O convite de Roger Diniz não chegou por um mensageiro, nem foi entregue com a elegância de um cartão de visita. Foi direto, seco, transmitido por um telefonema que forçou Antônio a pausar o trabalho na cafeteria, enquanto o Seu Mendes, com os olhos arregalados, gesticulava freneticamente para que ele aceitasse.
— O senhor Diniz quer que você acompanhe a equipe de topografia em Pentagna amanhã cedo — a voz de Roger, do outro lado da linha, soava como um arranhar de metal sobre o vidro. — Você conhece os atalhos, o terreno, a instabilidade do solo. Imaginei que um "fotógrafo do abandono" tivesse interesse em ver o abandono sendo transformado em algo, enfim, útil.
Antônio sentiu o estômago dar um nó, mas sua voz manteve a modulação perfeita de um subordinado prestativo. — Será uma honra, senhor. Estarei no local às sete.
— Sete em ponto, Antônio. O tempo, como você sabe, é um recurso que não costumo desperdiçar.
Quando a ligação caiu, Antônio sentiu o suor frio percorrer sua coluna. Roger não estava apenas investigando; ele estava oficializando uma invasão. Pentagna, o santuário, o único lugar onde Jullie conseguia respirar, estava prestes a ser pisoteado por botas de trabalho e medidores de precisão.
Naquela noite, Antônio mal dormiu. Ele passou as horas revirando o atalho que descobrira, tentando encontrar uma forma de ocultar o que precisava ser ocultado. Se Roger entrasse lá com equipamentos, o segredo deles estaria exposto em horas.
A manhã em Pentagna nasceu cinzenta, com uma neblina baixa que se arrastava entre as árvores como se quisesse esconder o que estava por vir. Antônio chegou antes do horário, caminhando pela trilha de terra batida com uma mochila onde, além de seus equipamentos de fotografia, levava ferramentas que um "atendente de cafeteria" jamais deveria ter.
Ele não estava sozinho por muito tempo. Um SUV preto, uma mancha de arrogância tecnológica naquela natureza bruta, parou no início da trilha. Roger desceu. Ele não usava botas de barro, mas calçados caros, apropriados para uma visita de inspeção que ele claramente desprezava. O contraste era cômico, se não fosse mortal.
— Você é pontual. Gosto disso — Roger comentou, fechando a porta do carro com um estrondo abafado. Ele vestia uma jaqueta técnica de grife, o rosto protegido por óculos escuros que, mesmo sob a luz fraca da manhã, refletiam a paisagem como um espelho de interrogação. — Jullie virá mais tarde. Ela insistiu que queria "ver a natureza" de Pentagna. Achei pertinente.
Antônio sentiu a garganta secar. Jullie. Roger a estava trazendo para o centro do alvo. — É um lugar perigoso para se caminhar sem orientação, senhor.
Roger deu um sorriso fino, quase um corte. — É por isso que você está aqui, não é? A minha bússola humana. Vamos.
A caminhada até a casa da ferrovia foi uma tortura psicológica prolongada. Roger não falava sobre a vista ou sobre o ar puro. Ele falava sobre fundações. Ele discursava sobre como o solo de Pentagna era sedimentar, como as águas subterrâneas minavam a estrutura das construções antigas e como o esquecimento era a forma mais rápida de autodestruição.
— Tudo o que é abandonado cria raízes, Antônio. Mas raízes de podridão. — Roger parou diante da casa. A vegetação tinha invadido a varanda, mas, sob a luz matinal, ela não parecia romântica, parecia uma ferida aberta. — Veja isso. Estruturalmente, isso é um lixo. Se eu aplicar a pressão certa aqui — ele bateu com o calcanhar em um pilar de madeira que parecia sólido —, o teto inteiro vira abaixo.
Antônio observou o pilar. Sabia que, atrás daquela madeira, havia uma viga que ele mesmo reforçara semanas atrás. Roger estava testando o terreno. Estava sentindo a firmeza do que, para ele, deveria ser frágil.
— Por que se dar ao trabalho de derrubar? — Antônio perguntou, a voz controlada.
— Porque para construir algo magnífico, você primeiro precisa limpar os detritos da incompetência alheia — Roger respondeu, tirando os óculos. Seus olhos eram cinzentos, duros como granito. — Você entende de destruição, Antônio?
— Eu entendo de história, senhor. Algumas coisas não foram feitas para serem mudadas.
Roger riu, um som seco. — A história é uma narrativa escrita pelos vencedores. E eu pretendo ser o vencedor desta região.
O som do carro de Jullie chegando interrompeu a tensão. Ela saiu do veículo, os olhos vagando ansiosos pelo cenário, tentando localizar Antônio antes de fazer contato visual com Roger. Quando ela viu os dois juntos, parados diante da casa, a cor drenou de seu rosto. Era a cena do pesadelo. A criatura que ela desejava e o homem que ela temia, ocupando o mesmo espaço, o mesmo tempo, o mesmo ar.
— Jullie, querida — Roger disse, estendendo a mão para ela com uma cortesia que parecia uma coleira. — Antônio está nos dando uma aula de resistência de materiais. Diga-nos, Jullie, você acha que esta casa merece ser salva ou seria melhor que as cinzas fossem espalhadas?
Jullie parou a poucos metros. Ela olhou para Antônio. O atendente estava ali, o rosto uma máscara de submissão, mas suas mãos, escondidas nos bolsos da jaqueta, apertavam algo com força. Ela olhou para Roger, cujo sorriso era uma promessa de destruição.
— Acho que algumas coisas — ela disse, a voz trêmula — já estão mortas há muito tempo. Só estamos negando o óbito.
Roger caminhou até ela, contornando seus ombros com um braço, um gesto que parecia uma carícia, mas que soava como um confinamento. Ele apertou o braço dela com força, o suficiente para deixar uma marca invisível.
— Uma observação fascinante, querida. Mas você esquece que eu gosto de reanimar cadáveres. Principalmente quando eles guardam segredos valiosos.
Ele voltou a olhar para Antônio, o foco de seu radar de predador agora totalmente centralizado no rapaz. — Antônio, por que você não vai buscar água no riacho atrás da casa? Acho que o solo aqui está um pouco seco demais para o meu gosto. Eu e Jullie precisamos de um momento para decidir o destino desta ruína.
Antônio sabia que era um comando para se retirar. Ele sabia que Roger queria isolar a Jullie. Mas, ao caminhar para trás da estrutura da casa, o pensamento de que Roger poderia usar esse tempo para pressionar, para ferir, para intimidar Jullie, fez a sua "correnteza" interna entrar em ebulição.
Enquanto se afastava, Antônio parou no ponto cego da casa, onde a vegetação era mais densa. Ele não foi para o riacho. Ele agachou, encostando a mão na madeira podre da parede, e ouviu.
— Você está tremendo — a voz de Roger soou do outro lado da parede, a poucos centímetros da cabeça de Antônio. — Por que você treme, Jullie? É o frio de Pentagna, ou é o medo de que eu descubra exatamente o que você faz quando eu não estou olhando?
— Eu não tenho medo de você, Roger.
— Mentirosa — o som de um tapa, abafado, seco. Não um tapa de briga, mas um tapa corretivo, calculado. Antônio fechou os punhos com tanta força que as unhas enterraram na palma das mãos. Ele tinha que agir, mas qualquer movimento agora entregaria sua posição e selaria o destino deles.
— Você foi à cafeteria — Roger continuou, a voz agora um sussurro gélido, o som de um bisturi cortando o ar. — Você bebeu café. Você conversou com ele. Você trocou olhares que, para uma esposa, são a definição técnica de traição. Você acha que eu não vejo os padrões? Que eu não calculo as distâncias?
— Ele é apenas um atendente! — ela soluçou, a vulnerabilidade explodindo.
— Ele é um erro de cálculo, Jullie. E erros de cálculo precisam ser apagados da equação. — Roger pausou, e o silêncio que se seguiu foi preenchido pelo som do vento soprando através das frestas da casa. — O que você viu nele que não encontrou em mim? Foi o quê? A mediocridade? A falta de ambição? Ou foi essa necessidade patológica de se sentir "salva" por um garoto que mal consegue pagar o aluguel?
— Foi a humanidade — Jullie quase gritou, a voz rouca. — Ele me vê, Roger! Ele me olha como se eu fosse de carne e osso, não como uma viga de sustentação da sua vida perfeita!
O silêncio de Roger foi absoluto. Foi o silêncio de uma fundação que acaba de ser atingida por um terremoto.
— Carne e osso... — ele repetiu, a voz perigosamente baixa. — Se é isso que você quer, Jullie, você terá. Mas lembre-se: carne e osso são tecidos que rasgam facilmente. E eu sou o homem que detém a faca.
Antônio se levantou. Ele tinha ouvido o suficiente. Ele não podia permitir que aquela cena continuasse. Ele pegou uma pedra pesada, fingindo que estava apenas limpando o terreno, e lançou-a contra um barranco distante, provocando um barulho alto de pedras rolando e galhos quebrando.
O efeito foi imediato. Roger silenciou. Ouviu-se o movimento de passos rápidos dentro da casa.
— Antônio? — Roger chamou, a voz recuperando a máscara de normalidade.
Antônio apareceu contornando a casa, ofegante, com uma garrafa de água improvisada na mão, os olhos simulando uma surpresa nervosa. — Senhor! Houve um deslizamento pequeno atrás da casa. O solo, como o senhor previu, está instável. É melhor sairmos daqui antes que a estrutura ceda.
Roger saiu para a varanda, os olhos estreitados, encarando Antônio com uma suspeita que ele nem tentava mais esconder. Ele olhou para Jullie, que estava parada perto do pilar, as bochechas ainda marcadas pelo esforço de conter o choro, os olhos brilhando de uma fúria ariana que, pela primeira vez, não era contra Antônio, mas contra o destino.
— Deslizamento, é? — Roger caminhou até Antônio, parando a centímetros de distância. Ele sentiu o perfume de Antônio. Sentiu a pulsação no pescoço do rapaz. Por um segundo, os dois homens travaram um duelo silencioso, o gelo contra a correnteza. — Você parece muito preocupado com a estabilidade desta casa, atendente.
— Estou preocupado com a segurança de todos, senhor. — Antônio sustentou o olhar, sem recuar.
Roger sorriu, um sorriso que parecia uma promessa de guerra. — Segurança é algo relativo. O que para uns é proteção, para outros é uma armadilha. Vamos embora, Jullie. Já vimos o suficiente por hoje. Esta estrutura não é mais digna do meu tempo.
Roger caminhou até o carro sem olhar para trás. Jullie o seguiu, mas antes de entrar, ela olhou para Antônio. O olhar deles foi um relâmpago no céu escuro. Não houve palavras, não houve desculpas. Houve apenas a confirmação de que, após o que Roger tinha dito, a faca já estava sendo afiada, e eles teriam que ser muito mais rápidos do que a engenharia de Roger Diniz.
Enquanto o carro se afastava, levantando poeira e silêncio, Antônio ficou sozinho nas ruínas. O santuário estava profanado. A tensão agora não era mais uma possibilidade, era uma certeza. Roger sabia. E a partir daquele momento, a guerra de Pentagna não era mais uma metáfora. Era o começo da contagem regressiva para ver quem, no final, terminaria soterrado.
Ele tocou o bolso novamente. A caneta de Roger estava lá, o pequeno troféu que, agora, parecia mais um detonador do que um acessório. Ele olhou para a trilha, para o lugar onde a faca de Roger logo estaria, e começou a pensar no que aconteceria quando o gelo finalmente encontrasse o fogo. Ele não precisaria ser apenas uma ruína. Ele precisaria ser a própria terra que a tudo engole.
A contagem regressiva havia começado. E ele, pela primeira vez, não sentiu medo. Sentiu a embriaguez da caça.