As periferias do território Vexar estendiam-se como uma cicatriz pelas margens da cidade. Era uma área que muitos preferiam não mencionar — e, quando o faziam, era com desprezo. O clã Vexar, apesar de ser antigo e influente, carregava a desconfortável reputação de ser um clã de ralé: pessoas que cresceram sem luxo ou berços de ouro. Eram conhecidos pelos outros dois clãs de Valthorin— e até por rivais de outras cidades, como os Calmarion — como "gambás".
Ao contrário das regiões centrais — como aquelas onde Kade vivia, raras, silenciosas e absurdamente exclusivas —, o espaço aqui era partilhado. Todo metro parecia disputado. Cada estrutura tinha sido construída para durar apenas o tempo suficiente até que outra chuva forte fizesse com que outro deslizamento de terra acabasse com o sonho de muitas famílias. As casas eram pequenas, simples, quase todas amontoadas. Fachadas desgastadas, tinta a descascar, mas muitas janelas abertas, como se todo o bairro respirasse como um só. Portas de madeira e metal permaneciam destrancadas durante o dia, não por ingenuidade, mas por confiança. Quem vivia ali conhecia-se. Sabiam quem passava, quem ficava e quem precisava de ajuda.
As paredes exibiam grafites, tanto antigos como novos — símbolos, nomes, protestos contra líderes de clãs que nunca tinham posto os pés ali. Algumas marcas falavam de revolta. Outras, apenas de existência. Fios elétricos caóticos cruzavam o céu, sustentados por postes tortos. Geradores improvisados zumbiam em alguns becos. O cheiro a óleo, metal aquecido e comida simples misturava-se no ar. No meio de tudo isso, quase escondida entre duas casas estreitas, ficava a oficina. A porta estava aberta.
Lá dentro, Serath estava sentado num banco baixo, inclinado sobre uma bancada de trabalho cheia de peças desmontadas. Engrenagens, fios expostos, placas de circuito queimadas e ferramentas espalhadas sem ordem aparente — mas tudo estava exatamente onde ele sabia que estava. A luz que iluminava a oficina vinha de uma lâmpada pendurada por um fio gasto, que piscava de vez em quando. Serath trabalhava em silêncio, o som metálico de uma chave inglesa a girar ecoava suavemente, quase de forma rítmica.
Aqui, longe dos salões do conselho e das mansões de pedra branca, ele não era um nome de peso ou uma promessa de poder. Ele era apenas Serath. Serath girou uma peça entre os dedos, observando cuidadosamente cada encaixe, cada microfissura no metal. O objeto sobre a mesa já não parecia uma pilha de sucata — começava a ganhar forma. Ele encaixou o último cilindro lateral e puxou um fio de aço fino, quase invisível, testando a sua resistência. O mecanismo respondeu com um clique agudo. Um pequeno projétil foi lançado, cruzando a oficina até se cravar com precisão numa viga de metal perto do teto. O fio esticou imediatamente, firme e obediente.
Serath esboçou um meio sorriso. Com um gesto curto, ativou a retração. O gancho soltou-se e voltou num disparo, recolhido para o compartimento interno com um zumbido limpo. Sem encravar. Sem falhas.
"Hm..." murmurou ele, satisfecho.
Era um lançador de fio de aço — compacto e versátil. Ganchos retráteis capazes de se fixar e soltar com facilidade, desenhados tanto para escalada quanto para captura ou movimentação rápida. Serath apoiou os cotovelos na mesa e limpou o rosto, sentindo o peso do cansaço. As olheiras sob os seus olhos eram discretas, mas reais. As suas costas doíam. Os seus dedos estavam marcados por pequenos cortes, novos e antigos. Ainda assim, havia orgulho ali. Ele encostou-se no banco, observando a sua criação por mais alguns segundos, respirando fundo. Estava exausto — mas era o tipo de exaustão que vinha após um trabalho bem-feito.
O leve ranger do portão anunciou a chegada dela antes mesmo de Serath erguer os olhos. Passos arrastados cruzaram o pequeno corredor lateral da casa até a garagem, e então a silhueta da sua mãe surgiu na porta da oficina. O seu rosto carregava a fadiga de quem tinha passado o dia inteiro de pé, a lidar com pessoas, contas e problemas que nunca pareciam diminuir. O seu casaco simples estava meio aberto, e uma bolsa gasta pendia do seu ombro.
Ela parou por um momento, observando o filho em silêncio.
"Ainda mexendo nessa coisa?" disse ela, o tom numa mistura de desaprovação e afeto.
Serath sorriu de leve, desligando o mecanismo e pousando a ferramenta na mesa. "Acabei por ficar demasiado tempo," respondeu ele, levantando-se. "Como correu o trabalho?"
Ela soltou um longo suspiro e entrou, pousando a bolsa numa cadeira. "O costume. Aquele idiota tentando arranjar confusão, o chefe a fingir que não vê nada..." fez um gesto vago com a mão. "Mas sobrevivi. E você?"
Serath encolheu os ombros. "Consertei algumas coisas. Vendi uma peça esta manhã."
Hesitou por um segundo. "Também fiz algo novo."
Ela aproximou-se da mesa, os olhos fixos no objeto metálico. "Parece perigoso."
"Tá funcionando. Se pusermos à venda, talvez não tenha de trabalhar mais," corrigiu ele com um meio sorriso.
Ela abanou a cabeça, mas não insistiu mais. Em vez disso, estendeu a mão e tocou levemente no braço dele, sentindo a tensão sob a pele. "Não tem de carregar tudo sozinho, sabe?"
Serath desviou o olhar por um instante. "Eu sei. Só..." respirou fundo. "Quero garantir que ficamos bem."
A mãe de Serath cruzou os braços, encostando-se na lateral da bancada. O seu olhar era atento, preocupado — o tipo de olhar que apenas quem cria um filho sozinho aprende a ter.
"Você tem passado tempo demais aqui fechado," disse ela com cuidado. "Chegando tarde, saindo cedo... mal dormes."
Serath não respondeu imediatamente. Ajustou uma ferramenta que nem precisava de ajuste.
"Se tudo isto é para me ajudar," continuou ela, "não precisa. Eu dou um jeito. Sempre dei."
Ele suspirou, já prevendo o que viria a seguir. Ela hesitou por um segundo antes de falar, como se escolhesse as palavras com cuidado.
"Por que não pedes ajuda ao seu amigo? Kade. Toda a gente fala... agora que o pai dele morreu, dizem que ele tem dinheiro suficiente para sustentar meia dúzia de famílias. Vocês os dois são próximos, não são?"
O estalido metálico da ferramenta a bater na mesa foi agudo. Serath ergueu a cabeça num solavanco, o olhar duro.
"Não." A resposta veio rápido demais. "Nem pense nisso."
Ela assustou-se um pouco com o tom, mas manteve-se calma. "Só estou dizendo que —"
"Eu sei o que está dizendo," interrompeu ele, a voz mais alta do que pretendia. "E é exatamente por isso que a resposta é não."
Ele passou a mão pelo cabelo, andando de um lado para o outro da oficina. "Não vou pedir dinheiro para ele. Não vou." Respirou fundo, tentando conter-se. "Não quero que ele pense que sou um interesseiro. Que só estou por perto porque ele agora tem uma herança, um nome e poder."
A mãe observou-o em silêncio.
"Kade é meu amigo," continuou Serath, mais calmo, mas firme. "E quero que continue a ser assim. Quero olhar para ele como um igual. Quero conquistar as coisas por mim mesmo. Com o que sei fazer. Com as minhas próprias mãos."
Ele parou, encarando a sua criação na mesa. "Se um dia eu cair... que seja porque tentei sozinho. Não porque me apoiei no nome de outra pessoa."
Por um momento, ela não disse nada. Depois, aproximou-se e colocou a mão no ombro dele. "Você realmente é meu filho," disse ela com um sorriso triste. "Teimoso até o fim."
Serath não devolveu o sorriso, mas relaxou um pouco. "Só não quero dever nada a ninguém," murmurou ele.
A mãe de Serath permaneceu em silêncio por alguns segundos, como se quisesse dizer algo mais — mas não o fez. Apenas acenou levemente com a cabeça, respirou fundo e afastou-se da oficina, levando consigo a fadiga do dia e a preocupação constante. Os seus passos ecoaram pelo corredor até desaparecerem dentro de casa.
Serath estava sozinho outra vez.
O som distante de uma panela a ser colocada no fogão mal tinha chegado à garagem quando um toque eletrônico quebrou o silêncio. Ele franziu o cenho e meteu a mão no bolso, puxando o celular manchado de graxa.
Na tela, o nome piscava: Kade.
Ele atendeu. O ar à sua frente distorceu-se ligeiramente, e um holograma azulado projetou-se acima do aparelho. A imagem de Kade apareceu com uma nitidez surpreendente, o rosto parcialmente iluminado, os olhos focados — diferente de como
Serath se lembrava deles há poucas horas.
"Finalmente te encontrei," disse Kade sem preâmbulos. "Estava mexendo nos pertences do meu pai... e encontrei algumas coisas."
Serath cruzou os braços, atento. "Vindo de você, 'algumas coisas' nunca são pouca coisa," comentou ele.
Kade esboçou um meio sorriso, mas havia algo de sério por trás. "Armas." Fez uma pausa. "E não são comuns. Longe disso."
O holograma moveu-se ligeiramente, como se ele estivesse caminhando pelo quarto. "Já vi muita coisa na minha vida, Serath. Mas isto aqui..." hesitou. "É diferente de qualquer tecnologia ou aplicação de Theus que eu já tenha conhecido."
Os olhos de Serath brilharam quase imediatamente. "Diferente como?"
"É por isso que te quero mostrar." Kade encarou-o diretamente. "Acho que é a única pessoa capaz de entender o que estou vendo."
Serath olhou ao redor da oficina, para as peças espalhadas, para o lançador de fio recém-construído. Depois, olhou de volta para o holograma.
"Quando?"
Kade sorriu, desta vez com mais certeza. "O mais depressa possível."
O holograma dissolveu-se lentamente, deixando a oficina em silêncio mais uma vez. Mas agora, o silêncio parecia carregado de expectativa.
O parque tornava-se mais silencioso a cada passo que Serath dava.
Os trilhos bem-cuidados tinham ficado para trás há minutos, substituídos por caminhos de terra irregulares, cobertos de folhas secas e raízes expostas. Aqui, as árvores cresciam mais próximas umas das outras, formando uma cobertura natural que filtrava a luz do final da tarde em tons sombrios e esverdeados.
Serath caminhava com as mãos nos bolsos, alerta ao que o rodeava. O chilrear distante de insetos e o estalo ocasional de galhos sob os seus pés eram os únicos sons que o acompanhavam.
Era estranho. Kade nunca tinha sido paranoico. Muito menos alguém que marcaria um encontro num local tão isolado sem uma razão. Isso, por si só, dizia muito.
"Se ele me chamou até aqui..." sussurrou para si mesmo, "é porque não queria que ninguém visse. Ou sentisse."
Olhou ao redor, avaliando instintivamente o fluxo de Theus na área. Havia pouco — quase nada. Um lugar demasiado comum para despertar interesse... e, por essa mesma razão, perfeito para evitar atenções.
Serath franziu o cenho. Não era medo o que sentia, mas uma inquietação crescente. A sensação de que Kade tinha encontrado algo sério. Algo que não devia ser analisado num quarto, nem discutido por mensagens. Algo que exigia distância do mundo.
À medida que avançava mais entre as árvores, o ar parecia tornar-se mais frio, mais denso. Serath respirou fundo e ajustou o passo. Se Kade estivesse certo, este encontro marcaria o início de algo muito maior. E Serath tinha quase a certeza de que, a partir deste ponto, nada voltaria a ser simples.
Uma silhueta destacou-se entre as árvores.
Serath desacelerou o passo ao reconhecer a figura que emergia da vegetação, caminhando com naturalidade, como se aquele pedaço isolado do parque fosse apenas mais uma rua comum da cidade. Kade vestia roupas casuais — demasiado simples para alguém com o seu nome: um casaco escuro aberto, uma camisola neutra por baixo, calças confortáveis. Nada que chamasse a atenção. Nada que traísse quem ele era.
Ao notar a presença de Serath, Kade ergueu a mão num breve aceno.
"Chegou mesmo a tempo," disse com um leve sorriso, parecendo quase aliviado.
Só então Serath reparou na mochila. Estava pendurada num dos ombros de Kade — um modelo robusto e escuro, com fivelas reforçadas, claramente nova. Não combinava com o resto do seu vestuário. Não era algo com que Serath já o tivesse visto antes.
Kade aproximou-se e, sem cerimônias, deslizou a mochila do ombro, pousando-a no chão entre eles. O gesto foi demasiado cuidadoso para algo comum; era quase respeitoso.
"Seja lá o que isso for," comentou Serath, olhando para a bolsa, "não parece leve."
Kade não respondeu imediatamente. Apenas pousou a mão no fecho, respirou fundo e olhou para o amigo. Havia uma gravidade rara nos seus olhos.
"Precisava de alguém da minha confiança," disse suavemente. "E de alguém que saiba o que está prestes a ver."
O vento soprou pelas árvores, fazendo as folhas sussurrarem ao redor deles. Kade agachou-se diante da mochila e abriu o fecho com cuidado. O som foi baixo, abafado pela folhagem farfalhante. Lá de dentro, ele retirou primeiro uma bainha, longa e estreita, revelando apenas um fragmento da lâmina que repousava no interior.
O metal visível era limpo, antigo... e estranho.
A bainha apresentava um padrão invulgar dividido entre preto e branco — cores que não se misturavam, mas coexistiam num equilíbrio quase desconfortável. Não havia ornamentos exagerados, apenas linhas firmes e símbolos discretos gravados no material, tão desgastados pelo tempo que pareciam ter sido apagados à força.
Kade apoiou a espada com cuidado contra uma raiz exposta. Em seguida, puxou o segundo objeto.
À primeira vista, assemelhava-se a um escudo — ou ao que restava de um. A estrutura estava partida e irregular, como se tivesse sido despedaçada por um impacto absurdo. Fragmentos metálicos permaneciam unidos por uma armação interna, formando um semicírculo deformado. O material não refletia a luz como o metal comum; parecia absorvê-la.
Serath aproximou-se, o olhar atento, quase reverente.
"O que... é isto?" perguntou, incapaz de esconder a curiosidade.
Kade permaneceu em silêncio por um momento, escolhendo as palavras com cuidado.
"As maiores armas que encontrei entre as coisas do meu pai," respondeu finalmente. "Pelo menos... as que estavam verdadeiramente escondidas."
Serath estreitou os olhos, cruzando os braços.
"Maiores?" Examinou os objetos mais de perto. "Mas estão... partidas." Olhou para Kade. "O que as torna tão especiais? Especialmente neste estado."
Kade fechou a mochila e levantou-se lentamente.
"É exatamente isso que quero descobrir," disse seriamente. "Porque mesmo partidas... consigo senti-lo. Estas armas não perderam o seu poder," acrescentou. "Estão apenas... incompletas."
Serath agachou-se devagar e pegou primeiro na bainha, sentindo imediatamente o seu peso invulgar. Não era apenas físico — havia algo de denso ali, como se o material resistisse ao seu próprio toque. Pousou-a e segurou o escudo partido, correndo os dedos pelas bordas denteadas, analisando cada fissura com um olhar experiente e técnico.
"Se isto pertenceu ao seu pai..." começou ele, olhando para Kade, "então não é uma arma qualquer. As armas especiais carregam sempre um símbolo de materialização. É assim que se sabe o verdadeiro nível do objeto."
Com a ponta do dedo, Serath apontou para uma marca pequena, quase invisível, perto da base da bainha.
"Funciona assim," explicou com naturalidade, como quem recita uma lição aprendida há muito tempo. "Castanho indica armas feitas de materiais comuns. Ferro, aço simples, ligas básicas. Nada de especial. Prata significa metais nobres. Duráveis, valiosos... mas ainda limitados."
O tom de Serath tornou-se mais sério.
"Ouro já é outra história. São materiais que conduzem Theus. Metais raros como Aurelion, Thyrr-Gold ou Solmyth, criados ou tratados para amplificar a energia. Estas armas costumam responder ao utilizador."
Fez uma breve pausa, os olhos a estreitarem-se.
"Esverdeado..." murmurou. "Isso é Orichalcum. O Orichalcum é absurdamente resiliente.
Consegue aguentar ataques até de membros de Nível 4 sem se deformar. Não é algo que se veja todos os dias."
Serath passou a mão pelo escudo partido, ainda sem acreditar.
"Roxo seria impossível. O material mais forte do mundo. Aguenta até ao Nível 2. Só parte se um Nível 1 forçar... ou se colidir com outra arma do mesmo material. E branco..." abanou a cabeça, "teoricamente, são objetos encantados. Extremamente raros."
Serath voltou a focar o olhar nos dois objetos nas suas mãos. Então, estacou. Na bainha... e no escudo também. Havia um brilho discreto, quase extinto pelo tempo.
Esverdeado.
Os olhos de Serath arregalaram-se. "Não pode ser..."
Kade deu um passo em frente. "O que foi?"
Serath ergueu os objetos, a voz grossa de choque. "Orichalcum. Em ambos." Engoliu em seco. "Este material não é minerado. É extraído de conchas especiais — conchas que só existem na costa. E quem controla esse comércio são os Calmarion. Calmaria... a cidade da praia."
O vento sibilou entre as árvores. Duas armas partidas. Feitas de um material extremamente raro.
Serath respirou fundo e começou a observar os objetos novamente, agora com uma atenção obsessiva. Levou-os até à luz que filtrava entre as árvores, inclinando a bainha, depois o escudo, como se procurasse algo que os seus olhos se tivessem recusado a aceitar à primeira vista.
Foi então que viu. Todo o seu corpo enrijeceu.
"Kade..." a sua voz saiu baixa e rouca.
Ele correu o polegar por um símbolo quase imperceptível, gravado profundamente no Orichalcum, não como um ornamento, mas como parte do próprio material. O traço era antigo, agressivo, carregado de intenção.
Uma águia negra.
Serath permaneceu imóvel por alguns segundos, de boca aberta, os olhos arregalados em puro choque. "Não... isto não devia estar aqui..."
Kade correu para o lado dele. "O que é que viste?"
Serath ergueu lentamente a bainha, depois o escudo, mostrando o mesmo símbolo em ambos.
"A águia dos Vexar."
Kade entrou em um completo estado de choque.
"Nenhuma arma carrega o símbolo de um clã," continuou Serath, a voz tremendo apesar do esforço para se manter firme. "Nenhuma... exceto uma categoria." Engoliu em seco.
"Tesouros Divinos."
As palavras pareceram pesar no ar. Serath fechou os olhos por um momento, como se organizasse pensamentos que não deveriam existir.
"Tesouros Divinos são as armas de grandes guerreiros. Pessoas que morreram em combate... ou morreram tão perto das suas armas que, no momento da morte, o Theus libertado as impregnou." Abriu os olhos, encarando Kade. "O Theus do utilizador fica marcado para sempre. A arma torna-se única."
Serath deu meio passo atrás, ainda segurando os objetos com um cuidado quase reverente.
"Apenas membros de alta patente têm sequer permissão para saber que isto existe. Ter uma... já seria um absurdo." Soltou uma gargalhada curta e nervosa. "Duas? Partidas ou não? Nós nunca deveríamos ver algo assim pessoalmente. Nem em registros. Nem em museus. Nem em contos."
Olhou para cima, o rosto pálido. "E a pior parte..." sussurrou. "Carregam o símbolo do nosso clã."
A chama vacilou, quase apagando-se, como se reagisse à tensão entre eles. O artefato permanecia ali, imóvel, mas Kade sentia como se estivesse respirando.
"Isto não apareceu aqui do nada," disse Serath, a voz mais baixa agora, mas perigosamente firme. "Alguém trouxe isto para aqui. Alguém o escondeu."
Kade cerrou os punhos. "Não foi ele."
"Tem certeza?" Serath deu um passo em frente. "Porque tudo aponta para isso."
Kade ergueu os olhos, a mandíbula contraída. "O meu pai não era um ladrão."
Serath soltou um riso curto, completamente desprovido de humor. "E se ele não fosse quem você acha que era?"
A frase caiu como uma lâmina. Kade sentiu o ar faltar-lhe nos pulmões por um instante.
"Não diga isso."
"Você está vendo-o como um filho, mas..." continuou Serath, agora sem qualquer suavidade. "Os homens fazem coisas horríveis quando acreditam que estão protegendo algo. E não há forma de isto lhe ter sido entregue voluntariamente."
Kade abanou a cabeça, como se tentasse afastar a ideia da mente. "Se o seu pai fosse realmente capaz de fazer algo assim, então talvez não apenas o seu sonho de te tornares um herói, mas também cada razão que tem para querer participar na Ordem Ether... simplesmente desapareceriam."
"Deve haver um erro. Uma arma trocada. Uma unidade de armazenamento antiga. Qualquer coisa." Respirou fundo. "Devíamos levar isto ao Cedrin. Ele decide. Não nós."
O silêncio que se seguiu foi demasiado pesado para ser ignorado. Serath passou a mão pelo cabelo, os olhos arregalados — não de medo, mas de pura incredulidade.
"Enlouqueceu?" Apontou para o artefato. "Apenas estar perto disto é motivo de prisão. A lei não pergunta o porquê. Só pergunta quem."
Aproximou-se mais uma vez, meio em súplica, meio em ameaça.
"O melhor caminho é simples: escondemos isto... ou destruímos. Agora."
Kade encarou o objeto. Depois Serath. Depois o vazio. Nenhuma opção parecia correta. Cada escolha parecia definitiva. E isso assustava-o mais do que qualquer resposta alguma vez conseguiria.