“Por inveja e ciúme da criação de Deus, o mundo perecerá.”
A frase ecoava como um fragmento de uma história esquecida.
Uma história que atravessara milhares de anos.
Uma história que ninguém mais parecia conhecer por completo.
E, naquele momento, Pedro não fazia ideia de que sua própria existência estava ligada
àquelas palavras.
Capítulo 1 — A Origem
— Você tem certeza?
A voz de Tainá vinha do outro lado da ligação.
Pedro permaneceu em silêncio por alguns segundos, observando o movimento da base
da Força Aérea através da janela.
Aos vinte anos, estava prestes a concluir o curso para sargento.
Era a carreira com que sempre sonhara.
O caminho que havia escolhido para sua vida.
— Tem certeza de que vai acabar com tudo? — Tainá insistiu. — Você vai desistir da suacarreira por causa disso? Pode nem ser verdade.
Pedro respirou fundo.
— Não, Tainá... mas eu não consigo mais continuar aqui sem saber da minha origem.Sem saber quem eu sou de verdade.
Sua voz perdeu a firmeza por um instante.
— Ainda mais depois do que aconteceu.
— O que aconteceu?
Pedro fechou os olhos. — Depois de tudo que meus pais me contaram na última vez que fui pra casa.
Corte.
Algumas semanas antes...
Pedro estava sentado diante dos pais.
Seu pai e sua mãe eram biólogos, pesquisadores acostumados a passar longos períodos
em regiões remotas do planeta.
Ambos eram negros.
Ao lado deles estava a irmã biológica de Pedro, também negra.
Pedro, por outro lado, era pardo.
Desde criança, aquela diferença nunca havia passado completamente despercebida.
Ele já havia se perguntado algumas vezes se era adotado.
Mas nunca houvera uma conversa sobre isso.
Nunca houvera rejeição.
Muito pelo contrário.
Pedro sempre fora amado, cuidado e tratado como filho.
Ainda assim, havia uma pergunta que permanecia escondida dentro dele:
"Porquê sou tão diferente?"
E talvez seus pais finalmente estivessem preparados para responder.
Pedro sempre soubera que era diferente.
Não apenas pela aparência.
Sua força física era incomum desde criança.
Brinquedos quebravam em suas mãos durante brincadeiras comuns.
Objetos que outras crianças mal conseguiam mover pareciam leves para ele.
Certa vez, durante uma brincadeira de luta com o próprio pai, Pedro perdeu o controle
da força e acabou ferindo-o seriamente.
O pai precisou ir ao hospital. Aquilo marcou Pedro.
Desde então, ele passou a evitar confrontos físicos sempre que podia.
Não porque tivesse medo de lutar.
Mas porque tinha medo de machucar alguém.
Esse cuidado combinava com uma característica que sempre fizera parte de sua
personalidade:
Pedro tinha um forte senso de justiça.
Ele não suportava ver alguém sendo injustiçado.
Mas também não queria usar sua força contra os outros.
O incidente na base
Dias antes de conversar com seus pais, durante uma simulação militar, um veículo
blindado perdeu o controle.
Tudo aconteceu em questão de segundos.
O veículo avançava em direção a alguns militares que estavam próximos a uma parede.
Pedro viu.
Não pensou.
Não calculou.
Apenas correu.
E se colocou entre o veículo e seus companheiros.
O impacto aconteceu.
BOOM!
A estrutura metálica do veículo foi violentamente deformada.
A chapa frontal ficou completamente amassada.
Pedro caiu junto aos outros militares e permaneceu no chão, como se tivesse sido
simplesmente atingido pela confusão do acidente.
Ninguém percebeu exatamente o que havia acontecido. Para os outros, tudo indicava que o veículo havia colidido violentamente contra uma
estrutura antes de atingir o grupo.
Pedro não contou a verdade.
Até chegar em casa.
— Foi aí que eu comecei a entender que talvez vocês soubessem mais sobre mim do que
nunca me contaram.
Seu pai permaneceu em silêncio.
Sua mãe trocou um olhar com ele.
Eles já conheciam aquela força.
Conheciam desde que Pedro era criança.
Mas havia outra coisa que eles conheciam.
Uma história que guardaram durante vinte anos.
Uma história que começara milhares de quilômetros dali.
No extremo norte do planeta.
Na Groenlândia.
Anos antes, os dois haviam viajado para uma região extremamente isolada da
Groenlândia para investigar um fenômeno incomum envolvendo a população de
ursos-polares.
Havia alterações inexplicáveis nos padrões de migração e no comportamento predatório
dos animais.
A região era extremamente difícil de alcançar.
Foram necessários quase quarenta dias até que conseguissem autorização para entrar
na área.
Ali existia uma comunidade isolada, cercada por uma reserva ambiental.
Ou, pelo menos, era nisso que os pesquisadores acreditavam.
A comunicação era difícil.
O dialeto utilizado pela comunidade era diferente. Os costumes também.
Depois de muita negociação, finalmente receberam autorização para realizar a pesquisa.
Mas não estavam completamente livres.
Um casal da própria comunidade foi designado para acompanhá-los.
Oficialmente, eram guias.
Na prática, também tinham a função de garantir que os pesquisadores permanecessem
dentro das áreas autorizadas.
Eles podiam pesquisar.
Fotografar.
Coletar informações.
Mas não podiam simplesmente sair explorando a região.
Durante semanas, os pesquisadores fizeram o mesmo percurso.
Iam até os locais de pesquisa.
Realizavam o trabalho.
E retornavam à comunidade.
Foi durante esse período que começaram a ouvir histórias.
Lendas antigas.
Relatos transmitidos entre gerações.
Histórias diferentes, contadas por pessoas diferentes, mas que pareciam possuir algo
em comum.
Todas falavam de um acontecimento ocorrido milhares de anos antes.
Todas mencionavam um ser.
Um ser que, segundo algumas versões, havia protegido aquela região.
Os pesquisadores não conseguiram descobrir muito mais.
E os próprios habitantes pareciam evitar falar sobre o assunto.
Faltava apenas uma semana para o fim da expedição quando o casal que os
acompanhava fez um pedido inesperado. Eles queriam saber se os pesquisadores poderiam levar seu filho.
Pedro.
A princípio, a resposta foi não.
Era algo absurdo.
Perigoso.
Praticamente impossível.
Mas o casal insistiu.
E, depois de muita conversa, os dois pesquisadores acabaram aceitando.
Havia apenas uma condição:
Pedro não poderia ser levado durante o dia.
A criança não poderia simplesmente deixar a comunidade diante dos demais habitantes.
Então, naquela madrugada...
Quando todos dormiam...
O casal levou o menino em segredo.
Atravessaram uma pequena passagem de água que separava aquela região do ponto combinado.
E entregaram Pedro aos pesquisadores.
Sem despedidas.
Sem explicações.
Apenas um último olhar.
E então partiram.
Naquela mesma madrugada, Pedro deixou para trás o lugar onde havia nascido.
E começou uma vida completamente diferente.
Depois de muita burocracia e dificuldades, os pesquisadores conseguiram levar a criança para o Brasil.
Pedro cresceu acreditando que aquela vida pacata que vivia era sua história.
Até aquele momento. Até os vinte anos.
Até seus pais finalmente decidirem contar a verdade.
E, enquanto Pedro os observava em silêncio, sua mãe respirou fundo.
— Filho... existe uma coisa que você precisa entender.
Ela olhou para o marido.
— Nós nunca soubemos exatamente quem você era.
— Mas sabemos de onde você veio.
Pedro permaneceu imóvel.
Seu pai então completou:
— E sabemos que aquela comunidade escondia alguma coisa.
Algo que existia muito antes de você nascer.
Algo relacionado às lendas que ouvimos durante aquela expedição.
Pedro franziu a testa.
— Que lendas?
O pai demorou alguns segundos para responder.
— Uma delas dizia que, milhares de anos atrás, um ser protegia aquela região.
Pedro continuou olhando para ele.
— Como assim? Quem era esse? De quem essas lendas falavam?
O pai baixou os olhos.
— Isso... nós nunca descobrimos.
A viagem
Pedro saiu da casa dos pais decidido.
Pela primeira vez em muitos anos, sentia que finalmente estava diante de uma resposta
que poderia explicar tudo aquilo que sempre o incomodara.
A sensação de ser diferente. A força que nunca conseguira compreender.
A dúvida sobre sua origem.
E, principalmente, a história que seus pais haviam escondido durante vinte anos.
Horas depois, estava novamente ao telefone com Tainá.
A folha de sua dispensa permanecia dobrada em sua mão.
Ele já havia tomado a decisão.
— Eu preciso fazer isso, Tainá.
Do outro lado da ligação, ela permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Eu sei o quanto isso significa pra você.
A voz de Pedro carregava uma mistura de ansiedade e esperança:
— Tem tanta coisa que eu queria te contar... Mas preciso que confie em mim e me apoie nessa... Por favor...
Tainá já em lágrimas do outro lado da ligação.
— Eu vou apoiar.
Ele sorriu.
— Mesmo sabendo que eu estou abandonando tudo?
— Se é realmente isso que você deseja... eu vou orar para que tudo dê certo.
Pedro olhou novamente para o documento que segurava.
— Obrigado.
Tainá respirou fundo.
Então sua voz mudou.
— E quando você voltar...
— Quando eu voltar?
— Eu tenho uma surpresa muito especial pra você.
Pedro sorriu ainda mais.
— Agora você vai me deixar curioso.
— Então é melhor você voltar logo para descobrir.
— Pode deixar.
Os dois permaneceram alguns segundos em silêncio.
Nenhum deles sabia que aquela seria a última conversa entre os dois...
— Boa viagem, Pedro.
Ele já não conseguia segurar a emoção, tinha um estranho pressentimento.
— Eu te ligo quando chegar, amo você.
— Eu vou esperar. Tbm te amo.
A ligação terminou.
Pedro guardou o telefone.
Olhou uma última vez para a folha da dispensa.
E partiu rumo ao desconhecido, rumo a sua origem...Groenlândia.
O primeiro destino foi Copenhague, na Dinamarca.
De lá, Pedro seguiu viagem rumo ao norte.
Quanto mais avançava, mais difícil se tornava encontrar informações sobre a região onde seus pais haviam estado décadas antes.
Ele passou por diferentes pontos de apoio até chegar às proximidades da região que procurava.
Mas descobriu rapidamente que havia uma diferença enorme entre ter ouvido falar de um lugar e conseguir chegar até ele.
Seus pais eram pesquisadores.
Tinham documentos.
Autorizações.
Motivos oficiais.
Pedro não tinha nada disso.
Durante dias, procurou alguém que pudesse transportá-lo.
Nada. Semanas se passaram.
Nenhum piloto.
Nenhum barco.
Nenhuma embarcação de pesca.
Nenhum guia disposto a levá-lo.
A região parecia ter desaparecido do mapa.
Pedro insistiu.
E continuou insistindo.
Foram aproximadamente quarenta dias procurando uma maneira de chegar até aquela comunidade.
Nesse período, seus recursos financeiros começaram a desaparecer.
O frio aumentava.
O cansaço também.
Mas a vontade de descobrir sua origem permanecia inabalável.
Até que, certo dia, em um pequeno estabelecimento próximo à costa, Pedro ouviu uma conversa que mudaria tudo.
Um homem mais velho, acostumado às águas daquela região, mencionou uma rota que passava próximo a vila que procurava. Que era extremamente perigoso mas que era utilizada ocasionalmente por pescadores.
Pedro se aproximou.
— Você conhece alguém que faça esse trajeto?
O homem o observou por alguns segundos.
— Conheço.
Pedro sentiu uma ponta de esperança.
— Pode me levar?
O homem soltou uma pequena risada.
— Eu posso levar você. Qualquer coisa pelo preço certo, Mas não garanto que chegaremos exatamente até lá.
Pedro respirou aliviado. — E quando podemos partir?
O homem ficou sério.
— Pode ser hoje a noite, mas não terá viagem de volta, pelo menos comigo.
Pedro franziu a testa.
— Como assim?
— Faço a ida. A volta é problema seu.
Pedro pensou por alguns segundos.
Já não tinha praticamente dinheiro.
Mas tinha duas escolhas.
Voltar para casa sem respostas...
Ou continuar.
— Eu vou.
A travessia foi longa.
Quando finalmente chegaram até o outro lado do lago semi congelado, o homem não levou Pedro até um cais, uma doca ou qualquer coisa parecida.
Ao contrário.
Desembarcou-o em um trecho isolado da costa.
Uma região praticamente deserta.
Antes de partir, apontou para uma direção.
— Por ali.
Pedro olhou para o horizonte.
— A comunidade fica naquela direção?
O homem não respondeu diretamente.
— Se você realmente está procurando aquele lugar, vai encontrar rastros.
Então olhou para Pedro.
— Mas eu não recomendo.
Pedro permaneceu em silêncio.
— Existem lugares onde o homem não deveria entrar.
O barco começou a se afastar.
Pedro ficou sozinho.
Ele observou a embarcação desaparecer no horizonte.
Então apertou o casaco contra o corpo.
E começou a caminhar.
As horas seguintes foram difíceis.
A paisagem parecia interminável.
Neve.
Gelo.
Florestas.
Montanhas.
O vento cortava seu rosto.
Pedro avançava lentamente, sempre procurando algum sinal de passagem.
Até que encontrou.
Marcas no gelo.
Rastros de trenó.
Pegadas.
Galhos quebrados.
Uma trilha recente.
Pedro se abaixou.
Passou os dedos sobre a neve.
Alguém havia passado por ali.
Talvez recentemente. Ele seguiu os rastros.
Mas não diretamente pela trilha.
Preferiu caminhar paralelamente, mantendo-se protegido entre as árvores.
Não queria ser visto.
Depois de algum tempo, ouviu um som.
Primeiro distante.
Depois mais próximo.
Latidos.
Pedro parou.
Os animais surgiram entre as árvores.
Cães de trenó.
Fortes.
Grandes.
E, à frente deles, um animal que fez Pedro permanecer imóvel por alguns segundos.
Um enorme cão-lobo liderava o grupo.
Atrás deles vinha um homem.
Ele carregava uma lança.
O homem avistou Pedro.
Parou.
E começou a falar em um idioma que Pedro não compreendia.
Pedro levantou lentamente as mãos.
— Calma.
O homem apontou a lança.
Pedro tentou falar novamente.
— Eu não quero problemas.
O homem respondeu no mesmo dialeto desconhecido.
Pedro balançou a cabeça.
— Eu não entendo.
O homem avançou.
Pedro poderia tê-lo derrubado facilmente.
Mas não fez isso.
Ele conhecia a própria força.
E sabia que qualquer reação poderia transformar aquela situação em algo muito pior.
— Eu estou em paz.
O homem continuou avançando.
Pedro recuou.
Até que outros homens apareceram.
Em poucos segundos, ele estava cercado.
Um deles tomou sua mochila.
Outro o imobilizou.
Pedro não reagiu.
Foi amarrado.
E levado.
Mas não na direção que esperava.
Pedro percebeu isso rapidamente.
— Espera...
A trilha que havia seguido ficava para trás.
Os homens estavam levando-o para outro lugar.
Uma região mais isolada.
Mais distante.
Até que surgiu uma pequena construção.
Uma cabana. Ali havia outros quatro membros da comunidade.
Um deles era claramente mais velho.
Muito mais velho.
O homem observou Pedro durante alguns segundos.
Seu nome era Aas.
Era um dos anciãos daquela comunidade.
E, diferentemente dos outros, tinha algum conhecimento de inglês.
Não falava português.
Pedro também não dominava completamente o inglês.
Mas os dois conseguiam se comunicar.
Aas fez um gesto para que Pedro se sentasse.
Então perguntou:
— What are you doing here?
“O que você está fazendo aqui?”
Pedro respirou fundo.
— I'm looking for a place.
“Estou procurando um lugar.”
Aas estreitou os olhos.
— What place?
“Que lugar?”
Pedro hesitou.
— A village.
“Uma comunidade.”
Um dos homens atrás dele falou rapidamente no próprio dialeto.
Aas respondeu com gestos firmes e voz grave em direção dos presentes.
Os outros continuaram conversando entre si.
Pedro percebeu que estavam falando sobre ele. Aas voltou a encará-lo.
— We searched your things.
“Revistamos suas coisas.”
Pedro permaneceu calado.
— You are not a researcher.
“Você não é pesquisador.”
— No.
“Não.”
— Then why are you here?
“Então por que você está aqui?”
Pedro respirou fundo.
— My parents were researchers.
“Meus pais eram pesquisadores.”
Aas ficou atento.
— They came here many years ago.
“Eles vieram para cá muitos anos atrás.”
O ancião não respondeu.
Pedro continuou:
— They told me that I was adopted.
“Eles me disseram que fui adotado.”
Os olhos de Aas mudaram.
Pedro percebeu.
— They said I may have come from here.
“Eles disseram que talvez eu tenha vindo daqui.”
Aas observou o rosto de Pedro.
Depois, suas mãos.
Seu cabelo.
Seus traços. Havia alguma coisa naquele jovem que despertava uma lembrança difícil de explicar.
Apesar das roupas.
Apesar do corte de cabelo.
Apesar da maneira de falar.
Havia algo familiar.
Aas finalmente respondeu:
— No.
“Não.”
Pedro franziu a testa.
— No?
“Não?”
— You are not from here.
“Você não é daqui.”
— How do you know?
“Como você sabe?”
— No child from here was adopted.
“Nenhuma criança daqui foi dada em adoção.”
Pedro permaneceu em silêncio.
Aas fez um gesto:
— You must leave.
“Você precisa ir embora.”
— Go back.
“Volte.”
Pedro olhou para os outros homens.
Alguns continuavam falando no próprio dialeto.
Ele não entendia as palavras.
Mas entendia os olhares. Um deles apontou para Pedro.
Outro fez um gesto brusco com a mão.
Aas respondeu imediatamente como se não concordasse com os outros.
A conversa ficou mais intensa.
Pedro percebeu que havia algo errado.
Eles não queriam apenas que ele fosse embora.
Eles estavam discutindo o que fazer com ele.
Um dos homens falou algo em tom mais agressivo.
Aas respondeu com mais agressividade.
O homem insistiu.
Pedro conseguiu entender apenas algumas palavras soltas.
Go.
“Vá.”
No return.
“Não volte.”
Danger.
“Perigo.”
Aas permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Então tomou sua decisão.
— You go.
“Você vai embora.”
Pedro olhou para ele.
Aas gritou furioso...
— Now.
“Agora.”
Pedro se levantou.
Um dos homens desamarrou suas mãos. Aas apontou para a saída.
— Go back.
“Volte.”
Pedro pegou seus pertences.
Antes de sair, olhou mais uma vez para o ancião.
— Eu sei que vocês estão escondendo alguma coisa.
Aas não entendeu, ou pelo menos fingiu não entender a língua que Pedro falou agora.
Pedro saiu.
Dois homens o acompanharam.
Um deles era o mesmo que havia encontrado Pedro na floresta.
A escolta o conduziu de volta.
Pedro caminhava em silêncio.
Mas sua cabeça estava acelerada.
Ele sabia que não havia conseguido a resposta que procurava.
Pior.
Agora tinha certeza de que havia alguma coisa escondida.
Quando chegaram a uma região próxima da costa, um dos homens indicou que Pedro deveria continuar e pegar uma embarcação que estava na margem e remar em direção ao Sul. Este falava um inglês ainda pior que o ancião...
Era o momento de partir.
Mas Pedro olhou para trás.
A comunidade estava muito distante.
E uma certeza tomou conta dele.
Ele precisava voltar.
O homem que o escoltava virou-se para olhar um movimento entre as árvores.
Pedro aproveitou o instante.
Correu. Desapareceu entre as árvores.
O homem gritou.
Correu atrás dele.
Mas Pedro era muito mais rápido.
Muito mais forte.
E conhecia o medo que os outros deveriam sentir diante de alguém como ele. Poderiam querer sua morte.
Por isso, não enfrentou.
Não atacou.
Apenas correu.
Até conseguir desaparecer completamente.
Já vem distante da costa, Pedro se escondeu entre as árvores.
Permaneceu imóvel durante alguns minutos.
Esperando.
O som dos passos foi ficando cada vez mais distante.
Até desaparecer.
Pedro respirou fundo.
Olhou na direção onde acreditava que estaria a comunidade.
— Não.
Ele apertou os punhos.
— Eu preciso voltar.
Não tinha conseguido descobrir sua origem.
Não tinha conseguido entender por que aquelas pessoas tinham tanto medo dele, sabia que o ancião estava escondendo alguma coisa.
E agora havia outra pergunta:
Por que estavam tão preocupados com a possibilidade dele voltar?
Pedro se levantou. Olhou para a floresta.
E começou a caminhar novamente em direção à comunidade. Mas por um caminho diferente.
"A caverna"
- Preciso tentar falar com o ancião mais uma vez.
Alguma coisa havia mudado.
As pessoas daquele lugar não queriam que ele descobrisse a verdade. Nesse momento lembrou de momentos que passou antes de conseguir fazer a travessia.
Antes de chegar àquela região, durante os dias em que procurava uma maneira de alcançar a comunidade, Pedro havia conversado com alguns moradores das regiões próximas.
Mencionou a história que seus pais haviam contado.
A maioria nunca tinha ouvido falar da história.
Mas alguns conheciam fragmentos.
Histórias diferentes.
Versões incompletas.
Algumas falavam de uma comunidade que protegia alguma coisa.
Outras falavam de um ser que havia vivido naquela região milhares de anos antes.
Um ser que, para alguns, era tratado como uma espécie de divindade.
Para outros, era simplesmente uma criatura ancestral que havia desaparecido.
As histórias não coincidiam completamente.
Mas havia algo em comum.
A comunidade protegia alguma coisa. Pedro sentia que aquilo estava ligado à sua origem.
E agora tinha uma pista.
Uma caverna.
Segundo uma das histórias que ouvira, existia um antigo local de adoração escondido em algum ponto das montanhas.
Talvez um templo.
Talvez uma caverna.
Talvez apenas uma lenda.
Mas Pedro precisava descobrir.
O retorno
Naquela mesma noite, Pedro mudou o caminho.
Em vez de retornar diretamente para a região onde havia sido deixado, fez uma rota
mais longa.
Queria evitar ser percebido.
A caminhada levou horas.
O frio aumentava.
O céu começava a clarear quando finalmente conseguiu avistar novamente a
comunidade.
Pedro deu mais alguns passos.
Foi quando ouviu vozes.
Homens surgiram entre a neve.
Dessa vez, não havia intenção de conversar.
Pedro levantou as mãos.
— Wait! I'm not here to hurt anyone!
“Esperem! Eu não vim machucar ninguém!”
Ninguém respondeu. Os homens avançaram.
Pedro tentou recuar.
Mas estava cansado.
Ferido.
E cercado.
O ataque aconteceu rapidamente.
Pedro tentou se proteger, mas vários homens o imobilizaram.
Ele sofreu diversos ferimentos durante a luta e caiu sobre a neve.
Quando tudo parecia perdido, uma voz conhecida ecoou entre os homens.
— Stop!
“Parem!”
Todos pararam.
Aas apareceu.
O ancião caminhou lentamente até Pedro.
Seu olhar demonstrava preocupação.
— I told you to leave.
“Eu mandei você ir embora.”
Pedro respirava com dificuldade.
— I need answers.
“Eu preciso de respostas.”
Aas olhou para os outros homens.
Depois, para Pedro.
— Take him.
“Levem-no.”
Os homens obedeceram.
Pedro foi levado novamente para a cabana. Aas entrou pouco depois.
Pedro estava sentado, completamente exausto.
— Why are you doing this?
“Por que você está fazendo isso?”
Pedro levantou os olhos.
— Because I need to know.
“Porque eu preciso saber.”
Aas balançou a cabeça.
— I gave you a chance.
“Eu te dei uma oportunidade.”
— I know.
“Eu sei.”
— And you came back.
“E você voltou.”
Pedro permaneceu em silêncio.
Aas aproximou-se.
— Why do you care so much about being from here?
“Por que é tão importante para você ser daqui?”
Pedro respirou fundo.
— People told me stories.
“As pessoas me contaram histórias.”
Aas ficou imóvel.
— Stories?
“Histórias?”
— About your people.
“Sobre o seu povo.”
Pedro continuou:
— They said your people protect something. “Disseram que o seu povo protege alguma coisa.”
O olhar do ancião mudou.
Pedro percebeu.
— They told me about a being.
“Eles me falaram sobre um ser.”
Aas não respondeu.
— Something that lived here thousands of years ago.
“Algo que viveu aqui milhares de anos atrás.”
Silêncio.
— And they told me about a cave.
“E me falaram sobre uma caverna.”
Aas fechou os olhos por um instante.
Pedro percebeu que havia acertado alguma coisa.
— Is there a cave?
“Existe uma caverna?”
Aas abriu os olhos.
— There is nothing here for you.
“Não existe nada aqui para você.”
Pedro insistiu:
— Please.
“Por favor.”
Aas permaneceu em silêncio.
— Go back.
“Volte para casa.”
Pedro olhou para ele.
— I can't.
“Eu não posso.”
Aas ficou sério. — If you stay, we may be forced to kill you.
“Se você continuar aqui, poderemos ser obrigados a matá-lo.”
Pedro baixou a cabeça.
Então algo chamou a atenção de todos.
As cordas que prendiam suas mãos começaram a ceder.
Pedro puxou os braços.
Estalo.
As amarras se romperam.
Todos ficaram imóveis.
Pedro olhou para as próprias mãos.
Ele mesmo parecia surpreso.
As cordas haviam se rompido com uma facilidade absurda.
Um dos homens recuou.
Outro levantou a lança.
Pedro não avançou.
Apenas olhou para Aas.
— Please.
“Por favor.”
Aas não respondeu.
Pedro se levantou.
— I need to know who I am.
“Eu preciso saber quem eu sou.”
Aas permaneceu diante dele.
Depois de alguns segundos, apontou para a saída.
— Leave.
“Vá embora.”
Pedro esperou. Nada mais foi dito.
Então saiu.
A montanha
Pedro caminhou sem direção definida.
Estava cansado.
Muito cansado.
Seu corpo doía.
Seus recursos estavam acabando.
A comida que havia levado já era pouca.
O equipamento de acampamento, comprado com praticamente todo o dinheiro que
possuía, começava a ser insuficiente para aquela jornada.
Mesmo assim, ele continuou.
Aquela palavra não saía da sua cabeça.
Caverna.
Ele precisava encontrar a caverna.
Pedro começou a subir uma região montanhosa.
A inclinação aumentava.
O vento ficou mais forte.
Então a nevasca voltou.
Pedro tentou procurar abrigo.
Mas a visibilidade caiu rapidamente.
Um passo em falso.
O chão desapareceu sob seus pés.
Pedro caiu.
Seu corpo deslizou pela encosta até atingir uma área mais baixa. A dor tomou conta de sua perna.
Ele tentou se levantar.
Não conseguiu.
Pedro olhou para a perna.
Havia algo claramente errado.
Ele respirou fundo.
Precisava encontrar abrigo.
Arrastando-se pela neve, conseguiu chegar até uma abertura entre as rochas.
Uma caverna.
Pedro entrou.
Ali, finalmente, encontrou proteção contra a tempestade.
Exausto, perdeu a consciência.
Quando acordou, a tempestade havia diminuído.
Pedro tentou se mexer.
A perna ainda doía.
Ele percebeu que havia sofrido uma fratura e que a articulação estava deslocada.
Não havia ninguém.
Nenhum médico.
Nenhum equipamento.
Nenhuma outra opção.
Com extremo esforço, Pedro conseguiu reposicionar a perna.
A dor foi intensa.
Ele desmaiou novamente.
Quando recuperou a consciência, algo estava diferente.
A dor havia diminuído. Pedro observou os próprios ferimentos.
As marcas dos ataques anteriores ainda estavam presentes.
Mas estavam cicatrizando.
Rápido.
Muito mais rápido do que deveriam.
Pedro ficou olhando para o próprio corpo.
— What...?
“O que...?”
Ele não conseguia entender.
Nos dias seguintes, permaneceu naquela caverna.
Comeu o pouco que ainda tinha.
Descansou.
E observou.
Seu corpo continuava se recuperando.
Depois de alguns dias, já conseguia caminhar novamente.
A perna ainda não estava perfeita.
Mas estava muito melhor.
Pedro percebeu que havia algo diferente nele.
Algo que não conseguia explicar.
Antes de partir, acendeu uma pequena fogueira.
A luz iluminou as paredes.
Foi então que percebeu algo.
Desenhos.
Muito antigos.
Pedro se aproximou.
Havia figuras humanas. Montanhas.
Uma grande abertura na pedra.
E uma representação que chamou imediatamente sua atenção.
Um ser enorme aparecia sobre uma montanha.
Abaixo dele, havia uma caverna.
E ao redor dela, pequenas figuras humanas.
Pedro passou os dedos sobre o desenho.
— A cave...
“A caverna...”
Era a mesma história.
A mesma lenda.
Pedro apagou a fogueira e saiu.
Agora sabia que estava procurando pelo lugar certo.
O encontro
A caminhada continuou.
A paisagem parecia não ter fim.
Até que outra nevasca começou.
Dessa vez, Pedro foi mais cuidadoso.
Reduziu o ritmo.
Evitou encostas perigosas.
Protegeu o rosto contra o vento.
Ao descer uma formação rochosa, percebeu algo diferente.
Uma abertura.
Uma formação natural que parecia esconder uma passagem.
Pedro se aproximou. Então parou.
Ao longe, através da neve, havia duas formas.
Pareciam pessoas.
Pedro continuou caminhando.
Quanto mais se aproximava, mais nítidas ficavam.
E então percebeu.
Eram dois membros da comunidade.
Estavam mortos.
Caídos diante da entrada da caverna.
Pedro ficou imóvel.
Aquele lugar não parecia simplesmente abandonado.
Havia algo errado.
Ele olhou para dentro.
E sentiu.
Uma presença.
Algo que nunca havia sentido antes.
Seu corpo inteiro reagiu.
Um instinto profundo dizia:
Perigo.
Pedro deveria ir embora.
Mas sua curiosidade venceu.
Ele entrou.
A caverna era enorme.
O som de seus passos ecoava pelas paredes.
Pedro avançou lentamente. Então ouviu um movimento.
Virou-se.
Um jovem surgiu da escuridão.
Parecia ter quase a mesma idade que Pedro.
Mas havia algo imediatamente diferente.
Suas roupas não pertenciam àquela comunidade.
Eram modernas.
Ele carregava duas espadas.
Pedro levantou as mãos.
— Wait!
“Espera!”
O jovem não respondeu.
Avançou.
Pedro desviou do primeiro golpe.
Depois, do segundo.
O rapaz era extremamente rápido.
Pedro tentou falar novamente.
— I'm not your enemy!
“Eu não sou seu inimigo!”
Nenhuma resposta.
O jovem continuou atacando.
Pedro tentou apenas se defender.
Mas a velocidade do adversário aumentava.
Um golpe atingiu seu braço.
Outro o fez recuar.
Pedro tentou agarrar uma das espadas. Conseguiu.
Mas o jovem girou o corpo e atacou com a segunda.
Pedro não teve tempo de desviar completamente.
A lâmina o atingiu no abdômen.
Pedro caiu de joelhos.
Por alguns segundos, ficou imóvel.
O jovem preparou outro ataque.
Pedro levantou os olhos.
Agora não havia mais espaço para tentar conversar.
Ele segurou uma das lâminas com a mão.
O jovem tentou puxá-la.
Pedro apertou os dedos.
CRACK.
A lâmina se partiu.
O rapaz recuou, surpreso.
Pedro se levantou.
— I don't want to fight you.
“Eu não quero lutar com você.”
Mas o jovem avançou novamente.
Pedro reagiu.
Um único golpe.
Forte.
Muito forte.
O jovem foi lançado para longe.
Seu corpo atravessou a caverna.
E então... BOOM!
Ele atingiu a parede mais profunda.
Pedro ouviu um som diferente.
Não era apenas pedra.
Era algo se partindo.
Uma pequena fissura surgiu na estrutura atrás do jovem.
Pedro ficou olhando.
O jovem também.
A rachadura se espalhou.
O silêncio tomou conta da caverna.
Então...
CRACK.
Uma segunda fissura apareceu.
O gelo começou a se romper.
Pedro deu um passo para trás.
O jovem levantou lentamente os olhos.
E, pela primeira vez, os dois perceberam que não estavam sozinhos.
Havia algo atrás daquela parede.
Algo que estava adormecido havia milhares de anos.
Algo que a comunidade Nuk havia protegido durante gerações.
O gelo começou a estourar.
E uma presença antiga despertou.
O ancestral havia sentido os dois.
O Despertar
O gelo explodiu. O som atravessou toda a caverna.
Pedro e o jovem permaneceram imóveis.
Os dois sentiram a mesma coisa.
Uma presença.
Não era apenas medo.
Era algo muito mais profundo.
Uma pressão que parecia esmagar o próprio corpo.
Pedro olhou para o rapaz.
Pela primeira vez desde que haviam se encontrado, o jovem também parecia assustado.
Então, entre os fragmentos de gelo, surgiu uma figura.
Alta.
Muito magra.
Extremamente pálida.
Seu corpo parecia ter definhado durante séculos.
Uma barba branca e longa descia pelo peito.
Os cabelos, igualmente brancos, eram tão compridos que quase alcançavam o fim de
seu corpo.
Seus olhos estavam parcialmente escondidos pelos cabelos.
Ele parecia fraco.
Quase morto.
Mas sua presença fazia a caverna inteira parecer pequena.
Pedro não conseguia se mover.
O jovem também não.
O ancestral havia despertado.
Uma força invisível atravessou a caverna.
O jovem foi violentamente lançado em direção ao desfiladeiro. Pedro percebeu.
Não pensou.
Correu.
Atirou-se à frente.
Agarrou o rapaz antes que ele fosse lançado para fora da montanha.
Os dois caíram.
Pedro segurou o jovem com força.
Por um instante, seus olhos se encontraram.
O rapaz parecia não entender por que Pedro havia feito aquilo.
Pedro também não sabia explicar.
Talvez fosse apenas instinto.
Talvez fosse seu senso de justiça.
Talvez fosse algo ainda mais profundo.
Mas ele não deixaria alguém morrer diante dele.
Então Pedro sentiu algo.
Uma força puxava seu corpo.
Ele olhou para trás.
O ancestral estava olhando diretamente para ele.
Pedro sentiu uma atração sobrenatural.
Como se aquela criatura estivesse puxando sua própria existência.
A força aumentou.
Pedro segurou o jovem.
Tentou resistir.
Mas ambos começaram a ser arrastados.
Pedro conseguiu agarrá-lo.
O ancestral então mudou o foco. A força sobre o jovem diminuiu.
Pedro percebeu a oportunidade.
O rapaz se soltou.
Correu.
Desapareceu na escuridão da montanha.
Pedro ficou sozinho.
Diante do ancestral.
Ele olhou para o fragmento da espada que havia quebrado.
Pegou-o.
E avançou.
— You won't hurt anyone.
“Você não vai machucar ninguém.”
O ancestral ergueu uma das mãos.
Pedro tentou golpeá-lo.
Mas não conseguiu chegar perto.
Uma força invisível o atingiu.
Pedro foi arremessado para trás.
Seu corpo atravessou a abertura da montanha.
Ele caiu pelo desfiladeiro.
Rolou pela encosta.
Bateu contra a neve e as pedras.
E desapareceu na parte inferior da montanha.
O ancestral permaneceu imóvel.
Então um segundo impacto ecoou.
BOOM!
A energia liberada provocou uma avalanche. A montanha inteira pareceu estremecer.
O resgate
Na comunidade Nuk, Aas levantou a cabeça.
Ele havia sentido.
Não precisava ouvir explicação alguma.
— The seal...
“O selo...”
Aas ficou pálido.
— He woke up.
“Ele despertou.”
Dois homens pegaram seus equipamentos.
Os três partiram imediatamente.
Depois de algum tempo, encontraram sinais da avalanche.
Seguiram o caminho.
Até chegarem a um lago parcialmente congelado.
Aas parou.
Ali estava Pedro.
Parte do corpo encontrava-se dentro da água gelada.
A outra parte permanecia sobre uma camada fina de gelo.
— Pedro!
Os homens correram.
Retiraram-no dali.
Pedro estava inconsciente.
Aas olhou para a montanha.
Seu rosto demonstrava medo. — What have you done?
“O que você fez?”
A cabana
Pedro acordou por alguns segundos.
Sentiu o corpo pesado.
Tentou abrir os olhos.
Viu Aas.
Percebeu que estava deitado em uma pequena cabana.
Havia curativos feitos com ervas e tecidos envolvendo seus ferimentos.
Aas estava cuidando dele.
Pedro tentou falar.
Mas não conseguiu.
Fechou os olhos novamente.
Quando acordou outra vez, havia passado algum tempo.
Pedro respirou fundo.
Tentou se sentar.
Conseguiu.
Aas observou atentamente.
A recuperação novamente surpreendia.
— What exactly did I do?
“O que exatamente eu fiz?”
Aas permaneceu em silêncio.
— What happened up there?
“O que aconteceu lá em cima?”
Pedro contou. Falou sobre os dois homens mortos.
Sobre a caverna.
Sobre o rapaz.
Sobre as duas espadas.
Sobre a luta.
E sobre o momento em que o golpe lançou o jovem contra a parede.
— The wall broke.
“A parede se rompeu.”
Pedro continuou:
— And then I saw him.
“E então eu o vi.”
Aas escutava atentamente.
— He was very thin.
“Ele era muito magro.”
— Very pale.
“Muito pálido.”
— His hair was white... very long.
“Os cabelos eram brancos... muito longos.”
Pedro fez uma pausa.
— He was tall.
“Ele era alto.”
— About two meters... maybe more.
“Cerca de dois metros... talvez mais.”
Aas baixou os olhos.
Pedro continuou:
— I felt something I've never felt before.
“Eu senti algo que nunca havia sentido antes.”
— I couldn't move. “Eu não conseguia me mover.”
— His presence...
Pedro hesitou.
— It was terrifying.
“A presença dele... era aterrorizante.”
Aas respirou fundo.
Então finalmente começou a contar aquilo que sua comunidade havia escondido e protegido durante gerações.
A lenda
— Long ago...
“Há muito tempo...”
Aas olhou para Pedro.
— Someone came here.
“Alguém chegou aqui.”
— We don't know where he came from.
“Nós não sabemos de onde ele veio.”
— He helped our people.
“Ele ajudou nosso povo.”
— For generations, our ancestors remembered him as a protector.
“Durante gerações, nossos antepassados se lembraram dele como um protetor.”
Pedro permaneceu atento.
— Some called him a god.
“Alguns o chamavam de deus.”
Aas fez uma pausa.
— But he was never meant to be awakened.
“Mas ele nunca deveria ser despertado.”
Pedro perguntou: — Why?
“Por quê?”
Aas respondeu:
— He chose to sleep.
“Ele escolheu dormir.”
— He told our ancestors to protect this place.
“Ele disse aos nossos antepassados para protegerem este lugar.”
— No one could find him.
“Ninguém poderia encontrá-lo.”
— No one could wake him.
“Ninguém poderia acordá-lo.”
Pedro ficou em silêncio.
Então lembrou do rapaz.
Aas levantou os olhos.
— What about the other man?
“E o outro rapaz?”
— Tell me about him.
“Conte-me sobre ele.”
Pedro explicou.
Falou que o rapaz parecia ter quase a mesma idade.
Que usava roupas diferentes.
Que carregava duas espadas.
Tbm tinha uma presença marcante, algo que ele não conseguia explicar.
E que não havia dito uma única palavra.
Apenas atacado.
Aas permaneceu pensativo.
— You said he was not from our people?
“Você disse que ele não era do nosso povo?”
Pedro respondeu.
— Yes.
“Sim.”
Aas abaixou a cabeça.
— Then there is something you must know.
“Então existe algo que você precisa saber.”
Pedro esperou.
— Long ago, there was a rule.
“Há muito tempo, existia uma regra.”
— No descendant could leave this place.
“Nenhum descendente poderia deixar este lugar.”
Pedro franziu a testa.
— Why?
“Por quê?”
— They could see the outside world.
“Eles podiam conhecer o mundo exterior.”
— But they could never leave permanently.
“Mas nunca poderiam partir definitivamente.”
Pedro sentiu o coração acelerar.
Aas continuou:
— They had to remain here.
“Eles tinham que permanecer aqui.”
— Live here.
“Viver aqui.”
— And die here.
“E morrer aqui.”
Pedro ficou imóvel.
Então Aas disse:
— But twenty years ago...
“Mas, há vinte anos...” Silêncio.
— One left.
“Um saiu.”
Pedro levantou lentamente os olhos.
Aas olhou diretamente para ele.
— Only one.
“Apenas um.”
Pedro não conseguiu responder.
Tudo pareceu se encaixar.
A idade.
A história dos pais.
A comunidade.
A adoção.
A Groenlândia.
Ele.
Pedro respirou fundo.
— What happened to my parents?
“O que aconteceu com os meus pais?”
Aas abaixou a cabeça.
Ficou em silêncio.
Então fechou os olhos e balançou lentamente a cabeça.
Não.
Pedro entendeu.
Seus pais estavam mortos.
Por alguns segundos, o silêncio dominou a cabana.
Mas Pedro ainda tinha outra pergunta.
— And the other one? “E o outro?”
Aas ergueu os olhos.
— The young man.
“O rapaz.”
Pedro respirou fundo.
— I don't know.
“Eu não sei.”
— I think he escaped.
“Acho que ele fugiu.”
— I don't know where he went.
“Não sei para onde ele foi.”
Aas permaneceu pensativo.
Então disse:
— If there is another one...
“Se existe outro...”
Pedro olhou para ele.
Aas completou:
— There may be more.
“Pode haver mais.”
Pedro fechou os olhos.
Por um instante, tudo ficou em silêncio.
Corte.
Escuridão.
Então...
Dois olhos se abriram.
Corte.
Outros olhos. Corte.
Mais dois.
Corte.
Outro par.
Corte.
Mais um.
Corte.
E outro.
Seis pares de olhos.
Seis presenças.
Seis histórias.
Seis descendentes.
E, em algum lugar daquele mundo...
o legado começava a despertar.