Assim que empurraram a porta do Night Wings, o sino enferrujado acima dela tilintou uma última vez, como se estivesse se queixando da partida deles. O frio repentino da noite caiu sobre eles, dissipando o cheiro de álcool, fumaça e velhas memórias que haviam ficado aprisionados lá dentro.
Por um segundo, eles caminharam em silêncio.
Então, sem aviso, Serath soltou uma risada curta que não demorou mais do que alguns segundos antes de se transformar em algo incontrolável. Ele pressionou a mão contra o rosto, tentando se recompor — falhando miseravelmente.
"Cara..." disse ele entre risos. "'Mendiga grávida doidona.' Eu ainda não consigo acreditar que ela realmente disse aquilo."
Kade arqueou uma sobrancelha, segurando a própria risada por pura teimosia. Ele deu dois passos à frente, respirou fundo... e perdeu a batalha.
"Ela disse isso olhando bem nos meus olhos", respondeu ele, finalmente rindo. Uma risada larga e genuína que não surgia daquela forma havia muito tempo. "Como se estivesse narrando meu futuro inevitável."
Serath se dobrou, apoiando as mãos nos joelhos, gargalhando alto demais para uma rua tão vazia.
"'Eu imagino que muitas mulheres vão querer você, e como eu sei que você deve estar naquela fase em que não dispensa nada, eu tenho que te dizer algo muito sério'", repetiu ele, imitando o tom profundo de Bria. "Cara, eu juro que por um momento pensei que ela ia te dar um sermão... e depois empurrar um contraceptivo pelo balcão para você."
Kade colocou a mão na testa, balançando a cabeça enquanto ria.
"Ela não muda. Nunca mudou." Sua risada diminuiu um pouco, tornando-se mais suave. "Eu acho que... se um dia ela mudasse, seria aí que eu realmente ficaria preocupado."
Eles caminharam lado a lado pela calçada iluminada por velhos postes, cujas luzes amareladas piscavam como se estivessem cansadas demais para cumprir seu dever. O som distante da cidade — motores, vozes abafadas, um rádio tocando em algum lugar distante — envolvia tudo, mas não incomodava.
Serath olhou de lado para Kade, ainda sorrindo.
"Você sabe..." começou ele, "eu não ria assim há muito tempo."
Kade demorou um momento para responder. O sorriso permaneceu, mas agora carregava algo mais profundo.
"Nem eu."
Por alguns segundos, apenas o som dos passos deles ecoou. Então Serath soltou outra risada curta, mais baixa desta vez.
"Eu aposto que se o seu pai estivesse vivo, ele teria dito algo como: 'Vocês dois são um desserviço à dignidade do clã.'"
Kade riu novamente, um som quase preso na garganta.
"E então ele acrescentaria imediatamente: 'Mas pelo menos não são como os viadinhos do clã Kallar.'"
Serath assentiu com um sorriso torto.
"É. Ele era assim."
Kade olhou para o céu nublado, onde as nuvens escondiam as estrelas como um véu espesso. Mesmo assim, havia uma estranha sensação de leveza em seu peito — não porque a dor tivesse sumido, mas porque, pela primeira vez naquele dia, ele não estava sozinho nela.
"Obrigado por hoje", disse ele finalmente, sem olhar diretamente para o amigo.
Serath deu de ombros, fingindo indiferença.
"Eu te devia uma. E te devia algumas risadas também. A gente tem que voltar saindo. Depois que crescemos, mal estou te vendo."
Kade soltou uma última risada baixa.
"É, você tem razão."
Kade ainda ostentava aquele sorriso quando as palavras "é, você tem razão" se dissiparam no ar. O som dos passos deles ecoou mais uma vez... e então cessou, como se a própria noite tivesse prendido a respiração.
Serath foi o primeiro a notar.
O vento mudou.
Não era uma lufada comum, mas um deslocamento nítido, artificial, como se o ar tivesse sido empurrado para fora do lugar. Os postes de luz piscaram simultaneamente — todos eles — em uma sincronia impossível. O reflexo amarelado no asfalto se esticou, distorceu — e congelou.
Kade sentiu o Theus reagir antes mesmo de ver qualquer coisa. Não era um fluxo externo agressivo ainda. Era como se tudo estivesse completamente paralisado.
Ele parou.
Serath fez o mesmo.
"...Heh." Serath soltou uma risada curta e nervosa. "Faz tempo que não sinto isso."
Kade ergueu os olhos lentamente.
Ao redor deles, o espaço começou a se fechar.
Linhas translúcidas surgiram no ar, como rachaduras invisíveis reveladas pela luz. Elas brotaram do chão, dos prédios, dos postes, e se ergueram em arcos perfeitos, conectando-se acima de suas cabeças. Em questão de segundos, uma cúpula se completou, selando o espaço como uma abóbada cristalina.
A cidade ainda estava lá.
Exatamente igual.
As mesmas ruas, as mesmas fachadas, as mesmas luzes. Mas Kade sabia — ambos sabiam — que aquela já não era a cidade real.
"Barreira de Combate..." murmurou Kade, com a voz baixa, mas firme.
Serath estalou os dedos das mãos.
"Mundo espelho", acrescentou ele. "Paralelo perfeito. Nenhuma interferência externa... nenhum dano colateral real."
O Night Wings ainda estava atrás deles. O mesmo letreiro piscante, a mesma porta de madeira. Mas agora, tudo parecia oco, como um cenário montado para algo maior.
Aquela barreira existia por apenas um motivo.
Quando usuários de Theus entravam em conflito.
Quando a luta não podia acontecer no mundo comum por conta de sua capacidade destrutiva.
Kade sentiu seu coração desacelerar, não por calma, mas por foco. O peso do luto, a exaustão emocional, as risadas de minutos atrás — tudo foi empurrado para o fundo de sua mente. O Theus respondeu ao seu estado, circulando com mais clareza, mais precisão.
"Nós não a ativamos", disse ele.
Serath concordou com um leve aceno de cabeça.
"Criminosos usam essa técnica para roubar pessoas sem que o mundo exterior veja... então não seria surpresa se —"
Serath não conseguiu terminar a frase.
Passos ecoaram à frente — irregulares, arrastados, quebrando o silêncio pesado como vidro rachando. Das sombras projetadas pelos prédios espelhados, quatro homens emergiram, avançando com uma cautela mal disfarçada. Suas roupas eram velhas, desalinhadas, sujas de poeira e negligência — casacos grandes demais, calças gastas, botas que há muito haviam perdido as solas adequadas. Eles não carregavam a postura de combatentes, nem o peso de usuários experientes de Theus.
E, no entanto, ali estavam eles.
Um deles, mais alto e magro, ficou um pouco atrás dos outros. Seu olhar não sossegava. Seu braço direito ergueu-se com uma rigidez artificial e, em sua mão, um velho revólver refletia a luz amarelada dos postes falsos. O metal parecia fora de lugar naquele cenário quase perfeito, como uma relíquia violenta trazida para o palco errado.
Outro homem deu um passo à frente, exibindo um sorriso torto cheio de dentes ausentes.
"Olha só para isso..." disse ele, medindo Kade de cima a baixo. "Terno caro, jaqueta bonita... parece alguém que nunca teve que contar moedas."
O terceiro riu, um som rouco e curto.
"Aposto que saiu de um daqueles bares pensando que o mundo pertence a ele."
Kade não reagiu.
Ele permaneceu imóvel, os punhos cerrados apenas o suficiente para manter o foco, o olhar firme — sereno demais para alguém naquela situação. Seu Theus continuava contido, adormecido sob a superfície, como uma lâmina ainda embainhada.
O homem armado se aproximou.
Cada passo era acompanhado por um leve tremor na mão que segurava o revólver. Quando parou em frente a Kade, ele ergueu o braço sem hesitação e pressionou o cano frio contra a testa dele, exatamente entre os olhos.
"Passa tudo", a voz veio baixa e dura. "Relógio, carteira, o que tiver nos bolsos. Mova-se antes que eu perca a paciência."
O cheiro de óleo velho e metal invadiu o ar. A pressão do cano era realmente desconfortável, por mais que, para ele, houvesse um certo fascínio naquela situação. Não pôde deixar de pensar por alguns minutos se as coisas melhorariam se aquela bala fosse capaz de o perfurar.
Seus olhos continuaram fixos à frente, calmos, quase distantes, como se aquele mundo paralelo, a arma, os homens diante dele... tudo fosse apenas uma pequena interrupção. Seu peito subia e descia em um ritmo constante e controlado.
Serath, de pé ao lado dele, sentiu um calafrio subir pela espinha.
Porque ele conhecia aquele silêncio.
Ele conhecia aquela expressão vazia, aquela ausência completa de medo.
Era o mesmo olhar que Kade assumia logo antes de algo dar terrivelmente errado para quem quer que estivesse do outro lado. Com aquele revólver pressionado contra a testa e quatro homens acreditando estar no controle, ninguém parecia perceber que haviam escolhido o alvo errado.
Kade inspirou lentamente. Não poderia morrer naquele momento. Parfalando a verdade, nenhum daqueles homens seria capaz de o matar. O cano do revólver continuava pressionado contra sua testa, frio, sólido, real. Mesmo assim, sua voz saiu calma, quase desinteressada, como se comentasse algo óbvio demais para necessitar de ênfase.
"Se você atirar..." disse ele, finalmente, "você morre."
O silêncio que se seguiu foi estranho, era um silêncio confuso, quebrado apenas pela respiração irregular do homem armado. Por um instante, ele pareceu não compreender o que acabara de ouvir.
Então ele riu.
Uma risada curta e ríspida, cheia de desprezo.
"O quê?" Ele afastou o rosto alguns centímetros, mas manteve a arma colada à testa de Kade. "Está me ameaçando agora, filhinho de papai?"
Os outros três se olharam, divertidos.
"Esse aí perdeu o juízo, ele deve estar achando que é um tier 8", comentou um deles. "Está vendo isso? Garotos ricos acham que são imortais."
"Quer testar?", acrescentou outro, dando um passo à frente.
O homem com o revólver semicerrou os olhos. A princípio, havia apenas arrogância em seu olhar — a certeza confortável de quem acredita que o metal em sua mão define todas as regras. Só poderia ser — eles haviam conseguido identificar — aquele homem era alguém de tier 9; ele não deveria ser capaz de os matar. Mas algo começou a incomodá-lo.
Kade não desviou o olhar.
Ele não tremeu. Não implorou. Não demonstrou raiva, nem desespero. Seu rosto sequer exibia tensão — apenas uma serenidade fria, deslocada, quase indecente diante de uma ameaça tão direta.
"Você está calmo demais para quem está com uma arma na cara", o homem murmurou, a voz agora um pouco mais baixa. "Acha que eu não vou puxar o gatilho?"
Kade respondeu sem pressa, os olhos cravados nos do homem.
"Eu não acho", disse ele. "Eu sei que você pode."
Isso deveria ter sido o suficiente.
Mas não foi.
A mão do homem apertou o revólver, os dedos suados escorregando no metal. Ele franziu a testa, irritado não pela resposta... mas pela ausência de medo.
"Para de olhar para mim desse jeito", rosnou ele. "Você não é quem manda aqui."
Kade inclinou a cabeça apenas o suficiente para aliviar a pressão do cano, sem nunca quebrar o contato visual.
"Eu sei", respondeu ele. "Não ainda."
O desconforto se espalhou como um veneno lento.
Porque ameaças funcionavam quando geravam uma reação.
E Kade, bem ali, não estava reagindo.
Ele estava apenas esperando.
Como alguém que já sabia exatamente como aquilo terminaria.
O homem rangeu os dentes.
A calma de Kade já não era apenas irritante — era ofensiva. Não fazia sentido. Pessoas ameaçadas gritavam, imploravam, prometiam tudo. Nenhuma delas olhava de volta como se estivesse assistindo a um erro inevitável acontecer.
"Chega dessa porra", cuspiu ele.
Seu dedo puxou o gatilho.
O estalo ecoou seco dentro da cúpula.
Mas não foi Kade quem caiu.
O corpo do homem foi lançado para trás como uma marionete de fios cortados, os olhos arregalados, a expressão congelada em puro choque. Ele atingiu o asfalto com um baque surdo e final. Um fio de sangue escorreu de sua têmpora, onde a bala agora repousava, alojada em seu próprio cérebro.
Os outros três ficaram paralisados.
O tempo pareceu tropeçar.
"O que... o que foi isso...?" um deles gaguejou, a voz falhando.
Outro se aproximou do corpo por reflexo, os joelhos tremendo, e então olhou para o revólver ainda empunhado na mão sem vida do parceiro. O choque foi imediato.
A parte de trás da arma estava completamente estourada.
O metal havia sido rasgado de dentro para fora, como se alguém tivesse disparado uma bala ao contrário, de dentro do próprio cano. Fragmentos retorcidos pendiam como feridas abertas, ainda quentes, ainda fumegando.
"Isso não é... isso não pode acontecer..." o terceiro murmurou, dando vários passos para trás.
Kade finalmente relaxou os punhos.
O Theus ao seu redor assentou, retornando a um estado latente e obediente. Ele olhou para o corpo no chão sem qualquer vestígio de satisfação — apenas a frieza de quem confirma um resultado inevitável.
"Eu avisei", disse ele em tom baixo.
Serath respirou fundo, tentando reorganizar seus pensamentos. Seus olhos se moveram do revólver destruído para a cúpula ao redor deles.
"Vocês mesmos ativaram a barreira..." comentou ele, a voz agora carregada de ironia. "Para roubar as pessoas sem testemunhas."
Os criminosos entenderam.
Tarde demais.
Aquela técnica, criada para isolar conflitos entre usuários de Theus, agora os havia isolado com algo que eles não conseguiam lidar.
Os três restantes recuaram, tropeçando, o pânico estampado em seus rostos. Não havia para onde fugir. Enquanto a barreira permanecesse ativa, o mundo real continuaria inalcançável, e, para desativá-la, precisariam tocar no limite dela.
Kade deu um passo à frente.
E, naquele mundo paralelo idêntico à cidade, os assaltantes finalmente perceberam que haviam fechado a própria armadilha.
O choque durou pouco.
O medo, quando não encontra saída, costuma se transformar em impulso cego. Dois dos criminosos trocaram um olhar rápido — não de coragem, mas de desespero — e avançaram ao mesmo tempo. Lâminas improvisadas surgiram em suas mãos: facas curtas e gastas que refletiam a luz falsa da cúpula. Não houve aviso, nenhum grito. Apenas o som de passos rápidos rasgando o asfalto.
Kade não suspirou. Não se apressou. Não recuou.
No momento em que as facas golpearam de lados opostos, ele deu um único passo à frente — não para fugir, mas para passar através. Seus movimentos foram simples, quase descuidados. Uma leve torção do corpo, um ajuste mínimo na postura, como quem se esquiva de pessoas apressadas em uma rua movimentada. As lâminas cortaram o ar onde ele estivera um segundo antes, passando perigosamente perto... e, no entanto, errando completamente.
Kade passou entre eles. O tecido de sua jaqueta sequer balançou.
Os criminosos demoraram um momento para perceber. O peso do próprio impulso os levou alguns passos adiante antes que freassem, confusos. Quando se viraram — Kade já estava de costas para eles. Ele estava caminhando. Passo após passo, calmo, com os braços relaxados ao lado do corpo como se nada tivesse acontecido. Não havia pressa, nenhuma tensão em seus ombros. Apenas direção.
À frente, os olhos do terceiro homem se arregalaram. O pânico finalmente superou qualquer resquício de bravata.
"N-não... não, não..." sussurrou ele, a voz quebrando.
Ele virou-se de repente e correu. Seus passos ecoaram alto demais dentro da cúpula — desordenados, desesperados. O som de sua fuga contrastava brutalmente com o ritmo firme de Kade, que continuava avançando na mesma cadência, como se soubesse, com absoluta certeza, que não precisava correr.
Atrás dele, os dois homens com facas ainda tentavam compreender como haviam errado. À frente, um fugitivo descobria, tarde demais, que naquele mundo isolado... não havia para onde ir.
Antes que os dois criminosos pudessem dar um único passo atrás, Serath já estava entre eles. O movimento foi rápido demais para os olhos acompanharem — não um salto, mas um avanço decisivo, como se o próprio espaço tivesse cedido à sua presença. Suas mãos se fecharam sobre os pulsos armados.
"Acabou", disse ele, sem erguer a voz.
Com um único puxão seco, ele arrancou as facas das mãos deles. Os homens mal tiveram tempo de reagir antes que Serath erguesse as lâminas diante de seus próprios rostos. O Theus fluiu por seus dedos em um brilho contido — e então ele apertou.
O metal gemeu. Não entortou. Despedaçou-se.
As facas foram esmagadas como se fossem feitas de argila barata, fragmentos de aço atingindo o chão com estalos irregulares. O som ecoou alto dentro da cúpula, um lembrete brutal da diferença entre uma ameaça e o poder real. Os dois homens empalideceram.
"N-não..." um deles gaguejou, recuando instintivamente. "Isso não é normal..."
O outro reagiu primeiro — ou melhor, reagiu mal. Com um grito desesperado, ele avançou com socos selvagens, visando o rosto, o peito, qualquer coisa que pudesse alcançar. O segundo o seguiu instantaneamente, desferindo uma sequência caótica de golpes — sem técnica, sem cálculo, apenas o medo transformado em violência.
Serath não recuou. Ele ergueu o braço. Foi tudo. Os punhos atingiram seu antebraço com força, um após o outro — impactos secos, repetidos, inúteis. O braço de Serath permaneceu firme, sólido, como um pilar de pedra. Nenhum tremor. Nenhuma concessão.
"Parem", disse ele, soando quase entediado.
Os golpes continuaram por mais alguns segundos, tornando-se mais fracos e desesperados. Os homens começaram a arfar, os rostos contorcidos entre a dor e a incredulidade. Serath baixou o braço lentamente. Os criminosos cambalearam para trás, de olhos arregalados, finalmente entendendo algo essencial demais para ter sido ignorado desde o início: eles não estavam lutando contra pessoas comuns. Nunca estiveram.
E, atrás deles, o som distante dos passos de Kade permanecia constante, inevitável, aproximando-se como o fim de uma dívida que já não podia ser adiada. Serath deu um passo à frente. Não havia pressa em seu movimento.
Ele estendeu a mão e tocou o estômago do primeiro homem — não um soco, não um empurrão. Apenas um contato breve, quase delicado. Uma faísca dourada explodiu no momento do toque. A luz percorreu o corpo do criminoso como um relâmpago interno, delineando seus ossos sob a pele por uma fração de segundo. O impacto seguiu-se imediatamente — invisível, mas avassalador.
O homem dobrou-se para a frente com um grunhido sufocado. O som foi seco. Algo estalou dentro dele. Sua coluna cedeu com um estalo grotesco, e seu estômago contraiu-se violentamente, como se atingido por uma criatura colossal — não um punho humano, mas o golpe contundente de um animal selvagem. O ar abandonou seus pulmões em um jato desesperado, e ele caiu de joelhos, com os olhos revirando.
Serath já estava se movendo quando o segundo homem tentou recuar. Outro toque. Outra faísca dourada. O efeito foi imediato. O segundo homem sentiu o impacto rasgar seu corpo de dentro para fora. Suas pernas falharam, seu torso curvou-se de maneira não natural e ele foi lançado ao chão com um grito quebrado, as mãos arranhando o asfalto enquanto seu estômago se contorcia em espasmos incontroláveis que sacudiam seu corpo.
Dois corpos no chão. Dois silêncios quebrados apenas por gemidos abafados.
O terceiro homem, que tentara fugir, tropeçou ao olhar para trás. O medo roubou-lhe o equilíbrio. Ele caiu, rolando no asfalto, e começou a rastejar para longe usando os cotovelos, de olhos arregalados, o rosto banhado de terror.
"N-não... isso não faz sentido..." gaguejou ele, a voz falhando. "Vocês... vocês não deviam... vocês não deviam ter Theus... Nós... nós só escolhemos pessoas comuns... pessoas sem Theus... ou com muito pouco... Como... como isso é possível...?"
Sua voz tremia, misturada ao som de sua própria respiração frenética. À frente dele, Kade continuava caminhando. Atrás dele, Serath permanecia imóvel, a mão ainda ligeiramente erguida, a luz dourada dissipando-se lentamente de seus dedos. A cúpula continuava intacta. E, naquele mundo paralelo criado para proteger criminosos de testemunhas, o último deles finalmente compreendeu a verdade mais cruel de todas: eles não haviam errado o golpe. Haviam escolhido o alvo errado.
Os passos de Kade ecoavam claramente. Lentos. Regulares. O terceiro homem olhou para cima, tremendo, e então o viu por inteiro.
Uma energia roxa envolvia o corpo de Kade, girando em espirais suaves, quase elegantes, como fumaça viva moldada pela vontade. Não explodia, não pressionava o ambiente — era contida, precisa, disciplinada. O Theus ali não gritava poder. Sussurrava-o. Cada passo fazia a luz pulsar suavemente, respondendo ao ritmo de sua presença.
Kade parou a poucos metros do criminoso caído. Seu olhar pousou sobre os corpos espalhados pelo chão, depois voltou-se para o homem que rastejava, com os olhos transbordando de terror.
"Vocês quatro..." começou ele, a voz baixa e desprovida de raiva, "foram tolos. Pessoas que realmente dominam o Theus não ficam ostentando isso o tempo todo. Não desperdiçam energia durante o dia. Não atraem atenção desnecessária."
A energia roxa adensou-se por um momento, desenhando símbolos sutis no ar antes de se reorganizar ao seu redor.
"Nós o disfarçamos", disse ele. "Mantemos um fluxo mínimo. Natural. Invisível para quem só sabe sentir o excesso."
Ele deu mais um passo à frente. O criminoso tentou se afastar, mas seu corpo não respondeu.
"Vocês devem ter sentido alguns poderes altos aqui em Valthorin, não é?" prosseguiu Kade, os olhos frios e absolutos. "Deixe eu contar um segredo: esses poderes são apenas uma pequena fração do que eles conseguem fazer de verdade."
O silêncio que se seguiu foi esmagador. E o homem, ali no chão, finalmente entendeu o erro fatal que cometera naquela noite: eles não haviam assaltado alguém poderoso. Haviam provocado alguém que sabia exatamente quando parecer fraco.
Antes mesmo de Kade erguer a mão — o homem desmaiou.
O corpo desabou inerte contra o asfalto, os olhos revirando antes de perder qualquer resquício de consciência. O medo fora mais rápido do que qualquer golpe. A energia roxa ao redor de Kade dissipou-se lentamente, como fumaça no vento, obediente ao seu controle.
Então, o mundo tremeu. Não como um impacto, mas como um suspiro profundo. A cúpula ao redor deles começou a se dissolver em linhas geométricas de luz, retraindo-se para fora como se uma estrutura externa estivesse puxando a barreira de volta à sua fonte. Em poucos segundos, o céu falso se desfez, as fachadas espelhadas perderam a rigidez... e a cidade real retornou ao seu lugar. O ar parecia mais pesado. Mais verdadeiro.
"Isso foi o suficiente."
A voz veio de trás deles. Profunda, firme... mas surpreendentemente suave. Não carregava nenhuma ameaça, nenhum reproche direto — apenas uma autoridade inquestionável. O tipo de voz que não precisava se impor, porque já era obedecida antes mesmo de ser ouvida.
Serath sentiu um calafrio correr pela espinha. Kade fechou os olhos por um breve momento. Eles conheciam aquela voz. Conheciam o timbre, o ritmo, o peso por trás de cada palavra. Ainda assim, nenhum deles havia considerado, nem por um segundo, a possibilidade de ouvi-la ali.
Ambos se viraram ao mesmo tempo.
A uma curta distância dali, envolvido por um fluxo de Theus discreto e perfeitamente controlado, estava o líder do clã Vexar. Sua presença não distorcia o ambiente, não pressionava o ar — e, no entanto, fazia tudo ao seu redor parecer menor.
Serath abriu a boca, mas não encontrou palavras. Kade sentiu seu coração acelerar, não por medo... mas por uma surpresa genuína. Eles sabiam quem ele era. O que não sabiam — o que nunca imaginaram — era que o homem que comandava um dos clãs mais antigos e poderosos de Lunaris estaria ali, em uma rua comum, diante de criminosos inconscientes e dois jovens que acreditavam estar sozinhos naquela noite.