O rei se levantou por reflexo.
— Eles vão derrubar o castelo se continuarem assim. — Afirmou ele.
Riven sorriu de lado.
— E isso que eles ainda estão se segurando. — Afirmou ele, o rei o olhou espantado.
No centro, entre poeira e estilhaços de Éter e Thyr, Kaelis e Aeron se encaram, ambos
sorrindo, e com os olhos brilhando.
— Finalmente... — Murmurou Aeron.
— Agora a luta começa de verdade — Respondeu Kaelis, firme, os pés firmes, a lança baixa,
pronta para outra investida.
Mary abaixou lentamente a mão, o olhar atento aos dois.
— Continuem — Disse apenas.
A tensão, que antes era expectante, agora era pura eletricidade, Kaelis saltou recuando,
apertando firmemente sua lança, o Thyr ressoando com ela.
— Entendi... — Murmurou Kaelis, como se respondesse alguém.
Ela se preparou para arremessar a lança em direção a Aeron, o Thyr e Éter que emanava era
sufocante, abalando a própria barreira de Mary, fazendo alguns soarem frio, e o rei
engolindo seco.
— Ei.. tá falando sério mesmo? — Aeron disse apresentando uma preocupação.
— Foi mal, mas eu to empolgada, e eu sei que você vai conseguir sobreviver a isso. —
Respondeu Kaelis, arremessando a lança, que rasgava o ar em direção a Aeron.
A Estrela Singular saiu das mãos de Kaelis como um cometa, deixando um sulco no ar. A
pressão do Thyr era tão densa que até a barreira de Mary tremeu. Aeron ergueu o Égide das
Mentes para bloquear, o impacto fez a barreira estremecer. O ar explodiu num estrondo
seco, levantando uma nuvem de poeira que encobriu tudo. As colunas translúcidas da
barreira vibraram, Mary, e os demais tiveram que se segurar para não serem empurrados
para trás pela onda de choque.
— Cacete! — Exclamou Alastor, sendo repreendido por Amara, que acabará de despertar,
junto a um cascudo.
— Olha essa boca irmão.
Alastor se virou a vendo consciente novamente, abraçando-a, Riven se virou para os dois.
— Sem ressentimentos Amara? — Perguntou.
— Humph. — Amara virou o rosto. — Da próxima eu acabo com você, pode ter certeza
disso.
Quando a poeira começou a assentar, Aeron estava ajoelhado, o escudo ainda erguido. A
lança cravou-se no solo a poucos centímetros de distância dele, enterrada como se fosse um
pilar. Um fio de suor escorreu por seu rosto.
— Que arremesso... — Murmurou Gabriel, com um meio sorriso.
Kaelis estendeu a mão. A Estrela Singular vibrou no chão, desprendeu-se do solo e voltou
para a palma dela com um puxão suave. A lança parecia pulsar junto a ela, como se
reconhecesse a intensidade da dona. Aeron se levantou, seu olhar estava sério agora, Kaelis
girou a lança com naturalidade e abriu um leve sorriso.
— Acho que invés de O Berserker, você pode se tornar A Muralha de Aethernys agora. —
Comentou Kaelis.
O Éter e Thyr ao redor deles começaram a se condensar de novo, formando pequenas
distorções no ar. Mary estreitou os olhos, reforçando a barreira com mais uma camada de
luz.
— Eles estão aumentando de novo... — Murmurou Lilith.
O rei, de pé, inclinou-se para frente.
— É isso que eu queria ver...
No centro, Aeron bateu o escudo no chão, reverberando um som profundo pelo pátio, junto
a uma coloração vermelha, e Kaelis baixou a lança, os olhos brilhando, um passo à frente do
outro, como se estivesse sendo atraída em direção a Aeron, até que ela disparou em direção
a ele.
— Parece que funcionou. — Murmurou Aeron.
— A postura da Kaelis mudou, ela parece estar mais desesperada. — Expressou o rei.
— Essa é uma das habilidades do Égide das Mentes, atrair a atenção e foco dos inimigos ao
redor para o escudo, ele provavelmente está fazendo isso. — Explicou Mary.
Aeron sorriu de canto e respirou fundo, preparando para golpear Kaelis com a Severidade da
Dor. No último instante ela torceu o quadril e girou a Estrela Singular na horizontal,
desviando a ponta do golpe de Aeron com um estalo seco. O impacto gerou outra onda de
choque. O chão afundou sob os pés dos dois, fragmentos de pedra saltaram para todos os
lados e a barreira de Mary brilhou mais forte, absorvendo a pressão. O rei apoiou ambas as
mãos no parapeito improvisado, sem conseguir esconder o brilho nos olhos.
— Ele está tentando controlá-la com a atração do Égide... mas ela ainda pensa. —
Murmurou o rei.
Kaelis usou a força do choque para girar sobre o próprio eixo e contra-atacar de baixo para
cima, a ponta da lança descrevendo um arco ascendente que fez Aeron recuar um passo, o
escudo chiando ao receber o impacto.
— Isso, Kaelis! — Gritou Lilith, empolgada.
O pátio inteiro parecia respirar junto aos dois, Aeron cerrou os dentes, apertando
firmemente seu machado e mantendo o escudo erguido próximos ao seu peito, sentindo-os
reverberar através dele.
— Ela é forte pra cacete, eu não sei se consigo... — Murmurou Aeron.
Quando estava prestes a desistir, o Égide das Mentes emanou um brilho vermelho
alternando entre laranja, fazendo Aeron se sentir mais confiante, entendendo que elas
queriam que ele continuasse, que ele lutasse, ele se ergueu, caminhando lentamente em
direção a Kaelis, enquanto suas armas brilhavam sem dar indícios de que cessaria, em todas
as cores possíveis.
— Ele está... despertando? — Perguntou Amara.
— Sem ter sido levado ao limite? — Completou Gabriel.
O brilho explodiu num mosaico de cores. O Égide das Mentes se desfez em fragmentos de
luz que escorreram por seus braços e peito, soldando-se numa armadura cinza-pedra. O
cabo e a lâmina da Severidade da Dor renasceram maiores, mais largos, atrás dele, um arco
translúcido se abriu com dezenas de cartas multicoloridas, girando lentamente como
pétalas. Cada uma trazia um símbolo distinto, emoções, instintos e sentidos. Uma carta
laranja desceu do arco e fundiu-se ao peito da armadura. O núcleo central brilhou, pulsando
como um coração. Aeron sentiu a excitação inundá-lo, os sentidos dilatados, podia ouvir
cada grão de poeira caindo, cada respiração na arquibancada. Ele disparou. Num instante já
estava diante de Kaelis, golpeando de cima, de lado, de baixo. O ritmo era brutal e irregular,
o impacto fazia o chão estalar e a barreira de Mary reverberar. Mas Kaelis desviava. Às vezes
um passo curto, às vezes um giro largo, a Estrela Singular interceptava os ataques com
ângulos impossíveis, abrindo linhas de distorção no ar que deixavam rastros cintilantes. O
núcleo na armadura de Aeron brilhava mais forte, emitindo uma atração psíquica que mexia
com o pulso de Kaelis. Por um segundo ela sentiu raiva, outro segundo uma calma falsa. O
campo do Égide tentava dobrar sua mente, mas seu forte Thyr rompia a manipulação mental
de Aeron. Ela respirou fundo, manteve a postura, e então contra-atacou. A ponta da Estrela
Singular descreveu um arco curvo. Pequenas distorções gravitacionais saíram do golpe, finas
como lâminas de vidro, cortando a armadura de Aeron em faíscas cinzentas. Ele recuou um
passo, sentindo a vibração atravessar-lhe o corpo.
Mary estreitou os olhos.
— Ela está forçando o próprio Thyr para não se deixar arrastar... — Murmurou.
Kaelis ergueu a lança na vertical. Por um instante, o ar ao redor dela ficou pesado, como se a
gravidade tivesse se curvado para dentro de círculos concêntricos, criando um “poço” que
oscilava. A areia do pátio deslizou alguns centímetros, pequenas pedras começaram a
flutuar e depois caíram, como se um pulso invisível tivesse passado. A Estrela Singular
pulsou em sua mão. Cada giro que Kaelis fazia criava uma zona onde o peso aumentava ou
desaparecia de repente.
— Ela... está despertando também... — Comentou Lilith.
Kaelis inclinou o corpo, os olhos brilhando num azul profundo. Com um único passo ela
mudou a direção da própria gravidade e “caiu” para o lado, desviando do machado de Aeron
com uma velocidade surpreendente, reaparecendo no ângulo cego dele. A Estrela Singular
cortava um semicírculo que deixou uma onda no ar. A gravidade vetorial, sua nova técnica,
não sugava, não esmagava, mas redirecionava tudo, peso, trajetória, ritmo. Aeron ergueu o
escudo no último instante, sentindo o impacto vibrar como um trovão. O núcleo da
armadura piscou, uma nova carta descendo do arco, desta vez azul, tentando ajudá-lo a se
adaptar. A vibração do golpe fez Aeron recuar mais um passo. A armadura soltou fagulhas de
luz onde a Estrela Singular havia tocado. Kaelis respirou fundo, girando a lança sobre a
palma, o olhar fixo no núcleo brilhante no peito de Aeron.
— Não vou ceder... — Resmungou Aeron.
A Estrela Singular começou a pulsar em sintonia com o Thyr dela, o cabo ganhando uma
luminosidade azul-acinzentada. Cada pulsar fazia a poeira do pátio subir e cair de novo,
como se o peso estivesse sendo reescrito a cada batida do coração. Mary franziu o cenho.
— Isso não é um despertar... — Murmurou. — Ela está extraindo tudo o que a arma pode
dar.
Mary se surpreendeu com Kaelis, ela extraia o potencial de sua arma sem precisar de um
despertar, até mesmo Aeron estava perplexo.
— O que é isso? — Aeron apertou os dentes.
A Estrela Singular pulsava nas mãos de Kaelis. A lança começou a vibrar, o cabo iluminado
pelo Thyr. Mary estreitou os olhos.
— Isso não é um despertar... ela está extraindo tudo o que a arma pode dar — murmurou.
Num giro rápido, Kaelis mudou a Estrela Singular para uma nova forma de espada. O cabo
encolheu, a lâmina engrossou, cada golpe agora carregava um vetor de peso que tornava os
impactos mais densos e cortantes. Aeron ergueu o machado, sentindo o choque atravessar
seus braços a cada golpe. Kaelis recuou e, com outro impulso, fez a Estrela Singular assumir
a forma de uma lâmina chicote. A lâmina se estendeu em segmentos flexíveis, moldando
arcos pesados no ar. Cada estocada parecia leve até tocar, e então explodia num golpe de
toneladas. Aeron tentou contra-atacar, mas a oscilação do peso travava seus movimentos.
— Ela não só resiste ao Égide... ela está modulando o peso da própria arma! — Gabriel
comentou surpreso.
Kaelis voltou à Forma Espada Vetorial, concentrando o vetor de peso no gume. Um corte em
arco partiu o ar, a barreira tremeu como água. Aeron ergueu o machado para bloquear
institivamente , e mesmo assim foi empurrado para trás, abrindo um sulco no piso do pátio.
O rei respirou fundo.
— Ela ainda não despertou... e já consegue isso tudo?
Mary manteve a mão erguida, reforçando a barreira.
No centro, Kaelis respirava devagar, a Estrela Singular agora imóvel na forma de espada, seu
Thyr e Éter queimavam em silêncio. O impacto do último golpe ecoou como um trovão.
Aeron foi lançado alguns metros para trás, os pés arrastando pelo piso de pedra até que ele
cravou o machado no chão para se segurar. Aeron arfava. O núcleo da armadura em seu
peito pulsava freneticamente, chamando mais cartas do arco atrás de si, mas ele sabia, não
adiantava. Seus músculos gritavam, seu Thyr e Éter queimavam em chamas, e, ainda assim,
ela estava em outro patamar. Ele ergueu o olhar para Kaelis, que avançava firme, olhos
azul-profundo cintilando, cada passo dela pesando mais do que o anterior. Aeron sentiu o
machado vibrar em sua mão, quase como se as próprias armas estivessem pedindo para
continuar.
— Eu sei, eu sei que vocês querem que eu lute mais. — Murmurou, com a voz rouca, quase
um sussurro. Ele tocou o núcleo da armadura com a mão livre. — Mas olhem pra ela... não
importa o quanto eu tente, não importa quantas cartas vocês me deem... eu não consigo
vencê-la.
O arco de cartas acima dele oscilou, as cores oscilavam, como se hesitassem. Aeron fechou
os olhos por um instante e deixou um sorriso cansado escapar.
— Me desculpem, vocês só queriam que eu acreditasse em mim, que eu tentasse, e eu
tentei. — Ele respirou fundo, abaixando o machado devagar. — Obrigado por lutarem
comigo. O núcleo da armadura brilhou suavemente em resposta. As cartas não desceram
mais, mas começaram a girar em ritmo mais lento, como um coro silencioso que aceitava a
decisão dele.
O peso que o pressionava pareceu aliviar por um instante, quase como um gesto de
compreensão. Kaelis parou a poucos metros de distância, a Estrela Singular ainda firme em
mãos. Mas ela não atacou. Seus olhos fitaram Aeron e, pela primeira vez, suavizaram. O
silêncio caiu sobre o pátio. Mary relaxou levemente a barreira, e o rei, de pé, murmurou
quase para si mesmo:
— Ele perdeu... mas não fracassou.
Aeron, ofegante, cravou a ponta do machado no chão, usando-o de apoio, e riu baixo.
— É... vocês tinham razão, valeu a pena tentar. Eu desisto. — Declarou Aeron.
Após sua rendição, ele caminhou lentamente em direção a Kaelis, sua armadura voltando
novamente para a forma de escudo, junto a seu machado retornando ao tamanho e forma
anterior.
— A Vencedora é Kaelis. — Anunciou Mary.
— Por mais que eu tentasse e insistisse. — Ele hesitou por um instante. — Eu não
conseguiria derrotar a Mais Forte de Aethernys, e eu sei disso. — Disse ele estendendo a
mão em sinal de respeito.
Kaelis apertou sua mão.
— Você lutou bem Aeron, ou melhor, A Muralha de Aethernys. — Respondeu ela.
A poeira ainda dançava sob o ar quente, e o sol começava a descer no horizonte, tingindo o
chão com tons alaranjados. Aeron e Kaelis deixaram o campo lado a lado, e, por um instante,
o silêncio pareceu uma recompensa. Mary, observando tudo respirou fundo e estalou os
dedos. O solo à frente dela tremeu, rachaduras se abrindo como raízes de luz azulada. O
espaço antes destruído pela luta se reergueu, pedras se encaixando, colunas sendo
reconstruídas, o chão se alisando como se o tempo voltasse atrás.
— Pronto... — Murmurou ela, ajeitando o manto e estalando o pescoço. — Lilith, espero
que esteja pronta, porque eu...
Antes que pudesse terminar, um dos guardas atravessou os portões correndo, o capacete
torto e a respiração ofegante.