Alastor viu nos olhos da irmã o pânico e sentiu a impotência.
As Sombras da Ruína reagiram a esse sentimento, se tornando uma sombra viva que
subiram por seus braços, cobrindo seu corpo como uma segunda pele.
Num instante, as adagas haviam se fundido àquela massa negra, se tornando uma armadura
fluida com lâminas retráteis saindo dos pulsos e bordas cortantes ao redor de todo o corpo,
com uma aura púrpura. As fendas do elmo revelavam olhos reluzentes num vermelho
profundo. A letalidade de seu Thyr condensava-se em cada fibra daquela armadura,
tornando-o uma lâmina viva, tão silenciosa quanto a morte.
— Al... — Amara murmurou, surpresa.
— O segundo despertar... — Mary comentou surpresa.
— Eu me sinto... tão vivo — disse Alastor, erguendo-se. — Sinto... o Aethryon fluindo.
— Então você também despertou no desespero, Alastor — Gabriel expressou.
— Gabriel, você pode até ser o próprio Sol, mas quanto maior a luz... — Alastor avançou
como uma sombra viva. — ...maior a sombra!
Os dois colidiram. As labaredas liberadas pela Incisão Solar extinguiam-se no choque contra
as lâminas de Alastor, eles trocaram golpes rápidos, Gabriel tinha a vantagem, mas Alastor
sorria.
— Mary, eu te agradeço mais uma vez — Disse Alastor, bloqueando um golpe.
— Hm? Por quê? — Perguntou ela, à distância.
Mesmo defendendo-se com dificuldade, Alastor estava confiante.
— Porque... — Bloqueou outra investida que o lançou para trás, mas correu novamente. —
...quando me despertou após o incidente de Rafael... — Aproximou-se de Gabriel, que
preparava um corte. — ...você removeu todo o rancor e ódio das almas que eu ceifei pela
minha irmã, as almas que me devoravam junto ao meu Éter... — Ao entrar no alcance do
corte, sua sombra ergueu dezenas de mãos negras que restringiram Gabriel. — ...e agora eu
às controlo! — Rugiu, atravessando a lâmina no flanco de Gabriel, evitando pontos vitais.
O golpe ativou novamente a Ruína, o sangramento foi imediato, as ranhuras negras
expandindo-se pelo corpo de Gabriel, as rachaduras estavam lentamente destruindo as
células de Gabriel.
— Desista, Gabriel! — Gritou Alastor.
Por um instante, Gabriel permaneceu imóvel, até uma aura magenta começar a emanar de
seu corpo.
— Gabriel! — Kaelis exclamou.
Ele ergueu o rosto, seus olhos agora ardiam com uma chama branca envolto por seu Éter,
Alastor afastou-se de imediato, sentindo cada célula e até as Sombras da Ruina gritarem em
alerta
“Morte!” Ecoou por sua mente.
Gabriel avançou. O arco solar em suas costas apagou-se repentinamente, assim como todas
as chamas ao redor.
— Mary! — Gritou. — Eu não sei o que vai acontecer após isso, então peço que faça o
possível para salvá-lo.
— Ora seu... acha mesmo que vai me vencer? — Alastor investiu.
Todos estavam tensos.
— Ei, não é melhor intervir? — Perguntou Aeron.
Mary permaneceu em silêncio.
— Está tudo bem, eu posso salvá-los. Dentro deste domo nenhum de nós pode morrer. —
Respondeu Mary.
Gabriel cortou novamente em direção a Alastor, imbuindo a lâmina com Impetus, liberando
em um arco todo o Éter e as chamas geradas durante a batalha. Alastor tentou bloquear
usando Aegis, criando um escudo negro, mas o golpe rasgou sua armadura de sombras junto
a seu corpo, cauterizando as feridas no mesmo instante. Nenhuma gota de sangue caiu. A
armadura se desfez e Alastor tombou inconsciente.
— E o vencedor é Gabriel! — Declarou Mary.
Amara correu até o irmão, acompanhada por Mary, que curou suas feridas de imediato.
— Gabriel! Na próxima rodada eu vou vencer... e depois vou vingar meu irmão! — Amara
prometeu, com o olhar determinado.
— Foi mal, Amara — Desculpou-se Gabriel, caminhando lentamente, até perder a
consciência e desabar também.
— Gabriel! — Kaelis gritou, mas Mary a conteve.
— Fica tranquila, ele só se esgotou pelo despertar, eu não imaginei que fosse consumir tanta
energia deles. — Disse ela.
Mary foi até Gabriel, curando-o também e levou os dois para fora do pátio, os carregando
em suas asas, onde os demais assistiam, Mary estalou os dedos. O pátio, marcado por
crateras e cortes, começou a se recompor pedra a pedra, as rachaduras se fechando num
mosaico de luz até que a arena parecesse nova outra vez.
— Uau, o pátio se reconstruiu novamente, então não precisamos nos segurar, não é mesmo?
— Perguntou Aeron.
— Não se preocupem — Disse Mary, com um sorriso breve. — Esse é o propósito da
barreira, suportar vocês.
— Esses dois se empolgaram bastante — Comentou o rei, que se aproximava acompanhado
de um guarda e um conselheiro.
— Majestade! — Exclamou Kaelis, curvando-se junto aos outros e a Mary.
— Deixem de formalidades — Pediu o rei. — Vim assistir de perto e devo dizer que me
interessei bastante pelo confronto entre Gabriel e Alastor. Estou ansioso para a próxima
partida — Disse, pousando o olhar sobre Amara e Riven. — Por favor, nos proporcionem um
embate tão emocionante quanto o último.
Amara ajudou Lilith a acomodar o irmão inconsciente ao lado de Gabriel. O brilho tênue da
Verdade da Alma já tremia em sua mão como um coração impaciente. Ela ergueu o olhar
para Riven, que girava a Flecha Versátil entre os dedos, os olhos faiscando expectativa.
Mary bateu palmas uma vez, atraindo todos os olhares.
— Recuperem o fôlego, agora é a vez do próximo embate.
O rei recostou-se na varanda improvisada, com um sorriso curioso no rosto.
— Amara, Riven... o pátio é de vocês.
Os dois se aproximaram do centro. Uma brisa quente ergueu grãos de areia e pó das marcas
deixadas pelo duelo anterior.
— Seu irmão não vai querer me matar se eu te machucar, né? — Provocou Riven, deixando
que um pequeno raio escapasse entre os dedos.
— Você vai estar de joelhos antes mesmo de me fazer soar. — retrucou Amara, seus olhos
ganharam um brilho vermelho.
Mary ergueu a mão.
— Quero ver controle, adaptação e criatividade. Preparados?
— Sempre. — disse Riven.
— Mais do que nunca. — Respondeu Amara.
— Então... comecem! — anunciou Mary.
O ar estalou quando os dois se moveram ao mesmo tempo. Uma explosão de luz e plasma
iluminou o pátio reconstruído. Riven saiu da fumaça disparando uma enxurrada de flechas,
Amara desviou, erguendo o cajado em sua direção e conjurando um pilar de luz que o
queimou no mesmo instante. Avançando até ele, Riven reagiu, o arco se transformou em
lâmina. Assim que o clarão se dissipou, ele desferiu um corte, mas Amara teceu um escudo
que o bloqueou e o tocou com a ponta do cajado, fazendo surgir uma linha entre eles. Riven
se afastou, preparando-se para disparar contra Amara, mas quando ergueu a arma, seu
corpo ficou imóvel.
— Mas o quê...? — Perguntou, confuso, forçando-se a mover, mas sem sucesso.
A Verdade da Alma de Amara ressoava com ela.
— Agora você é minha marionete. — Afirmou, estendendo o braço direito, Riven mimetizou
seus movimentos, largando o arco.
Transformado em refém, Riven assistia enquanto Amara usava o cajado para gerar portais de
luz ao seu redor, de dentro deles surgiam condutos luminosos, semelhantes a tentáculos de
fio, que o golpeavam repetidas vezes até ele cuspir sangue.
— Isso é tudo, Amara? — Debochou.
Os olhos de Amara emanavam uma luz intensa, ela conjurou outra torre de luz que o
queimou novamente, fazendo-o cair de joelhos.
— Eu mal começei. — Ela respondeu, com um sorriso sutil em seu rosto.
Riven estava de joelhos, ofegante, o corpo ardendo com as queimaduras. Amara caminhou
até ele, apontando o cajado, carregando uma ataque de luz pronta para disparar.
— Você desiste? — Perguntou ela.
Riven bufou, rindo.
— Não devia se aproximar tanto assim. — Alertou, levantando levemente o dedo em sua
direção. — Ensis!
A linha que o controlava foi cortada, ele tocou a Flecha Versátil no instante em que Amara
disparou à queima-roupa, recuando com um salto logo depois. Antes da fumaça se dissipar,
Riven correu em sua direção, faíscas percorriam todo seu corpo enquanto mirava uma flecha
de calor concentrada. Mas o arco oscilava e ressoava com ele, como quem pedia para se
controlar. Riven acalmou a mente por um instante, e o arco se tornou um raio irregular,
enquanto três pequenos fragmentos de plasma surgiram ao redor de seu corpo, orbitando-o
como satélites, enquanto as faíscas ainda corriam por ele e os olhos faiscavam.
Gabriel e Alastor recobraram a consciência assim que sentiram o despertar de Riven.
— Mas o quê? — Alastor acordou, sentindo uma enorme quantia de Éter e vendo Riven
enfrentando Amara. — Droga, perdi a luta da minha irmã. VAI AMARA, ACABA COM ELE! —
Exclamou.
Os demais se espantaram, vendo Riven, uma pessoa calma e quieta nesse estado, agitado,
enquanto Gabriel assistia focado, Alastor se virou ao perceber que ele também estava
acordado ao seu lado.
— Ei, Gabriel, você me superou, hein. — Disse ele.
— Que nada, você me encurralou e fez minha Afinidade ativar, e se não fosse um combate
controlado, você teria facilmente arrancado minha cabeça fora. — Riu Gabriel.
— Deixa disso, garoto. — Interveio Aeron. — Você venceu por mérito e força própria.
Orgulhe-se disso.
Gabriel assentiu sorrindo, voltando a atenção ao embate.
Riven disparou como um raio, Amara recuou, atacando-o com tentáculos de linha imbuídos
de luz, mas os três satélites dispararam sozinhos e os incendiaram. Lilith sentia a Verdade da
Alma vibrar, como se a alertasse. Riven disparou um raio em direção a Amara, rasgando os
céus e levantando uma enorme nuvem de poeira, o estrondo percorreu todo o reino,
assustando até os civis.
— Ei... isso agora foi um raio? — Perguntou um mercador, confuso, enquanto suas frutas
caíam com o tremor.
— Raio? Mas os céus estão limpos. — Respondeu a cliente.
— Isso foi um terremoto. — Murmurou uma civil, segurando a mão do filho firmemente.