A caneta de metal escovado, subtraída da mesa de mogno de Roger como um troféu de guerra, pesava no bolso de Antônio como se contivesse a própria gravidade da casa Diniz. Enquanto ele caminhava pela penumbra de Valença, o metal frio contra sua coxa era o único lembrete tangível de que ele não tinha apenas servido um jantar; ele tinha se infiltrado na mente do leão. O cheiro de lavanda sintética e o silêncio cirúrgico da residência ainda grudavam em sua pele, uma memória tátil que ele não desejava lavar, como se a sujeira do luxo fosse um amuleto contra a própria mediocridade que ele fingia habitar.
Antônio parou na esquina, olhando para trás, para o horizonte onde a casa de Roger se erguia. Aquela estrutura não era apenas um lar; era um organismo que parecia respirar através de seu dono. Tudo ali era milimétrico, desde a inclinação da luz solar nas persianas automáticas até o timbre severo que Roger adotava ao falar sobre a "integridade das fundações". Para Jullie, a arquitetura daquela casa era uma metáfora viva do homem que ela escolhera: impecável, impossível de ser decifrado e, de uma maneira distorcida, fascinante.
Enquanto Antônio se perdia nas memórias das horas anteriores, o flashback da sala de jantar latejava em sua mente. Ele estava posicionado estrategicamente ao lado do aparador, a flanela úmida entre os dedos, os olhos fingindo polir uma taça de cristal enquanto observava o teatro de sombras de Roger e Jullie.
Ela estava sentada no sofá de couro italiano que, por mais que ela se movesse, parecia nunca esquentar — uma analogia perfeita para a sua existência ali. Ela observava Roger à distância, no escritório envidraçado. As paredes de vidro permitiam que ela visse seus movimentos, mas não que ouvisse seus pensamentos. Ele estava inclinado sobre uma planta baixa gigantesca, a luz do monitor refletindo em suas lentes, projetando uma sombra severa sobre o rosto que ela, em outros tempos, havia beijado com uma devoção quase religiosa.
Antônio, escondido na sombra da cozinha, vira o aperto no peito de Jullie. Não era apenas o medo de ser descoberta. Era uma fome. Uma necessidade insana de ser notada por ele, não como uma peça da mobília de luxo, mas como um ser humano. Aquele era o paradoxo que a destruía: ela odiava o controle absoluto de Roger, mas sentia um frisson proibido quando ele a olhava como se ela fosse algo que ele tivesse esculpido com as próprias mãos. A frieza dele era um desafio constante para o fogo que queimava em suas veias arianas. Ele era o gelo que ela nunca conseguia derreter, e a frustração dessa falha era, estranhamente, o que a mantinha presa, como se o frio fosse a única coisa que a impedisse de queimar o mundo.
— Você está encarando de novo, Jullie.
A voz de Roger, mesmo através do vidro reforçado, ressoou como um trovão baixo no ambiente. Ele não tinha levantado a cabeça. Roger sempre sabia. Ele possuía um radar instalado no centro de sua arrogância, captando qualquer desvio de comportamento.
Jullie levantara-se, suas pernas sentindo-se pesadas, e caminhara em direção ao escritório. A porta se abrira antes que ela pudesse tocar na maçaneta — ele a tinha destravado remotamente, um gesto de domínio que a fazia sentir como uma marionete. A automatização daquela casa era, simultaneamente, o seu maior conforto e o seu maior cárcere.
— Eu não estava encarando — ela mentira, a voz saindo mais firme do que se sentia.
Roger levantara a cabeça. O olhar era frio, límpido, cortante como um bisturi. Ele girara a cadeira, o couro rangendo suavemente no silêncio absoluto.
— Mentir é uma atividade que requer um dispêndio enorme de energia, Jullie. Você deveria poupar as suas forças. O jantar de hoje exigirá muito de você.
Ele se levantara, aproximando-se com aquela aura de domínio que sempre a fazia perder o fôlego. O ciúme incubado em Roger não se manifestava em gritos ou brigas; ele se manifestava em uma possessividade tátil que a desmantelava. Ele passara as costas da mão pelo maxilar dela, um gesto que parecia uma carícia, mas que, sob a pele, soava como uma demarcação de território.
— Você parece distante — ele disse, a voz caindo em um registro mais baixo, quase hipnótico, durante o jantar enquanto Antônio servia o vinho para o investidor ao lado. — Está pensando em Pentagna? Naquela casa?
Jullie sentira os joelhos vacilarem. O coração, que deveria estar batendo por Antônio — que estava ali, a poucos metros, observando tudo —, subitamente disparara por Roger. Era a audácia dele, a capacidade de confrontá-la com o que ela temia que ele soubesse, que a prendia a ele. Ela queria, com todas as suas forças, que ele a sacudisse, que ele mostrasse uma rachadura em sua própria fachada. Queria que ele tivesse ciúmes, que ele perdesse a compostura, que ele a tratasse como algo real, e não como uma construção lógica.
— Por que você insiste tanto nesse lugar? — ela sussurrara, tentando virar o jogo. — É apenas uma ruína, Roger. Por que isso te consome tanto?
Roger soltou uma risada curta, sem humor, um som metálico que fez o investidor à mesa hesitar com o garfo no ar. — Ruínas são perigosas quando as pessoas começam a acreditar que podem reconstruir o que deveria ter ficado no passado.
Ele se inclinou, seus lábios quase roçando o lóbulo da orelha dela. O calor do hálito dele era um contraste brutal com a temperatura gélida do ambiente. Jullie fechara os olhos, combatendo a tentação de se inclinar para aquele toque. Ele era o mestre da tortura psicológica, e ela era sua aluna mais aplicada. Ela se odiava por querer aquele momento de intimidade, odiava precisar da validação de um homem que a via como uma estrutura que precisava de reforma.
— Nós temos um convidado esta noite — ele mudou o assunto com a mesma rapidez com que mudava a temperatura do ar. — O atendente. O rapaz da cafeteria.
Jullie sentiu o mundo girar.
— Por que você convidaria o Antônio para um jantar de negócios, Roger?
— Porque ele diz conhecer cada canto de Pentagna, e eu preciso de um guia. Se as pessoas estão insistindo em explorar ruínas que não lhes pertencem, eu prefiro estar presente quando elas decidirem derrubar a parede errada. Ele vai servir o jantar, Jullie. E você vai observar. Eu quero ver se o seu "atendente" é tão inofensivo quando confrontado com a verdade.
A memória desse momento, vivida sob o olhar analítico de Roger, ainda fazia o sangue de Antônio ferver. Ele estava agora parado diante da entrada da casa da ferrovia, em Pentagna. O silêncio da ruína era o oposto do silêncio de Roger. O silêncio de Roger era um vácuo; o silêncio de Pentagna era uma memória viva, algo que pulsava entre as frestas das tábuas podres.
Antônio tirou a caneta de Roger do bolso. O objeto luxuoso parecia deslocado ali, entre as vigas corroídas pelo tempo e o mato que crescia através do assoalho como dedos famintos. Ao girar a caneta, percebeu que ela tinha um pequeno compartimento — talvez um gravador, ou apenas uma peça de design. Roger não era um homem de detalhes banais. Tudo tinha um propósito, tudo era arquitetado.
Antônio olhou para o horizonte, para as luzes distantes de Valença. Ele sabia que, após aquele jantar, as peças do xadrez tinham se movido. Roger não estava apenas investigando; ele estava cercando o terreno. E ele, Antônio, o pisciano que nadava em águas calmas, tinha acabado de se tornar o peão que Roger queria abater.
Mas ele não era um peão. Ele era a correnteza. E, enquanto a noite caía sobre as ruínas, Antônio começou a preparar a armadilha. Ele precisava garantir que, quando Roger finalmente chegasse ali, ele encontrasse não uma ruína, mas um espelho.
Ele precisava que Jullie entendesse que a próxima visita de Roger a Pentagna não seria de negócios. Seria de caça. E Antônio, pela primeira vez na vida, estava pronto para caçar o caçador.
O vento soprou através das frestas da casa, um som que lembrava vagamente a risada metálica de Roger. Antônio guardou a caneta. O jogo estava apenas começando, e ele tinha a vantagem do terreno. Ele olhou para a trilha que levava à entrada secreta que ele descobrira. Roger era um mestre em engenharia, mas Antônio era um mestre em ruínas. E ruínas, como o próprio Roger dissera, tinham o hábito de soterrar quem não sabia onde pisar.
Enquanto a escuridão envolvia o distrito, Antônio sentiu a estranha calmaria que antecede a tempestade. Ele sabia que, para destruir Roger, ele não poderia ser apenas um atendente de cafeteria. Ele precisaria ser a própria ruína. Precisaria ser algo que Roger não pudesse medir, não pudesse calcular e, certamente, não pudesse controlar. E, enquanto ele se escondia nas sombras das vigas, o pensamento de que ele possuía algo de Roger — uma prova de sua vulnerabilidade — dava-lhe uma confiança que beirava a embriaguez.
O jogo estava em curso. E em Valença, as paredes já começavam a tremer.