
CAPÍTULO 05: VERTIGEM DE ARROUBO

— Foi causado pelo último suspiro de um sistema ao processar informação caótica — Benício informou.
Informação que poderia variar se houvesse mais um fator que ainda não havia compreendido. Ambos precisavam de uma cobaia logo, iria naquela mesma noite providenciar a sétima cobaia do projeto. Para o seu azar, a última tentou enforcá-lo e acabou desistindo muito rápido.
K-HD-06 entrou em modo de delírio, como se o próprio Sol surgisse consumindo a sua sanidade, o que gerou todo aquele sangue em seu laboratório mais cedo. Aquela cobaia seguiu o mesmo padrão do micélio, a necrose instantânea, só difere que ele não secou como o fungo. Explodiu em pedaços.
Para o seu azar, mais uma vez, aquilo não estava sob análise por algum eletrodo, nem nada do tipo. Era puramente carne e visceralidade no cômodo branco, sequer uma mínima informação surgiu daquele cenário cheio de fel.
E agora, seu novo assistente, queria impor posição nesse cenário, sem saber do que implica estar no comando de uma operação de catorze anos. Seis cobaias mortas, quantos assistentes mortos não sabia, mas que partiram, variam entre cinquenta e quatro à oitenta e dois. Depende do ponto de vista.
Fazia um tempo desde que algum assistente tentara lhe dar alguma ordem e manter de frente aquele olhar, com aquela postura. Foi seu vigésimo primeiro assistente, uma pena que quisesse respeitar de menos o longo processo burocrático das coisas. Que descanse em paz.
— Benício… — balbuciou o seu atual e vivo assistente.
— É KEBHD, dentro do laboratório — advertiu seco.
Não podia formar laços, não podia confiar e sequer se dar a chance de pegar leve — o árduo processo precisava ser seguido à risca. As três batidinhas rítmicas da morte assolaram a porta, lhe advertindo de sua responsabilidade como o fundador, o patrono e o pioneiro de HD em Karigma.
Exasperou tomando partida, mais uma vez, seguir com o procedimento padrão era o natural a ser feito. Victor estava ali para mais uma sequência desse protocolo, o único que não carecia de um pseudônimo, a vida tão descartável que, mesmo se morresse pelo projeto, não afetaria em nada.
— Vou dispensar KRHD primeiro, ele ainda é muito recente para participar de algo assim.
— Mas os traumas psíquicos não eram necessários para o procedimento? — pontuou sem saber o peso real desse ponto do procedimento.
— Modifiquei essa parte do processo, mas a última parte permanece. Leve-o para minha casa e ordene como sempre, só que não permita que ele nos siga hoje — disse como KEBHD.
— Como quiser, KEBHD.
Voltou para dentro do laboratório, já sentindo o amargor lhe subir à língua, como se o veneno de suas ações fizesse jus ao seu comum e pernicioso protocolo. Era peçonhento em todas as suas formas. Não havia como negar.
— KRHD — chamou de uma vez, assustando Rubem do delírio que ele já começava a apresentar — você deve ir — enfatizou mais uma vez. — Agora.
Ele assentiu sem hesitar, tinha certeza de que aquele a sua frente o temia por justa causa, seus ridículos testes e sua má-fé como comportamento intimidava qualquer um. Mas lamúria não podia tomar conta naquele instante, conforme o que já foi estabelecido, precisava seguir em frente.
Deu alguns minutos para Victor confirmar que alguém seguiu Rubem até a rodoviária para manter vigília em seus atos. E prosseguiu com a segunda parte da ata, no barzinho do Espanhol, no oeste de Ribeirão Preto, na divisa contra o norte da cidade.
O ambiente era comum, e naquele horário, raro era não ver algum senhor dormindo na fachada enquanto vários outros jogavam truco em uma mesa de plástico amarela. Com vários copos americanos grudentos da cerveja que pingava de seu deleite.
E sem dúvida alguma, fez o mesmo e mais. Incitou o bar inteiro a um karaokê da madrugada, estressando o dono do estabelecimento que pretendia fechar assim que todos saíssem. Conversou, jogou e raparigou as damas da noite em conjunto aos velhos da mesa.
Até que a cobaia perfeita apareceu, um autodeclarado andarilho! Mochilão com o famoso ‘tudo que você precisa’, roupas largas, confortáveis com um pé na carência por uma lavanderia e um apelido. Nem para dizer o seu nome civil! Disse um apelido. Sileno do Sol.
Era jovem, saudável o suficiente e desconhecido o bastante, sem marcas como tatuagens e piercings em destaque, roupa básica e pouquíssimo dinheiro. O que para Benício, era melhor ainda, entregou-lhe o olhar em silêncio como se pudesse chamá-lo para conversar apenas com isso.
O que não funcionou, o rapaz achou que ambos iam brigar ali no balcão mesmo, na frente da bebida. O que fez com que Benício fugisse para os testes bobos novamente. Se jogou no chão como se fosse um bebum, fazendo com que um dos velhos que fez amizade temporária lhe ajudasse a levantar.
— Sileno, né?
— Né, e tu quem é?
— Sou o Benício, prazer — estendeu a mão.
— Prazer — estranhou, segurando a mão de Érico e puxou para si.
Em choque, seguiu com o molde do seu personagem e agiu como se não tivesse equilíbrio algum, permitindo ser puxado por ele e partiu para o abraço dele.
— Tu não é muito novo pra estar em bar não, Benício?
— Que nada, tenho trinta e seis anos já — respondeu, sem saber como se soltar daquela cena.
— Ué, não é a metade disso não? — Passou a mão no rosto do doutor, puxando a pele como se isso provasse alguma coisa.
— Não, não, meu amigo — começou a se desvencilhar —, eu só cuido bem da minha aparência.
— De onde eu venho, homem que cuida dessas coisas não gosta de mulher não, hein.
— Eu dúvido muito disso, pois eu gosto — empurrou um pouco, criando distância.
— Ah, é? Vi que estava paquerando aquelas na rua ali, então… — interrompeu, já sabendo o que ele queria dizer com isso.
— Quer dinheiro? Daí, tu pode também.
— Não, não, como isso não, meu bom.
— Como assim? — Érico deixou escapar a pergunta, se arrependendo amargamente de permitir que Sileno dissesse a merda que veio.
— Não como gordura trans, prefiro a saturada mesmo. Se é que você me entende — cotovelou Benício rindo de sua própria asneira.
— Que horror — revirou os olhos.
— Mas já fiz minhas exceções nessa vida, sabe? — Voltou a rodear os ombros de Érico com o braço. — O beco de Ribas fica vazio durante a madrugada, então, tu quem sabe.
— Não estou te entendendo, Sileno — riu de nervoso, o rapaz acabou de fazer o pior comentário da Terra e sugeriu a coisa mais horrorosa da noite, não negaria se ele se tornasse a sua cobaia.
— Ah, não se faz, Érico… — desceu o braço dos ombros pela coluna do doutor, ao ponto de sua mão chegar onde bem queria e apertou. — Tu não me engana não, deve amar isso. Então, vamos só nós.
Em choque, de novo, em um curto espaço de tempo, sóbrio demais para lidar com o desaforo, recuou e pediu uma dose de 51. Virou e logo respondeu:
— Ou, eu posso te levar para conhecer o meu laboratório, sabe… eu sou cientista — ofertou, tentando não assustá-lo.
— Ah, entendi o que quis dizer com dinheiro, agora — revirou os olhos. — Pensei que fosse igual elas ali, sabe? E que ia meter o golpe de que eu não ia precisar pagar pra depois cobrar. — Pausou por um instante — Então, tu é traficante?
Foram menos de cinco minutos desde que a profissão de Benício mudou de prostituto, para cafetão e, enfim, traficante. Além do insulto ao seu corpo, sentiu-se danificado de forma moral pela primeira vez em muito tempo, como se as mortes na conta não fossem o suficiente.
— Não, eu sou cientista, se quiser ser uma cobaia, eu pago bem, viu? — Pretendia explicar, mas pausou, entendendo o porquê das suposições da noite. Para a sua sorte, ele pareceu entender.
— Paga quanto?
— Cem a hora.
— Bora.
— Certo, então — pegou um cartão na sua carteira e entregou — neste endereço, no sábado, às 23h. Tudo bem?
— Claro.
E de alguma forma, a noitada foi maravilhosa. Ambos beberam, apostaram, raparigaram juntos e partiram para o tal beco. Se divertiram por algum tempo com a ideia debatida no bar até a sirene soar e ambos correrem antes de descobrirem uma ambulância à distância.
Um acidente esquisito, performático — assassinato. Érico sabia bem como esses homicídios se disfarçavam bem pela aparência de acidente. Passou um tempo de caminhada e ele ordenou:
— Quando chegar no laboratório, se apresenta como: K-HD-07.
Depois de sua fala, já não se lembrava de mais nada além disso. Após a noitada de várias substâncias acopladas ao vício da carne, era de se esperar que não se lembrasse. O raiar do pôr do sol surgiu e ao seu lado, Rubem estava lendo algum arquivo na sua casa. Enfim, acordado.
E neste instante se lembrou, o procedimento prosseguia conforme o protocolo corretamente, como sempre.
— Rubem? — Balbuciou, ainda despertando de seu sono.
— Bom dia, raio de Sol — abaixou o arquivo, sorrindo. — Dormiu bem?
— Não, e você?
— Dormi no ônibus, cinco horinhas. Se divertiu na noitada, doutor? — Apontou sutilmente para as duas fileiras na mesa e para a garrafa ilegal na mão dele.
— Não sei, que horas são?
— São cinco da tarde.
— A palestra é hoje às sete da noite. Convenceu a Célia?
— Como assim hoje, doutor? — Exasperou.
— Ai, não faz drama não! Vou me arrumar e tu, comunica com ela aí — levantou, sentindo dores pelo corpo todo.
Érico seguiu sua rota pelo extenso casarão, inquieto. Victor ou Sileno o trouxe? Se fosse Victor, havia uma pequena chance dele ter apagado no murro Sileno, o histórico de pessoas tóxicas que se envolveu era enorme.
O que não era realmente importante, pelos comentários e feitos dele na noite passada, bem que merecia um murro mesmo. Já na suíte principal, se despediu frente ao espelho, admirado e assombrado pelas marcas desse histórico que traduzia o seu estilo de vida.
Se o protocolo estivesse correto, Rubem estava na sua casa há quase quatro horas, com livre acesso a sua casa, tanto que assim que acordou, viu o arquivo X na mão dele. É motivo de espanto vê-lo sorrindo, talvez não tenha lido muita coisa, e ele precisava ler aquilo inteiro!
Isso significava que Benício precisava se sujeitar a mais uma noitada daquelas, para ele voltar a sua casa com a desculpa de cuidar do doutor e acabar por ler o arquivo. E dessa forma, pareceria que ele mexeu nas suas coisas sem permissão, mesmo que fosse coisa demais, o trauma era essencial para o procedimento final.
A qualquer instante, a neurose se instalaria na cabeça dele, a paranoia ruiria qualquer senso de raciocínio coerente e por fim, estaria sensível o suficiente para qualquer estímulo. Coisa essa que demoraria muito, então estava tudo bem permitir a leveza dos dias em seu encalço.
Seus assistentes dividiam uma linha tênue com as cobaias, não eram andarilhos, sem nome e vivência. Todos eles eram estudantes ambiciosos, o que difere, no laboratório, é que as cobaias são os testes, um assistente é o fim do Karigma. E se tudo corresse corretamente, seu fim seria Rubem.
Se banho já foi sinônimo de limpeza, sua mente estava suja até o talo em viés de sua alma que caminhava imunda sob as atas das mãos dos outros. De certa forma, Sileno estava certo, prostituía o seu livre arbítrio, agindo como cafetão dos seus projetos ao traficar o devaneio de um sol que não nasce.
A ressaca estava afetando Benício mais do que o comum, ou talvez nem fosse culpa dela, toda essa lamúria delirante. O caminho de sua sala, para o carro ao campus, foi a prova do silêncio como martírio, não havia quem pior que ele próprio para se martirizar.
Então, quando Célia o abordou com a expressão de desgosto de sempre na portaria, não o abalou nenhum pouco.
— Boa noite, cara Célia — iniciou a desavença. — Feliz em poder participar de algo realmente importante?
— Não faço isso por você, Érico. Rubem é estudante e meu orientando, então não se acanhe. Vou mediar e só isso.
— Faça como quiser, doutora.
Ela juntou o período do mestrado e do doutorado nos quatro anos de sua formação, e sem motivo bom algum, Érico trazia isso sempre que a chamava de doutora. Com aquela entonação zombeteira que tirava ela do sério, pois ela era sim doutora, mas todos ao seu redor seguiram com seis anos para a formação, dois para o mestrado e quatro para o doutorado.
E quando descobriu que ela se sentia mal por uma coisa besta daquelas, percebeu que era muito fácil distorcer em prol de piorar a insegurança. Se seis anos é mais tempo, era lógico mais conhecimento, dois anos a menos, a burrice ficava estampada!
Considerando ainda o azar dela, Benício era espetacular em qualquer área que tocasse os seus tentáculos, o que tornou bem fácil dele roubar a sua vaga em projetos de pesquisa. E pior, ser comparada com ele! Com certeza não era só ela que era comparada a ele, mas se a carapuça cabia, não tinha muito o que fazer.
Durante o percurso, Rubem fez os slides para a palestra, mesmo sem necessidade, aparentemente o ajudava a se acalmar. Fazia anos desde a última vez que usou slides em alguma apresentação no palco, mas uma mudança leve não fazia mal algum.
“Modelagem Computacional Multiescala conecta níveis eletrônico (DFT), atômico (Dinâmica Molecular), mesoscópico (Campo de Fase, Dinâmica de Discordâncias) e contínuo (Elementos Finitos) para simular processos físicos extremos – como fratura por impacto, dano por radiação e deformação em altas taxas – que ocorrem longe do equilíbrio e em múltiplas escalas.
A analogia com sistemas complexos em matéria condensada reinterpreta esses processos como fenômenos emergentes:
Criticalidade auto-organizada: avalanches de deformação plástica seguem leis de potência, como terremotos ou ruído de Barkhausen em materiais magnéticos.
Paisagens de energia rugosa: a dinâmica de defeitos em sólidos desordenados assemelha-se a vidros de spin, com relaxação lenta e eventos ativados.
Transições de fase: trincas e bandas de cisalhamento são descritas por parâmetros de ordem (ex.: campo de dano), tratadas com métodos como Phase Field.
Turbulência e instabilidades: bandas de cisalhamento adiabático em metais têm analogia com turbulência em fluidos.
Ferramentas computacionais integram essas escalas de forma hierárquica (passagem de parâmetros) ou concorrente (simulação simultânea átomo-contínuo), com aprendizado de máquina criando potenciais interatômicos precisos e modelos substitutos acelerados.
Implicações: essa abordagem unifica a física de materiais e a matéria condensada, permitindo prever vida útil de componentes (ex.: fusão nuclear) e projetar microestruturas que evitam falhas catastróficas ao controlar a criticalidade.”
A introdução se concluiu de modo a marcar o estopim de como ela se aplica ao projeto Karigma e as diversas perguntas dos discentes, docentes, pesquisadores e convidados presentes. Benício podia ser irreverente, amoral com flerte à imoralidade, e um canalha, mas que era genial e charmoso até ele mesmo sabia.
Os aplausos e a cadência de meias verdades, contestando e respondendo de forma concatenada sem vazar dados secretos, criando o espaço de vigor que carrega o seu nome. Não podia negar, não podia se martirizar por seus feitos enquanto eles estão trazendo resultados e glória aos curiosos de plantão.
Então, é por isso que os extras bobinhos existem nesse livro. 🤡 O que acharam do capítulo no ponto de vista de Benício?
Espero que estejam gostando da história, desejo-lhes uma semana maravilhosa ✨