Um garoto jovem, cabelos pretos cobrindo um pouco de seus olhos.
Com olhos mais escuros ainda...
Seu rosto vermelho, o cheiro do suor ofusca seu nariz, fazendo o fungar.
Seus olhos se abrem lentamente, com certo peso antes de abrir totalmente
Ele vê o chão, juntamente de seus joelhos e parte de seu abdômen, pois estava sem camisa, com joelhos ralados e bermuda suja.
Então, ele tenta levantar a cabeça
Primeiro veio a luz, inclusive, estourada demais
Depois o peso do corpo, seguido da dor
Ele sentia como se tudo doesse ao mesmo tempo
Um incômodo espalhado que, agora, o mantinha acordado à força.
Piscar gerava incômodo
Um tipo de ardência
Quando a visão começou a se organizar, a primeira coisa que viu foram barras
Ferro grosso; Vertical; Frio;
Uma jaula?
A garganta ardia, seca
Como se ele tivesse passado dias sem água
É nítido que o garoto tenta mexer as mãos, mas não consegue
Tentou falar, mas algo apertava a boca, deixando só o nariz livre para respirar.
Enfim, ele desiste de tentar se entender
E começa a tentar entender a situação.
À sua frente, um salão amplo se abria
Iluminado demais
Luxuoso demais
Cadeiras alinhadas em fileiras suaves, ocupadas por homens e mulheres de terno, vestidos caros
O cheiro de perfume importado pairava o ar fora daquela espécie de jaula, onde o jovem estava preso
Juntamente, o barulho de joalherias exageradas não se escondia
Ele percebe que aquelas pessoas conversavam entre si
Aparentemente, sobre o mesmo
— Esse garoto...
é bem interessante.
Uma moça, aparentemente de meia idade, comenta para o que parecia ser, seu marido
Que logo responde:
— Realmente...
Na verdade, ele é bem familiar
Esse cabelo muito escuro, quase fosco...
Enquanto essa conversa continua
O garoto preso sente uma agitação aonde ele está com os joelhos apoiados na superfície
Quando olha para os lados
Ele vê as pernas, a cintura e parte do tronco de um homem alto com boas roupas
As mãos seguravam as barras da jaula numa pegada neutra
Ele olha pra cima e finalmente percebe
Um homem de cabelos castanhos escuros, sem muitos detalhes exóticos
Porém, esse homem não devolve o olhar, apenas olha pra frente, na direção das outras pessoas
O garoto se toca: ele está levantando a aquilo sozinho?
Ele vira a cabeça rápido pro lado contrário
Outro cara estava carregando também
Roupas similares ao outro, mas seu cabelo era mais curto e escuro
Logo, os dois soltam, o garoto até cambaleia um pouco
Instantes depois, uma voz, com auxílio de caixas de som de qualidade, acerca:
— Boa noite, família!
Desculpe o atraso, enfim!
Um garoto raro, é o que temos aqui! — ele fala com entusiasmo, até mesmo da um tapa no teto da jaula
E continua
— Ele deu bastante trabalho, viu
Tratem de utilizar bem, pois ele tem bastante força para quesitos, de acordo com alguns experimentos e pesquisas
Enfim!
O lance inicial para esse garoto, é...
A voz veio de cima, firme e treinada:
— Mil ienes.
...
— Sim, é barato mesmo.
Peguem ou larguem, esse ainda é descartável, mas alguém precisa levar pra doutrinação
Pois ele não pode morrer ainda...
Alguns murmúrios percorreram o salão
— Mil? E como ele não pode morrer?
— O que? Que estranho...
— Era mais fácil sumir com ele logo.
— Deve ser resto de estoque… só pode
O estômago do garoto revira
Ele começa a formar um pensamento superficial
Mercadoria... Estoque?
O corpo reagiu antes da mente.
O coração acelerou, batendo forte demais no peito machucado.
Mas nada fazia sentido rápido o bastante.
O foco da visão viajou involuntariamente até um homem de barba grisalha, postura relaxada. Ao lado dele, um garoto com um cigarro — não muito mais velho do que o preso — se inclinou na cadeira.
— Velho… ele parece ter a minha idade, não parece?
O homem nem virou o rosto.
— E daí?
Ele dá de ombros enquanto fala, logo continua:
— Só quero entender por que tá tão barato.
Na verdade, se for quem eu penso que é
Não entendo porque ele estaria aqui.
Uma mulher de cabelos pretos cruzou as pernas, analisando o jovem como quem avalia um objeto com defeito.
— É um rosto bonito…
Mas olha o estado.... magro demais, E esses ferimentos… não sei onde isso se encaixa.
Ela dá uma risadinha sádica
— Ainda assim, vou manter um olho nesse querido~
A cabeça dele girava mais e mais
Coisas martelavam na sua cabeça, além da dor
Tanto natural, quanto quando ele tentava se lembrar de algo ou um raciocínio mais complicado
Isso não é real.
Não pode ser...
O anunciante voltou, agora com um tipo de ficha na mão
Em instantes, sua voz chega cortando o salão
— O nome dele é Kenichi, senhores...
Idade, exatos, dezesseis anos;
Teve infância conturbada, envolvendo abandonos e...
Ele abaixa o papel, respira fundo e continua:
— Bom, só posso informar isso, até então
O nome dele finalmente é revelado
Kenichi...
E Kenichi questiona
Por que o nome dele está...
Na boca de um estranho?
Isso o frustra por alguns segundos
Mas nada que possa mudar a situação, pelo menos naquele momento
Em meio a alguns lances mortos, baixos e contagens quase finalizadas
Uma mão coberta por luvas brancas se ergueu com suavidade.
— Cem mil.
O salão reagiu de imediato.
Aquele "senhor" de cabelos grisalhos, juntamente da barba, fica incrédulo
— O quê? Até ela?
O garoto ruivo ao seu lado também reage
— Hm, agora eu gostei
Tem coisa aí, pra você levantar a mão, hein~
E traga o cigarro
A mulher dos cabelos longos e escuros se junta aos outros, porém nos julgamentos mentais
— Ugh, lá vem...
E como ela pensou, realmente
Os números começaram a subir rápido demais depois que aquela mulher ofereceu os 100 mil.
— Cento e cinquenta mil.
— Trezentos
— Quinhentos e quarenta mil
O coração de Kenichi batia mais rápido a cada um que oferecia um valor
Seu cérebro não conseguia fazê-lo sentir nada além de ansiedade
Ele virou mercadoria de pessoas que nunca sequer tocou
E, conhecendo o mundo como ele conhece até agora
Provavelmente é pra alguma coisa ruim.
Vendo como o salão mudou completamente após aquele lance
O velho então levanta a mão, jogando o seu
— Oitocentos e cinquenta mil… — disse o homem grisalho, que também pensa
Eu preciso checar algo.
O ruivo ao seu lado apoiou a mão em seu ombro e sorriu.
— Aí, velhote...
Se ele vier com a gente...
— Não se empolga, não
Vamos ver o que dá pra fazer com esse aí...
O ruivo traga o cigarro, solta a fumaça e dá um peteleco no que restou da bituca, fazendo ela voar pra frente
— Joga toda a merda no ventilador, agora eu fiquei curioso! — ele diz, sorrindo, e continua
— Dois, dois milhões nessa porra!
O grisalho estalou a língua.
— Moleque neurótico...
— Dois milhões e novecentos. — disse a mulher de cabelos pretos, rindo baixo. — Quero brincar também, não vou ficar atrás de vocês, nem fodendo
Então… silêncio.
As luvas brancas voltaram a se mover.
A mulher se levantou.
Vestido vermelho carmesim.
Cabelos longos, loiros.
Pele clara demais sob a luz.
Olhos verdes, calmos. Estranhamente calmos.
Ela caminhou até o palco, subiu as pequenas escadas graciosamente, até o anunciante deixar o microfone de lado por alguns instantes e comunicá-la
— Eh... Senhora
Você não pode subir aqui até que leve o produto...
...
Ela respira fundo
— Dez milhões.
O salão congelou.
Ninguém riu.
Ninguém discutiu.
Até o ruivo eufórico ficou quieto por uns segundos, mas é o primeiro a voltar a falar
— Dez milhões… — murmurou ele depois, — Caralho, isso é grana pra cacete, velho!
O velho coça a cabeça e responde de forma sarcástica
— Ah, não me diga.
O anunciante nem contou.
— VENDIDO!
Hinata Kobayashi adquire a mercadoria por dez milhões de ienes!