A Princesa Desertora
Após desaparecer por completo dentro do cômodo, ele convidou Gabriel.
— Agora entre, sua vez. — Disse Alastor, Gabriel entrou no quarto, mas foi repreendido no mesmo instante. — Controle sua respiração, eu conseguiria te ouvir fora do castelo, controle também seus passos, use o ambiente ao seu redor. — Alastor o instruiu, derrubando um vaso, atraindo a atenção de Gabriel e aparecendo por de trás dele novamente. — E principalmente, foque no ponto cego do seu adversário, seus olhos, audição, concentração, atraia sua atenção, escreva a partitura e o faça dançar conforme a melodia. — Ele parou a adaga no pescoço de Gabriel novamente. — E você morreu novamente.
O treinamento de furtividade aconteceu durante mais algumas horas até anoitecer, mas Gabriel não conseguiu vencer Alastor nenhuma vez.
— Cara, você se tornou um com as sombras, como você consegue? — Gabriel perguntou ofegante.
— Eu fui treinado para isso, em outra oportunidade eu te conto minha história. — Alastor respondeu.
Kaelis entrou no quarto, interrompendo os dois, com os demais heróis atrás dela.
— Chega por hoje Gabriel, e então, o que achou do treino? — Kaelis perguntou.
— Exaustivo, mas bastante divertido. — Gabriel respondeu arfando bastante.
— Patético, ele ainda é uma criança. — Comentou Riven, que apareceu atrás de todos.
— Para de ser um grande babaca. — Amara o repreendeu.
Riven olhou com desdém para ela, sentindo um leve desconforto logo após, percebendo Alastor o encarando, como um sinal de ameaça, caso ele tentasse algo contra ela.
— Eu não aprovo. — Riven declarou, se retirando após.
— Quem era aquele? — Gabriel perguntou confuso com o que acabou de acontecer.
— Aquele é o Riven, ele também é um dos nossos, ele é um dos espadachins mais fortes do reino, atrás somente da Kaelis, e parece que ele não foi muito com a sua cara. — Amara respondeu.
Kaelis ficou quieta com a aparição e declaração repentina de Riven, pensando em ir atrás dele, mas sendo impedida por Amara. Após o longo dia todos foram dormir, mas Gabriel permanecia inquieto, após a aparição e rejeição repentina de Riven, ao olhar pela janela do quarto onde estava hospedado dentro do castelo, ele viu o mesmo saindo do castelo e indo até uma floresta ao redor e decidiu ir atrás dele, pegando sua espada, tentando usar as habilidades de furtividade que aprendeu antes com Alastor, ocultando sua presença, os dois adentraram o bosque escuro, ele seguiu o rastro de Riven.
— “Até quando ele vai continuar andando?” — Gabriel permaneceu o seguindo.
Logo após vendo Riven parar de frente a o que pareciam ser três túmulos improvisados, se ajoelhando e se matnendo em silêncio para os que estavam ali enterrados, Gabriel pisou levemente na terra, sentindo um graveto abaixo de seu pé, o fazendo se desconcentrar por um instante enquanto tentava não quebrar o galho, mas sua desconcentração foi o suficiente para Riven sentir sua presença, aparecendo atrás dele, com a espada apontada para seu pescoço.
— Por que me seguiu? — Riven perguntou friamente.
Gabriel estava estático, sentindo a pressão esmagadora de Riven, e sua lâmina encostando em seu pescoço, fazendo escorrer um fio de sangue.
— Fiquei curioso. — Respondeu. — Você foi o único do grupo que eu não conheci, e quando eu tive a oportunidade, você me chamou de criança, rejeitando todo o meu esforço do nada, sem nem tentar me conhecer. — Ele estava visivelmente nervoso.
Riven embainhou sua espada novamente.
— Suma. — Ordenou.
Gabriel se virou para sair, mas parou antes.
— De quem são os três túmulos? — Gabriel perguntou.
Riven não o respondeu, apenas sumiu junto às folhas secas que caiam no bosque, Gabriel se virou mas não via mais ninguém, voltando para o castelo em seguida.
No seu segundo dia de treinamento, Gabriel fez sua primeira missão junto a Kaelis, algo bastante simples, que era o trabalho dos guardas do castelo, caçar um javali selvagem que causavam confusão fora do castelo e atacava os viajantes.
— Nervoso? — Kaelis perguntou, ambos estavam nos portões do reino, prontos para sairem.
— Não. — Gabriel respondeu.
— Então por que está tenso? — Kaelis conseguia sentir como Gabriel estava, devido a seu nível avançado de Sentire.
— Eu me encontrei com Riven ontem... e não foi muito agradável. — Gabriel respondeu.
— Entendo, quer deixar isso para outro dia? — Kaelis o perguntou, mas ele declinou
Ambos foram para fora do castelo, a caça do javali, se escondendo por entre os arbustos, eles o rastrearam, ele tinha a estatura aproximada de uma carroça de mão, e estava destruindo a barrada de um comerciante.
— Preparado? — Kaelis perguntou.
— Sim! — Gabriel afirmou.
— Ótimo, mas não o mate. — Ela o instruiu.
Gabriel saiu de dentro do arbusto, ocultando sua presença, indo em direção ao javali que estava distraído, mas ainda o notou e se virou até ele, mas Gabriel percebeu, e foi para seu ponto cego, revestindo seu braço com Éter, o nocauteando com um soco só.
— “Impressionante, ele evoluiu tanto em apenas um dia!” — Kaelis estava orgulhosa. — Meus Parabéns Gabriel. — Kaelis chamou os guardas do castelo para retirarem o javali.
— Ele me sentiu, porcaria. — Gabriel respondeu chateado.
— É um instinto animal, ele notaria até mesmo se fosse eu, mas você se saiu bem. — Kaelis o reconfortou.
Os dois caminhavam juntos de volta ao castelo.
— Qual vai ser meu treino hoje? — Gabriel perguntou empolgado.
— Um que vai acabar com essa animação toda. — Kaelis respondeu rindo.
Os dois foram para o pátio novamente, onde estava Aeron, sem toda a armadura, seu corpo era bastante robusto, mas definido, coberto por cicatrizes..
— Finalmente chegaram. — Comentou Aeron que estava lendo, fechando o livro logo após.
— Ele é todo seu por hoje. — Respondeu Kaelis, se retirando em seguida.
— Bom, com você já são 5 dos 6. — Disse Gabriel. — E o que você vai me ensinar?
— Ensinar? HAHAHAHAHA — Aeron gargalhou. — Eu vou fazer da sua vida um inferno. — Aeron respondeu com um olhar um tanto sádico. — Você vai dar 100 voltas por esse pátio, fazer 200 agachamentos e 300 flexões, durante todos os dias até o final do mês.
O rosto de Gabriel ficou completamente pálido.
— O QUÊ!? — Gabriel exclamou.
— Você precisa construir massa e resistência, e se for verdade o que Kaelis me disse, você vai precisar. — Aeron respondeu.
— E o que... ela disse? — Gabriel perguntou.
Aeron hesitou bastante, mas contou a verdade.
— Você não ouviu isso de mim, mas nós... bom, Lilith localizou onde os orcs que atacaram sua vila vivem, uma caverna ao fundo do bosque, a princípio ela pretendia exterminar todos sozinhos, mas depois de te conhecer e treinar, ela pretende te levar lá no fim do mês, por isso você tem que crescer rápido até lá. — Aeron explicou.
E logo após ouvir, Gabriel começou a correr ao redor do pátio determinado.
— Isso aí! Esse é o espírito garoto. — Afirmou Aeron.
Ao ficar de noite, e Gabriel ter concluído o dia de treino com Aeron, eles voltaram para dentro do castelo, com Aeron o carregando nos ombros inconsciente, se encontrando com os pais de Gabriel.
— Esse é o Gabriel? Ele tá bem? — Kalchas perguntou.
— Sim, só foi um dia um pouquinho exaustivo para ele. — Aeron respondeu.
— Muito obrigada por cuidarem de nosso filho. — Astradamas agradeceu, se curvando levemente.
Aeron o levou até seu quarto, e a seu banheiro, jogando água fria nele, o fazendo acordar no mesmo instante.
— Aaaaaaaaaaahhhhhh, que frio! — Gabriel gritou.
— Hahahahaha, tome um banho morno, vá comer alguma coisa e durma, nos vemos daqui dois dias. — Disse Aeron indo embora.
— “Dois... DIAS?” — Gabriel quase desmaiou novamente.
Assim que Aeron se retirou, Gabriel sentiu seu estômago doer de fome, devido a todo o esforço que fez em um único dia.
— Eu sinto que poderia comer um javali inteiro. — Afirmou ele
Após seu banho, ele foi até a sala de banquetes, onde Kaelis o esperava, junto a um enorme javali assado.
— Finalmente chegou, quase comi esse javali inteiro sozinha. — Ela comentou
— Esse… é o javali de hoje cedo? — Ele perguntou.
— Exatamente. — Ela respondeu.
Gabriel se aproximou da mesa, hipnotizado pelo aroma do javali, quase atacando ele, mas sendo bloqueado por Kaelis.
— Nananinanão, hoje você terá uma aula extra, etiqueta.
— O quê? Sério isso? — Gabriel perguntou, impaciente para comer o javali.
— Como heróis, constantemente somos chamados para banquetes, comemorações, e coisas do tipo, e é necessário que tenhamos etiqueta. — Comentou Kaelis, chamando por um garçom, que cortou o javali e os serviu.
— Primeiramente, arrume sua postura. — Explicou Kaelis. — Postura ereta, nunca incline o corpo para a frente, coloque o guardanapo a sua frente no colo, e use os talheres de dentro para fora, mastigue sempre de boca fechada, levando a comida para a boca, e não ao contrário, evite falar com a boca cheia, e não ponha os cotovelos na mesa, use o guardanapo para limpar a boca sempre discretamente, ao comer sempre de garfadas pequenas, coma devagar e mastigue bem os alimentos. — Ela o instruía, enquanto ambos comiam. —Ao terminar de comer, ou se caso precisar se ausentar da mesa, peça licença e ponha o guardanapo sobre a mesa, sem colocá-lo novamente no colo.
— Uau Kaelis, como sabe tanto sobre etiqueta assim? — Gabriel perguntou, enquanto limpava a boca com o guardanapo.
— Bom... na verdade foi porque… — Ela hesitou, respirou fundo, mas continuou. — Eu era uma princesa antigamente. — Ela respondeu.
Gabriel riu discretamente, e Kaelis usou um pedaço do osso do javali para acerta-lo na testa.
— Sério mesmo? — Gabriel perguntou.
— Sim. — Kaelis respondeu
Começando a contar sua história para Gabriel.
— Antes de ser Kaelis… eu era Andrômeda.
Ela disse isso sem orgulho, como quem cita um passado enterrado.
— Eu nasci princesa. Prometida a um nobre de outro reino ainda no berço. Desde pequena me diziam como sentar, falar, andar… e que meu “jeito” era errado. Meus pais nunca me viram como filha. Eu era um acordo.
Kaelis contou como odiava vestidos, que fugia para treinar com os soldados, que era punida por isso, não tinha amigas e as demais nobres riam dela, os soldados que a ajudavam foram afastados.
— O único que nunca me tratou como princesa foi o Riven.
Eles se conheceram quando ela fugiu do castelo pela primeira vez, eram crianças, e assim como ela, Riven também gostava de treinar, ele tinha até uma espada de madeira que o mesmo construiu, até o dia em que o homem com quem ela seria forçada a se casar os viu juntos e achou que Riven era um agressor,aelis tocou a própria bochecha, como se ainda sentisse o tapa que ele deu nela por tentar defender Riven no dia.
— Depois disso, eu vivi trancada, grades nas janelas, em reclusão até os meus 16.
No dia do casamento, antes das palavras finais do padre, Riven e antigos guarda-costas a arrancaram do altar e fugiram para outro reino, mas o noivo era um mago e lançou uma bola de fogo.
— Eles bloquearam o ataque com Éter, terra e vento, eles revestiram as espadas e bloquearam, ali eu vi que poderia viver um mundo diferente.
Livre pela primeira vez, ela abandonou o nome Andrômeda e tornou-se Kaelis, inspirada por uma heroína dos livros que lia escondida.
— Eu e Riven viramos aventureiros, montamos um grupo, Éramos fortes… jovens demais… e pagamos por isso.
Três morreram, pelas ambições de Riven
— Desde então, Riven não suporta ver alguém jovem se colocar em risco, não é desprezo, Gabriel, é medo, culpa.
O silêncio que se seguiu explicou os três túmulos melhor do que qualquer palavra.
— “Então aqueles túmulos…” — Gabriel se perdia em seus pensamentos, entendendo agora os motivos para Riven ter tanta aversão a ele.
— Com o tempo eu consegui fazê-lo voltar a si, e em dois anos eu fui nomeada como heroína, a mais jovem, e formei um grupo com Lilith, Aeron, Alastor e Amara. — Kaelis contou toda sua vida para Gabriel, que apenas ouviu em silêncio.
— Então era por isso que ele sempre foi arisco comigo. — Gabriel sussurrou.
— Sim, mas com o tempo ele vai te aceitar, você é um garoto forte. — Kaelis o confortou.
Gabriel retornou ao seu quarto, após ouvir e conhecer o passado de Kaelis.