A caminhada até a capital foi surpreendentemente segura. Sem nenhum ataque surpresa de hordas ou monstros à solta no caminho, a tropa conseguiu avançar em ritmo constante, aproveitando os dias de calmaria para recuperar as energias após o inferno que passaram nos campos de batalha anteriores.
Contudo, a trégua na estrada durou pouco. No meio do caminho, o exército foi obrigado a fazer um longo desvio de rota, sem maiores explicações.
No horizonte, erguiam-se os escombros da antiga capital, Valtoria, destruída no ano 74 da Grande Era, durante a primeira grande invasão das feras que marcou o início do século de caos. Garin sentiu o peito apertar de um jeito estranho, uma pontada fria que subiu direto da boca do estômago. Aquela massa de ruínas cinzentas, torres caídas e ruas cobertas de mato e cinzas não era apenas um marco histórico de devastação; ali tinha sido o seu lar. Era onde ele havia crescido, vivido por muitos anos e construído memórias que o fogo e os monstros haviam transformado em pó irreconhecível. Ver o que sobrou da sua antiga casa reduzida a nada mais do que pedras partidas e ossos esquecidos fez a mandíbula dele trancar de um ódio tão profundo que parecia queimar por dentro. O mundo realmente tinha ido para o inferno, e a culpa invisível por não ter conseguido impedir aquela tragédia no passado ainda queimava em sua mente como brasa viva.
Desviando o olhar daquela visão dolorosa para não levantar suspeitas dos sargentos que caminhavam ao lado, o regimento continuou a marcha por mais algumas horas sob o sol escaldante, até que, finalmente, a nova sede do poder humano surgiu imponente diante deles: Aethelgard, a Nova Capital.
As imensas muralhas de pedra cinzenta da nova capital erguiam-se diante do exército esfarrapado como a mandíbula de um monstro ancestral, gélidas, intransponíveis e ameaçadoras. Eram paredões colossais, erguidos às pressas com blocos maciços de rocha reforçada e encantamentos defensivos antigos que ainda zumbiam no ar, criados justamente para garantir que nenhum monstro, aberração ou desertor miserável conseguisse pular por cima ou sequer pensar em invadir.
A tropa que se aproximava dos portões carregava as marcas visíveis, dolorosas e humilhantes da carnificina anterior. No acampamento montado na estrada, Garin havia recorrido à sua habilidade especial, a Bênção dos Aliados, conseguindo restaurar cerca de quarenta por cento dos ferimentos mais críticos dos companheiros para evitar que morressem desfalecidos pelo caminho. No entanto, ele sabia perfeitamente que não podia exagerar — suas reservas de energia espiritual e a própria tolerância do sistema tinham limites rígidos, e forçar além da conta o deixaria completamente vulnerável a qualquer investida.
Por causa dessa limitação técnica, a magia só servia para mantê-los de pé. Nos três dias de trégua na estrada, os companheiros caídos em combate foram cremados em fogueiras rápidas para honrar suas memórias. Enquanto isso, os ferimentos médios e as dores musculares profundas continuavam castigando a tropa.
Ao chegarem à entrada de Aethelgard, o exército somava cerca de seiscentos homens no total: cerca de quatrocentos soldados com o passo firme, mas com o uniforme imundo, e duzentos combatentes que ainda se arrastavam com ferimentos moderados, rangendo os dentes e aguentando a dor lancinante da carcaça quebrada o quanto pudiam para não ficarem para trás e virarem comida de bicho.
Os portões principais, reforçados com grossas placas de ferro negro e runas de proteção que ainda pulsavam com um brilho fraco e enjoativo, rangeram pesadamente e de forma estridente ao se abrirem para deixar a tropa passar para o interior da fortaleza.
Conforme o regimento avançava pelas ruas de paralelepípedos limpos e polidos da metrópole, o contraste entre a pompa nojenta dos nobres nas sacadas altas — bebericando vinho e jogando frutas podres por tédio — e a imundície absoluta dos soldados era gritante e revoltante. Mesmo com os dias de pausa na estrada, o fedor rançoso de suor velho, poeira de cinzas e o cheiro persistente de sangue seco ainda impregnava as roupas rotas e os couros esfarrapados, exalando uma aura pesada de amargura e exaustão que parecia viajar quilômetros pela rua principal. Ninguém aplaudia. Ninguém jogava flores ou oferecia água fresca. Ali, soldados rasos, plebeus fudidos e recrutas de nível baixo não passavam de bucha de canhão descartável, lixo orgânico útil apenas para morrer pelos altos escalões da coroa.
Apesar de estarem marchando cabisbaixos e esmagados pelo peso psicológico da guerra, bastou a visão das torres imponentes da capital e a promessa de um teto temporário para que alguns dos recrutas mais jovens começassem a murmurar entre si, trocando um vislumbre de alívio nervoso por estarem vivos. Afinal, para a mente humana exausta ao extremo, qualquer trégua por menor que fosse parecia uma vitória milagrosa. Aquele contraste repentino entre o desespero absoluto e o pequeno vislumbre de conforto gerava um burburinho quase irônico na tropa, um reflexo bizarro de quem mal podia acreditar que havia escapado da morte daquelas trincheiras de sangue.
Enquanto os oficiais de campo começavam a gritar ordens estridentes, separando os recrutas e direcionando a tropa esfarrapada para os alojamentos temporários nos quartéis externos da cidade — uma área separada onde os comandantes de nível intermediário e os sargentos montavam suas barracas de apoio de emergência —, Garin percebeu que aquele era o momento exato de agir.