A xícara de porcelana branca tremelicou no pires quando os dedos de Jullie recuaram, milímetros de distância da mão de Antônio.
— Cuidado — ele havia sussurrado, a voz macia, quase um segredo rasgando a cortina de ruídos da máquina de café expresso. — Está fervendo.
Os olhos dela, escuros e inquietos como os de uma fera acuada, sustentaram os dele. Havia uma repreensão muda ali, um aviso claro de que ela não estava acostumada a ser tocada, muito menos a ser lida com tanta facilidade por um estranho de avental. Jullie engoliu em seco, puxou a xícara pela alça com uma firmeza forçada e a levou aos lábios.
Ela tomou o expresso duplo, sem açúcar, em dois goles rápidos. Antônio observou a garganta dela se mover. Ele sabia que o café estava amargo o suficiente para fazer um cliente comum reclamar, quente o bastante para queimar a ponta da língua. Mas Jullie não fez uma careta. Não piscou. Era como se a dor física e o amargor fossem exatamente o que ela precisava para calar alguma outra coisa que gritava por dentro.
Com um estalo seco, ela bateu a xícara vazia de volta no pires de mármore do balcão. Deslizou a mão para dentro da bolsa de grife, tirou uma nota de cinquenta reais e a jogou sobre a bancada.
— Fica com o troco — ela disse. A voz soou um pouco mais aguda do que o normal, traindo a pressa de quem precisava fugir.
Ela girou nos calcanhares, os saltos batendo contra o piso de madeira da Cafeteria Grão Imperial como batidas de um relógio em contagem regressiva, e empurrou a porta de vidro para a rua nublada de Valença. O sino de latão tocou mais uma vez, anunciando a sua partida.
Antônio ficou parado, a flanela úmida ainda em uma das mãos. Ele olhou para a nota de cinquenta reais. Um expresso custava dez. Aquilo não era uma gorjeta generosa; era um muro. Era a forma que a alta sociedade tinha de colocar pessoas como ele em seu devido lugar. O dinheiro era uma barreira, um "não me olhe assim, você não sabe quem eu sou".
Mas Antônio sabia quem ela era. Ou melhor, ele sabia o que ela era.
— Que mulher mal-educada! — A voz de Seu Mendes surgiu de trás da máquina de moer, bufando. O rosto vermelho do chefe pingava suor. — Entra, não dá boa tarde, joga o dinheiro no balcão como se a gente fosse bicho. Esse pessoal que anda com o Roger acha que é dono da cidade.
Antônio guardou a nota no bolso do avental, os movimentos lentos e metódicos.
— Roger? — Antônio perguntou, o tom de voz perfeitamente desinteressado, enquanto recolhia a xícara suja.
— Roger Diniz. O cara da construtora, do escritório lá perto da praça. A mulher é essa aí, a Jullie. Dizem que vivem juntos há uns quatro anos, mas o cara nunca botou uma aliança no dedo dela. Também, pudera... dizem que a família dela deu muito trabalho. Sangue ruim. O pai bebia, a garota era um terror quando adolescente. Roger pegou pra criar e domar. O cara tem dinheiro pra comprar metade dessa rua, Antônio. É bom abaixar a cabeça quando essa mulher passar por aquela porta de novo.
Domar.
A palavra ecoou na mente de Antônio enquanto ele abria a torneira da pia nos fundos da cafeteria. A água fria escorreu pelos seus dedos e lavou a borra de café da porcelana. A mente pisciana, que até meia hora atrás estava anestesiada pela rotina medíocre de Valença, agora trabalhava em alta velocidade.
Ele fechou a torneira e olhou para o próprio reflexo no espelho manchado acima da pia. O rosto barbeado, o cabelo escuro bem cortado, a camisa branca abotoada até o pescoço. Uma tela em branco. Alguém em quem ninguém reparava. Durante anos, ele usou essa invisibilidade como mecanismo de defesa para sobreviver na cidade. Mas, de repente, a ideia de ser invisível parecia a arma perfeita para um ataque.
Antônio enxugou as mãos. Ele não precisava procurar Jullie. Ele sabia que ela voltaria. Pessoas que tomam café daquele jeito, com aquela urgência raivosa, estão sempre buscando um antídoto. E ele seria o veneno.
A poucos quarteirões dali, o som do motor do SUV de luxo de Jullie morreu dentro da garagem impecável.
Ela ficou sentada no banco de couro por longos minutos, as mãos apertando o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. O ar-condicionado do carro já havia secado o suor frio da sua nuca, mas o coração ainda batia fora do ritmo.
A queimação do café na sua língua a lembrava do olhar daquele atendente. Como ele ousou?, ela pensou, a raiva ariana borbulhando. Como um Zé Ninguém atrás de um balcão teve a audácia de olhá-la não com pena, não com desejo barato, mas com... compreensão? Ele a desnudou no meio de uma tarde de terça-feira com um único sussurro.
Jullie respirou fundo, tentando controlar a tremedeira nas mãos. Fechou os olhos e forçou a máscara a voltar para o lugar. A gaiola exigia perfeição.
Ela desceu do carro e caminhou até a porta da sala. A casa era um reflexo de Roger: minimalista, fria, de linhas retas e tons de cinza. Não havia fotos do casal pela casa, não havia objetos fora do lugar, não havia pó nos móveis. Tudo era clínica e absurdamente estéril.
Jullie deixou as chaves na bandeja de prata no hall de entrada, alinhando-as perfeitamente com a borda, como Roger gostava. Tirou os sapatos de salto, pois Roger odiava o barulho no piso de porcelanato.
Quando entrou na sala de estar, ele já estava lá.
Roger estava sentado na poltrona de couro escuro, lendo um relatório de engenharia. Ele vestia uma camisa de botão azul-marinho, impecavelmente passada, e os óculos de grau na ponta do nariz lhe davam o ar de um juiz perpétuo. Ele não ergueu os olhos quando ela entrou.
— Você demorou doze minutos a mais do que o previsto no trajeto do salão até aqui — a voz de Roger era calma. Sem emoção. Sem raiva. Apenas uma constatação matemática.
Jullie congelou. O ar pareceu ser sugado para fora do cômodo.
— O trânsito na praça estava ruim. Parei para tomar um café — ela respondeu, tentando manter a voz igualmente monótona. Se ela demonstrasse qualquer alteração, qualquer fagulha de rebeldia, ele iniciaria o tratamento de silêncio. Dias sem falar com ela, dias ignorando sua existência até que ela pedisse desculpas por algo que não fez.
Roger virou a página do relatório. O som do papel grosso quebrando o silêncio da casa foi ensurdecedor.
— Café mancha os dentes, Jullie. E você tem aquele jantar com os investidores amanhã. O vestido pérola que eu escolhi já está no seu quarto. Tente não arruinar nada.
Ele não a olhou. Nem uma única vez.
Jullie engoliu o nó que se formava na garganta. Anos atrás, a Jullie de dezoito anos teria gritado, teria quebrado um vaso, teria feito um escândalo. Mas Roger a havia treinado bem. Ele não gritava de volta; ele a sufocava com controle financeiro, com frieza, isolando-a de qualquer pessoa que pudesse lhe dar apoio. Ele a reduziu a um enfeite caro. Uma propriedade.
— Vou tomar um banho — ela murmurou.
— Faça isso. O jantar será servido às oito em ponto.
Ao fechar a porta do banheiro da suíte, Jullie finalmente cedeu. Ela abriu o chuveiro no máximo, deixando a água quente embaçar os espelhos, e sentou no chão do boxe, abraçando os joelhos. O choro foi silencioso, sem lágrimas espetaculares, apenas uma agonia profunda e seca de quem estava enterrada viva.
E, enquanto a água caía sobre seus ombros, a única coisa em que conseguiu pensar para não perder a sanidade foi na voz grave e no olhar escuro do atendente da cafeteria. O toque rápido. O calor da pele dele.
Ela odiou a si mesma por isso. Mas, no fundo, sabia que precisava daquele frescor de novo.
Quinta-feira. Chovia em Valença. Uma daquelas chuvas finas, geladas e insistentes que transformavam a cidade histórica numa pintura cinzenta e melancólica.
A Cafeteria Grão Imperial estava vazia, cheirando a canela e grãos moídos. Antônio estava polindo o balcão pela quinta vez. Seu Mendes havia saído para uma "reunião de negócios" com a fornecedora de embalagens, o que significava que o chefe estava em um motel barato na beira da estrada e Antônio tinha a loja só para ele pelas próximas duas horas.
O relógio marcava quatro e quinze da tarde quando o sino de latão tocou.
Antônio não precisou olhar para saber quem era. A energia do ambiente mudou. Ele guardou a flanela embaixo do balcão e ergueu o rosto.
Jullie estava parada na entrada, sacudindo um guarda-chuva preto. Ela vestia um casaco sobretudo bege e os cabelos castanhos estavam levemente úmidos. Sem os óculos de sol, as olheiras sutis e a exaustão em seu rosto eram evidentes. Ela parecia menor hoje, mais frágil, embora o maxilar continuasse rígido em defensiva.
Ela caminhou até o balcão. O olhar cruzou o de Antônio e, por um segundo, ela hesitou. O instinto mandou que ela recuasse, mas o vício na adrenalina que aquele homem desconhecido causava a fez dar um passo à frente.
— Um expresso — ela disse. A voz estava um pouco rouca, desprovida da arrogância do primeiro dia. — Sem açúcar.
Antônio a encarou em silêncio. Ele notou a tensão nos ombros dela, a forma como os olhos vagavam pelo ambiente vazio, a respiração curta. Ele não se moveu para a máquina de café.
— Não.
A palavra soou firme, calma. Jullie piscou, confusa. A carranca ariana finalmente deu as caras.
— Como é que é? — Ela apoiou as mãos no balcão de mármore, a postura imediatamente se tornando agressiva. — Eu sou cliente. Eu estou pagando. Você vai me servir um espresso, duplo e sem açúcar.
Antônio deu um passo em direção a ela, apoiando as duas mãos calosas na beirada do balcão, reduzindo a distância entre eles. O balcão era a única coisa física que os separava.
— Seu corpo está exausto. Seus ombros estão duros como pedra e suas mãos estão tremendo de frio ou de ansiedade. Se eu te der um expresso duplo sem açúcar, você não vai dormir à noite, o que significa que amanhã você estará ainda mais irritada e vai acabar cometendo um erro. — Antônio manteve o tom de voz baixo, quase hipnótico, os olhos cravados nos dela. — E eu acho que não podemos cometer erros no momento, não é, Jullie?
Ouvir seu próprio nome saindo da boca dele foi como um soco no estômago. O coração dela disparou. Como ele sabia o nome dela? Por que ele falava com ela como se a conhecesse há décadas?
— Quem você acha que é para me dizer o que fazer? — ela rosnou, embora a voz tenha saído em um fio.
— Eu sou o cara que vai preparar o que você realmente precisa. — Antônio desviou o olhar lentamente, quebrando a tensão para não assustá-la de vez, e virou as costas para a máquina de espresso.
Ele caminhou até o aquecedor de leite. Jullie ficou parada ali, congelada pela audácia daquele homem. Ela deveria ir embora. Roger odiaria saber que ela estava conversando com um atendente petulante. O instinto de preservação gritava para que ela corresse para o carro.
Mas os pés dela pareciam chumbados ao chão de madeira.
Em silêncio, Antônio preparou uma bebida diferente. Ele vaporizou o leite até ficar com uma textura aveludada, misturou uma dose suave de café, adicionou um toque de xarope de avelã e polvilhou cacau por cima. Uma obra de conforto, não de choque.
Ele caminhou de volta ao balcão e colocou a xícara de cerâmica na frente dela. Uma fumaça doce e acolhedora subiu pelo ar frio da cafeteria.
— Beba — ele ordenou, de forma suave.
Jullie olhou para a xícara, depois para ele. A rebeldia mandou que ela empurrasse a bebida e saísse pisando duro. Mas o cheiro da avelã a lembrou de uma infância que ela quase não teve. A exaustão emocional venceu o orgulho. Ela pegou a xícara com as duas mãos para aquecer os dedos gelados e deu um pequeno gole.
O doce quebrou o amargor na sua boca. O calor desceu pelo peito, afrouxando os nós da sua garganta. Era absurdamente bom. Era... cuidado. Algo que ela não sentia há muito tempo.
Ela olhou para Antônio por cima da borda da xícara. Ele não estava sorrindo. Ele a observava com a mesma intensidade perigosa, como um predador que acabou de descobrir o ponto cego da presa.
— Como você sabia o meu nome? — ela perguntou, a voz agora um sussurro vulnerável no meio do barulho da chuva lá fora.
Antônio pegou um pano de prato e começou a limpar uma mancha invisível perto de onde ela estava. Ele se inclinou para frente, o rosto a centímetros do dela, o cheiro de sabonete barato e café moído invadindo as narinas de Jullie.
— Numa cidade como Valença, Jullie, todo mundo sabe a quem as coisas bonitas pertencem — ele respondeu, os olhos cravados na marca vermelha que Roger havia deixado no braço dela dias antes. — A verdadeira pergunta é: até quando você vai querer pertencer a alguém?
A respiração dela parou. A gaiola de gelo acabara de ganhar sua primeira grande rachadura.