de última geração.
O computador conectado a cinco monitores, um para cada câmera — parecia exagerado. Um laser estava direcionando com uma precisão absurda, havia folhas pelo chão atrás da bancada inteira, o armário continha um jaleco com sangue e talvez com mostarda. O que caralhos esse mano fez?
O ágar seguia com alguns eletrodos em seu encalço, com uma vibração mínima e uma luz intensa aquecendo o fungo, e por um instante, jurou ter visto uma faísca. Daquelas que se vê em campos magnéticos que oscilam — significa que pode dar certo. Aquilo pode receber uma descarga de energia a qualquer momento!
Se a placa receber a descarga nessa partícula da faísca e o computador registrar um fóton virtual… o experimento teria sucesso! Onde está o Benício? Ah, o jaleco. Recuou um passo, pensando — talvez fosse dele o sangue, mas… e se não fosse —, o papo de matar assistentes era real, tipo real mesmo?
— Posso te ajudar com alguma coisa? — Um rapaz alto, de musculatura nada natural o olhava com raiva.
— KEBHD — proferiu fino, quase sem fôlego. Era muito novo para morrer.
— Aguarde cinco minutos, o doutor teve que lidar com um inconveniente e já, já retorna. Ele deixou uma grade nova de sua rotina, sugiro que vá pegar o jantar dele durante o meio tempo.
— Sim, senhor — respondeu sem voz, partindo rápido para a lanchonete que estava na grade, seguindo pelo GPS no celular.
O Dogão do Edgar Poe da lanchonete — Cruzpão & Vampimenta — era o jantar do dia. Estava abismado com os lugares estranhos que o doutor achava boa a comida. Ainda mais embasbacado com a criatividade dos nomes e da cena que viu no laboratório.
Se não estava com medo? Estava com o cu na mão, mas a mão coça demais por grana, então — dane-se. Chegando no laboratório, o jaleco foi substituído por um limpo, as folhas estavam na bancada, organizadas, mas havia agora uma lajota quebrada.
Foi questão de entrar e Benício colocar sua mão no ombro de Ribeiro, gesticulando para o pacote. Entregou o pacote e o doutor subiu na bancada, sentando de pernas cruzadas, observando de perto o experimento em ação enquanto jantava. Não ia perguntar o que houve.
— Precisamos de uma nova cobaia — KEBHD anunciou.
— O que aconteceu com a outra? — vacilou, curioso.
— Endoidou e se matou.
— Entendo.
— Te apresento a nova em breve. Agora, eu quero que me diga o que está vendo.
— A partir da tensão, vibração e reação mínima e primita neural dos fungos, por serem aquecidos, vibrados e tensionados, eles criaram uma rede rápida de reação para se adaptar.
— O que mais?
— Há faíscas, apesar de poucas, ainda existe uma oscilação clara no campo magnético, o que pode causar o estresse da rede e a captação do fóton virtual.
— Em síntese?
— Podemos receber uma descarga de energia que vai destacar o exato momento que o fóton se transforma no vácuo adaptado. E provamos a possibilidade de distorção, mesmo que mínima.
— Contras?
— Superaquecimento, o micélio e sua rede primitiva neural morrem.
— Correto. Alguma sugestão?
— Medir os estímulos.
— Justo, pode ir medir.
No mesmo instante, os fungos trouxeram em seu estresse agudo, o micélio⁸ contrair-se violentamente, entrando em um hipercrescimento caótico.⁹ Formando padrões não naturais, espasmódicos; os eletrodos registraram picos de voltagem erráticos¹⁰ que não tinham a ver com os estímulos — o registro do fóton veio.
— Doutor, você está vendo isso, certo?
— E tem como não ver, KRHD?
— Que bom, mas olha isso aqui!
Assistiu Benício se aproximar, exasperado e contundente, e isso era estranho vindo da parte dele. Mostrou a relação entre os dados da voltagem, estímulo e o que os eletrodos captaram, havia uma sincronização com as leituras de ruídos do interferômetro remanescente.¹¹
Ambos voltaram seu olhar entre si para a máquina, o caos do crescimento absurdo do micélio era absurdo, apesar do quão bom isso significava, não tinha porquê isso acontecer. O que não tardou cessar, o laser de diodo piscou e as luzes em seguida também piscaram.
Um ruído alto e funesto rondou a cabeça de ambos, as luzes próximas ao micélio explodiram, e o fungo cede e cessa o seu crescimento. O interferômetro registra uma flutuação anômala, idêntica àquela da noite passada. Eles conseguiram, mas não por tempo o suficiente.
— Isso foi do caralho — KEBHD suspirou.
— Com toda certeza, mano.
Benício parou a colher de plástico no ar, virando a cabeça, indignado.
— Mano?
— Perdão, doutor, foi força do hábito.
— Não sou teu mano, rapaz!
— Me desculpe, isso não vai se repetir.
— Toma jeito — proferiu, voltando a comer, sem largar a expressão de indignação.

Glossário:
¹ Partícula quântica efêmera que surge e desaparece no vácuo, não detectável diretamente, mas cujos efeitos podem ser medidos (ex.: Efeito Casimir).
² Periódico científico brasileiro de grande prestígio, publicado pela Fiocruz, focado em medicina tropical, biologia e saúde pública.
³ Revista acadêmica semanal internacional, uma das mais renomadas do mundo, publicada pela Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS).
⁴ Revista científica britânica semanal, considerada uma das publicações acadêmicas mais influentes globalmente.
⁵ Dispositivos em escala nanométrica (10⁻⁹ m) capazes de detectar fenômenos físicos ou químicos em nível molecular.
⁶ Substância gelatinosa derivada de algas, usada em laboratórios como meio de cultura para crescimento de micro-organismos e fungos.
⁷ Materiais com estrutura em escala nanométrica, que apresentam propriedades físico-químicas diferentes dos mesmos materiais em escala macroscópica.
⁸ Instrumento óptico que mede interferência entre ondas (luz, som, etc.), usado para detectar minúsculas variações de distância, refração ou flutuações no espaço-tempo.
⁹ Estrutura vegetativa dos fungos, formada por uma rede de filamentos chamados hifas, responsável pela absorção de nutrientes e, em algumas espécies, por comunicação elétrica rudimentar.
¹⁰ Crescimento acelerado e desordenado de um organismo, aqui referindo-se à resposta extrema do fungo aos estímulos experimentais.
¹¹ Variações abruptas e imprevisíveis na diferença de potencial elétrico, indicando atividade elétrica anômala no sistema biológico.
Espero que tenham gostado do capitulo de hoje, meus queridos leitores, desejo-lhes uma semana maravilhosa. 🫶 Repeti algumas palavras no glossário só para reforçar o significado delas.