O cheiro de terra úmida e madeira podre foi a primeira coisa que invadiu os pulmões de Antônio. A segunda foi o perfume dela, misturado ao suor e à adrenalina da fuga.
As costas de Jullie bateram contra a parede descascada da velha casa abandonada com um baque surdo, levantando uma nuvem de poeira que dançou na única fresta de luz do telhado quebrado. Ela não se importou. Suas mãos, sempre tão bem cuidadas para manter as aparências na cidade, agora agarravam a camisa do uniforme da cafeteria de Antônio com a urgência de quem estava se afogando.
Ela o puxou para si. O beijo não teve nada de ensaiado ou romântico; foi um choque de sobrevivência, áspero, com gosto de poeira e desespero.
Antônio não recuou. Sob a fachada do atendente dócil e submisso que ele vestia todos os dias no centro de Valença, havia um oceano escuro e paciente. Ele deixou que a tempestade dela o atingisse. Suas mãos desceram pela cintura de Jullie, firmes, ancorando-a na realidade enquanto a respiração dos dois ecoava no silêncio do distrito de Pentagna.
Lá fora, o carro dela esfriava no meio do mato alto. Eles haviam cruzado a estrada de terra a mais de cem por hora, fugindo de um colapso invisível.
Quando os lábios finalmente se separaram em busca de ar, Jullie encostou a testa no ombro dele. O peito dela subia e descia violentamente. A garota rebelde, aquela que o mundo tentou domar a ferro e fogo, estava ali, tremendo no meio de uma ruína esquecida por Deus.
— Eu não posso voltar — ela sussurrou, a voz rouca, quase rasgando a garganta. — Eu não consigo respirar dentro daquela casa, Antônio.
Ele acariciou o cabelo dela, sentindo os nós formados pelo vento da estrada. Os olhos dele, frios e calculistas no escuro, varreram o cômodo destruído. Móveis quebrados, teias de aranha, isolamento total. Para qualquer outra pessoa, lixo. Para ele, o tabuleiro perfeito.
— Você não vai voltar agora — a voz de Antônio era baixa, um murmúrio que preenchia o vazio do casarão. — Hoje, não.
Ele sabia, no entanto, que era uma mentira confortável. Quando o sol se pusesse, a armadura de Jullie teria que ser vestida novamente. Ela teria que limpar a poeira dos joelhos, ajeitar o cabelo e dirigir de volta para Valença. De volta para a casa imaculada. De volta para Roger.
E Roger... Roger não era um homem que suportava coisas fora do lugar. Muito menos a própria mulher.
Antônio apertou o abraço, sentindo o coração dela bater contra o seu peito. Se fechar os olhos e fingir ser inofensivo era o preço para mantê-la viva e perto, ele jogaria aquele jogo melhor que qualquer um.
Mas enquanto olhava para as rachaduras no teto do seu novo santuário, Antônio se lembrou do exato momento em que toda aquela loucura começou. Semanas antes. No balcão de uma cafeteria, com o badalar de um simples sino de porta.