A sala de aula do setor primário era um ambiente acolhedor. As paredes exibiam um tom azul sereno, servindo de plano de fundo para as mesas circulares onde pequenos grupos de alunos se dividiam entre colorir seus cadernos e conversar entre si.
Kaleb, com seus grandes olhos esverdeados, se divertia ao lado de seu melhor amigo, Yuri, um menino de cabelos dourados. Juntos, os dois compartilhavam risadas, completamente concentrados na brincadeira.
O loiro estava debruçado sobre a mesa, tentando equilibrar seu estojo em uma pilha de cinco lápis de cor. O moreno sentado à sua frente, o observava com um sorriso travesso.
— Cinco? Impossível! — sussurrou o garoto de olhos verdes.
— Ah, é? — Yuri moveu a mão com precisão, e por um instante, o estojo flutuou na ponta da pirâmide colorida.
Kaleb aproveitou a distração do amigo para soprar de leve, desestabilizando a torre e derrubando todos os lápis.
— Trapaceiro! — exclamou o loiro, mostrando a língua. O menino apenas encolheu os ombros, pegando um lápis azul para construir sua própria torre.
O clima agradável logo foi substituído com o som de palmas da professora chamando a atenção dos alunos:
— Silêncio, crianças, silêncio. Vamos começar a aula — disse sorrindo. Murmúrios de insatisfação dos alunos pedindo por mais cinco minutinhos começaram a inundar a sala até a professora voltar a silenciá-los.
— Não, sem “mas”, pestinhas. A aula já começou.
Yuri ouvia fascinado a aula sobre o antigo mundo; com os olhos brilhando, cutucou o amigo e sussurrou, apontando para as páginas de seu livro.
— Olha só! Naquela época, as pessoas tinham gatos e cachorros como animais de estimação!
— Como assim? Os gatos não devoravam humanos, arrancando suas peles e usando-as para enganar outros humanos? — Kaleb franziu a testa, incrédulo.
— Sei lá, olha isso, eles também tinham femboys trancados em seus porões! — continuou o menino, empolgado com a descoberta.
— O que são femboys?
— Eu não sei, mas devem ser fofos…
Antes de terminar de falar, um som estridente de uma sirene tocou, capaz de ser ouvida por toda a Cidadela. Kaleb já estava acostumado com os alertas vermelhos. Quando soavam, o protocolo era simples — correr para dentro da escola, onde os professores garantiriam a segurança contra qualquer ataque.
Contudo, a sala de aula não foi iluminada por uma coloração vermelha. Mas desta vez a cor era preta. Ele nunca havia visto antes, mas sabia muito bem o significado — Sepultados de alto nível invadiram as muralhas da Cidadela.
Todas as crianças arregalaram os olhos. Em segundos, o silêncio atônito deu lugar a gritos desesperados. A professora tentava, em vão, restaurar a ordem, mas o pânico já havia engolido a todos.
O caos reinava de forma sufocante até que uma garotinha, trêmula, apontou para a janela e gaguejou:
— As m-m-muralhas!
As crianças correram até o vidro se deparando com o mais absoluto horror. Centenas de milhares de zumbis despencavam das defesas, formando uma montanha de corpos idênticos que esmagavam tudo em seu caminho.
Kaleb virou o rosto. Ao seu lado estava seu amigo de olhos azulados, espelhando a mesma expressão de horror.
Aquele foi o dia em que a Cidadela de Perun caiu; aquele foi o dia em que Bering, O Skinwalker, surgiu; aquela também foi a primeira vez que Kaleb e Yuri viram um Sepultado.
...
O estrondo do Cavaleiro tombando no chão, atordoado pela amputação de seu braço corrompido, arrancou Kaleb do transe. Contudo, seus olhos esverdeados continuavam vidrados, presos à imagem horripilante do rosto de Yuri, que derretia até o osso sob a acidez da poluição púrpura.
— Não… não… não… — Murmurava, a respiração entrecortada. Levando as mãos trêmulas ao rosto, e repetia sem parar — Não pode ser, não pode ser, não pode ser…
O monstro rapidamente se ergueu e, empunhando sua gigantesca espada, preparava-se para dar o golpe final no jovem moreno. Levantando a lâmina a desceu com toda a força em cima de sua presa.
Mesmo entorpecido pela dor, o instinto de sobrevivência do moreno gritou mais alto. Com um estalo de dedos, uma barreira sônica surgiu ao seu redor, o protegendo do impacto fatal. Girando para longe do morto-vivo, armou as mãos e iniciou uma barragem ensurdecedora de rajadas de plasma sônico.
— Desgraçado! — rosnou Kaleb com os dentes cerrados.
Os tiros sônicos rasgavam o ar, explodindo contra o peito do Cavaleiro Morto-Vivo. Pedaços de carne podre voavam pelo corredor, mas a monstruosidade não recuava.
Ele balançou a lâmina colossal num arco horizontal, forçando o caçador a conjurar outro escudo sonoro. O impacto estilhaçou a barreira instantaneamente arremessando o garoto contra a parede retirando todo o ar dos pulmões.
Sem lhe dar chance de respirar, o Cavaleiro desferiu um novo golpe. Por um fio, conseguiu esquivar-se, dando uma cambalhota para longe.
Ofegante, ele percebeu que havia pousado próximo aos restos mortais de seu amigo. Enquanto sua mente corria em busca de uma forma de aniquilar a aberração que havia assassinado Yuri, um brilho cálido chamou sua atenção no chão.
Era uma adaga, forjada em pura luz dourada. Encarando a lâmina incandescente, Kaleb sussurrou.
— Sua última luz…
Sem hesitar, empunhou a adaga, erguendo-a contra o cavaleiro.
“Só tenho uma chance…”, pensou. Puxando o ar frio para os pulmões.
Avançando contra a monstruosidade. Em resposta, o cavaleiro desferiu uma estocada brutal com sua lâmina. Dessa vez, o jovem caçador não tentou desviar. Pelo contrário, sentiu um alívio doentio por ser exatamente o golpe que queria.
O aço negro atravessou seu abdômen com facilidade. Engolindo o sangue em sua boca, Kaleb usou o corpo empalado para deslizar pela arma, forçando seu caminho até estar a centímetros do inimigo.
Cravando a adaga luminosa no peito do monstro, rezando para que aquele Sepultado possuísse apenas um único núcleo vital.
A carne morta da criatura começou a se desfazer, entrando em um rápido estado de decomposição. Mas antes de partir, o cavaleiro puxou sua espada de volta, arrancando a lâmina das entranhas do jovem de olhos esverdeados.
A abominação ainda ergueu a arma para um golpe final, mas a criatura apodrecida caiu, liquidificando-se em uma poça de carne e sangue.
Kaleb despencou no chão frio, sua visão escurecia a cada piscar de olhos. Mesmo assim, não ficou parado aguardando o gélido abraço da morte, forçando seus músculos dilacerados, arrastou-se pelo concreto com extrema dificuldade.
“Só mais um pouco…”, pensou, lutando para se manter consciente. Centímetro por centímetro, ele se aproximou dos restos mortais de seu amigo.
— Vou te encontrar do outro lado… — sussurrou, com a voz falha. E, enfim, a mente dele rendeu-se à ao abraço frio do Jardim das Sombras.
A consciência de Kaleb mergulhou em um oceano de escuridão eterna. Aos poucos, se tornava cada vez mais vazio; cada memória, emoção ou pensamento desaparecia naquele mar de trevas. Tudo se desfazia, e o que restava não era nada além de um profundo conforto.
O silêncio que acompanhava o desaparecimento do seu ‘Eu’ não era algo desesperador ou assustador, mas trazia consigo um raro sentimento de alívio.
Parecia que tudo o que viveu até aquele momento tinha um propósito específico a ser cumprido, e mesmo tendo morrido tão cedo e de forma tão brutal, ainda parecia ter encontrado o seu próprio descanso.
Seu espírito finalmente se desprendeu de seu corpo. Ela estava sendo levada para um novo lugar, já sentia o silêncio absoluto dominando o seu ser, enquanto uma sonolência profunda se aproximava de seu espírito cansado.
Mas algo começou a puxar sua alma de volta.
Naquele instante, ele vivenciou o momento mais doloroso de toda a sua existência. Outrora, ter a própria mente desaparecendo foi um sentimento tranquilo e caloroso, mas ter sua alma e espírito sendo forçadamente costurados de volta, parecia ser o castigo mais brutal possível.
Suas lembranças, sentimentos e reflexões foram rejuntados em um único ‘Eu’ novamente. Um ‘Eu’ que sempre se escondeu em meio a piadas sarcásticas para tentar pertencer a um grupo, mas cujos traumas enraizados o impediam de se conectar verdadeiramente com outras pessoas.
Esse ‘Eu’ agora era Kaleb. Um jovem caçador, morador da cidadela de Anhangá. Um garoto que se escondia atrás das conquistas de seu precioso amigo, um garoto que ainda não havia aceitado que poderia ser mais do que apenas a sombra de um prodígio.
Mas o destino não poderia esperar mais, finalmente havia renascido. Sua mente foi completamente restaurada, mesmo que com profundas cicatrizes. O rapaz ainda era ele mesmo.
"Eu to vivo?", se perguntava.
Olhando para o próprio corpo, agora totalmente reformado. A ferida letal em sua barriga estava perfeitamente curada. Embora suas vestes estivessem destruídas, não havia um único arranhão em sua pele.
Mas algo estava diferente. Tocou o próprio, mas não notou nada de anormal. Puxou a calça para frente, olhou cuidadosamente e suspirou aliviado.
“Ainda está aí… eita porra, ta maior do que eu lembrava?!”
Foi então que viu seu braço esquerdo.
À primeira vista, o membro parecia inalterado, mas a sensação era bizarra. Ele não conseguia senti-lo de fato, era como se o braço não estivesse ali, como um membro fantasma.
Se tocasse no chão, não sentia a textura do concreto. Além disso, as proporções estavam erradas, os dedos e o antebraço eram alguns centímetros mais longos do que os do lado direito.
Parecia ser o braço de outra pessoa.
Foi então que uma onda gélida o atingiu. Kaleb percebeu a aura sutil que emanava da pele, aquele sentimento de putrefação ele já havia sentido antes. Sua visão escureceu enquanto um nó se formava em sua garganta.
“O braço do cavaleiro zumbi!”
Aquele era o membro do monstro. O exato braço corrompido, que exalava o miasma púrpura. O membro do Sepultado que havia massacrado todo o seu esquadrão agora estava perfeitamente fundido ao seu corpo.
Sem hesitar, empunhou a adaga de luz moldada por Yuri e cravou-a no braço necrótico, na tentativa de arrancá-lo. Preferia viver sem um dos membros a carregar um possível epicentro de infecção do vírus sepulcral.
Contudo, em vez de ser decepado, o braço continuou no lugar. A adaga de luz sagrada havia perfurado a carne de Kaleb, mas nada aconteceu. Na verdade, o membro curou-se tão rápido que já estava regenerado antes mesmo que a lâmina fosse retirada.
Tentou amputar o braço várias vezes num frenesi desesperado, mas de nada adiantava. O parasita continuava no mesmo lugar.
Ele soltou a adaga de luz já exausto, finalmente desviou os olhos do seu braço e encarou a dura realidade à sua volta.
O terceiro andar do complexo comercial parecia um abatedouro. De um lado, via Mayura dividida ao meio; mais ao fundo, Sol jazia com as tripas espalhadas por todo o piso. Ragnar tinha um buraco grotesco atravessando seu canal.
Ao seu lado estava o cadáver decapitado de Yuri. A Supernova da cidadela de Anhangá.
Kaleb ajoelhou-se ao lado dele. Segurou uma das mãos frias do amigo e deu um suspiro pesado.
— Meu loirinho... — a voz falhou, uma expressão vazia se formando em seu rosto. — Que sua luz ilumine a escuridão…
O moreno sussurrou enquanto uma lágrima escorria por sua bochecha.
A gota d'água caiu na poça de sangue, produzindo uma vibração que ecoou por toda a superfície. Veias escuras começaram a surgir sob a pele do braço pútrido; o membro começou a vibrar sem que percebesse.
Enquanto lamentava, lágrimas caíam, e ruídos ínfimos surgiam. E quando isso acontecia, o braço escurecia cada vez mais.
Fios negros começaram a se manifestar a partir da vibração de cada lágrima. Eles se condensaram sobre o corpo de Yuri, fazendo os nervos vibrarem.
Foi então que Kaleb percebeu. O seu precioso amigo estava se mexendo de alguma forma.
"O Vírus Sepulcral..." Pensou, engolindo em seco, enquanto mirava os dedos para o cadáver do super novato, que se remexia cada vez mais.
Mas ele não conseguiu. Mal levantou a mão já a abaixando. Como poderia atirar no seu próprio amigo? Era exatamente isso que Yuri iria querer, o garoto temia mais do que tudo se tornar um Sepultado.
Mas… ele não conseguia fazer isso, pelo menos não nesse momento.
Enquanto tentava reunir coragem, o cadáver se levantou. A pele exposta estava totalmente pálida, com veias escuras saltando por todo o corpo. A visão do decapitado erguendo-se revirava seu estômago.
Yuri não avançou para cravar as unhas no peito de seu amigo de olhos verdes. Na verdade, o cadáver permaneceu estático, com a porra do pescoço inclinado na direção dele. Parecia estar apenas esperando algo.
Diferente de quando enfrentava qualquer outro Sepultado, sentia algo estranho vindo daquele santo sem-cabeça. Não apenas porque aquele era o seu amado amigo, mas por algo ainda mais profundo, ligado à sua própria alma. Parecia que a criatura morta-viva era uma parte dele, uma extensão do seu ser.
Então, um pensamento bizarro veio à sua mente.
— P-pegue os corpos. — Gaguejou
Mesmo sem ouvidos, Yuri pareceu escutar a ordem do moreno. O cadáver se aproximou dos restos dos companheiros. Segurando o corpo perfurado de Ragnar e, logo em seguida, fez o mesmo com as metades evisceradas de Tikis, esperando pelas próximas ordens.
Kaleb observou a situação com uma face inexpressiva. Ele se aproximou do amigo morto-vivo e pousou a mão sobre o peito dele.
— Eu realmente sou um babaca desprezível, Maria — murmurou, esboçando um sorriso leve. — Prefiro ter você assim do que vê-lo descansar no abraço da morte.
Ele reuniu as duas metades de Mayura e as enrolou na própria farda de Caçador dela, fazendo o mesmo com o que restava de Sol e Ragnar.
Kaleb e os mortos saíram do complexo comercial devastado, arrastando os restos do esquadrão, caminhando lentamente de volta em direção à Cidadela de Anhangá.
Kevin Cadeira da Silva esfregou as mãos, os olhos brilhando com pura ganância. O porão escuro fedia a mijo velho, mas para ele, o ar cheirava a créditos.
Sobre a mesa de madeira gasta, um amontoado de DCCEFs zumbia. Com um sorriso de canto, ele amarrou um fio em cada um deles, conectando-os num único dispositivo.
A máquina estalou. Uma pequena tela de vidro emitiu um brilho neon alaranjado, projetando a imagem pixelada de um pequeno tigre antropomórfico. O animal exibia um sorriso cativante, usava óculos escuros e segurava um punhado de moedas de ouro.
— Magnífico... — sussurrou Kevin, a acariciar a alavanca debaixo da máquina até a deixar rígida. — A arma de extração de renda definitiva.
Assim que puxou ela, a tela piscou freneticamente, emitindo uma musiquinha eletrônica e irritante. Imagens de cartas, frutas e saquinhos de dinheiro giraram em alta velocidade até pararem com um bipe estridente, revelando três ícones completamente diferentes.
O tigre na tela deu uma risadinha robótica e uma mensagem surgiu.
"QUASE LÁ! SOLTA A CARTINHA! O MULTIPLICADOR VAI ESTOURAR!"
Kevin deu uma gargalhada maligna. Era a perfeição. Não havia multiplicador nenhum. A máquina foi milimetricamente programada para engolir até o último crédito de idiotas desesperados que sonhavam mudar de vida.
O lendário "Fortune Tiger" havia renascido das cinzas, e o Sr. Cadeira seria o seu mais novo e rico profeta.
Do alto das imponentes muralhas da Cidadela, um vigia congelou ao avistar uma cena anormal.
Um Sepultado decapitado, que carregava dois cadáveres sobre os ombros, se aproximava. Ao seu lado, um rapaz de pele escura, vestindo uma farda de caçador rasgada e a arrastar um terceiro corpo.
As sirenes soaram novamente. Um esquadrão cercou a dupla. Com as armas apontadas.
Ao ver os canos dos fuzis voltados para si, Kaleb levantou os braços em rendição e disse sarcasticamente:
— Relaxem, o Sr. Sem-Cabeça é inofensivo. Ele só morde se eu mandar… nem dentes ele tem.