Sob a ampla copa de uma árvore antiga, cujas raízes grossas rompiam a terra, Kade sentava-se em silêncio. Ele tinha doze anos, vestindo roupas cerimoniais que já começavam a apertar seus ombros e pescoço, e seus olhos guardavam a faísca inquieta de quem ainda não sabe nomear o que sente. Acima dele, o céu se estendia claro e profundo, lotado de estrelas — tantas que pareciam numerosas demais para serem contadas.
A mansão Vexar descansava atrás deles, ainda viva com ecos distantes da festa que recém havia terminado. Música abafada, risadas tardias, o tilintar ocasional de copos sendo recolhidos. Mas ali, debaixo da árvore, o mundo parecia diferente.
Kade finalmente se deixou cair de lado, com a cabeça apoiada no colo de sua mãe. O tecido do vestido dela era macio, e seu perfume suave e familiar o envolvia como um abrigo silencioso. Ela passava os dedos pelos cabelos dele com cuidado, desfazendo gradualmente a rigidez que a cerimônia havia exigido. Kade suspirou, com os olhos ainda fixos no céu.
"Mãe..." ele murmurou, sem tirar os olhos das estrelas.
"Hm?" ela respondeu, com a voz baixa.
Ele esperou alguns segundos antes de continuar, como se estivesse organizando seus pensamentos.
"Por que o Pai não defende mais as pessoas?" ele finalmente perguntou. "Como a Ordem Sol faz."
Cedrin estava sentado ao lado deles, com as costas apoiadas no tronco da árvore, as mãos relaxadas sobre os joelhos. Ao ouvir a pergunta, ele inclinou ligeiramente a cabeça, surpreso — e então riu.
"Meu tempo já chegou ao fim, meu filho", disse ele, ainda sorrindo.
Kade virou um pouco o rosto, apenas o suficiente para vê-lo de lado.
"Por quê?"
Cedrin olhou para cima também, seguindo o mesmo ponto indefinido que seu filho observava. As estrelas se refletiam em seus olhos com uma calma rara, longe da imagem rígida que muitos conheciam.
"Porque às vezes, as pessoas pensam que defender o mundo significa apenas lutar", respondeu ele. "Usar uma espada. Erguer escudos. Enfrentar monstros."
Ele pausou brevemente, como se escolhesse suas palavras com cuidado.
"Mas existem outras maneiras de proteger alguém."
Kade franziu a testa ligeiramente, insatisfeito.
"Mas você estava na Guarda", ele insistiu. "Você salvou pessoas."
Cedrin riu novamente, mais baixo agora, quase nostálgico.
"Eu salvei." Ele assentiu. "E outros me salvaram também. Em algum momento, eu simplesmente escolhi estar onde era mais necessário… para mim mesmo, e para você."
A mãe de Kade o puxou um pouco mais para perto, como se concordasse com o silêncio que se formava entre as palavras.
Kade voltou olhando para o céu. As estrelas piscavam, distantes e eternas, como se nada aqui embaixo pudesse realmente tocá-las.
"Um dia", disse ele de repente, "eu quero ser como os heróis das histórias. Aqueles que aparecem quando tudo está perdido."
Cedrin olhou para o filho e, por um instante, algo suave cruzou seu semblante — orgulho, talvez, misturado com uma melancolia difícil de definir.
"Eu sei", respondeu ele. "E eu sei que você será."
Kade sorriu, pequeno e sincero. Sua mãe riu baixinho. E debaixo da árvore, enquanto a festa morria lentamente atrás deles e o céu permanecia intocado, os três ficaram ali por mais alguns minutos — como se aquele momento simples e silencioso pudesse durar para sempre.
A terra ainda estava escura.
Recém-revirada, irregular, marcada pelas pás que haviam trabalhado ali horas antes, contrastava com a ordem quase solene do cemitério Vexar. As lápides antigas pareciam observar em silêncio aquele novo espaço aberto entre elas.
Kade permaneceu de pé diante do túmulo.
A roupa cerimonial era diferente agora, o tecido escuro caía perfeitamente sobre seu corpo, mas nada ali parecia realmente pertencer a ele. Ele mantinha as mãos imóveis ao lado do corpo, os dedos ligeiramente tensos, como se qualquer movimento falso pudesse quebrar algo que ele mal conseguia sustentar.
O nome estava lá.
CEDRIN VEXAR.
Esculpido com cuidado, profundo o suficiente para resistir ao tempo, mas incapaz de conter tudo o que o nome significava. Abaixo dele, datas frias demais para abranger uma vida inteira.
Kade baixou o olhar.
Ele sentiu uma saudade. Uma saudade densa, quase física, que se instalou em seu peito e tornou a respiração difícil. Mas ele não chorou. Ele não permitiu que seus olhos ardessem por muito tempo. Ele sabia — ou acreditava saber — que seu pai não iria querer isso. Cedrin nunca tinha sido um homem de lamentos. Ele nunca ensinou que a dor deveria ser colocada em exibição.
O vento passava pelas árvores do cemitério, fazendo as folhas cruzarem seu campo de visão. Kade fechou os olhos por um breve momento e, por um segundo traiçoeiro, quase esperou ouvir aquela voz firme dizendo para ele endireitar os ombros.
Mas ela não veio.
Quando abriu os olhos novamente, encarou o caixão, já coberto, invisível sob camadas de terra. Pensar que tudo o que restava do homem que o ensinou olhando para o céu estava ali apenas o cobria de uma imensa e profunda sensação de que tudo o que este havia feito até então resultara ser inútil.
Ele deu um passo à frente.
"Até logo", ele sussurrou.
Sua voz saiu firme, apesar do nó na garganta.
"Boa noite..." ele acrescentou, após um breve silêncio. "Descanse em paz."
Ele fechou os olhos por um instante. Não rezou. Nunca soube exatamente o que dizer em momentos assim. Em vez disso, pensou naquela risada antiga — franca, fácil — e na pergunta que havia feito quando criança, deitado no colo de sua mãe, olhando para o céu.
Kade se virou parsaindo. O mármore escuro ainda estava frio.
"Por que você parou de defender as pessoas como a Ordem Sol fazia?"
A resposta nunca tinha vindo. Apenas a risada. Mas, de certa forma, sentia que algo estava faltando em suas memórias, como se estivesse tentando observar as coisas pelo reflexo de um lago. Suas lembranças eram vagas, porque o tempo dele havia chegado ao fim? O que era aquele fim?
O som seco de uma vibração o puxou daquele silêncio.
A mensagem era de Serath.
Night Wings hoje à noite. Venha beber comigo. Bria já está aqui e decidiu que a noite vai terminar muito mal (ou muito bem).
Kade soltou um meio-sorriso involuntário. Era típico. Serath sempre aparecia assim, puxando-o de volta para a vida bem no momento em que ele começava a afundar em seus próprios pensamentos.
Ele olhou para o túmulo uma última vez.
"Depois", ele murmurou suavemente, sem saber exatamente com quem estava falando. "Continuaremos essa conversa depois."
Ele guardou o celular, virou-se e começou a se afastar por entre as lápides. O caminho para o Night Wings não era longo, mas Kade o percorreu devagar.
As ruas de Lunaris estavam vivas àquela hora: luzes quentes escapando pelas janelas, vozes se misturando com o som distante de música, o cheiro de bebida e especiarias no ar. Tudo funcionava como deveria. Pessoas indo e vindo, rindo, discutindo, vivendo. E, no entanto, ele se sentia como se estivesse caminhando alguns passos fora de ritmo com o mundo.
Ele não estava triste. Não exatamente.
Era como se todos os momentos de sua vida até aquele momento estivessem o trazendo para o dia do funeral, e, de certa forma, era como se de fato nunca tivesse escolhido viver até aquele momento. Antes, as direções eram claras, havia expectativas, ser um herói, mas e agora? O futuro era apenas uma tela em branco, o que é ser um herói? Como se tornar um herói?
O que deveria fazer agora? Ele nunca fez nada por si mesmo.
Estava indo ao bar porque alguém chamou. Estudou porque esperavam que ele estudasse. Treinou porque seu pai pediu para que treinasse.
Kade passou a mão pela nuca, aquela sensação desconfortável de que algo fundamental havia sido removido e ninguém havia lhe entregado um substituto não parava de o assombrar. Seu pai sempre parecia saber onde se posicionar, quando avançar, quando parar. Kade não havia herdado essa certeza.
Ele pensou, sem colocar em palavras, que talvez estivesse vivendo em um intervalo. Um tempo entre quem ele deveria ter se tornado e quem ele ainda não tinha ideia de como ser.
O letreiro do Night Wings surgiu à frente, cortando a noite com luzes roxas e douradas. Risadas escapavam pela porta entreaberta. Lá dentro, Serath estaria contando alguma história exagerada, Bria provavelmente provocando alguém só para ver a reação. Era simples. Entrar, beber, rir no momento certo.
Kade respirou fundo antes de empurrar a porta.
O Night Wings estava mais silencioso do que o normal.
Alguns clientes estavam espalhados pelo salão, mesas vazias ocupando mais espaço do que as cheias, a música baixa demais para fingir animação. A luz roxa refletia nas garrafas atrás do balcão, mas não havia energia suficiente ali para fazer o lugar parecer vivo. Kade percebeu isso assim que entrou.
Serath foi o primeiro a notá-lo, erguendo o copo em um gesto preguiçoso.
"Olha só… ele decidiu aparecer."
Kade se aproximou e sentou no banco vazio ao lado deles, observando o ambiente antes de falar:
"Este lugar já viu dias melhores."
Bria estava distraidamente girando o copo entre os dedos, apoiada no balcão. Ela nem sequer olhou para ele ao responder:
"Comentário encorajador. Vou anotar para a próxima reforma imaginária."
Kade inclinou a cabeça ligeiramente, correndo os olhos pelo salão quase vazio.
"Se você usasse um pouco das suas… capacidades artísticas para mudar o clima daqui, talvez tivesse mais clientes. Um símbolo novo, uma iluminação diferente, algo que não pareça um porão caro."
Serath soltou uma risada abafada, claramente divertido.
Bria finalmente virou o rosto na direção de Kade, com os olhos semicerrados.
"Você tem ideia de quanto trabalho isso daria?"
"Eu tenho", ele respondeu calmamente. "Mas você também sabe que conseguiria fazer."
Ela bufou, apoiando o queixo na mão.
"E passar noites inteiras redesenhando, ajustando energia, lidando com pessoas reclamando que 'não era assim antes'? Não, obrigada. Seria uma trabalheira monumental."
"Preguiçosa", comentou Serath, erguendo o copo.
"Chama-se preservar minha sanidade, querido", rebateu Bria.
Kade os observou em silêncio por um momento. Era uma dinâmica antiga, confortável. Quase automática. Ainda assim, sentia-se um pouco fora dela, como se tivesse chegado tarde demais para uma conversa que nunca parava.
"Mesmo assim", disse ele, "é estranho ver o Night Wings vazio."
Bria deu de ombros.
"As pessoas preferem lugares barulhentos. Este lugar exige que elas fiquem sozinhas com os próprios pensamentos."
Serath inclinou-se um pouco na direção de Kade.
"E você? Veio para beber ou só para reclamar da decoração?"
Kade pegou o copo que já o esperava e o girou lentamente.
"Acho que vim… porque não sabia direito para onde mais ir."
Seus olhos percorreram o piso de madeira enquanto trazia o copo até sua boca.
Serath não fez piada desta vez. Apenas assentiu.
"Justo."
Bria observou Kade por alguns segundos, avaliando algo que ele não havia dito.
"Estar perdido é comum", falou ela, em um tom surpreendentemente neutro. "Eu mesma nunca soube onde era o meu lugar."
Kade olhou para ela.
"E o que você fez para descobrir qual era o seu lugar?"
Ela deu um meio-sorriso torto.
"E quem disse que eu descobri?"
Serath riu baixinho, quebrando o silêncio.
"O lugar dela é vomitando atrás do próprio bar."
Kade deixou escapar um leve sorriso.
"Você não está em um estado muito melhor do que eu. Os testes para a Ordem Ether estão se aproximando e você está aqui bebendo comigo."
Serath ergueu uma sobrancelha, como se estivesse indignado.
"Ei, ei, ei, para sua informação, eu ainda tenho 3 meses de preparação, tá me ouvindo?"
"E você sabe que deveria pelo menos ir para a academia." Ela levantou a manga da sua jaqueta, mostrando seu braço forte, típico, considerando que vira e mexe ela estava mexendo com carros. "Olha pra esse seu bracinho, tá bem menor do que o meu, e olha que eu só tenho um."
Bria começou a rir descontroladamente, enquanto, com seu outro braço mecânico, apontava para Serath.
"Também, você aí fica siriricando com esse braço a noite toda." Serath fez um gesto de se afastar, enquanto Bria não parava nem por um momento de rir. "E você, Kade, vai participar das provas?"
Serath direcionou o olhar para Kade ao terminar a frase.
Ele demorou meio segundo a mais do que o normal para responder. Até aquele momento, não tinha percebido que aquele evento estava tão próximo.
Kade inclinou a cabeça ligeiramente.
"Vou", disse ele simplesmente.
Serath sorriu, satisfeito.
"Eu sabia que você estaria dentro."
Kade não o corrigiu. Não por medo ou insegurança. Ele apenas… não queria ser o único fora de sintonia naquele momento. Se Serath dizia que fazia sentido, então faria.
Bria o olhou de cima a baixo, sem sutileza.
"Eu ainda acho que você não tem exatamente o perfil para encarar coisas como Wanderers."
Serath soltou uma risada curta.
"Lá vamos nós."
Kade apoiou o braço no balcão, relaxado.
"Eu sei me cuidar."
Bria semicerrou os olhos.
"A questão não é só sobreviver. Esses testes vão te colocar numa montanha para sobreviver um mês inteiro." Ela fez um gesto vago com a mão. "E não estou interessada em ver você sair de lá como um emo existencialista deprimido."
Kade arqueou uma sobrancelha.
"Isso nunca aconteceria."
"Realmente", completou Serath. "Até porque você já é um emo depressivo."
Kade olhou para os dois, e então deu um sorriso leve — raro, mas sincero.
"Se eu ficar assim, vocês têm permissão para me arrastar de lá à força."
Bria se espreguiçou.
"Ótimo. Porque eu realmente não teria paciência para isso."
Serath ergueu o copo.
"Então está combinado. Nada de deixar o tempo ou monstros nos arruinarem."
Kade pegou seu próprio copo e o ergueu também.
"Sem drama desnecessário."
Bria suspirou, mas ergueu o copo dela também.
"E vocês dois sem beber até que isso termine."
Serath arregalou os olhos, indignado.
"Ah, calma aí, e nos finais de semana?"
Os três brindaram, o som do vidro ecoando baixo no bar quase vazio.
Kade, por aquele breve instante, pôde se sentir verdadeiramente feliz com aqueles dois ao seu lado.