A lâmina estava a centímetros de perfurar o peito do Rei Demônio, Vrakthar.
Kael Valhart podia sentir o cheiro de cinzas e o gosto de sangue na boca. Ele era o Nível 600, o caçador solo imbatível, o herói que havia desbravado calabouços que nem os deuses ousavam pisar — mas que ele mesmo havia conquistado graças ao seu talento divino de Roubo de Habilidades, que lhe permitia assimilar o poder de qualquer monstro que derrotasse sozinho, transformando-o em uma verdadeira calamidade ambulante. Naquele instante exato, a vitória estava garantida. O monstro estava acuado, de joelhos, respirando com dificuldade.
Mas foi aí que o mundo parou.
Um calafrio irracional subiu pela espinha de Kael. Não era cansaço; era puro pavor primordial.
Os olhos rubros de Vrakthar se arregalaram em um brilho maníaco, e uma aura preta e opressiva explodiu de seu corpo. O Rei Demônio ativou sua carta na manga definitiva: a Fúria do Soberano do Abismo, uma habilidade secreta capaz de romper os limites do próprio sistema e inflamar o seu ser com um boost temporário de mais duzentos níveis.
De repente, o Nível 700 de Vrakthar saltou para o impensável.
Antes que Kael pudesse piscar ou recuar, a realidade ao seu redor distorceu. Um golpe brutal, massivo e carregado de uma maldade pura atravessou suas defesas como se fossem de papel.
Kael caiu de joelhos, tossindo sangue negro. O corpo dele começou a se esfacalhar lentamente, célula por célula, em uma morte dolorosa e agonizante. E o pior de tudo não era a dor física. Era ver Vrakthar em pé, olhando para ele de cima com um sorriso sádico e desdenhoso, como se dissesse: “Você achou mesmo que o topo era seu?”
“Eu... eu deveria ter matado ele... Eu devia ter acabado com aquilo mais rápido... Seu maldito...” — pensava Kael, enquanto a consciência começava a se apagar em meio a um ódio mortal e um arrependimento que queimava mais que o fogo do inferno.
No limiar da morte, quando o último suspiro de Kael estava prestes a se esvaziar, o seu misterioso talento divino — Conexão, um poder que ele tinha mas nunca soube direito como usar em vida — ativou-se por puro instinto de sobrevivência.
Sua alma foi arrancada à força daquele campo de batalha sangrento, flutuando pelo vácuo do tempo e do espaço, até ser despejada na presença da divindade mais inconveniente de todo o panteão.
— Olha só o que temos aqui, o herói solitário, que buscava sozinho derrotar o rei demônio, mas não foi bem como o pensado, né? Grande herói...
Kael abriu os olhos espirituais sem entender absolutamente nada. Ele piscou confuso, encarando a figura irônica da Deusa Nyssa, que estava sentada balançando as pernas e rindo abertamente da sua desgraça. Antes que o orgulho ferido permitisse que ele retrucasse, a voz dela ecoou novamente, misturando deboche com um tom de proposta:
— Diga aí, grandão... Você quer ir para um novo mundo onde a paz reina de verdade, ou prefere voltar para consertar um mundo que ficou totalmente perdido?
Kael fechou os punhos com tanta força que os nós dos dedos espirituais ficaram brancos. A imagem de Vrakthar sorrindo da sua morte acendeu uma fumaça preta de ódio ao redor de sua alma.
— Mandar para um mundo pacífico o caralho — sibilou Kael, com os olhos faiscando de fúria. — Me mande de volta, quero minha vingança.
Nyssa soltou uma risada divertida, abrindo um sorriso maroto enquanto estalava os dedos.
— Adoro essa confiança cega! Já que o mundo lá embaixo virou uma bagunça e ninguém mais serve para nada, vou colocar a minha única esperança de salvar essa espelunca justamente em você. Não me decepcione, grandão~
Antes que Kael pudesse retrucar a petulância da divindade, sua alma despencou em um vácuo pesado, aterrissando de sopetão.
O som de resmungos aborrecidos e o cheiro forte de suor e metal barato cortaram a escuridão. Kael abriu os olhos de repente, piscando atordoado. Ele não estava em um campo de batalha, mas sim deitado em um catre de madeira rangente dentro de uma barraca abafada de acampamento. Ao redor, alguns cavaleiros veteranos murmuravam reclamações, entediados e frustrados com a rotina miserável.
Sem entender absolutamente nada sobre onde estava ou o que havia acontecido, Kael sentiu o corpo pesado, esmagado por uma armadura de ferro enferrujada e barulhenta.
— Ei... Garin? Você acabou desmaiando aí do nada... — uma voz jovem e preocupada chamou bem ao seu lado. Era um jovem cavaleiro, vestindo retalhos parecidos com os seus, olhando para ele com um misto de espanto e pena.