Kaleb batia as algemas na mesa de forma rítmica. Atrás dele, Yuri estava algemado com as amarras mais seguras que a Cidadela tinha em mãos; mas o santo sem-cabeça parecia não se importar com elas.
O rapaz cantarolava baixinho uma música que aprendeu com seu amigo.
— Meu pinto é uma alavanca, meu saco é uma marreta. Vou até o fim do mundo por causa de uma buceta. Meu pinto é uma alavanca, meu saco é uma marreta…
A porta se abriu com um baque. Entrando na sala, um velho de longos cabelos invisíveis apoiava-se em uma bengala dura e grossa. Tetsuya olhou para o cadáver musculoso do antigo super novato de Anhangá, mordendo os beiços.
— Quando eu era criança, meu avô cantava essa melodia para mim. — Sentou-se na frente do moreno, que o encarava com um desprezo contido. — É uma bela música.
— Diga-me tudo o que aconteceu — ordenou o comandante careca.
— Por quê? Você leu todo o relatório antes de vir aqui — desdenhou o caçador.
— Insisto que repita.
— Ao chegarmos ao local, fomos surpreendidos por um Sepultado muito mais poderoso do que prevíamos… — Com uma carranca, o caçador explicou todo o ocorrido.
Kaleb decidiu omitir o braço pútrido do relatório. Sabia que, se confessasse que o membro havia se fundido ao seu corpo, provavelmente seria executado ali mesmo. Tetsuya era um homem meticuloso e priorizava a segurança da Cidadela acima de qualquer coisa.
— Acredito que desbloqueei uma habilidade latente do meu Estigma. Foi com ela que revivi Yuri como um morto-vivo sob meu controle — finalizou o caçador.
Tetsuya ouviu a história sem dizer uma palavra. Ao final, o comandante desviou o olhar para o cadáver sem cabeça.
— Está completamente sob o seu comando? Tem certeza disso?
— Considerando que ele não está arrancando a sua espinha dorsal para brincar de pular corda… — Deu de ombros e acenou para o decapitado, que se sentou no chão duro.
— Respondendo à sua pergunta: sim, tenho certeza.
O moreno continuou com a carranca pesada. Tetsuya apenas o observou e perguntou.
— Quer me perguntar algo, Caçador Kaleb?
— Por que nos mandaram? — Rebateu.
Enquanto o garoto falava, o santo sem-cabeça ergueu-se, posicionando-se atrás do mestre e projetando uma sombra colossal sobre a mesa de aço.
— Por que mandaram um esquadrão de caçadores inexperientes para uma missão como essa? Você nos disse que era uma ameaça com a qual poderíamos lidar.
— Foi apenas um erro de cálculo — respondeu Tetsuya, acariciando a testa.
— Um erro de cálculo? — Sorriu levemente, tentando esconder a fúria que lhe rasgava a garganta. — Você não se importa nem um pouco com isso, não é?
A expressão do garoto escureceu, e um zumbido sônico começou a vibrar no ar ao seu redor.
— Você fica sentado atrás destas muralhas enquanto manda exércitos para fora delas. — O caçador levantou abruptamente, apontando o dedo a centímetros da testa do comandante.
— Você não sente vergonha?
Tetsuya não se moveu da cadeira. Apenas afastou o dedo do moreno para longe do próprio rosto com calma, respondendo com um peso inesperado na voz.
— Carlos Rafael, Beatriz, Isabela Gomes, João… — O comandante começou a recitar vários nomes. Alguns deles, Kaleb até mesmo conhecia; eram colegas da infantaria. — Marco, Lucas, Tiki Tiki Tikis, Ragnar Goat, Mayura e Yuri. Estes foram todos os meus soldados que morreram hoje.
— Tenho que carregar a morte de cada um, e de muitos antes. Tenho que explicar para as mães que as minhas ordens mataram os filhos delas. — O veterano levantou-se, apoiando o peso na bengala, e deu as costas para o recruta, caminhando em direção à saída.
— Peço perdão se a minha frieza lhe parece falta de compaixão ou indiferença. — Suspirou profundamente. — Se fosse possível, eu daria mil vezes para que cada um pudesse retornar... porem a minha vida é necessária demais para tal sacrifício.
A pesada porta de ferro bateu com um estrondo surdo, deixando-o sozinho com o peso de suas palavras e o odor de carne em decomposição.
“Então não éramos necessários?”, pensou Kaleb amargamente.
Dois guardas entraram na sala. Tiraram as algemas do rapaz. Assim que chegou a vez de Yuri, os homens recuaram, hesitando em soltar as amarras.
Apenas cederam após o jovem caçador afirmar que o monstro era inofensivo.
O interrogatório estava encerrado. finalmente poderia voltar para casa.
O caminho foi mais simples do que imaginava. Esperava encontrar conhecidos que o parasse para conversar, ou simplesmente cidadãos que se assustariam com um morto-vivo sem cabeça andando pela rua.
Contudo não havia ninguém. Ele sabia que a maioria estava com medo de sair, mesmo com o Governo avisando que já haviam lidado com os Sepultados.
Ainda assim, queria que alguém o parasse. Que algum morador visse seu amiguinho morto-vivo e começasse a gritar. Queria adiar ao máximo o retorno ao lar.
A casa onde todo o esquadrão vivia. Onde Ragnar dava ré no kibe, onde Tikis lutava brutalmente com seus amiguinhos imaginários, onde Mayura fazia cospobre de garotas mágicas com as pernas peludas para fora.
Onde Kaleb e Yuri se divertiam de montão.
O rapaz ficou parado na porta por vários minutos, tentando criar coragem para entrar. Então, lembrou-se de que precisava ir a outro lugar. Virou-se para o zumbi sem cabeça logo atrás de si.
— Você não fica pequeno, invisível ou algo do tipo? É complicado ficar te levando por todo lado — perguntou, soltando um suspiro cansado.
A carne apodrecida de seu amigo começou a rachar e brilhar num tom esverdeado. Em menos de três segundos, o cadáver desmoronou, transformando-se em cinzas.
Deu um passo para trás com os olhos arregalados. Olhando para a poeira que antes era seu melhor amigo.
— Bem... isso serve — resmungou.
Puxou um saquinho de pano simples do bolso. Ajoelhou-se no chão e começou a juntar as cinzas do zumbi para dentro da bolsinha. Assim que terminou, amarrou o saquinho com um cordão e o prendeu à cintura.
“É estranho pensar que você é só um punhado de cinzas agora.”
O caçador seguiu para o seu destino. Enquanto caminhava, as ruas voltaram a se encher com os gritos dos vendedores ambulantes, que retomavam os seus postos, forçando-o a desviar diversas vezes de abordagens insistentes.
Finalmente avistou a entrada da Casa do Caray. O lugar mantinha a velha bancada de madeira e as prateleiras cheias de garrafas. Atrás do balcão, a garota de cabelos cacheados enchia o copo de um cliente.
Assim que notou os olhos aflitos de Maria, o rapaz paralisou. Ele e Yuri viviam na Cidadela de Anhangá há mais de dez anos e, desde que conheceram a garota, o amigo nutria sentimentos profundos por ela.
No fundo, o moreno alimentava sonhos bobos de tirar os dois do anel inferior. Imaginava o casal vivendo em uma bela casa no segundo estado.
O casamento reuniria todo o esquadrão, e Kaleb estaria lá no altar, orgulhoso, como padrinho do melhor amigo.
Seria o tio divertido das crianças. Compraria os presentes mais caros nos aniversários e as ensinaria a roubar créditos direto da carteira do pai.
Agora nada daquilo poderia se realizar. Seu amigo não passava de um punhado de cinzas em um saco velho. O sonho de ser o tio favorito havia sido dilacerado por si mesmo.
Ele não conseguiu dar um único passo. Não sabia olhar nos olhos dela e dizer que Yuri havia sido morto por um Sepultado, e que não pode fazer nada para evitar. Até forçou o peso do corpo para a frente, contudo as pernas não obedeceram.
Em vez disso, virou as costas e foi embora. Para evitar a multidão e os olhares curiosos, decidiu cortar caminho por um beco escuro.
O caçador parou e encostou as costas em uma porta selada por velhas tábuas de madeira. O desespero pareceu consumi-lo de vez — Kaleb não sabia lidar com aquela situação. Em algum momento, teria que voltar para casa.
Lentamente, ergueu a mão, pressionando o dedo indicador contra a própria têmpora.
“Espero que eu não volte dessa vez…”, pensou. Fechando os olhos, um zumbido agudo começou a vibrar na ponta dos seus dedos.
Antes que pudesse atirar, uma luz azulada surgiu às suas costas. Uma mão o agarrou com força e o puxou para trás, atravessando a porta.
De um instante para o outro, o beco escuro sumiu, e ele foi arremessado no chão de uma sala fechada, iluminada apenas por uma fogueira. O moreno saiu do transe. Girando o corpo no chão, firmou os joelhos e ergueu os olhos.
À sua frente, havia duas figuras encapuzadas — um homem de rosto redondo usando uma grossa venda cobrindo os olhos — ao seu lado, uma garota de cabelos ruivos ofegava enquanto a fenda azulada se desfazia.
Assim que o portal se fechou por completo, a garota desabou de joelhos no chão de pedra. Vendo a brecha. Kaleb não hesitou em mirar na cabeça dela.
— Você tem trinta segundos para me dizer o que está acontecendo, ou a sua amiguinha vai perder a cabeça — ameaçou, enquanto o ar distorcia ao redor de sua mão.
Ele começou a contar. — Trinta... vinte e nove... vinte e oito... dez... nove...
A garota arregalou os olhos, indignada com o absurdo da situação.
— Seu merda, tu não sabe contar?!
O rapaz parou por uma fração de segundo.
— Três... dois... um.
Bang!