O Gênio
Gabriel segurou o punho de ambos, revestindo as mãos com Éter e Impetus, anulando todos os fortalecimentos e reforços que lhes foram concebidos antes, arrancando as cabeças de ambos com eles.
— Patético. — Afirmou Gabriel, desprezando os orcs.
— FAÇA! — Ordenou o líder dos orcs, para a maga.
— CERTO! — Assentiu a maga. — BESTA FUNDIDA REPULSIVA, HECATONQUIRO. — A maga evocou uma fusão dos três orcs remanescentes em um, possuindo agora dez braços deformados, e três cabeças, que desciam até seu peito, mantendo os reforços lançados anteriormente.
Indo para cima de Gabriel, que desviava dos ataques apresentando uma dificuldade, o líder dos orcs acenou para a maga, que conjurava uma outra bola de fogo em sua direção. A magia da orc, iluminou toda a caverna, junto as caveiras no trono do soberano. O hecatônquiro avançou vorazmente, desferindo diversos golpes simultâneos, Gabriel bloqueava, desviava e contra-atacava, mas seus movimentos já estavam mais lentos, sua respiração irregular. O corte em sua sobrancelha pingava sangue, turvando sua visão.
— Merda... — murmurou, reforçando sua lâmina com Éter e Impetus.
O monstro rugiu, cuspindo chamas de uma das cabeças, ao mesmo tempo em que outro punho colidia contra a lâmina de Gabriel. O impacto o jogou de joelhos no chão.
— HAHAHA! VÊS, HUMANO? TEU FÔLEGO ESGOTA-SE, TUA FORÇA VACILA! — O líder gargalhou, com os olhos demonstrando escárnio.
A bola de fogo da maga foi arremessada. Gabriel, em um último impulso, ergueu sua espada diante de si.
— Aegis! — Gabriel gritou, criando um escudo translúcido, que repeliu a magia.
Gabriel então fechou o punho, e os fragmentos se moldaram em lanças flamejantes e com um gesto, ele as lançou contra o hecatônquiro, perfurando suas cabeças e torso, o fazendo rugir em desespero antes de desabar. A maga orc, aterrorizada, caiu de joelhos, Gabriel caminhou até ela, com passos trêmulos e o corpo cambaleante, cortando sua cabeça com um único corte, a fazendo tombar sem vida. O silêncio tomou conta da caverna, sendo interrompido apenas pelo respirar pesado de Gabriel.
O soberano orc se ergueu de seu trono, emanando uma presença esmagadora que dominava o espaço.
— A presença de Riven era mais sufocante do que isso. — Murmurou Gabriel ofegante.
— HUMANO IMPURO... DESTRUÍSTE MEUS FILHOS, MEUS CAMPEÕES, MINHA PROLE! PAGARÁS COM TEU CORPO, COM TEU SANGUE, COM TUA ALMA!
O rei ergueu um machado colossal que mantinha em repouso atrás de seu trono, correndo em direção a Gabriel como uma avalanche. O chão tremia a cada passo, Gabriel já exausto, ergueu a espada para o confronto final.
— EMBUIR CHAMAS! — Conjurou o orc soberano, fazendo as lâminas de seu machado se acender em fogo.
O impacto ressoou pela caverna, as lâminas se chocaram, as faíscas iluminaram a caverna junto às chamas do machado do rei orc, que forçava para baixo, esmagando Gabriel, que cravava os pés no chão, quase cedendo.
Gabriel gritou com raiva e desespero, todo seu Éter e Thyr concentrados se tornaram mais densos e mais fortes, ele estava em seu ápice.
— Bulwark. Ensis! — Gabriel rugiu.
Sua lâmina emanou uma luz rubra e alaranjada, cortando através do machado o explodindo em chamas e atravessando o corpo do soberano orc. O gigante parou por um instante, arregalando os olhos em descrença, antes de cuspir sangue e seu torso cair separado do resto do seu corpo.
— IMPOSSÍVEL... UM... MERO HUMANO... — Murmurou, antes de cair morto.
Gabriel também cedeu, com o corpo coberto de sangue orc e o seu próprio. Sua espada caiu ao chão, ele arfava, com a visão turva e um sorriso cansado.
— Eu... disse... que iria... exterminar vocês... — Sussurrou, antes de tombar inconsciente.
A caverna, agora silenciosa, era o túmulo de um exército inteiro, o cheiro de sangue, ferro, fumaça e carne queimada impregnava o ar pesado, passos apressados ecoaram na entrada, eram Kaelis,Riven e Amara, que finalmente o alcançaram após a batalha.
— Gabriel! — Gritou Kaelis, correndo até ele.
Encontrando-o caído em uma poça de sangue, coberto de feridas, ofegante e o brilho magenta se esvaindo.
— Ele está vivo! — Exclamou Lilith, que havia se teletransportado até ele junto de Alastor e Aeron, que se surpreenderam vendo o tanto de cadáveres que haviam na caverna.
Amara suspirou aliviada, caminhando até ele, e ajoelhando-se ao seu lado e estendendo as mãos sobre ele e o curando.
Aeron cerrou os punhos.
— Gabriel lutou sozinho contra um exército, é um milagre que ele ainda respire.
Os olhos de Gabriel entreabriram-se por um instante. Ele olhou os rostos de seus amigos, exausto, mas com uma centelha de orgulho.
— Eu... sei cuidar de mim mesmo... Eu não sou um fardo... Riven. — Sua voz saiu rouca, quase inaudível.
— Cala a boca, idiota, não gaste forças! — Respondeu Amara, dando um cascudo nele, o fazendo desmaiar novamente, sendo repreendida por todos, e se desculpando logo após.
Riven foi até Gabriel que estava inconsciente, o abraçando forte.
— Me desculpe Gabriel, você não é fraco, você é forte, e digno de ser um de nós, me desculpe. — Riven chorava enquanto se desculpava com Gabriel, que sorriu levemente.
O silêncio tomou conta novamente da caverna, todos trocaram olhares, pesados, mas também cheios de respeito.
— Vamos levá-lo de volta ao castelo para ele repousar. — Disse Kaelis.
Carregando Gabriel em seus braços, deixaram para trás o ninho dos orcs, apenas com seus restos mortais. E assim, o eco daquela batalha seria lembrado, um único humano, um garoto de 14 anos, que contra a maré da brutalidade, havia derrotado o soberano dos orcs e sua prole, um verdadeiro gênio. Lilith os teletransportou de volta para o castelo, abrindo suas portas com estrondo, entrando carregando Gabriel, inconsciente, porém vivo. Os guardas e servos olhavam entre si chocados, o garoto havia retornado coberto de sangue, não apenas dele, mas de dezenas de orcs. No salão do castelo, o povo reunido começou a murmurar.
— Ele voltou... — Sussurrou uma empregada.
— Sobreviveu ao covil inteiro? — Espantou-se uma nobre.
— Um garoto... sozinho... — Completou outro, sem acreditar.
Os pais de Gabriel, Kalchas e Astradamas, abriram caminho entre a multidão, o coração apertado. Ao vê-lo inconsciente, Astradamas correu até ele, segurando-lhe o rosto.
— Meu filho... — lágrimas escorreram em seus olhos, misturando alívio e orgulho.
Kalchas, com os punhos cerrados, reprimiu o choro.
— Seu idiota... Gabriel... — Murmurou em voz baixa. — Você vingou a todos nós...
No salão do castelo, Gabriel repousava em uma maca improvisada, até que o rei apareceu, rodeado por cavaleiros e conselheiros. O silêncio tomou conta, ele observou o jovem, coberto de cicatrizes, e ao lado de Kaelis e seu grupo.
— Um aprendiz, dizem... — A voz do rei ecoou firme. — Mas o que vejo diante de mim não é um aprendiz, é um guerreiro que carregou sozinho o peso de uma guerra.
O rei ergueu sua espada cerimonial e a pousou diante do corpo de Gabriel, que, mesmo exausto, despertou, se ajoelhando diante do rei devagar.
— Gabriel, filho de Kalchas e Astradamas. Em nome do reino de Aethernys, eu vos concedo o título de Aprendiz da Herói, sendo um herói em iniciação. Que tua coragem seja registrada em nossas crônicas.
Mesmo Kaelis sendo a única a ser chamada de heroína, todos os membros de seu grupo têm o título de herói, mas Kaelis é a única a ser chamada por esse título por ser a mais forte dentre eles. Aplausos e aclamações tomaram o salão. Gabriel, trêmulo, apenas inclinou a cabeça, com um sorriso cansado, enquanto os demais o ajudavam a se deitar novamente.
Mas a celebração foi breve. Assim que o rei se retirou, vieram os companheiros.
Aeron foi o primeiro a se aproximar, os braços cruzados.
— Seu idiota. — disse, ríspido. — Ir sozinho contra um ninho de orcs? Você podia ter morrido.
Lilith suspirou fundo, ajeitando os cabelos.
— Não sei se te elogio ou se te dou um tapa, eu já sabia que você tinha um poder latente e um dom impressionante... Mas enfrentar centenas de orcs...
Amara, com a voz doce, mas firme, segurou sua mão.
— Você... me assustou, Gabriel, não faça isso de novo, se não te dou outro cascudo.
Alastor manteve-se em silêncio por um tempo, o encarando, e acenando com a cabeça.
Kaelis, pousou a mão sobre o ombro do garoto.
— Você provou sua determinação, mas precisa entender, um herói não luta para morrer sozinho, ele luta para viver... e proteger os outros.
Por último, Riven, que havia sido o mais crítico antes, olhou para ele com um misto de respeito e incredulidade.
— Você demonstrou a coragem de um verdadeiro herói lá, assim como a força de um, me perdoe por tudo o que eu fiz a você anteriormente.
Gabriel tentou rir, mas tossiu sangue, sendo novamente deitado por Amara.
— Vocês falam muito... deixem eu descansar um pouco... — murmurou antes de desmaiar outra vez.
Enquanto o castelo vibrava com a vitória, nas profundezas da caverna devastada, passos leves ecoavam entre os cadáveres mutilados dos orcs. Uma mulher de longos cabelos negros, pele pálida e olhos que cintilavam em dourado, caminhava descalça sobre o sangue.
Ela se ajoelhou diante do corpo do soberano dos orcs, passando a mão carinhosamente sobre seu rosto morto.
— Meus filhos... — sussurrou com tristeza. — Ceifados sem piedade.
Ergueu-se lentamente, olhando ao redor, e murmurou para si.
— Teria isso sido obra “dele”? Tens exterminado minhas proles em cada canto do mundo, em cada dimensão...
Mas então, seus olhos se estreitaram, um arrepio percorreu o ar.
— Não... — Disse em tom baixo, mas firme. — Desta vez, não foi tua mão, foi algo diferente... algo humano... ainda sim perigoso.
Ela abriu a palma da mão, e um portal negro, tomou forma diante dela, mas antes de atravessá-lo, lançou um último olhar para os mortos ao seu redor.
— Quem ousa ameaçar meus filhos... enfrentará a fúria de sua mãe.
E então, desapareceu dentro do portal, sumindo como se nunca tivesse estado ali.
O silêncio retornou à caverna, mas a sensação de que algo muito maior acabara de ser despertado pairava no ar. De volta ao castelo, Kaelis ficou inquieta por um momento.
— Espera um segundo Lilith, você disse que não conseguia nos levar até Gabriel, então como apareceu lá em seguida, junto de Amara, Alastor e Aeron. — Kaelis questionou.
— Eu senti uma grande explosão de Éter vinda do local, provavelmente de Gabriel, seu Éter deve ter sido ativado o levando ao extremo. — Respondeu Lilith, refletindo sobre Gabriel.
— Então é oficial, o Gabriel realmente se juntará a nós. — Comentou Riven.
— Sim, e se você implicar com ele novamente, eu vou chutar sua bunda! — Retrucou Amara.
Riven apenas riu concordando. Gabriel já em seu quarto, após a batalha no ninho dos orcs, marcado pelos golpes, repousava em sua cama, enquanto o silêncio da noite o envolvia, abrindo os olhos em meio ao sonho, tendo sua segunda visão, porém mais caótica que a primeira.