CAPÍTULO 04: BOTEQUIM DA MÁ-FÉ

— Foi causado pelo último suspiro de um sistema ao processar informação caótica — Benício sentenciou.
Sentença da qual não podia vacilar. Se ambos realmente fossem usar uma cobaia em prol do serviço da descoberta — a primeira imoralidade de Rubem começaria ali. Não seria a primeira vez do doutor cometendo uma atrocidade, e isso, para Rubem, funcionou como consolo e medo.
Como poderia ele acabar com sangue em seu jaleco como Érico? Jamais lidaria bem com a mancha de uma vida ceifada em suas mãos, isso é — se quem matou foi o doutor. Ou pior, e se quem tentou atacar alguém fora a cobaia contra Benício? Ele alegou que se tratava de suicídio, mas quem garante?
De qualquer forma, não deveria pensar nisso de forma alguma, manter essas atrocidades em mente não poderia fazer bem a ninguém. Não era da sua conta o status secreto de KEBHD — se era ou não: assassino. Se fosse, não tinha muito o que ser feito àquela altura do campeonato, mas se fosse — deveria evitar ser visto como possível cobaia.
Então, havia uma pequena chance de seu impulso contra o doutor, mais cedo, ter sido recebido com bons olhos. A menos que o olhar de rendição quando o empurrou fosse um jogo de quem pode mais que o outro. E se esse fosse o caso, Benício podia muito bem ser um sadomasoquista.
— Benício… — balbuciou Rubem.
— É KEBHD, dentro do laboratório — advertiu seco.
Exasperou um segundo, pronto para continuar com a sua pergunta, quando três batidas rítmicas contraíram a atenção de ambos à porta. Desta vez, Érico foi quem exasperou, o doutor se dirigiu ao som e abriu: lá estava o grandalhão de mais cedo.
Os dois compartilharam algo baixo demais para chegar aos ouvidos de Rubem, que desistiu ao ver Benício saindo de vez e fechando a porta bruscamente. Apesar da curiosidade, o ditado popular de exímio fatal contra gatos o fez desistir de sequer pensar a respeito. Decidiu continuar a organização sem mais pensamentos sobre o doutor.
Precisava contatar Célia e convencê-la a ser a mediadora da palestra de seu nêmesis — o que, honestamente, soava como uma tentativa suicida. A doutora Martins era um doce de pessoa, mas quando se tratava do doutor Benício, tudo parecia ruir sem esforço algum.
Talvez pudesse descobrir o que aconteceu entre ambos no meio desse caos todo referente à palestra. E se eles fossem: ex-namorados; colegas de um mesmo projeto de pesquisa ou, pior, ele foi orientador dela? Existiam possibilidades demais no intermédio dessa loucura toda!
— KRHD — o doutor abriu a porta, assustando Rubem — você deve ir — reforçou. — Agora.
Assentiu sem pestanejar, não era momento de perguntas e nem de pronunciar som algum, Érico estava mais sério do que o comum. A cobaia não se suicidou — isso parecia mais do que óbvio — não é como se importasse, de fato, mas ao não definir para si mesmo o que realmente aconteceu naquela sala, o perturbou mais do que saber.
Pegou as suas coisas e partiu, a noite escura caminha ao seu lado, sem saber em qual esquina a morte vai lhe beijar. Deveria aproveitar melhor a sua vida. Esta da qual estava em jogo a cada segundo como membro do projeto Karigma. Se fosse morrer por um prestígio que não lhe vai apanhar se não tivesse cuidado, precisava viver mais.
“Alô, Lena?” ligou sem hesitar, se tratava de uma colega do grupo de estudos do núcleo universitário. Ela era excepcional, com toda certeza, não tinha quem se comparasse à beleza daquela personificação de deusa mesopotâmica. “Está livre para sair?”
“Está me convidando ou perguntando apenas?” devolveu, entregando um riso doce na ligação.
Atravessou a fachada, pronto para caminhar pelas diversas ruas a fim de chegar à rodoviária.
“Estou lhe convidando para sair ao mesmo tempo que quero saber quando você estará livre", argumentou, já sabendo a resposta que receberia.
Ambos se conheceram na calourada dos doutorandos, em um samba na zona oeste de São Paulo, ela havia chegado a uma semana do nordeste — um lugar por noite. Uma mulher de alma, corpo e mente livre, não tinha quem se igualasse à sua genialidade, além de belíssima — não era Alamoa, nem Comadre Fulozinha, era Lena, Lena Cássia.
“Estou livre na próxima sexta-feira, da semana que vem, me pegue aqui às oito da noite em ponto e depois às uma da madrugada em casa.”
“Vou ser sacrificado no seu altar, raio de luz?”
“Você decide onde, docinho.” O riso se modificou para um cortejo brincalhão.
“Que decisão difícil, Lena.” Finge se lamentar.
No entanto, já se faziam uns seis meses que começaram a sair como amigos para festivais, eventos, festas, encontros — e aí, foi impossível continuar fingindo que não havia tensão. O flerte brincalhão foi comum nos últimos três meses e neste instante, ele deveria cessar o jogo — ou ela.
“Se prometer que seu chefe não vai latir para mim, vamos em algum canto de Ribas mesmo. O que acha?” Ela ofertou, extremamente assertiva.
“Dizem que um entretenimento antes do jantar faz bem à alma, minha cara” respondeu, já esperançoso pelo óbvio do que ela diria.
“Estarei bem mais entretida quando às uma chegar.”
“Ele não vai dar um piu, meu bem.”
“É bom saber disso, Rubem”
“Nos vemos sexta-feira que vem, beijinhos, lindeza.”
Enfim, chegou à rodoviária, já marcava duas da manhã no relógio do estabelecimento, faltava ainda meia hora até o seu ônibus chegar — exatas seis horas do seu período, seriam. Por sair quinze minutos mais cedo, não tinha muito o que fazer por ali, sem ser o medo de ser roubado à espreita.
— O que o doutor está fazendo agora? — balbuciou.
Um barulho ressoou depressa, viu um andarilho girando em seu próprio eixo e partindo para o lado oposto — devia parar de falar sozinho em público. Não bastava ser cientista, tinha que carregar a fama de louco também! Deu leves tapinhas em seu rosto, despertando de seus devaneios.
Benício ficou muito sério antes de mandá-lo embora, e ver aquele grandalhão de mais cedo, novamente — não estava na cartela do bingo da sua tia fumante. Era um alívio não ter criado raízes no chão do laboratório e ficado plantado por lá, sem reação por puro medo.
Talvez, Benício fosse atrás de uma nova cobaia ou, pior, a outra poderia ainda estar viva e ele foi dar cabo dela. Tal devaneio lhe subiu como arrepio na alma, fazendo com que Rubem grunhisse em agonia só de pensar nesse cenário. E foi quando uma senhora com uma caixa de doces começou a dar ré em seu passo e correu para longe dele.
Deixando o novo assistente de Érico com uma mão no ar, como se isso pudesse redimi-lo de suas reações exageradas. Ele suspirou, desistindo de se importar com o fato de duas pessoas correrem dele no mesmo dia! Isso seria normal se ele fosse o doutor, havia alguma chance de estar adquirindo os seus maus costumes? Jesus amado.
No entanto, se não fosse por isso, o que seria?
O ônibus havia estacionado em seu ponto diário, como todos os outros dias, e agradeceu mesmo assim, por seu conforto. Pois foi o que permitiu que seus delírios partissem para que o sono chegasse e o levasse para o mundo onírico — o que não trouxe paz para o seu espírito.
A consciência de alguém inconsciente — como estado de descanso — fica submetida à ausência de controle externo, apesar das pesquisas que confirmam que o instinto prevalece. Como, por exemplo, a sensação de sentir-se vigiado, sendo assim: mesmo que durma, você sente se alguém lhe observar durante este estado.
O que é imprescindível na hora de considerar os menores seres, tal qual o micélio, antes de necrosar. Se há quem observe, há quem seja observado. Se para um estado se manter, precisa de ambos, uma consciência maior poderia até mesmo governar o universo.
Se Nietzsche afirma que Deus está morto por ser uma criação que perdeu valor, ainda considera-se vivo apesar deste sentido. Muitos lhe crêem, muitos lhe pensam que este os observa, portanto — o Ser é mais do que só real, como também respira ao nosso lado.
Para Rubem, isso significa se integrar — ele seria o próximo a necrosar.
Às sete e meia chegou ao ponto de descida na zona oeste e o dia começava novamente. Não retornou à república como de costume, com essa nova rotina de chegar assim que amanhece, dormia no ônibus e podia bem escolher o que fazer dali em diante. Ou seja, café da manhã.
Depois do pesadelo esquisitíssimo nessas cinco horas de sono, precisava com toda a certeza daquele universo, tomar um café sem leite e comer pão na chapa com ovos mexidos. A padaria Paninoteca abriu assim que sua longa caminhada terminou — o cardio estava pago!
Deliciou-se de seu desjejum enquanto desfilava em sua falta de pensamentos, uma dissociação de leve não fazia mal para ninguém. Pagou e partiu para mais uma longa caminhada até o terminal mais próximo, até que a chuva o pegou primeiro. Uma linda quarta-feira pela frente — o banho estava pago!
Tropeçou na escadaria.
Perdeu o metrô para o campus.
Uma hora até o vagão para a biblioteca chegar.
Mas, em cinco minutos, havia uma linha que o levaria para o seu atual lar, a república Xerecuda dos Maias. Seguiu o que parecia mais confortável — às dez chegou no seu quarto, exausto. Mas para o seu próprio bem, decidiu tomar um banho quente e fazer o almoço logo em seguida.
Quando o meio-dia pairou no meio do céu, suor lhe desceu à têmpora, mas podia almoçar pelo menos. Durante a refeição, devorou os artigos mais recentes que seus respectivos orientadores o haviam enviado, escutando músicas no modo aleatório e não foi novidade que uma depois, cochilou.
Às quatorze e um quarto da tarde, seu celular o despertou com uma ligação de um número desconhecido. Atendeu sem culhão, já xingando a provável operadora de telemarketing, e recebendo puro nada. Até que após um momento de silêncio, desligou em sincronia com uma mensagem.
Era um endereço acompanhado de um breve recado: hoje não seria no laboratório o seu turno, mas na casa de Érico. E não só isso, como também um aviso de que ele tinha meia hora para se arrumar para partir. Se não fosse sequestro, seguido por um homicídio, Rubem estava era muito confuso.
No entanto, seguiu às ordens, não tinha o que perder além da vida, de qualquer forma. Assim que às três horas da tarde chegaram, uma buzina ressoou pela república e dois de seus colegas riram dele. E com razão — que tipo de pessoa é tão orgulhosa ao ponto de aceitar um emprego que pode matá-la ao invés de pedir ajuda para a família — que tem grana!
Partiu ele em uma Tucson preta acompanhado de um segurança e do motorista, em um silêncio constrangedor. Não existia coisa pior do que pegar carona e ficar com medo de falar um: A. Claro, considerando um cenário que aquele não fosse a prévia do seu suicídio com sete tiros na costa.
Foram duas horas tortuosas naquele espaço até chegar ao casarão de Benício, que cientista ricaço era esse? Estava aflito, olhando os canteiros do jardim, já pensando em seu corpo sendo desovado sem escrúpulos. Até que o grandalhão da noite anterior chega e o escolta da porta de entrada à sala de estar — local onde ele estava.
O doutor estava de bruços no sofá de couro, babando e roncando, enquanto segurava uma garrafa de Uísque — Jack Daniel's Tennessee Apple. Sabia bem que não havia sido lançada no mercado internacional oficial ainda, mas lá estava ele, esbanjando o seu grande poder aquisitivo.
E infelizmente, não era só isso. Nunca era só isso, com ele sempre havia mais a adicionar. O pequeno dorminhoco estava com duas fileiras de um pozinho branco na sua mesa de centro — madeira maciça e envernizada! Tinha até um tapete de pele animal, quem era aquele homem?
— Hoje, KRHD, sua tarefa é garantir que ele se recupere. Nada mais do que isso — o grande homem partiu, deixando Rubem com seu chefe apagado no casarão dele.
O universo tem uma tendência a brincar com a sina dos outros, como entretenimento sádico, não é mesmo.

O clima está pesando, algumas peças estão se encaixando e o enredo está revelando a sua verdadeira forma! Espero que estejam gostando — quanto gerúndio, véi — da obra, até a próxima! ✨