Kade não tinha dormido bem naquela noite.
Na verdade, ele mal conseguira pregar o olho.
A carta — ainda aberta sobre a secretária quando o sol começou a nascer — permanecia demasiado vívida na sua mente. Ele a tinha lido mais de uma vez. Depois, tentara reler passagens específicas. Depois, apenas ficara sentado, encarando a assinatura no final, como se as palavras pudessem se reorganizar e dizer algo diferente.
Não disseram.
Talvez fosse por isso que o seu sono tinha sido raso, fragmentado, cheio de breves despertares nos quais ele não tinha muita certeza se estava lembrando ou imaginando.
Agora, de pé diante de uma pintura enorme, emoldurada em ouro envelhecido, ele não pôde evitar um bocejo.
O salão principal do Museu de História de Kallar erguia-se ao seu redor. O teto alto era sustentado por colunas esculpidas com cenas de batalhas antigas; vitrais filtravam a luz da manhã em tons suaves de âmbar e azul. O chão polido refletia as molduras, as esculturas e os visitantes que caminhavam com passos demasiado medidos para parecerem naturais.
Kade não tinha nenhuma admiração particular pelos Kallar.
Ele respeitava a influência da família, é claro. O papel deles na preservação de artefatos históricos era inegável. Mas sempre lhe parecia que havia algo de excessivamente orgulhoso na forma como organizavam o passado. Cada peça em exibição parecia ser menos voltada para a memória coletiva e mais para a reafirmação do próprio nome.
Ainda assim, ele estava lá.
Meses atrás, quando o seu pai ainda estava vivo, um membro da família Kallar tinha visitado a mansão Vexar. A conversa tinha sido longa. Formal demais. Kade lembrava-se de passar pelo corredor e ouvir apenas fragmentos:
“Alianças culturais.”
“Herança de Lunaris.”
“Legados partilhados.”
No final, dois bilhetes tinham sido deixados sobre a mesa do escritório.
Exposição Especial: Ecos das Primeiras Guerras.
O seu pai tinha guardado os bilhetes sem grandes comentários. Apenas mencionara, dias depois, que poderia ser interessante visitar o museu quando a exposição abrisse.
Kade agora segurava um deles. O outro permanecia intocado.
Ele tinha considerado convidar alguém. Bria, talvez — por mais que ela fingisse desinteresse, tinha um olhar aguçado para detalhes artísticos. Mas ele imaginou a expressão entediada dela diante de armaduras antigas e documentos restaurados.
Serath seria ainda pior.
“Se eu quiser ver coisas velhas e enferrujadas, eu vou ver a sua mãe”, ele provavelmente diria.
Sua mãe havia morrido alguns anos antes.
Por isso, Kade tinha vindo sozinho.
Ele parou diante da pintura que ocupava quase toda a parede central do salão. A obra retratava a Batalha de Lortharyn: figuras envoltas em capas esvoaçantes, lâminas erguidas contra criaturas distorcidas que se assemelhavam a versões primitivas dos Wanderers. No centro, um comandante erguia o braço, o rosto iluminado por uma determinação heroica demais para parecer real.
Kade inclinou a cabeça ligeiramente.
Havia algo de artificial naquela composição. A forma como o herói era pintado — maior, mais nítido, quase separado do caos ao seu redor. Ele perguntou-se, sem nenhum entusiasmo real, se um dia fariam o mesmo com o seu pai.
Se algum artista decidiria que a história precisava de um ângulo mais inspirador.
A ideia incomodava-o de uma forma difícil de explicar.
Ele caminhou pelo salão lentamente, observando vitrines com armas antigas, fragmentos de armaduras e diários restaurados sob vidros grossos. Leu descrições técnicas, datas, títulos. As palavras passavam por ele sem se fixarem totalmente.
A sua mente voltava, insistentemente, para a carta.
Para a forma como o seu pai tinha escrito — direto, mas diferente do que ele esperava. Havia uma vulnerabilidade ali que ele nunca tinha testemunhado em vida. Uma hesitação entre as linhas. Um conselho que não era uma ordem.
“Terás de escolher por ti mesmo.”
A frase ecoou.
Diante de uma escultura que representava um antigo membro da Ordem Ether, Kade cruzou os braços. A figura de pedra encarava o horizonte com uma expressão resoluta, a espada cravada no chão, como se estivesse eternamente pronta para um chamado.
Ele tentou imaginar-se naquela posição.
Não conseguiu.
O futuro ainda parecia um espaço demasiado vasto, sem contornos definidos. Os Testes da Ordem Ether estavam se aproximando. Todos falavam deles com expectativa — alguns com ansiedade, outros com ambição declarada. Serath já falava como se a aprovação fosse inevitável.
Kade não partilhava da mesma certeza.
Não era medo de falhar. Era algo mais persistente: a dúvida sobre o porquê de querer tentar.
Se é que queria.
Ele passou a mão pelo rosto, tentando afastar a fadiga.
Talvez estivesse ali porque o convite tinha sido feito enquanto o seu pai ainda estava vivo.
Talvez fosse uma forma silenciosa de cumprir algo que tinha ficado inacabado.
Ou talvez estivesse apenas evitando voltar para casa cedo demais.
Um grupo de visitantes passou por ele, murmurando comentários admirados sobre a grandiosidade dos Kallar. Kade desviou o olhar para outra pintura — menos chamativa, quase esquecida num canto lateral.
Nela, não havia heróis centrais. Apenas soldados comuns, cansados, sentados após a batalha. Alguns feridos. Outros apenas encarando o nada.
Ele parou diante dela.
Havia algo de mais honesto ali. Sem brilho excessivo. Sem composição dramática. Apenas pessoas tentando entender o que vinha a seguir.
Kade permaneceu ali mais tempo do que pretendia, os sons do museu tornando-se um zumbido distante.
Talvez o passado não fosse feito apenas de grandes feitos.
Talvez fosse feito de momentos como este — de incerteza silenciosa antes da próxima decisão.
A pintura dos soldados exaustos não estava sendo observada apenas por Kade.
A poucos passos dele, uma jovem permanecia imóvel diante da mesma tela. Cabelo loiro, cortado curto, quase rente até a nuca. O corte não parecia descuidado. Ela vestia camadas de roupas pretas: um casaco ajustado, uma camisa de gola alta e calças igualmente escuras. Nada chamativo, nada ornamentado.
Exceto pelo anel.
Num dos seus dedos, um anel de tom esverdeado captava discretamente a luz filtrada dos vitrais. A pedra — ou o que quer que fosse — tinha uma profundidade invulgar, como se guardasse algo sob a sua superfície translúcida. Ali havia um símbolo dos Ryndal.
Ela observava a pintura com serenidade. Não havia admiração exagerada no seu rosto, nem tédio. Apenas atenção silenciosa.
Kade não sabia exatamente por que falou.
Talvez porque fosse mais fácil comentar sobre arte do que sobre cartas deixadas por pais mortos. Talvez porque o silêncio partilhado tivesse se tornado demasiado consciente.
“Esta é menos heroica do que as outras”, disse ele, mantendo o tom neutro.
A jovem virou o rosto ligeiramente em direção a ele. Os seus olhos claros avaliaram-no por um segundo antes de ela responder.
“É precisamente por isso que é melhor.”
A voz era gentil, baixa, sem qualquer vestígio de arrogância.
Kade assentiu.
“Gostas deste tipo de obra?”
Ela inclinou a cabeça.
“Gosto de arte.” Fez uma pausa por um momento. “Mas não exatamente deste tipo.”
Ele arqueou uma sobrancelha.
“Então por que está aqui?”
Ela voltou a desviar o olhar para a pintura.
“O meu pai insistiu.”
A resposta veio de forma simples, quase resignada.
Kade soltou uma gargalhada curta e discreta.
“Engraçado. Acho que o meu teria feito o oposto. Ele provavelmente me diria para não perder tempo com demasiadas formalidades.”
A jovem observou-o novamente, como se tentasse identificar se aquilo era humor ou verdade.
“Ainda assim, vieste.”
“É.”
Ele não se prolongou.
Após alguns segundos de silêncio, ambos se afastaram da parede quase ao mesmo tempo, como se tivessem decidido sem se coordenar. Havia um banco de madeira escura no centro do salão lateral. Sentaram-se ali, mantendo uma distância respeitosa.
“Prefiro pintar paisagens”, disse ela, após um momento.
Kade virou o rosto para ela, surpreendido.
“Você pintas?”
Um leve sorriso tocou os seus lábios.
“Sim.”
Ele observou-a mais de perto agora. As roupas escuras, o anel verde, o cabelo curto. Nada ali indicava necessariamente uma artista — mas talvez essa fosse uma expectativa limitada da parte dele.
“Não esperava por isso”, admitiu ele.
“Ninguém espera”, respondeu ela, com naturalidade. “O que torna mais fácil continuar fazendo.”
Kade soltou um pequeno som de entendimento.
“E o que você pintas?”
“Lugares vazios. Campos depois da chuva. Céus antes da tempestade. Montanhas sem ninguém nelas.”
Ele considerou a resposta.
“Nenhum herói no centro?”
Ela riu suavemente.
“Definitivamente nenhum herói no centro.”
O som era leve, mas sincero.
“Caltheria”, disse ela então, estendendo ligeiramente a mão. “Caltheria Ryndal.”
O sobrenome não lhe era estranho, mas Kade não reagiu visivelmente.
“Kade.”
Ela repetiu o nome mentalmente, como se o registrasse.
“Encontraste algo de bom por aqui?”, perguntou ele, fazendo um gesto vago em direção ao salão principal.
Caltheria soltou um riso mais evidente desta vez.
“Não.”
“Nada?”
“Muitas das pinturas são representações de eventos gloriosos dos Kallar ao lado dos Blazecrest.” O leve sorriso desapareceu, substituído por uma expressão quase entediada. “Parcerias heroicas, vitórias partilhadas, narrativas cuidadosamente compostas.”
Ela cruzou as pernas.
“Eu detesto isso.”
Kade inclinou a cabeça ligeiramente.
“Detestas alianças históricas?”
“Detesto quando parecem propaganda.”
O comentário veio sem amargura, apenas uma constatação de fato.
Kade olhou novamente para a pintura dos soldados exaustos.
“Então esta é a exceção?”
“Esta é honesta”, respondeu Caltheria. “Não tenta convencer ninguém de nada.”
O silêncio retornou, mas não era desconfortável.
Kade sentiu algo curioso: ali, sentado ao lado de uma desconhecida que também parecia fora de lugar naquele espaço, o peso da carta parecia um pouco menos sufocante.
Talvez porque ela falasse de pais que obrigavam.
Kade inclinou a cabeça ligeiramente, observando o perfil dela.
“Pareces detestar os Blazecrest em particular.”
Caltheria arqueou uma sobrancelha.
“Detesto?”
“Um pouco.” Ele fez um gesto vago com a mão. “O que é curioso. Eu sou um Vexar. Você é uma Ryndal. Em teoria, deveríamos guardar um certo… ressentimento mais direcionado aos Kallar, não deveríamos?”
O canto da boca dela elevou-se discretamente.
“Em teoria.”
Ela apoiou as mãos no regaço, o anel esverdeado captando a luz novamente.
“Não sou muito fã de disputas de clãs. Ou velhas rivalidades. Ou combates, estratégias ou demonstrações de poder.”
Ela disse isso com uma naturalidade que não soava a desprezo — apenas desinteresse genuíno.
“Mas os Blazecrest…” O leve sorriso desapareceu. “…eles têm estado insuportáveis ultimamente.”
Kade observou-a mais de perto.
“Por causa do retorno?”
Ela assentiu.
“Desde que começaram a recuperar influência, tudo se tornou um espetáculo. Declarações públicas, demonstrações de força, presença em todos os eventos possíveis. Como se precisassem de reafirmar todas as semanas que ainda estão no topo.”
Kade cruzou os braços, curioso.
“Isso te incomoda?”
“A arrogância me incomoda”, respondeu ela sem hesitação. “Principalmente quando vem envolta nessa aura de ‘sou naturalmente superior’.”
Houve uma pequena pausa antes de ela acrescentar:
“Anives Blazecrest é o exemplo perfeito.”
O nome ficou suspenso entre eles.
“Ele carrega essa presença de alguém que nasceu destinado a ser mais forte do que todos ao seu redor”, continuou Caltheria. “E ele faz questão de deixar isso claro, mesmo quando não diz uma palavra.”
Ela abanou a cabeça ligeiramente.
“Não gosto disso. Não gosto da ideia de alguém se comportar como se o mérito estivesse garantido apenas porque nasceu com poder.”
Kade soltou um riso leve.
“Não tenho nada contra os Blazecrest.”
A frase saiu com demasiada facilidade.
Por dentro, no entanto, algo moveu-se desconfortavelmente ao ouvir aquele nome.
Anives Blazecrest.
Ele não sabia exatamente porquê.
Talvez fosse apenas a associação automática com força bruta e expectativa pública. Talvez fosse o fato de o nome surgir frequentemente sempre que se falava nos Testes da Ordem Ether — quase como se a presença dele já fosse considerada inevitável.
Ou talvez fosse algo mais sutil.
Uma sensação de comparação silenciosa.
Kade não gostava de comparações.
“Acredito que cada clã tem os seus arrogantes”, acrescentou ele, mantendo o tom casual.
“Não é exclusividade deles.”
Caltheria observou-o com uma atenção renovada.
“Falas como alguém que já está habituado a isso.”
Ele encolheu os ombros.
“Cresci ouvindo falar de expectativas. Elas fazem parte da paisagem.”
Ela sustentou o olhar dele por um momento, como se tentasse decidir até que ponto aquela resposta era verdadeira.
“Ainda assim”, disse ela, “prefiro artistas a prodígios de batalha.”
“Por que as paisagens não competem com ninguém?”, perguntou ele.
“Porque as paisagens não precisam provar que são superiores”, respondeu ela.
O silêncio que se seguiu foi breve.
Kade encarou novamente a pintura dos soldados exaustos.
Anives Blazecrest.
O nome ecoou de novo, desta vez mais distante.
Ele não sentia hostilidade. Nenhuma inveja clara. Apenas uma leve tensão difícil de classificar — como se, ao ouvir aquele nome, algo dentro dele fosse instintivamente colocado à prova.
Ele afastou o pensamento com um meio sorriso.
“Espero que, se algum dia pintarem um Blazecrest triunfante ali na parede”, disse ele, apontando em direção ao salão principal, “você estejas longe o suficiente para não teres de ver.”
Caltheria riu.
“Eu provavelmente estaria dormindo a essa hora.”
Caltheria olhou para o relógio no pulso, um modelo simples com pulseira escura.
“Devo ir.”
Ela levantou-se com a mesma serenidade com que observava as pinturas. Ajustou o casaco preto, num gesto automático.
“Foi… interessante conhecer-te, Kade.”
A escolha da palavra pareceu deliberada.
Ele também se levantou.
“Igualmente, Caltheria.”
Houve um breve silêncio — não constrangedor, apenas incompleto. Como se ambos soubessem que aquela conversa não tinha sido profunda o suficiente para deixar uma marca, mas também não tinha sido superficial o bastante para ser facilmente esquecida.
Ela inclinou a cabeça ligeiramente em jeito de despedida.
“Espero que encontres algo aqui que valha a pena.”
“Eu também”, respondeu ele.
Ela afastou-se pelo corredor lateral, os passos suaves ecoando no chão polido até desaparecer entre as colunas do salão principal.
Kade permaneceu de pé por alguns segundos, olhando para o espaço vazio onde ela estivera. Depois, voltou olhando para a pintura — os soldados sentados após a batalha, sem heroísmo exagerado.
Talvez já bastasse por hoje.
Horas mais tarde, o céu já estava escurecendo quando ele deixou o museu.
Ele não quericaminhando de volta. Solicitou um motorista de aplicativo e esperou na calçada, com as mãos nos bolsos, o vento frio da tarde tocando de leve o seu rosto.
O carro chegou em poucos minutos. Ele entrou, indicou o destino — Mansão Vexar — e encostou a cabeça para trás no assento.
O motorista não parecia interessado em conversa. O rádio estava ligado num volume moderado.
“…é simplesmente uma vergonha para o clã Kallar”, dizia uma voz masculina, carregada de indignação contida. “Esta não é a primeira vez que vemos isto acontecer.”
Kade abriu um pouco os olhos.
“Estamos falando de influência”, continuou o primeiro jornalista. “Todo o norte do país praticamente se afiliou aos Blazecrest. Um clã sediado no sudeste controla o norte, nordeste e noroeste. Para não falar do centro. Isto já vai além do que é natural.”
Outra voz surgiu, mais casual. Um riso leve cortou o som estático da transmissão.
“Ou talvez você esteja apenas com inveja.”
“Inveja?”, retorquiu o primeiro, claramente irritado. “Há cinco, dez anos, você acha que os Kallar permitiriam, dentro da sua própria exposição, que trinta por cento das obras representassem grandes momentos dos Blazecrest em vez dos seus próprios feitos?”
O segundo riu novamente.
“A isso se chama relevância.”
“A isso se chama perda de identidade”, rebateu o primeiro. “Um clã que sempre dominou culturalmente permitir que outro ocupe os seus espaços simbólicos?”
“Você está é com medo de o próximo rei ser um Blazecrest, pode falar.”
A discussão continuou, alternando argumentos políticos e provocações sutis.
Kade deixou o seu olhar perder o foco pela janela. As luzes da cidade passavam em linhas alongadas, refletidas no vidro como pinceladas rápidas.
Blazecrest.
O nome parecia persegui-lo naquele dia.
Primeiro Caltheria. Agora o rádio.
Pensou no que ela tinha dito sobre a arrogância. Também pensou na naturalidade com que o jornalista a favor dos Blazecrest tinha rido da acusação.
Influência. Controle regional. Retorno triunfante.
Ele não sabia exatamente o que sentir em relação a isso.
Parte dele não se importava com disputas de poder entre clãs. Outra parte reconhecia que essas disputas moldavam o palco onde ele inevitavelmente teria de agir — especialmente com os Testes da Ordem Ether se aproximando.
A palavra “direção” retornou à sua mente.
Ele encostou a cabeça ainda mais para trás no assento, os olhos tornando-se pesados.
A fadiga acumulada da noite anterior estava finalmente cobrando o seu preço. A carta. O museu. Conversas sobre heróis, arrogância, legado.
O rádio continuava a discussão em pano de fundo, as vozes agora mais distantes, quase embaralhadas.
Kade fechou os olhos por um instante, pretendendo apenas descansar a vista.
Quando o carro desacelerou diante dos portões da mansão, ele percebeu que estivera à beira de adormecer.
Quase.
A mansão estava em silêncio quando Kade entrou.
Os longos corredores ecoavam apenas o som controlado dos seus passos. A iluminação suave das arandelas projetava sombras alongadas nas paredes decoradas com velhos retratos dos Vexar — olhares austeros, poses calculadas, histórias que nunca foram contadas na totalidade.
Ele subiu a escadaria central sem pressa.
A fadiga ainda pesava nos seus ombros, mas havia algo mais forte agora: a curiosidade.
Quando abriu a porta do seu próprio quarto, o ar parecia ligeiramente diferente.
A caixa.
Permanecia onde ele a tinha deixado, perto da parede lateral, sob a janela alta. A madeira velha contrastava com a atmosfera requintada do quarto.
E lá dentro, como se ignorassem a passagem do tempo, os fragmentos ainda brilhavam.
A espada partida.
O escudo danificado.
Não era um brilho comum. Não era apenas um reflexo da luz do quarto. Era algo interno, quase pulsante, demasiado discreto para ser chamativo, mas intenso o suficiente para ser impossível de ignorar.
Kade aproximou-se lentamente.
A lâmina partida parecia ter sido forjada para algo maior do que um combate comum. O metal não estava oxidado, apesar da sua aparência antiga. As fissuras não eram apenas quebras — pareciam linhas de energia congeladas no momento da ruptura.
Ele nunca tinha visto uma arma assim.
Nem nos treinos.
Nem nos registros.
Nem nas coleções privadas da família.
Havia algo ali que não se ajustava ao padrão do clã.
Um leve sorriso surgiu no seu rosto.
Curiosidade.
E uma ponta de entusiasmo.
Talvez estivesse na hora.
Ele afastou-se da caixa e foi até a escrivaninha. De uma das gavetas, retirou a carta do seu pai — o papel já ligeiramente marcado pelas vezes que tinha sido aberto.
Sentou-se na cama, com a carta nas mãos.
Respirou fundo.
E começou a reler.
As palavras ainda carregavam o mesmo peso da noite anterior. Não eram longas, mas eram densas. Havia pausas estranhas. Quebras de linha invulgares. Uma escolha de termos que era quase… demasiado cuidadosa.
Não soava ao pai que ele conhecia.
O seu pai era direto. Estratégico. Preciso.
Isto parecia… um poema.
Kade franziu ligeiramente o cenho.
Olhou para baixo, lendo mais de perto. Não apenas o conteúdo — mas a forma.
Cada linha começava com uma letra ligeiramente maior.
Ele não tinha reparado antes.
Talvez porque estivesse afetado emocionalmente. Talvez porque não esperasse nada mais do que uma despedida.
Mas agora, sentado sob a luz suave do quarto, com a espada partida brilhando atrás de si, os detalhes começaram a se alinhar.
Voltou ao início.
Primeira linha.
Segunda.
Terceira.
Os seus olhos moveram-se verticalmente, ignorando o resto das frases.
As primeiras letras.
B.
L.
A.
Z.
E.
C.
R.
E.
S.
T.
O ar pareceu rarefeito por um instante.
Blazecrest.
Kade ficou imóvel.
A carta não era apenas uma carta.
Era um acróstico.
Uma mensagem oculta dentro de uma despedida.
O nome que tinha ecoado no museu. O nome debatido no rádio. O nome que Caltheria tinha pronunciado com desprezo.
Blazecrest.
O seu pai tinha escondido aquele nome ali.
De propósito.
Kade sentiu um calafrio correr-lhe pela espinha.
Ele baixou lentamente a carta para o regaço, encarando o espaço vazio à sua frente enquanto os fragmentos da espada pulsavam suavemente atrás dele, como se reagissem à descoberta.
O que exatamente o seu pai estava tentando dizer?
Era um aviso?
Uma acusação?
Uma instrução?
Ou algo ainda mais profundo?