CAPÍTULO 1 — O PESO DA ESCOLHA
Na Vila do Fogo, o calor não era só o clima; era a própria vida. O camponês acelerava a colheita aquecendo a terra com as mãos, e o ferreiro moldava o metal bruto usando o próprio corpo. Manifestar o fogo era o oxigênio daquela gente.
E, para qualquer criança dali, o topo do mundo significava uma coisa: os Guerreiros de Elite.
Mas a força naquela sociedade tinha um preço amargo. Ser forte virou sinônimo de esmagar os fracos, ignorar os necessitados e subir a qualquer custo.
Menos para Shin.
Aos doze anos, o garoto ia na contramão de tudo. Enquanto os outros jovens se matavam nos treinos, sonhando com glória e com a chance de passar por cima dos outros, Shin erguia os punhos por um único motivo: garantir que ninguém ao seu redor fosse machucado.
— Muito bem, pirralhos! Agora que dominaram o básico do elemento, acabou a moleza. Escolham suas armas!
A voz do Instrutor Chefe estancou o falatório no salão de pedra.
THUMP!
Ele bateu uma prancheta pesada contra a mesa central. O impacto fez dezenas de lâminas, lanças e machados reluzentes chacoalharem.
— A arma é a extensão do seu corpo. Dominem a arma, ou serão dominados por ela!
Shin deu um passo à frente, saindo da fila sob os olhares afiados dos outros alunos. Ele tinha os cabelos pretos, espetados e bagunçados, de quem passava o dia treinando ao ar livre. No punho esquerdo, uma longa faixa branca cobria sua pele até os nós dos dedos — um hábito para dar firmeza aos socos e proteger a pele do calor.
Logo atrás, Rin apenas acenou com a cabeça.
Rin era a prodígio da turma. Tinha cabelos castanhos curtos, com reflexos avermelhados, que emolduravam um rosto que raramente demonstrava medo. Vestindo o traje tradicional branco e vermelho, bem ajustado, ela já exibia no quadril uma katana de aço polido que brilhava feito espelho.
Ela sabia canalizar o calor elemental em cortes tão rápidos que o ar parecia rasgar.
Mesmo sendo a número um, Rin respeitava Shin. Ela sabia que, por trás daquele jeito calmo, havia uma força diferente.
Enquanto os outros alunos se estapeavam pelas espadas mais pesadas e ornamentadas, Shin caminhou direto para o canto mais escuro e isolado da mesa.
Ali, repousava um bastão.
Uma arma feita para conter, não para matar.
Quando os dedos calejados de Shin se fecharam ao redor da madeira áspera, o salão silenciou.
O instrutor franziu o cenho, incrédulo.
— Um... bastão? Garoto, ninguém encosta nisso há quase um século. Isso não corta. Não esmaga. Como você vai vencer alguém com isso?
— Eu não quero vencer ninguém — respondeu Shin, abrindo um sorriso tímido, mas mantendo o olhar firme ao erguer a madeira. — Só quero defender. Quero afastar o perigo sem precisar destruir o outro.
O salão prendeu o fôlego por um segundo...E explodiu em gargalhadas.
— Olhem lá! O Shin vai lutar usando um bastão?! — gritou um dos garotos da frente, brandindo uma espada curta. — Vai fazer o quê contra o nosso fogo?
Shin engoliu em seco. Apertou o bastão contra o peito, sentindo o rosto queimar, mas não de raiva.
Era pena.
Eles não entendiam.
Ao seu lado, os olhos âmbar de Rin faiscaram. A mão dela foi direto para o cabo da katana, apertando-o com tanta força que os nós dos dedos empalideceram. Ela encarou os garotos com um olhar tão cortante que o riso de dois ou três morreu na hora.
Mas a humilhação não parou ali.
O verdadeiro teste seria na arena.
O sol do meio-dia castigava a terra batida. O duelo de avaliação era simples: mostrar como cada aluno conseguia fundir seu fogo à própria arma.
O adversário de Shin avançou sorrindo. Ele concentrou sua energia, e uma aura de calor denso cobriu sua espada curta, fazendo o ar ao redor ondular como uma miragem no deserto.
Shin respirou fundo.
Ele nunca tinha usado um bastão em combate real. O peso era diferente. O balanço era outro.
— Vamos ver se esse pedaço do que for aguenta o calor, Shin! — o garoto rugiu, avançando com um corte diagonal.
SHUUK!
A lâmina rasgou o ar, trazendo uma onda de vento quente.
Shin reagiu por puro instinto, cruzando o bastão.
CLANG!
O impacto vibrou até os ombros de Shin. O bastão aguentou o golpe, mas o calor emanado pela espada começou a queimar suas mãos.
VUSH! VUSH!
O adversário não deu trégua.
Uma sequência de ataques rápidos empurrou Shin para trás. O garoto bloqueava como podia, mas a desvantagem era óbvia.
— Acabou!
O oponente girou o corpo, desferindo um golpe pesado de cima para baixo.
Shin ergueu o bastão para aparar, mas o impacto, misturado à lufada de ar superaquecido, foi demais.
O bastão escapou de suas mãos, voando longe.
Sem apoio, Shin perdeu o equilíbrio e caiu de costas na lama da arena.
A arquibancada vibrou.
O adversário guardou a espada com arrogância, virando as costas para comemorar. O juiz ergueu a mão, decretando o fim do combate.
Shin não reclamou.
Apenas suspirou, engoliu o nó na garganta, levantou-se e recolheu seu bastão sujo de terra.
Rin correu até a borda da arena, o cenho franzido de preocupação, mas Shin apenas forçou um sorriso para acalmá-la.
Ao anoitecer, as ruas da vila estavam calmas, mas a mente de Shin era uma tempestade.
Ele entrou em casa arrastando os pés. Na cozinha, desamarrou a faixa do punho esquerdo com força, jogando-a sobre a mesa de qualquer jeito.
Deixou o bastão cair no chão e desabou na cadeira.
As lágrimas que segurou o dia todo finalmente caíram.
— Eu vou desistir dessa porcaria — desabafou, com a voz embargada e os punhos tremendo sobre os joelhos. — O bastão é fraco. Amanhã eu volto lá e pego uma espada como todo mundo. Se eu não puder quebrar as coisas, não vou conseguir proteger ninguém!
O silêncio pesou na cozinha.
Passos calmos ecoaram.
Seu pai se aproximou, abaixou-se e recolheu o bastão do chão. Limpou a arma com a mão e o estendeu de volta para o filho, com os olhos sérios e cheios de respeito.
Sua mãe sentou-se ao lado, usando um pano úmido para limpar a fuligem do rosto do menino.
— O bastão não é fraco, Shin. Ele só exige mais de você — disse o pai, com a voz grave e firme. — Uma espada é fácil. Qualquer idiota consegue cortar algo se balançar uma lâmina com força. Mas o bastão? Ele afasta o perigo sem tirar uma vida. Exige precisão, exige controle. Você escolheu o caminho mais difícil, meu filho. Porque ele combina com quem você é.
— O mundo está cheio de monstros que usam o fogo para queimar os outros, Shin — completou a mãe, segurando a mão do garoto com ternura. — Nós não precisamos de mais um destruidor. Precisamos de alguém forte o suficiente para segurar quem está caindo. Não jogue seu coração fora só porque eles não conseguem entender.
Aquelas palavras bateram no peito de Shin como um soco, limpando a frustração.
Ele olhou para o bastão em suas mãos.
Apertou o cabo.
O choro parou.
A dúvida sumiu.
Ele ia treinar. Ia treinar até dominar completamente aquela arma.
Faria daquele bastão a defesa mais impenetrável e o ataque mais forte daquela vila.
Mais tarde, a madrugada engoliu a Vila do Fogo.
No quarto, Shin dormia um sono pesado, exausto. O bastão repousava encostado na parede, ao lado da janela aberta, por onde entrava o vento fresco da noite.
Lá fora, o céu mudou.
ZUUUUUM...
Uma fagulha elemental — não uma faísca comum, mas uma chama densa, ancestral e concentrada da própria natureza — cruzou o vilarejo.
Ela se movia cortando o ar, viva, como se seguisse o eco de uma batida de coração específica.
Ela não buscava o mais destrutivo.
Não queria o mais arrogante.
Buscava um receptáculo digno.
A chama flutuou para dentro do quarto através da janela. Pairou acima do peito de Shin, pulsando num tom vermelho carmesim tão vivo que parecia sangue e fogo misturados.
Ela sentiu a essência do garoto.
Sentiu a determinação pura que havia despertado horas antes.
VUSH!
Em um lampejo silencioso, a energia mergulhou direto no peito de Shin.
O garoto deu um leve espasmo na cama, mas continuou dormindo.
A energia elemental correu por seu corpo, misturando-se ao seu próprio fogo interno e alterando sua energia para sempre.
Sob as dobras da faixa de treino que ele havia deixado no pulso esquerdo...
A pele começou a queimar.
TSIIIIII!
Uma marca negra, no formato de uma pulseira de correntes envolta em chamas, gravou-se em sua pele, brilhando em um calor escarlate por cinco segundos antes de apagar totalmente.
Uma onda de choque invisível se expandiu pelo quarto, fazendo as cortinas balançarem.
Então, o silêncio voltou.
Shin não fazia ideia do que havia acontecido.
O garoto que todos zoavam por querer apenas ajudar tinha acabado de ser escolhido.
Escolhido por ser digno.
A jornada estava prestes a começar.
E a Vila do Fogo descobriria, da pior forma possível, o verdadeiro significado da força.
(Fim do Capítulo 1)