Kade observou Cyprian Vexar em silêncio.
A rua ainda ostentava os vestígios do recente confronto. O ar parecia mais leve após a barreira se ter dissipado, mesmo com os corpos inconscientes espalhados ao redor. Cyprian, no entanto, não parecia fora de lugar naquele cenário. Tinha uma aparência gentil, quase amável à primeira vista. O seu cabelo ruivo estava cuidadosamente penteado, caindo naturalmente até a nuca em ondas leves, captando a luz das lanternas com um brilho discreto. Nada estava fora do lugar. Vestia um sobretudo escuro de corte elegante, desprovido de ostentação. O tecido era denso, da mais alta qualidade, acompanhando cada movimento seu como se conhecesse o ritmo exato do seu mestre. Por baixo, roupas sóbrias — cinza-escuro e azul-escuro — davam-lhe mais o ar de um erudito do que de um guerreiro.
Mas o símbolo estava lá.
Costurada com precisão sobre o peito do sobretudo estava uma águia negra com as asas abertas em pleno voo. Ao redor desta águia encontravam-se sete estrelas de bronze, representando os sete reis Vexar que Lunaris já tivera; uma estrela de prata, simbolizando um Warrender de Tier 2 que ameaçou destruir todo o continente e foi travado por Aron Vexar; e duas estrelas douradas acima da de prata, simbolizando as duas vezes que este clã salvou o mundo. Estas eram as vestes que o líder do clã devia usar, mas, mesmo assim, ele não brilhava intensamente; não implorava por atenção. Kade fixou o olhar na águia por demasiado tempo. Sentiu algo estranho. Não era orgulho. Também não era medo. Era a sensação de estar diante de alguém muito mais importante do que ele próprio, como se um rei tivesse parado o seu dia para conversar com um operador de telemarketing.
Cyprian quebrou o silêncio.
"Fico contente por ver a sua força, Kade."
A voz era profunda, mas não pesada. Serena, controlada. Não exigia atenção; simplesmente recebia-a. Kade sustentou o olhar. Não respondeu imediatamente. Parte dele ainda tentava organizar pensamentos que pareciam sempre escapar quando envolviam o seu pai. Cyprian deu um passo em frente. O sobretudo acompanhou o movimento com uma elegância contida. Por um instante, sob a luz, a águia negra pareceu ganhar vida.
"Não vim como líder do clã", continuou ele. "Vim para apresentar as minhas condolências."
A palavra aterrou no ar como algo sólido. Condolências. Kade sentiu o seu peso no peito, mas não conseguia definir exatamente o que ela despertava. Tristeza? Não da forma comum. Era mais como uma ausência difícil de descrever — um espaço vazio que cobria todo o seu ser. Cyprian ergueu ligeiramente o olhar, como se visse além da rua silenciosa.
"O seu pai…" um sorriso nostálgico tocou os seus lábios "…foi uma das pessoas que mais me inspirou quando eu era jovem."
Serath piscou, surpreendido. Kade permaneceu imóvel. Inspirou. Era estranho ouvir aquilo. Quando pensava no seu pai, as imagens vinham fragmentadas: estranhamente, as únicas coisas que lhe vinham à mente eram memórias más, de momentos em que ele tinha excedido os seus limites. Mas quando tentava procurar boas memórias, elas pareciam desaparecer, como se o tempo tivesse apagado detalhes importantes.
Cyprian prosseguiu:
"Lembro-me das suas grandes batalhas; ele era um excelente guarda, certamente um dos homens mais gentis que conheci."
Kade sentiu a mandíbula contrair-se ligeiramente. Não era dor. Era desconforto. Sempre que falavam do seu pai, era sobre grandeza. Mas não era exatamente assim que se lembrava dele; na verdade, o que mais lhe vinha à mente naquele momento eram as discussões entre o pai e a mãe, que Kade tinha presenciado desde pequeno.
Ele virou-se diretamente para Kade.
"E respeito-o… por ser filho dele."
A frase ecoou mais do que devia. Respeito por ser filho dele. Kade respirou fundo antes de responder.
"Ouvir isso… vindo de si… tem mais valor do que consigo expressar em palavras."
Escolheu cada termo com um cuidado excessivo.
"O meu pai viveu da forma que acreditava ser a correta. Se ele ainda é lembrado não apenas como um guerreiro, mas como alguém que inspirou os outros… então parte dele permanece."
Hesitou. Não pretendia dizer mais nada, mas algo o impulsionou.
"Quanto a mim…" a sua voz permaneceu firme, embora carregasse um peso contido "…não quero viver à sombra do nome dele. Mas também não sei exatamente o que significa carregar o que ele representava."
A honestidade saiu antes que a pudesse moldar melhor. Cyprian observou-o sem julgar. Serath, ao lado deles, permaneceu em silêncio. Braços cruzados, postura aparentemente relaxada, mas atento ao controlo quase invisível do Theus que emanava de Cyprian como um oceano contido.
"Lunaris está entrando num novo ciclo. Os Testes da Ordem Ether vão começar em breve."
O nome pareceu deslocar o ar ao redor deles. Kade sentiu um ligeiro aperto no estômago. Não era entusiasmo. Também não era um medo claro. Era como ouvir falar de uma estrada demasiado longa quando ainda nem sequer se decidiu se quer dar o primeiro passo.
Cyprian alternou o olhar entre ele e Serath.
"Recomendo que se preparem. Não apenas em força… mas no que carregam em nome e em espírito. A Ether não procura apenas poder bruto."
Direção. A palavra ficou presa na mente de Kade. Direção implicava saber para onde ir. Não tinha a certeza se sabia. Cyprian levou a mão ao interior do sobretudo e retirou um envelope selado com cera preta, marcado com a águia dos Vexar. Aproximou-se e entregou-o a Kade com um cuidado quase cerimonial.
"Estava no cofre pessoal do seu pai no Castelo Vexar. Ele deixou instruções claras para que fosse entregue quando o momento chegasse."
O envelope parecia demasiado leve para conter algo importante.
"Os outros pertences dele — armas, registros, objetos pessoais — já foram levados para a mansão. Estão seguros."
Seguros. Kade não sabia se isso trazia conforto ou um peso adicional. O vento soprou mais forte por um instante, fazendo o sobretudo de Cyprian ondular e a águia negra parecer viva sob a luz.
"Que o legado dele pese como asas, não como correntes."
Sem esperar por uma resposta, Cyprian virou-se. A energia ao redor deles reorganizou-se sutilmente, de forma quase imperceptível, e, após alguns passos, a sua presença pareceu dissolver-se na própria cidade. O silêncio que ficou era quase reverente. Kade permaneceu imóvel, com o envelope ainda fechado na mão.
"Sem sequer libertar todo o seu Theus…" murmurou ele "…só de estar perto dele, senti-o."
Serath descruzou os braços.
"Dizem que, entre os vinte líderes do Conselho Geral, Cyprian é apenas o décimo quinto mais forte."
Kade soltou uma gargalhada curta e sem humor.
"Apenas."
"Se ele é o décimo quinto", continuou Serath em tom baixo, "então a distância entre nós e o topo não é apenas grande. É infinita."
Kade assentiu, mas a sua mente estava noutro lado. Pensou nos Testes. No Ether. Na palavra "direção" a repetir-se como um eco persistente. Também pensou no seu pai — ou na dificuldade de pensar nele sem que tudo parecesse incompleto. Não estava entusiasmado. Os Testes significavam exposição. Comparação. Expectativa. Mas ao lado de Serath, hesitar parecia errado.
"Os Testes da Ordem Ether vão mudar tudo", disse ele, mantendo a voz firme. "Quando nos encontrarmos depois disso… não quero estar no mesmo ponto."
Não especificou qual ponto. Serath sorriu, confiante como sempre.
"Nem eu."
Estendeu o braço. Kade segurou o antebraço do amigo com firmeza. O gesto era antigo. Sólido. Confiável. Talvez fosse isso que o mantinha se movendo em frente — não uma convicção clara, nem um entusiasmo genuíno, mas a incapacidade de ficar parado enquanto o mundo avançava. Acima deles, o céu de Lunaris permanecia imóvel, indiferente às decisões humanas.
O envelope continuava fechado. E enquanto o segurava, Kade percebeu algo:
Não sabia se estava caminhando em direção ao futuro… ou se estava apenas tentando não ser deixado para trás por Bria e Serath.
Kade cruzou os portões da sua mansão em silêncio. O velho metal soltou um rangido baixo, como se reconhecesse o seu toque, e logo deu lugar ao caminho de pedra que cortava o jardim da frente.
As flores estavam bem cuidadas — Hilda sempre o fazia demasiado bem. Arbustos podados com precisão, fontes limpas, o aroma suave das plantas noturnas começando a espalhar-se pelo ar. Tudo estava exatamente como devia estar… e, no entanto, parecia vazio.
Caminhou lentamente por entre as fileiras de árvores baixas, os seus dedos roçando distraidamente as folhas. Cada passo aproximava-o do alpendre, mas o seu olhar desviava-se para além do portão exterior, para a rua que se estendia diante da mansão.
Ali, por um instante, o presente dissolveu-se.
Kade lembrou-se de quando aquela rua parecia enorme. De quando corria por ela sem rumo, a rir alto, com o fôlego curto e o coração leve. Bria estava sempre à frente, a provocar, a fingir que não estava cansada, enquanto Serath tentava manter uma postura séria… falhando miseravelmente sempre que tropeçava ou acabava por se juntar à diversão.
Lembrou-se das quedas, dos joelhos esfolados, das reprimendas que se seguiam — e de como nada disso importava. O mundo era simples naquela altura. O Theus era apenas uma curiosidade distante. Nomes como "clãs", "conselho" e "legado" não tinham peso nenhum.
Kade parou.
Por um breve e perigoso momento, desejou que esse tempo voltasse. Estava exausto, completamente exausto de tudo, do mundo, de tudo o que envolvia estar vivo. Fechou os olhos, respirou fundo e deixou que o desejo se dissipasse lentamente, como a névoa sob o sol. Um dia, os seus amigos iriam envelhecer. O tempo, implacável, cobraria o preço que nem o Theus podia negar. A ideia incomodava-o mais do que qualquer combate. Mais do que qualquer líder de clã.
Especialmente Bria.
Para ele, ela sempre fora como uma irmã mais velha. A primeira a puxá-lo pela mão quando ele hesitava, a primeira a defendê-lo quando ele errava, a primeira a rir… e a preocupar-se. Pensar no dia em que ela poderia estar frágil, cansada ou — pior — ausente, fazia com que algo se apertasse no seu peito.
Não queria que ela partisse.
Não queria que Serath tivesse de carregar mais cicatrizes do que as que já tinha. Não queria que o mundo, mais uma vez, arrancasse o que eles amavam.
Kade cerrou lentamente a mão, sentindo o Theus responder de forma quase imperceptível. Foi então que admitiu, sem qualquer vergonha, que queria tornar-se mais forte. Ele não queria que novas tragédias acontecessem. Para que ninguém tivesse de chorar outra vez por algo que poderia ter sido evitado. Para que Bria ficasse bem. Feliz. Livre para sorrir como antes. E para que Serath permanecesse ao seu lado, inteiro.
O interior da mansão acolheu-o com o mesmo ar solene de sempre. A luz suave dos cristais nas paredes acendeu-se à medida que avançava, revelando corredores amplos que estavam silenciosos demais para um lugar que já fora cheio de vozes.
Kade seguiu o seu instinto até uma das salas laterais. Ali, encostada a uma velha estante de livros, estava a caixa. Preta. Simples. Sem qualquer ornamento. Parecia fora de lugar, considerando os luxos de sua família. Kade ajoelhou-se diante dela e, por um momento, hesitou. O seu coração desacelerou, como se soubesse exatamente o que iria encontrar ali. Quando abriu a tampa, o aroma de tecido guardado há muito tempo escapou suavemente.
Os primeiros itens eram roupas. Não cerimoniais, nem de combate. Eram simples, gastas em alguns lugares, claramente usadas com frequência. Passou os dedos pelo tecido, reconhecendo o estilo sem esforço. Eram do seu pai. As vestes de alguém que preferia a funcionalidade à ostentação.
Por baixo delas, encontrou uma fotografia. Kade pegou nela com cuidado. Nela, três pessoas estavam lado a lado: o seu pai, mais jovem, sério como sempre; a sua mãe, com um sorriso pacífico; e ele próprio, ainda criança, a segurar a mão de ambos. A imagem congelava um tempo em que tudo parecia… possível. Os seus dedos apertaram ligeiramente a foto antes de a colocar de lado.
Continuando a procurar na caixa, o tom do conteúdo mudou.
Encontrou armas no sótão sombrio: uma espada antiga reduzida à sua bainha de couro gasta e um escudo de madeira e ferro, partido ao meio. Parou, confuso — porque estavam ali, abandonados daquela maneira? Não compreendia, e talvez nunca compreendesse.
Cuidadosamente, embrulhou-os num pano velho, amarrou-o bem e guardou-os no fundo do baú. Por agora, iriam esperar.
Finalmente, num compartimento separado, encontrou pequenos frascos, alinhados com precisão. Comprimidos. Kade reconheceu-os imediatamente. Eram compostos feitos para reduzir o desgaste físico do Theus, estabilizando o fluxo interno e prevenindo colapsos durante ou após o uso prolongado.
Fechou os olhos por um momento, compreendendo o gesto sem que ninguém precisasse de o explicar. Aquilo não era apenas uma coleção de pertences. Era um cuidado silencioso. Uma forma de o pai dizer, mesmo na sua ausência, que sabia onde Kade estava… e que ainda o protegia, à sua maneira.
Kade fechou a caixa com cuidado e deixou a sala para trás. Os seus passos levaram-no até ao seu quarto, um espaço amplo e silencioso. Sentou-se à secretária ao lado da cama, puxou a cadeira lentamente e acendeu o abajur. A luz amarelada caiu sobre a madeira, revelando pequenas marcas do tempo.
“Antes mesmo de conseguir compreender o peso do nome que carrega, eu já sabia que ele seria demasiado grande para o mundo que conhecemos.
Nos últimos tempos, dou por mim vendo você dormir e me perguntando se algum dia poderei realmente proteger você do que está por vir.
Incessantemente, escolhi acreditar que você se tornaria mais forte do que eu alguma vez fui — não apenas em poder, mas em coração.
Velar pelos que amamos custa sempre algo, e eu paguei esse preço sem um único arrependimento.
Em cada grama de força sem um propósito há apenas ruído, meu filho; o que define você é aquilo que escolhe preservar.
Se sentir raiva ou solidão, saiba que elas não tornam você fraco — tornam você humano.
Recuse o caminho mais fácil quando este exigir o sacrifício daqueles que você estima. Esse é o verdadeiro teste.
Lembro-me de todos os dias em que me senti mais orgulhoso de ti do que alguma vez conseguiria expressar, e essa é uma verdade que nem a morte pode apagar.
Ainda que chegue o momento em que eu já não esteja ao seu lado, caminhe sem hesitação; estou em cada passo que der.
Zela por aqueles que amas, mesmo quando isso lhe custar mais do que você estiver disposto a pagar.
E lembre-se de que a força que possui só terá significado se souber para que a está usando.
Confie em uma coisa acima de tudo: você foi, é e sempre será amado.
Lembre-se de que nunca precisei que você fosse como eu.
Eu apenas quis que você encontrasse o seu próprio caminho.
Se algum dia se perder, não tenha medo de parar e procurar novamente a direção que escolheu.
Você é meu filho, Kade. E, independentemente do caminho que escolher, sempre terá o meu amor.”
Kade permaneceu imóvel durante longos segundos, com os olhos fixos no papel. Foi então que reparou.
Por baixo da assinatura, outras palavras começaram a emergir — letras roxas, profundas, envoltas em puro Theus. Não estavam escritas no papel; pareciam existir dentro dele. As formas moviam-se lentamente, como se reagissem à presença de Kade. Tentou lê-las. Nada. As palavras recusavam-se a fazer sentido, escapando da sua compreensão como fumo por entre os dedos.
Kade fechou a carta com cuidado. Aquele não era o fim. Era simplesmente algo que ainda o aguardava. Kade permaneceu sentado, com a carta ainda entre os dedos. Durante alguns minutos, não fez absolutamente nada. O seu olhar perdeu-se num ponto distante onde memórias e sentimentos se misturavam sem ordem. Sozinho, tudo voltou.
A ausência do pai. O peso do seu nome. As expectativas que nunca pediu. A mansão demasiado grande para uma única pessoa. Tudo veio de uma vez, como um golpe direto, sem aviso, sem defesa possível. Kade sentiu o peito apertar-se, a respiração tornar-se pesada. Baixou a cabeça lentamente, relaxando os ombros pela primeira vez desde que chegara. Por um momento, deixou que a tristeza existisse, sem tentar afastá-la. Sabia que quando estivesse com eles outra vez, seria capaz de sorrir.
Mas naquele momento, sozinho sob a luz fraca do abajur, Kade apenas deixou o golpe passar… e respirou.
Quando voltou a guardar a carta, o quarto já não parecia apenas um lugar de luto — mas o ponto de partida para algo maior. E Kade conseguia senti-lo: do fundo da caixa, uma espécie de brilho a preto e branco começou a emanar. Um fio solto do passado tinha sido puxado. E, ao fazê-lo, abria caminho para verdades que talvez nunca devessem ter permanecido enterradas.