Kaelis finalmente despertou, após ser levada ao extremo.
Seus braços e pernas escureceram como a própria expansão do universo, cobertos por
micro-constelações que nasciam e morriam a cada segundo.
O Etherium em sua lança reagiu violentamente, estremecendo, a Estrela Singular se partiu
novamente, em duas lâminas. A lâmina negra, mais longa, tinha entalhes alaranjados que
giravam como um buraco negro real, em seu núcleo, um pequeno horizonte de eventos
pulsava, devorando fagulhas de luz. A lâmina branca, menor, era fina como uma estrela
recém-nascida, irradiando um brilho quase imperceptível de azul e dourado, puro, nítido e
cortante.
Mary bateu a mão na boca, incrédula.
— Ela despertou... Isso... isso é insano...
— Gabriel levou Kaelis ao despertar... — Murmurou Lilith.
Kaelis abriu os braços, as duas lâminas orbitando sua cintura como luas vivas.
— Já que você não vai falar, Gabriel... — Murmurou, sua voz ecoando com múltiplas
camadas gravitacionais. — Eu vou te arrancar uma reação.
Ela desapareceu, Gabriel fechou os olhos. E encontrou o fluxo. O movimento dela, mesmo
dilacerando o espaço ao redor, parecia lento, não importava a velocidade, sua intenção
surgia antes dela mover um músculo, como uma onda pré-existente no tecido da existência.
O golpe da lâmina negra veio diagonal, devorando luz, ele golpeou o núcleo da lâmina de
Kaelis e dissipou a força, guiando o movimento para baixo e quebrando sua postura sem
esforço, ela girou com a lâmina branca, mirando a garganta, Gabriel inclinou o queixo
milímetros, a lâmina cortou o ar, as crateras ao longe começaram a se fundir com a pressão
do embate. Os oceanos ferviam, as cordilheiras se inverteram, e Kaelis, arfando, riu.
— VOCÊ ESTÁ VENDO, NÉ, GABRIEL?! NÃO COM OS OLHOS... COM A SUA HARMONIA!
Ele abriu os olhos.
— Sim.
A resposta simples a fez tremer, aos poucos, Kaelis ajustou sua própria respiração,
sincronizando-a com a dele. Então... pela primeira vez, sentiu um lampejo de algo
semelhante àquele estado, não era Harmonia plena, mas era o suficiente para enfrentá-lo, e
quando ambos avançaram, o planeta finalmente cedeu um pouco mais. E o sol tocou o
zênite.
12:00.
O sol finalmente alcançou seu ponto mais alto, Gabriel atingiu o ápice de sua força, o arco
solar que carregava em suas costas se tornaram asas completamente feitas de chamas
brancas, junto a uma aura que se assemelha a própria coroa do sol, enquanto a Incisão Solar
retomou a forma de uma espada, mas uma espada feita completamente de plasma solar, em
forma de uma lâmina completamente branca, que irradiava calor.
— Sabe Kaelis... — Gabriel quebrou o silêncio, enquanto avançava queimando os céus.
Kaelis recuava, mas Gabriel sempre mirava nos pontos para onde ela corria, mesmo em um
estado de fluxo inferior a Harmonia, ela conseguia impedir diversos golpes fatais.
— ...como você está suportando toda essa temperatura extrema? — Perguntou Gabriel,
descrente.
Kaelis desviou por um fio, o calor da lâmina solar vaporizando o espaço onde seu rosto
estivera um instante antes. Um segundo golpe veio de baixo, e ela o contornou ao inclinar o
corpo para trás, como se o próprio ar a sustentasse.
— Não estou suportando... — Respondeu, a voz firme apesar do corpo tremer levemente.
— Estou... anulando.
Gabriel avançou novamente, rasgando o céu como um cometa em queda, e Kaelis ergueu a
mão. O espaço diante dela se dobrou, como vidro sendo empurrado para dentro, desviando
o golpe sem tocá-lo. Ainda assim, o impacto do calor rachou a atmosfera, criando ondas de
choque que ecoaram pelo planeta.
— Eu distorço a curvatura ao redor do meu corpo — Explicou, girando no ar, escapando por
milímetros de outro corte. — Não deixo o calor me alcançar... porque, para mim, nesse
ponto exato... ele não existe.
O solo abaixo deles cedeu. Montanhas se partiram em silêncio, como se o som tivesse sido
arrancado do ar. Oceanos começaram a se erguer em colunas retorcidas, puxados por forças
gravitacionais que não pertenciam àquele mundo. O horizonte se curvou de maneira
impossível, como se o planeta começasse a se dobrar sobre si mesmo, Gabriel observou por
um instante, não com surpresa, mas com leitura perfeita. Ele atacou justamente no ponto
onde a curvatura oscilou, Kaelis cruzou os braços, e o golpe desviou, mas desta vez, ela
arfou. Seus dedos tremiam. Sua pele estava pálida. Seus olhos, antes focados, agora
piscavam rápido.
— Manipular espaço e tempo ao mesmo tempo... — Ela continuou, recuando enquanto o
céu se incendiava atrás de Gabriel. — ...não é algo que um corpo humano deveria fazer.
O planeta rangeu, as placas tectônicas se partiram. A gravidade oscilou, ora puxando para
cima, para baixo, para lado nenhum. Fragmentos continentais começaram a flutuar, girando
como asteroides presos num campo gravitacional caótico, Gabriel avançou novamente,
agora mais rápido, o Sol em seu auge o fortalecendo a cada batida do coração.
Kaelis desviou — Mas sangue escorreu de seu nariz, evaporando antes de cair.
— E ainda assim... — Ela sorriu, mesmo enquanto sua respiração falhava — ...eu continuo
aqui.
O planeta começou a se despedaçar — mas não imediatamente, não de forma explosiva,
lentamente, como se o mundo, mesmo morrendo, se curvasse a eles em respeito.
Gabriel apontou a espada solar para ela, o ar ao redor se abrindo como um véu em brasa.
— Então mostre, Kaelis... — Sua voz ecoou como um trovão silencioso — ...até onde
consegue manter isso.
Kaelis abriu os braços, e o espaço ao redor dela ficou estático, imóvel, sem tempo, mas suas
mãos tremiam, e todos na arena, na transmissão, no outro mundo perceberam que mesmo
distorcendo a realidade, ela estava sendo ultrapassada. Gabriel levantou a Incisão Solar, e o
próprio espaço vibrava ao redor da lâmina, ele estava decidido a acabar com a luta naquele
instante.
— Stella Ruptura.
O golpe supremo, compressão solar absoluta, cortando matéria, Thyr e Éter ao mesmo
tempo. Quando a lâmina desceu, o mundo perdeu a luz por um instante, não porque
escureceu, mas porque a realidade não soube como reagir, Kaelis ergueu a lâmina negra no
último instante, e contra todas as leis conhecidas, a lâmina absorveu uma fração do golpe, e
então com a lâmina branca ela devolveu, multiplicado, não 2, 4, mas 8 vezes, exponenciado,
o impacto atingiu Gabriel como um terremoto dentro da própria mente, não o machucou
mortalmente, mas rompeu sua Harmonia por segundos, segundos que, contra Kaelis, eram o
mesmo que uma eternidade, e ela viu a abertura, com o pouco Éter restante, Kaelis ergueu a
mão para o céu queimando.
— Você não precisa de mais poder, Gabriel... — Murmurou, quase sem voz.
Ela torceu o espaço, a curvatura se alongou, e o sol tremeu. E então Kaelis forçou o núcleo
solar a colapsar, criando uma micro-singularidade dentro dele, alguns dos estudiosos que
assistiam perderam o fôlego.
Mary.
— E...ela está... destruindo o sol!
Lilith.
— Isso vai matar o planeta inteiro!
Mas antes que o colapso fosse completo, Gabriel recobrou os sentidos e consciência e
queimou tudo o que restava, sua pele se rachou em luz junto às suas veias, seu sangue
evaporou, seu corpo deixou de ser físico.
— Flamma Ultima.
Sincronia perfeita entre Thyr e Incisão Solar, um ser humano tornando-se uma estrela viva, e
então ele liberou o ataque final.
— X-Seraphim Burst.
Não houve som, não houve sombra, não houve forma, a existência apagou por um instante.,
mas Kaelis, num último sopro de vida, reuniu tudo o que restava.
— Supernova Collapse.
Uma explosão que implodia e explodia simultaneamente, tudo foi puxado, tudo foi
arremessado, tudo foi puxado novamente, e a transmissão caiu, a arena entrou em silêncio
absoluto.
— O que será que aconteceu? — Um espectador indagou, visivelmente empolgado.
— Ela explodiu o sol, como vai ser dia agora? — Uma criança estava confusa vendo a cena.
— Não foi o nosso sol querido. — Sua mãe esclareceu.
— Será que eles estão bem? — Amara perguntou, se agarrando ao braço do irmão.
— Espero que estejam... — Alastor respondeu.
Riven assistia inquieto, a perna balançando, junto a Ygerna e Morgana.
— Gabriel... — Morgana murmurou preocupada, com a mão no peito, como quem orasse
para que ele.
Quando a imagem retornou após alguns minutos, o planeta estava irreconhecível, a crosta
estilhaçada, os mares evaporados, o céu sem cor, o núcleo do planeta exposto e instável, e a
cima dele, o que estava do solo, estavam Gabriel e Kaelis, frente a frente, Kaelis com metade
de seu corpo carbonizada junto um olho cego, pele queimada da coxa até torso, Gabriel,
estava cambaleando, o nariz sangrando profusamente, as pupilas desfocadas, sinais claros
de colapso neural devido ao uso constante do Dominus, um poder que humanos não
deveriam possuir.
Ambas suas armas estavam caídas ao lado deles, a Incisão Solar, completamente apagada, e
a Estrela Singular, trincada, até que Kaelis tremendo começou a caminhar em direção a
Gabriel, e o golpeou com um soco, usando resquícios mínimos de seu Thyr, Gabriel desviou
no último instante mas teve a ponta de sua orelha cortada, recobrando os sentidos, e
contra-atacando, girando e chutando o flanco injuriado.
— Vai acabar agora mestra. — Afirmou Gabriel, a voz exausta, arfando constante.
Ele revestiu o punho com uma combinação de Impetus mais Aegis e avançou,mas Kaelis
pressentiu através das intenções de Gabriel, e usou o Rift para quebrar sua postura, similar a
quando ela o treinou pela primeira vez. Criando uma brecha perfeita para ela contra-atacar
com um soco, reunindo o que restava de Impetus, Gabriel forçou novamente o Dominus,
ativando sua Afinidade novamente por um breve momento, ele expandiu seu Sentire, seu
punho emanando um brilho tênue quase se desfazendo, de laranja e vermelho. Kaelis sentiu
um perigo real vindo deste ataque.
— TUDO OU NADA GABRIEL! — Exclamou ela. — Revestindo o punho em Ensis, forçando seu
limite.
Ambos avançaram, enquanto o planeta em que estavam se aproximava do seu fim.