Minutos se passam depois dessa interação leve entre Yuri e Kenichi
Agora com ele apenas olhando a televisão casualmente, junto com ela
Que faz alguns comentários à respeito, mas nada que Kenichi consiga acrescentar
Até a garota perceber algo...
— Que cheiro bom...
Muito bom...
Ela funga
— Eu vou só checar uma coisinha...
Levanta do sofá, vira e caminha até outro cômodo: a sala de jantar
chegando na entrada
Seus olhos brilham e sua boca saliva
cheiro de Tonkatsu bem preparado toma conta
Ainda que não esteja pronto ainda
ela se move sozinha ao perceber o que vai ser o almoço.
Nem pensa duas vezes
— VEM, KENI!
E entra pro resto da sala
Kenichi apenas observa
No mesmo momento que Tamaki termina seu banho
Agora em roupas mais casuais, cabelo solto e úmido, além de uma atmosfera mais leve
Ela caminha até a sala de jantar direto
Mas antes olha pro Kenichi, que só olha a entrada do cômodo
— Você não vai comer?
A pergunta pega o garoto de surpresa, já que ele nem tinha percebido ela ali
— Vem logo, é capaz da Yuri comer seu prato, aí cê fica sem nada.
E Tamaki também entra
Sem opções, Kenichi faz o mesmo que as duas.
A mesa está quase completa
Nada muito extravagante, mas tudo organizado com cuidado.
Para Kenichi, aquilo é totalmente novo
Yuri já está sentada com as pernas dobradas em formato de borboleta.
— Keni, vem aqui do meu lado!
Hesita de primeira
Mas se lembra do momento recente que teve
Internamente, ele reconhece as palavras anteriores dela, então se desloca e senta ao lado dela
O cheiro da comida é quente, reconfortante. Estranho.
Logo, Tsugito surge com a iguaria, juntamente de tigela de molho, ambos com muita fumaça
— Oooh, tonkatsu!!!
Yuri praticamente brilha
Ele despeja o molho sobre a carne crocante com cuidado quase cerimonial.
— Keni, você PRECISA experimentar. É MUITO BOM!
Ela balança ele levemente enquanto fala.
— Mandou bem, Tsugi!
Ele só murmura em resposta
Repentinamente, porta gira.
— Voltei!
Hinata entra e vê a mesa, totalmente encantada
— Wow! — seu olhar se dirige pro Tsugito — Foi você que fez, né, Tsugi!
Tsugito quase encolhe.
— Ah… sim.
Ela dá tapinhas orgulhosos nas costas dele.
— Nunca decepciona, hein!
Após toda essa interação, comum e saudável entre família
Hinata tira os sapatos, lava as mãos e o rosto
Então
Todos se sentam.
A mère é a primeira a puxar o assunto
— Como foi o dia até agora?
— Ah, eu conheci melhor o Kenichi e ele gosta de conversar comigo, né, Keniiii~?
Ela bagunça o cabelo dele
Que inclusive, a mesma arrumou mais cedo
E se lembra desse fato, tentando arrumar, arrependida
— Nada demais — Tamaki corta. — Só treinos leves.
Tsugito volta ao local, agora pra servir o chá
A mãe, cada vez mais orgulhosa da obra do filho, não poupa elogios ao trabalho dele.
Após todo o almoço estar pronto
Hinata, junto de Yuri, Tamaki e Tsugito juntam as mãos.
— Obrigado pela comida.— todos dizem em sincronia
Kenichi observa antes de imitar.
E, finalmente, o almoço em família se inicia
— KENIIII, COME!
Sem aviso, Yuri enfia mais comida na boca dele.
E realmente, bastante saboroso.
Ele mastiga devagar. O gosto é intenso, doce e salgado ao mesmo tempo. Não sabe descrever. Só sabe que nunca sentiu algo assim.
— Não é delicioso?!
— É... — Ainda terminando de mastigar a porção que Yuri ofereceu
— Né?! Come mais!
Outro pedaço
—...
Mas eu... preciso comer do meu também…
Tamaki intervém
— Come o seu e deixa ele comer o dele, sua idiota.
Yuri se aquieta, lamentando de forma teatral
Olhando de canto pro Kenichi, Hinata sorri e complementa
— Aproveitem bastante...
Nem todos têm direito a isso.
...
Nem todos têm direito a isso...?
A frase fica.
Gruda na mente de Kenichi, mesmo que ele não tenha percebido o olhar dela
Dois dias atrás, ele não tinha esse direito.
E impacta ainda mais
Quando ele olha pra ela segundos depois da frase
E, pela encarada que Hinata dá pra ele
É como se soubesse plenamente que não tinha esse direito à algumas horas atrás
Ele tenta usar o hashi com cuidado. A mão começa a tremer.
Por que…?
É um sonho?
Ele merece?
Quando que a chave virou?
E, quando percebe
O prato está vazio.
Yuri bate nas costas dele, impressionada com a velocidade em que ele devorou a comida.
— Eu falei que tava bom! Você acabou primeiro que todo mundo, Keni!
Ele pisca
Uma
Duas vezes
Seu estômago embrulha
Mesmo com aquela comida tendo caído muito bem...
Ele não diz nada a respeito do comentário anterior de Yuri
Mas se levanta rápido
Fazendo todos olharem pra ele, já que foi bastante repentino
— Eu… eu vou lavar o rosto...
Contudo
Nada de lavar rosto
Depois de alguns minutos com a porta do banheiro fechada
E a torneira pingando algumas gotas
Apenas conflitos mentais, brutais
Kenichi começa a tentar reorganizar seus pensamentos
Falando pra si mesmo
— Que porra é essa…
Eu nunca comi algo tão bom.
Mas
Eu não sinto que deveria.
Ele se apoia na pia.
— Nada nunca veio fácil pra mim
Sempre foi... uma merda... eu...
Isso veio...
...
Eu nao consigo nem pensar direito, que merda...
Por quê?
Eu não sei se mereço...
Eu não sou tão ruim assim.
Ou sou?
Ele pressiona o rosto com força.
— Eu quero confiar neles?
Eu... não sei, eu realmente não sei...
Não sei se quero, não sei se posso...
Eu... só... não sei.
Quando percebe, por impulso
ou negação?
Suas mãos apertam seu pescoço
Ele tenta limpar a garganta, como se tivesse algo preso nela
Lembra de como foi tratado ali
— Porra…
Eu tenho uma família agora?
— Mas... eu não era...mercadoria?
Ele ergue o rosto.
Não dói.
Sem cortes.
Sem sangue.
O único ferimento é em seu nariz, que mesmo assim, está seguro
Só que... mesmo assim, a minha cabeça dói...
Eu ainda me sinto tonto
Repentinamente
Lágrimas escorrem
Eu tô… chorando?
O que tá acontecendo comigo?
É um pesadelo?
Eu tô morto e sonhando?
As lágrimas
Talvez sejam alívio.
Talvez sejam segurança.
Talvez seja o corpo entendendo algo antes da mente...
...
Batidas na porta.
— Kenichi, cê tá bem?
Você saiu correndo do nada...
E seu chá vai esfriar!
É a voz da Yuri.
O aperto do pescoço se solta
O ar retorna periodicamente
Ele respira fundo
Finalmente, joga água no rosto
— Já...— Limpa a garganta — Já tô indo.
Eu preciso entender tudo isso.