“Se soubessem a verdadeira origem do sangue que bebem, perguntariam a si mesmos quem é o verdadeiro louco.” Antedeguemon, O Eremita Louco.
O cheiro de metal oxidado, a fuligem no ar, e as muralhas opressivas da cidadela não combinavam com o clima agradável da Casa do Caray. Neste bar, Yuri, olhava, com olhos azulados, atrás do balcão para Maria, uma jovem de cabelos cacheados vestindo um avental velho.
Ela preparava um líquido escuro e espesso. Café: uma iguaria rara nesses tempos sombrios. Sentindo o olhar do rapaz, a garota lançou-lhe um sorriso curioso:
— O que você tanto olha?
— Nada. Só estou ansioso. — disfarçou, ajustando os óculos. — Nunca provei café antes.
A barista começou a coar o café, o vapor espalhando entre eles.
— Olha, vou logo avisando: café tem gosto de pneu queimado. — Ela despejou a bebida em uma caneca gasta, deslizando-a pela bancada. — Eu realmente não entendo por que as pessoas gostam tanto disso... mas aqui está.
Yuri levantou a caneca para perto do rosto, o vapor embaçando seus óculos. Engolindo em seco, deu o primeiro gole. Sua face travou. Repousou-se a caneca devagar, lutando para disfarçar uma careta de repulsa.
— Eu nunca comi pneu queimado na vida, mas tenho quase certeza de que o gosto é exatamente esse.
— Eu te avisei. — Maria soltou uma risada satisfeita — Então como vai “Sr. Super novato”.
— Esse boato, né? Os capitães que são muito eufóricos. Não é nada demais.
— Como assim “nada demais”? — Ela apoiou os cotovelos no móvel de madeira. — Você se tornou um caçador três meses depois de se tornar um aprendiz de caça! Isso é fantástico!
Ele começou a bagunçar os fios dourados.
— Não é pra tanto... Kaleb fez a mesma coisa e ninguém o chama assim.
Maria revirou os olhos com um suspiro audível.
— É que ele é um babaca insuportável. Ele não é radiante… como você.
Assim que as palavras saíram de sua boca, as bochechas dela coraram levemente, enquanto seus dedos se entrelaçavam em seus cachos. Yuri, escondeu o rosto atrás da xícara, tomando mais um gole daquela bebida.
Então, mãos surgiram por trás dele, apalpando os músculos de suas costas com uma intimidade suspeita.
— Bom dia — uma voz sarcástica soou bem no seu ouvido.
— Você tem duas horas para, parar com essas brincadeiras deliciosas, Kaleb — retrucou o loiro, mordendo o beiço para segurar o desejo.
Ele sentou-se ao lado de Yuri, puxou a xícara de café e deu um gole. Sua expressão desapareceu no mesmo instante; seus traços se contorceram em pura repulsa.
— Nossa, isso é horrível. — Engolindo o líquido como se fosse veneno. — Quanto você pagou nisso?
— É... vinte e cinco créditos... — murmurou, começando a questionar suas próprias decisões financeiras.
O moreno olhou para o amigo, boquiaberto.
— É sério? Pelo Sangue... — Então, lançou uma expressão decepcionada para a garota: — Escuta, se o seu plano era assaltar ele, era só ter me avisado. Eu roubava os créditos dele escondido e a gente dividia. Mas fazer isso na cara dura... que falta de vergonha.
Yuri apenas riu das reações exageradas do velho companheiro sarcástico. Em seguida, voltou sua atenção para Maria.
— Valeu cada crédito — garantiu o loiro, com um riso envergonhado.
As bochechas da barista corou. Ela abaixou a cabeça, escondendo a face com os cachos. Kaleb acompanhou a troca de olhares, cruzou os braços e revirou os olhos
— Vocês dois me dão nojo — resmungou. — Se já terminaram a melação, precisamos ir treinar com o pessoal…
Ele não terminou a frase. A expressão desapareceu de seu rosto, o jovem curvou-se para a frente, cravando as unhas no bancada. Levando as mãos aos ouvidos, apertou-os com força. O som de uma sirene rasgou a manhã, alto o suficiente para fazer cada cidadão de toda a Cidadela tremer.
“Atenção, cidadãos. Retornem imediatamente aos seus abrigos. Todos os militares e Caçadores registrados, apresentem-se ao pátio do quartel-general inferior. Repito, isso não é um teste.”
A atmosfera acolhedora da cafeteria evaporou. O silêncio foi engolido por gritos desesperados.
— Preciso ir — disse com a voz grave, virando-se para a garota.
Maria estava paralisada. Os olhos arregalados refletiam o giro vermelho das luzes de emergência.
— Toma cuidado... — a voz dela soou fraca, quase engolida pelo barulho ensurdecedor. — Você também, Kaleb.
O moreno conseguiu se erguer. Ainda meio atordoado resmungou.
— Não se preocupe. Eu ainda vou voltar para pegar o dinheiro desse idiota de volta.
Dando um passo à frente, Yuri tocou com gentileza as mãos frias e trêmulas da atendente.
— Da próxima vez, eu provo esse tal de "cappuccino". Já pode ir preparando.
Sem esperar resposta, deu um aceno para Kaleb. Os dois caçadores viraram as costas e mergulharam na rua, abrindo caminho contra o mar de cidadãos apavorados que corriam em desespero buscando refúgio.
Vendo os dois jovens caçadores caminhando para sacrificar suas vidas lutando com Sepultados, Maria sussurrou para si mesma:
“Capuccino tem gosto de giz molhado…”
O pátio do Quartel-General fervilhava como um formigueiro prestes a ser pisoteado. Centenas de soldados da infantaria regular formavam fileiras rígidas, aguardando a próxima ordem.
Yuri e Kaleb assumiram seus postos à margem da tropa comum. Ao se aproximarem do ponto de encontro do esquadrão, avistaram Mayura, que parou de chutar pobres assim que viu seu líder. Ao lado dela, Ragnar e Tikis se apressaram para abotoar as fardas escuras de caçadores.
Após alguns instantes, todos os soldados se alinharam, voltando sua atenção para o alto do palanque, onde um homem de cabelos invisíveis os encarava em silêncio, apoiando o peso do corpo em uma pesada bengala.
— Uma horda marcha contra o nosso setor oeste. — O Comandante Tetsuya falou com calma, sua voz oscilante reverberando através dos alto-falantes da praça.
— Eles são muitos. São grandes. Estão duros e… — O calvo mordeu os beiços, então pigarreou, forçando a voz mais grossa que conseguiu fazer.
— Como eu ia dizendo, este é o trabalho de vocês. O dever pelo qual a Cidadela de Anhangá lhes concede o pão é garantir que nenhuma daquelas abominações dê um único passo além das nossas trincheiras.
Fazendo uma pausa calculada, deixou o peso do silêncio afundar, e então bradou com fúria militar:
— Formação de combate! Marchem!
Como um mar de formigas blindadas, a infantaria começou a marchar em uníssono para fora dos portões. Assim que o grupo de Yuri se preparava para se juntar à linha de frente, o som metálico e rítmico de uma bengala contra o asfalto chamou a atenção deles.
— Comandante. — Todos bateram continência em um gesto respeitoso.
— Tenho uma missão especial para vocês — declarou, segurando firmemente na bengala grossa.
— Nossa inteligência confirmou que os Sepultados estão sendo guiados por um Tirano de grau 5, talvez superior — explicou o careca. — Creio que sua equipe será mais do que suficiente para lidar com ele. Aceitam a missão?
O loiro permaneceu em silêncio por alguns instantes, calculando as chances reais de sucesso daquela missão. Ao seu lado, Kaleb pousou a mão com firmeza em seu ombro e lhe deu um aceno positivo e confiante com a cabeça.
— Claro. Onde essa criatura se esconde? — Sem dizer mais nada, o calvo transferiu um arquivo criptografado para o Dispositivo de Comunicação Comunista Extremamente Fodástico de Yuri, revelando as coordenadas exatas do Tirano que iriam caçar.
No setor oeste, a atmosfera era sufocante, banhada apenas pela iluminação anêmica do sol. Acima deles, uma tempestade de flechas cortava o céu, chovendo sobre um oceano de criaturas necróticas.
À primeira vista, a equipe do jovem prodígio parecia apenas mais um grupo de Caçadores, lutando com a infantaria comum. Mas o Comandante de longos cabelos translúcidos não os teria convocado para abater um Tirano de Grau 5 se não confiasse plenamente no potencial de cada um.
Yuri não carregava a alcunha de "Super Novato" à toa. Assim que a primeira onda de zumbis se aproximou, abriu parte de sua farda enegrecida, expondo seu ombro marcado por antigas runas.
Das cicatrizes rúnicas, um brilho dourado irrompeu. A energia incandescente fluiu e se materializou em suas mãos, solidificando-se no formato de uma espada reta e um escudo reluzente.
Em um único movimento fluido, desferiu um golpe limpo contra um morto-vivo de duas cabeças, partindo a aberração em duas partes.
Ele liderava a marcha, enquanto Mayura, Ragnar e Tikis protegiam os flancos. Na retaguarda, qualquer criatura que conseguisse passar pelos quatro Caçadores era facilmente silenciada por Kaleb.
De repente, um morto-vivo colossal, um cão de três metros de altura espumando sangue, avançou sorrateiramente por trás. Suas mandíbulas apodrecidas se escancararam, prestes a rasgar a garganta do moreno.
Sem sequer olhar para trás, dando um estalo com os dedos. Runas traçadas a sangue cintilaram em um tom esmeralda ao redor de seu pescoço. No mesmo instante, o estrondo de um escudo repelindo um ataque ecoou no ar.
Uma barreira sônica surgiu ao redor do Caçador. Os dentes do cão zumbi chocaram violentamente contra a barreira, e a reverberação do impacto entorpeceu a criatura na mesma hora.
Com uma frieza inabalável, o jovem formou uma arma com os dedos e mirou na cabeça da besta. Em seguida, reproduziu com perfeição o estrondo de um disparo de plasma. A frequência sônica rasgou o ar, estourando os miolos do cadáver em um jato escuro.
O time avançou, abrindo caminho através do mar de abominações. Deixando o caos da linha de frente para trás à medida que entravam nas ruas esburacadas da cidade antiga, guiados apenas pelas coordenadas que piscavam no DCCEF de Yuri.
Finalmente, pararam diante de seu destino: a ruína de um gigantesco complexo comercial, erguido muito antes do Cataclismo.
— É aqui — confirmou o loiro. O brilho de sua lâmina cortou as trevas, revelando a entrada do prédio abandonado.
Assim que entraram no complexo comercial, o grupo modificou a formação, adotando uma postura tática estritamente voltada para a exploração. O avanço agora dependia dos sentidos de Kaleb e Mayura.
Focando em seu Estigma, o moreno expandiu sua audição ao limite, tornando-se capaz de escutar o farfalhar de uma folha caindo a trinta metros de distância. A garota ao seu lado, também ativou seu estigma; as runas em seu rosto acenderam em um tom escarlate, aguçando sua visão para identificar qualquer ameaça oculta.
A atmosfera dentro do complexo comercial era sufocante, ainda mais densa do que nas trincheiras infestadas do setor oeste. Parecia haver uma força invisível esmagando os pulmões dos Caçadores.
Ao alcançarem o terceiro andar, a pressão tornou-se quase insuportável. A pobre fóbica apontou um dedo trêmulo para o véu de escuridão à frente do grupo.
— Ele está ali… mas não consigo enxergar…
Do breu emergiu um zumbi de silhueta humana, trajando a farda preta dos Caçadores. Com um movimento limpo, brandiu uma espada colossal, cuja lâmina atravessou o corpo de Mayura como se ela fosse feita de papel.
Os Caçadores abriram a boca, atônitos com a facilidade com que sua companheira virou estatística. Mas a abominação não parou em sua primeira vítima. Em uma fração de segundo, avançou para agarrar Ragnar.
Agindo por puro reflexo, Yuri saltou, interceptando o ataque com sua espada, salvando a vida de seu companheiro, que continuava paralisado pelo terror.
Naquele milissegundo de choque entre as lâminas, ele pôde analisar o algoz: a criatura ostentava um rosto perfeitamente humano, como se tivesse perecido há poucos dias, mas seus olhos eram abismos ocos, e a mão esquerda irradiava um poder necrótico.
Aquilo quebrava todas as regras. Um Sepultado precisaria incubar o vírus por pelo menos uma década para atingir a força de um Tirano, processo que destruiria qualquer vestígio de humanidade.
“O que está acontecendo?”, questionou-se em desespero, lutando para processar a poça de sangue que agora era Mayura.
O cavaleiro zumbi ergueu a gigantesca lâmina para um novo ataque. Dessa vez, ele estava pronto. Dissipando seu escudo, conjurou espadas duplas de luz.
Ele não era tão habilidoso usando duas espadas; por conta disso, rapidamente foi consumido pelos golpes da criatura. Mas Yuri se permitiu focar apenas no ataque, pois não estava lutando sozinho.
Com uma finta, a aberração finalmente daria um golpe fatal, cortando-o ao meio, mas, com um estalar dos dedos de Kaleb, um escudo sonoro surgiu, salvando a vida de seu amigo no último instante.
Tikis não perdeu tempo. Runas ensanguentadas em seus calcanhares começaram a brilhar iniciando um tornado de estocadas com sua adaga.
Apesar de sua velocidade ultrapassar dezenas de vezes a de um humano comum, a abominação era astuta. Antecipando a rota dela, o monstro girou a espada em um arco horizontal.
A lâmina arrancou pedaços do concreto das paredes, espalhando poeira e estilhaços pelo corredor. As vitrines restantes do andar explodiram ao redor do time com a força do impacto.
A milímetros de cortar a garota velocista ao meio, a barriga nada definida de Ragnar, mas dura como aço interceptou a lâmina. Aproveitando a brecha, o loiro desencadeou uma enxurrada de golpes com suas espadas.
A sincronia do esquadrão parecia imbatível. Sempre que a ofensiva vacilava, os escudos sônicos de Kaleb e a couraça maciça de companheiro estavam lá para cobrir a retaguarda.
Após mais uma intensa troca de golpes, o morto-vivo armou a mesma ofensiva de antes, antecipando a investida da caçadora. Como esperado, o rapaz de aço já estava posicionado para proteger a amiga. Mas, dessa vez, a criatura mudou suas ações.
O cavaleiro sombrio não desferiu o golpe. Em vez disso, saltou na direção do defensor. Antes do impacto, as trevas do ambiente o consumiram por completo. Ele o atravessou como uma sombra, materializando-se nas costas da formação. Com um único giro de sua espada longa, o corpo de Tikis foi partido em dois sem tempo de reação.
O caçador de ferro não teve tempo de se virar. O monstro atacou por trás, afundando a mão esquerda em seu… Buraco.
A névoa púrpura invadiu seu interior, liquefazendo seus órgãos em segundos. Engasgando com o próprio sangue, ele soltou uma última reclamação antes de ceder:
— Coisa horrenda! Aponta isso aí para outro lado, meu canal é tímido.
A garganta de Yuri se fechou. Em suas íris azuis, não restava nada além de choque e pânico.
O algoz, longe de estar saciado com o massacre, avançou contra o líder entorpecido. Contudo, milímetros antes que a lâmina colossal o partisse ao meio, uma densa barreira sonora irrompeu no ar, repelindo o ataque fatal.
— Você quer morrer?! — berrou Kaleb, enquanto descarregava rajadas de plasma sonoro contra a criatura.
A voz do amigo o arrancou do transe. Ele empunhou suas lâminas incandescentes e partiu para a ofensiva. Lado a lado, os dois lutaram por suas vidas.
Em poucos segundos, o Cavaleiro pareceu recuar diante da sincronia da dupla. No entanto, mesmo encurralada pela força combinada da dupla, a anomalia morta-viva ainda era esmagadoramente superior.
Rasgando a tempestade sônica, a aberração avançou na direção do moreno, erguendo a palma esquerda para obliterá-lo. Fechando as palpebras esverdeados, aceitando seu amargo fim, um pensamento melancólico cruzando sua mente: “Nunca mais conseguirei roubar os créditos desse idiota…”
Mas o impacto não veio. Ao abrir os olhos, não encontrou os dedos derretendo sua carne, mas sim a visão de seu melhor amigo sendo erguido no ar pela criatura.
"O quê...?"
O miasma púrpura começou a derreter sua face, mas ele se recusou a gritar. Em vez disso, canalizou toda sua vitalidade para seu Estigma. As antigas runas em seus ombros arderam intensamente; naquele instante de agonia, o garoto de iris azuis queimava como uma verdadeira supernova.
O fulgor sagrado convergiu para sua mão, materializando-se em uma única e densa Adaga. Então Yuri olhou para Kaleb e entregou-lhe um sorriso fraco:
— Esta é a minha última luz.
Com um giro final e desesperado, o jovem prodígio decepou a mão apodrecida do Cavaleiro. Um feito realizado instantes antes de seu corpo ser consumido pela podridão.