Discretamente, sem chamar a atenção dos sargentos estressados que empurravam os soldados com cabo de espada, Garin fez um sinal rápido com os olhos para Jax. Aproveitando a confusão generalizada da chegada e o empurra-empurra da multidão de fardados, os dois se esgueiraram agachados, passando por baixo de uma corda de isolamento e correndo em direção aos fundos de uma enorme tenda de suprimentos empacotados. O local estava abarrotado de caixas de armamentos pesados, barris de suprimentos e pilhas de lona militar mal dobradas. Era o esconderijo perfeito, escuro e isolado, que ficava colado na divisória de tecido pesado de uma tenda vizinha onde os comandantes de baixo escalão e sargentos de patentes intermediárias discutiam a logística do acampamento.
Enquanto tentavam controlar a respiração e abafar qualquer som para não dar bandeira, vozes irritadas começaram a vazar do outro lado da lona. Eram os comandantes subordinados resmungando alto entre si sobre as ordens que recebiam lá de cima.
Aproveitando a cena inusitada, Jax apoiou as costas em uma pilha de caixas, cobriu a boca com a mão para segurar uma risada abafada e sussurrou bem pertinho do ouvido de Garin, com um tom de puro deboche:
Do céu, tu acredita que eu já peguei a manha desses caras? Esses comandantes de patentes intermediárias passam o dia inteiro fofocando nos cantos! Quer ver só? O tal General Vane, aquele velho marrento que comanda as frentes de batalha... Eu sempre escuto os sargentos e comandantes daqui resmungando dele nos corredores, dizendo que ele é um plebeu cabeça-dura que subiu na marra, peita os nobres na cara dura e não deixa os aliados na mão, fazendo eles se matarem na linha de frente. Os oficiais que não são da panelinha da alta cúpula odeiam o velho com todas as forças justamente porque ele não beija a bota de ninguém lá de cima!
Garin abriu um sorriso de canto de boca, ouvindo atentamente aquela conversa de corredor militar enquanto analisava friamente o cenário montado à sua frente.
Perfeito... — Garin murmurou de volta, mantendo a voz cautelosa e controlada para não vazar pela lona. Se até os oficiais intermediários resmungam disso nos bastidores, significa que o Vane é exatamente o tipo de líder casca-grossa que a gente precisava encontrar nesse formigueiro.
Com o ambiente devidamente seguro e longe de ouvidos indesejados, Garin olhou fixamente para Jax, mudando o tom de voz para algo sério, cortante e direto ao ponto. Era hora de colocar as cartas na mesa de vez.
Escuta aqui o que eu vou te falar, Jax — Garin começou, ajustando a postura na penumbra da tenda. A gente sobreviveu por um triz lá na frente, mas você viu com os próprios olhos como essa coroa trata a gente. Nós fomos tratados como lixo descartável. Se a gente continuar seguindo cegamente esses imbecis engatados, vamos virar adubo em qualquer trincheira fudida por aí na próxima guerra. Eu não vou aceitar isso de jeito nenhum.
Jax cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha com total desconfiança, mas sem conseguir esconder a curiosidade pelo rumo da conversa.
Tá querendo dizer o quê com esse papo todo, Garin? Que a gente vai desertar? Fugir correndo para o meio do mato para virar bandido foragido da lei?
Não. Fugir igual a um rato é para os fracos — Garin respondeu friamente, abrindo um sorriso calculista que brilhava na penumbra. Nós não vamos fugir. Nós vamos dar um jeito de virar essa mesa contra esses caras. Eu vou montar um grupo próprio, do zero, e preciso de peças extremamente fortes do meu lado para fazer essa engrenagem rodar. Jax... eu quero que você seja o meu braço direito. O meu segundo em tudo isso aqui.
Jax arregalou os olhos de forma cômica, soltando uma risada curta, desacreditada e escandalosa, balançando a cabeça freneticamente em total desaprovação.
Só pode ser zueira! Você bateu a cabeça muito forte naquela explosão lá na guerra, só pode, tá com umas ideias completamente tortas na mente! Você quer peitar a coroa inteira? Com que moral, maluco? Com esses trezentos coitadaços machucados, fedendo a sangue e um punhado de espadas velhas caindo aos pedaços? A gente é bucha de canhão, Garin! Os nobres têm magos de elite que incendeiam quarteirões inteiros, cavaleiros sagrados blindados e uma muralha inteira de guarda-costas mágicos!
Apesar de toda a bronca e do choque lógico, Jax soltou um suspiro pesado, olhando de sossego para as frestas da lona que davam para as ruas movimentadas de Aethelgard, antes de continuar com um misto de resignação, loucura e coragem:
Mas... pensando bem por esse lado, do jeito que o mundo tá indo direto para o inferno, e com essa coroa só mandando a gente para a morte certa sem olhar para trás... quer saber de uma coisa? Suas ideias são completamente malucas, parecem coisa de lunático, mas pelo menos fazem muito mais sentido do que as ordens suicidas desses velhos engatados de gabinete. Se é para lutar por algo nessa desgraça, que seja para mudar essa situação. Por mim, tá fechado. Eu topo ser o seu braço direito nessa loucura toda.
Garin assentiu firmemente com a cabeça, sentindo um alívio interno ao ver a lealdade inabalável do amigo se consolidar diante daquela proposta insana.
Excelente escolha. Mais uma coisa — Garin continuou, baixando ainda mais o tom de voz e apontando discretamente com o queixo na direção da fresta da lona que mostrava o acampamento ao longe. Você conhece as conversas de quartel e sabe quem é quem aqui dentro. Me diz uma coisa: aquele general... o velho de guerra que comanda a linha de frente, o tal Vane. Qual é a real dele na hierarquia?
Jax estreitou os olhos na direção indicada, puxando rapidamente pela memória todas as conversas de quartel e a estrutura militar rígida da capital que ele ouvia desde os tempos de infância.
Ah, você tá falando do General Vane — Jax explicou, cruzando os braços novamente e franzindo a testa em sinal de respeito. O cara é uma lenda viva nos quartéis baixos, mas é completamente ignorado e escanteado pelos nobres do alto escalão. Ele é um plebeu raiz que ralou o dobro para subir na hierarquia militar através do mérito de sangue e suor, é extremamente focado na tática de campo e na sobrevivência dos soldados rasos, mas a alta cúpula odeia ele justamente porque ele bate de frente com os nobres para salvar a tropa da morte certa. Ele não tem influência política nenhuma lá em cima, obedece por puro dever profissional, mas tá sempre com o sangue nos olhos por causa da incompetência dos generais de gabinete.
Um brilho intensamente calculista surgiu nos olhos de Garin, refletindo a luz fraca que entrava pela tenda. Era exatamente a peça que faltava no tabuleiro para o seu plano mestre começar a rodar.
Perfeito. Ele odeia a incompetência da coroa tanto quanto nós, e tem o respeito absoluto e cego de todos os soldados rasos — Garin concluiu, estruturando toda a estratégia tática diretamente em sua mente. O Jax vai ser o meu braço direito para manter a tropa unida, cuidar do núcleo duro e garantir que ninguém pule fora. E aquele general... Vane vai ser o meu braço esquerdo. A mente tática brilhante que precisamos para liderar a linha de frente e comandar as tropas quando a hora certa chegar.
Caralho, Garin... você realmente pensou em cada detalhe dessa porra, né? — Jax murmurou, balançando a cabeça profundamente impressionado com a audácia e a frieza do plano. Mas me diz uma coisa: como é que você pretende convencer um general de carreira irretocável a se aliar com a gente e entrar numa conspiração junto com a massa? O velho é duríssimo de roer, não vai cair em papo furado de recruta.
A gente não vai chegar pedindo para o velho trair a coroa de cara, seu imbecil. A gente vai ganhar a confiança dele mostrando serviço na prática, aproveitando cada brecha que esses dias de folga na capital nos derem — Garin respondeu com um sorriso mortal, cerrando o punho com extrema firmeza. A capital inteira mal sabe o tsunami que está prestes a desabar sobre ela.