Uma sombra cruzou o rosto de Morgana.
— Eles ainda estão aquecendo, o final dessa luta está muito longe...
E então, ao fundo, como um sussurro vindo do próprio planeta que morria,o chão inteiro
começou a se inclinar, o mundo estava cedendo, e Gabriel e Kaelis nem sequer pareciam
perceber.
— Você ficou bem mais forte mesmo Gabriel. — Kaelis o elogiou, cuspindo sangue, junto a
um dente quebrado. — Eu estou ficando empolgada. — Afirmou, com um sorriso malicioso.
Gabriel estava em um estado de concentração perfeito, as palavras de Kaelis não o
alcançaram.
Durante o treinamento de Gabriel com Ygerna, a alguns anos passados.
“Gabriel com aproximadamente 16 anos, enfrentava Ygerna, seus movimentos estavam mais
refinados, Ygerna o poliu como um diamante bruto nesses últimos anos.
— Você está melhor garoto. — Afirmou ela, bloqueando Gabriel com um graveto de madeira
imbuído em Impetus e Aegis. — Devo admitir, foi genial essa ideia de juntar ambos Impetus e
Aegis nessa combinação... — Ela elogiou, golpeando a frente.
Gabriel se esquivou do ataque, o golpe acertou uma enorme e rígida árvore atrás dele, que
tombou com o golpe de Ygerna.
— Você já está ofegante Gabriel... — Ela se decepcionou.
— Você está definitivamente em outro patamar mestra. — Ele arfava, enxugando o suor de
seu rosto. — Eu ainda não estou nem perto.
Ygerna fincou o graveto no chão com um leve gesto e o encarou fixamente.
— Gabriel... — Bufou ela. — Você se subestima demais.
Gabriel a encarou sem entender.
— Durante sua luta contra Alastor e Riven, você por um momento entrou em um estado de
concentração e foco extremos. — Explicou ela.
— Fluxo... — Respondeu ele. — Eu li algo sobre.
Ygerna então estalou os dedos, e o mundo ao redor deles perdeu cor por um instante, não
porque a realidade havia mudado, mas porque a percepção de Gabriel havia sido arrancada
de sua zona comum.
— Você o chama de Fluxo... mas isso é simplório demais. — Ela corrigiu, caminhando
lentamente ao redor dele. — O que você tocou naquele dia foi algo muito mais profundo. Um
estado onde corpo, Éter e Thyr não se separam... onde intenção e movimento se tornam a
mesma coisa.
Ela parou diante dele.
— Esse estado, Gabriel, é quando você deixa de pensar e começa a existir, na frequência do
combate.
Gabriel sentiu o ar vibrar ao redor dela, como se o mundo tivesse um ritmo oculto, uma
cadência silenciosa, Ygerna sorriu, sabendo que ele havia percebido.
— O nome disso... — Ela disse, erguendo o graveto — ...é a Zona Suprema.
— Zona Suprema? — Gabriel murmurou.
— Quando seu Thyr, seu Éter e seu instinto alinham-se em um único ponto, o corpo reage
antes da mente, você lê o fluxo da intenção antes que ela se torne ação, você lê o curso de
todas as coisas.
Ela bateu o graveto no chão.
— Dentro desse estado, não há hesitação, medo ou dúvidas, só existe o passo seguinte, o
golpe inevitável.
— Mas como... como eu entro nele? — Gabriel perguntou.
Ygerna aproximou o rosto do dele.
— Pare de tentar controlar tudo. — Disse em voz baixa. — Deixe que seu corpo se mova
antes que sua cabeça acompanhe, abandone o “eu deveria”, o “e se”, o pensamento
consciente.
— Então... é só agir?
— Não. — Ygerna sorriu. — Seja.
Ela se afastou e ergueu o graveto outra vez.
— Entre na Zona quando seu coração e sua lâmina tiverem o mesmo pulso, quando você
deixar de lutar contra o oponente e passar a lutar dentro de sua mente.
— Da mente dele? — Gabriel franziu o cenho.
— Sim. — Ygerna confirmou. — Você não lê o ataque, você lê a intenção que antecede o
ataque, a micro emoção, o micro impulso, a ondulação de Thyr. Você se torna parte do
movimento do inimigo, dançando na mesma música, mas pisando antes dele.
Ygerna respirou fundo.
— Esse estado não é para durar. É para decidir.
— Decidir... uma luta?
— Não. — Ela murmurou. — Decidir um destino.”
Gabriel, no presente, encarava Kaelis sem ouvir sua provocação, seu olhar queimava com
absoluta presença, e algo dentro dele finalmente se alinhou, ele entrou na Zona Suprema, seus músculos
pareciam relaxados, sua postura e caminhar, como se ele não estivesse focado, como se
fosse um amador, mas através da transmissão, Ygerna sentia que algo nele havia mudado.
— Ele alcançou... — Murmurou ela.
Gabriel deu um único passo, a poeira sob seus pés sequer teve tempo de reagir, ela
simplesmente deixou de existir, esmagada por uma força gravitacional minúscula, mas
precisa, um resquício involuntário de seu Éter em perfeita sincronia. Seus movimentos
pareciam relaxados demais, quase negligentes... mas cada fibra de seu corpo operava num
ritmo que transcendia intenção ou pensamento.
— A Zona Suprema. — Riven comentou através da transmissão. — O ápice da concentração
absoluta.
Kaelis avançou primeiro, agressiva, girando a Estrela Singular em sua forma de alabarda. O ar
se rasgou em três linhas de vácuo, uma técnica veloz o bastante para obliterar montanhas,
Gabriel simplesmente se moveu, ele não desviou, ele chegou antes do golpe existir,
posicionando o antebraço onde a alabarda passaria, no instante em que a ela surgiria
naquela trajetória, para quem assistia, parecia vidência, para Gabriel, era apenas o mundo
seguindo um fluxo natural que ele finalmente compreendia. Kaelis apertou o cabo da Estrela
Singular e desapareceu, ela ressurgiu atrás dele com um chute, capaz de inclinar a placa
tectônica local, mas Gabriel virou o rosto antes de ela sequer materializar o golpe,
inclinando o corpo com a suavidade de uma folha caindo, o chute passou por ele como
vento, um vento que abriu uma fenda luminosa no planeta.
— Que irritante, Gabriel... — Kaelis rosnou, recuando ao perceber que seu ataque fora
interceptado antes de começar. — Não defende... você simplesmente está onde tem que
estar.
Gabriel não respondeu, seu olhar permanecia sereno, profundo e pesado, o Fluxo o envolvia
como um manto invisível, Vivian, observando à distância, arregalou os olhos.
— Eles estão... destruindo o planeta... e ele é vinte vezes mais resistente que a Terra... —
murmurou, sem acreditar. — E isso é só o começo?
Mary, ao lado, estava pálida.
— O que... o que está acontecendo com o Gabriel...?
Ygerna, assistindo pela transmissão, apertou o punho.
— Ele alcançou a Zona...
O céu, já fraturado pelas ondas gravitacionais da batalha, começou a mudar de cor,
fragmentos de nuvens eram distorcidos, enquanto o sol, enorme, pesado, quase ofegante
sob tanta manipulação, escalava lentamente seu caminho até o meio-dia.
11:58.
— Dois minutos... — Gabriel murmurou.
O planeta definhava, montanhas derretiam, as placas tectônicas tremiam como vidro prestes
a despedaçar, mas, acima de tudo, uma presença começou a se impor, discreta no início,
mas ganhando forma como um rugido escondido atrás da respiração do mundo, Ygerna
percebeu primeiro.
— O sol...! — Sua voz vacilou por um instante. — Está quase no zênite...
Vivian arregalou os olhos.
— O Éter Solar dele... vai... aumentar...
Mary completou em um fio de voz.
— Ele vai ultrapassar Kaelis...
Kaelis também sentiu, não o horário, mas o próprio Gabriel, sua postura relaxada mudou, os
músculos dele se retesaram por um segundo, depois se soltaram. O Fluxo vibrava dentro
dele, e agora o sol alimentava cada centelha, a sombra de Gabriel desapareceu. Kaelis
avançou logo após, a alabarda se tornando novamente duas lâminas, que riscavam o espaço
como cicatrizes. A negra devorava luz, a branca cuspia clarões, ela girou, um corte duplo em
forma de eclipse, calculado para esmagar qualquer defesa, mas Gabriel já não estava lá,
impacto das lâminas criou um poço gravitacional que engoliu quilômetros de solo, Kaelis
sentiu uma mão pousar em seu ombro.
— O quê—?!
Gabriel a empurrou para frente com uma força suave, mas irresistível, fazendo seu corpo
perder equilíbrio por um instante, um instante que para Kaelis parecia uma eternidade,o sol
subiu mais um grau.
11:59.
A aura de Gabriel explodiu, dourada, branca, etérea. Seu corpo foi envolvido por um brilho
que oscilava como a coroa de plasma solar. Cada fio de seu cabelo parecia irradiar luz
própria. Seus olhos... profundos, serenos, mas decididos como dois sóis, Gabriel avançou, o
chão sob seus passos desaparecia, queimando, de uma forma que deixava de existir. Kaelis
girou a lâmina negra em um arco devorador, Gabriel segurou golpe com a palma da mão, e a
fechou. A lâmina branca veio na mesma fração de segundo, mas Gabriel inclinou o corpo e
deixou a espada cortar apenas o ar, causando um feixe que rasgou a estratosfera, Kaelis
recuou, pela primeira vez, com o peito arfando.
— Ele... está acima de mim...?!
Gabriel apareceu à frente dela, a luz do quase meio-dia caiu sobre seus ombros como um
manto.
Próximo ao meio-dia, Gabriel surgiu na frente de Kaelis.
— Kaelis. — Sua voz não tremia. — Eu não irei me conter.
Ele desferiu o ataque, era vontade pura, amplificada pela Zona e pelo sol, Kaelis moldou as
lâminas em um escudo singular, e foi empurrada, jogada para trás em um arco colossal, a
pressão do impacto abriu uma rachadura luminosa no espaço atrás dela, quando se
recompôs, Kaelis viu um corte em seu peito, um corte profundo, que a fez tossir e cospir
sangue, Kaelis se enfureceu por um instante, e a gravidade ao redor dela explodiu em
espirais distorcidas. Seus cabelos começaram a crescer, fios se esticando como teias de luz
até ficarem longos, selvagens e totalmente brancos, como uma ruptura na matéria, seus
olhos se tornaram singularidades vivas.
— Ah... então é isso que você queria me forçar a sentir... — Kaelis sorriu, mas seu sorriso
tremia de puro êxtase. — Está tudo distorcido... está tudo... nítido.