Bang!
O disparo sônico zumbiu a milímetros da bochecha da garota ruiva, estilhaçando a parede de pedra logo atrás dela. Uma fina linha de sangue brotou em seu rosto, empalidecendo sua face.
Kaleb ofegava. A exaustão acumulada daquele dia infernal cobrava seu preço, mas ele não recuou um milímetro sequer, mantendo o dedo indicador cravado na direção da testa da jovem.
— Na próxima, eu não vou errar.
O homem com a venda no rosto suspirou e ergueu os braços em rendição.
— Tá bom, tá bom. Olha, não queremos confusão. Só precisamos do seu braço.
— Você já tem dois. Por que diabos quer o meu?
A ruiva, ainda caída no chão de pedra, ajeitou-se de joelhos e ergueu as mãos, espelhando a postura do parceiro.
— Achei ele bonito — respondeu ela, com um sorriso insolente.
— E eu achei a sua perna bonita. Quer trocar? — Devolveu.
Desde que havia rolado pelo portal, Kaleb notara a distorção da postura dela. A perna direita da ruiva era ligeiramente mais longa que a esquerda. Pior do que isso: o membro emanava uma densa aura roxa.
Um calafrio surgiu em sua espinha. A sensação de morte e corrupção que irradiava daquela perna era idêntica à que ele sentia pulsando em seu próprio braço esquerdo.
“Meu braço e a perna dela têm a mesma origem? O que são essas coisas?” A mente do moreno disparou.
Até aquele momento, acreditava que o braço pútrido era apenas uma anomalia herdada do Cavaleiro Zumbi. Mas a realidade parecia ser diferente do que ele havia imaginado.
“Se existe um braço esquerdo e uma perna direita... existem as outras partes. Tronco, olhos, cabeça?”
O crepitar da fogueira era o único som na sala, enquanto o moreno tentava calcular uma rota de fuga.
Até que o homem vendado quebrou o silêncio com um longo suspiro.
— Desculpa.
O jovem franziu o cenho, tensionando o dedo. Contudo, em um movimento imperceptível, o homem estalou os dedos.
Sem emitir um único ruído, uma pequena carta desprendeu-se do teto, flutuando lentamente até pairar bem diante dos olhos verdes de Kaleb.
Ele não teve tempo de entender o que um pedaço de papel fazia ali. De repente, ele começou a brilhar intensamente. Uma luz branca ofuscante queimava as retinas do jovem, entorpecendo seus sentidos.
Cego e em pânico, ele disparou. O som cortou o ar, alguns escombros caíram à sua frente.
Passos se aproximavam dele com uma velocidade imensa, tão rápida que poderia se comparar com a de Tikis.
Quando piscou, tentando desesperadamente limpar as manchas de luz da visão, já era tarde demais.
A silhueta do homem vendado materializou-se a centímetros de seu corpo. Prestes a atordoá-lo, inclinou a cabeça e sussurrou educadamente:
— Me desculpe por isso.
O golpe atingiu a têmpora do moreno. Ele caiu com força no chão, com alguns dentes voando.
Enquanto o mundo ao seu redor escurecia, ele viu seu agressor abrindo um sorriso largo enquanto abaixava as calças.
Kaleb abriu os olhos devagar. O maxilar latejava. Ele tentou se debater, mas logo percebeu que seus braços e pernas estavam amarrados.
À sua frente, a garota ruiva e seu parceiro relaxavam ao redor da fogueira, assando o que parecia ser um braço de zumbi.
Agora, sem capuzes escuros que os ocultavam, ele pôde analisá-los melhor. O homem vestia um terno listrado escuro. A ruiva, exibia um sorriso leve, vestindo uma calça marrom e uma camisa azulada.
— Finalmente acordou — O homem vendado mordia os beiços, mas ele não olhava para o prisioneiro; na verdade, ele ainda olhava para a fogueira.
Assim que notou o despertar do garoto, a ruiva ergueu-se, caminhou graciosamente até ele e agachou-se à sua frente.
— Creio que esquecemos de nos apresentar. — Ela levou a mão ao peito, em um gesto polido. — Eu me chamo Izma Mock, e este é Oliver Holdem.
“Ela é uma Mock?”, pensou Kaleb, intrigado.
A família Mock era lendária. Ficaram conhecidos como a primeira linhagem de navegadores pós-cataclismo, um dos poucos loucos que ousaram ganhar a vida desbravando o mar, mesmo com todos os horrores que infestavam as águas.
“Por que uma nobre estaria sequestrando alguém como eu?”
Com delicadeza, ela arrancou a fita da boca do garoto e perguntou:
— Qual é o seu nome?
— Kaleb.
— Poderia, por gentileza, não tentar fugir? Creio que possamos explicar tudo o que está acontecendo — garantiu a garota, começando a soltar os nós das cordas que o prendiam.
— E como diabos eu conseguiria fugir? — retrucou, antes de fixar os olhos em Oliver. — Não tenho a menor chance contra um Caçador Veterano.
Ele havia deduzido que o parceiro da garota era um veterano, alguém que está no terceiro estágio do sangue antigo, enquanto ele havia acabado de chegar no grau dois.
A diferença de força entre os níveis era descomunal, se com apenas um simples soco este veterano havia o atordoado. Não teria como ele ter chance em uma luta real.
— Não estamos aqui para te machucar. Nós só precisamos do seu braço. — A garota garantiu.
Kaleb baixou os olhos para o próprio braço esquerdo, onde a carne necrótica do Cavaleiro Zumbi havia se fundido. Em seguida, encarou a perna anômala da ruiva.
— O que eles são? — perguntou.
A ruiva retornou ao seu lugar, sentando-se à margem da fogueira. o moreno, por sua vez, colocou-se de pé. Não baixou a guarda por um segundo sequer, acompanhando cada movimento da dupla.
— Creio que a pergunta certa seja de quem é esse braço e perna — corrigiu Izma. Após uma pausa, ela prosseguiu — Há mais de dois mil anos, um verdadeiro santo caminhou por esta terra, espalhando suas bênçãos por onde quer que passasse.
— Quando ele morreu, seu cadáver tornou-se um receptáculo sagrado. A lenda diz que aquele que o possuir será capaz de invocar milagres, assim como o próprio santo fazia.
— Vocês estão me dizendo que este braço e perna pertencem ao corpo de um santo morto há dois milênios? — Kaleb perguntou perplexo.
— Exatamente — confirmou o veterano.
“Prefiro acreditar no Tetsuya cabeludo…”, o moreno pensou, dando um sorriso de canto.
— Então vocês acreditam mesmo que essa carcaça pode realizar milagres? — questionou. — Como podem ter tanta certeza?
A ruiva olhou para ele, pensativa. Sua expressão escureceu, parecia ter se lembrado de uma memória amarga.
— Eu já presenciei isso uma vez — disse ela, com os olhos fixos na própria perna corrompida. — Mesmo fracionado, o corpo ainda é capaz de conceder um milagre genuíno.
— E qual seria? — o moreno arqueou uma sobrancelha.
— Voltar dos mortos. Com apenas uma parte daquele cadáver isso já é perfeitamente possível. — ela apontou para si e para Kaleb e continuou — Caso alguém com qualquer parte do cadáver morra, voltaremos à vida.
Se aquilo fosse mesmo verdade, ele finalmente compreendia como havia sobrevivido após ser perfurado pela espada colossal do Cavaleiro Zumbi. No entanto, a constatação trouxe à tona um mistério ainda mais sombrio.
“O que realmente aconteceu com Yuri?”
— Se vocês querem tanto este braço, devem estar dispostos a pagar um preço alto por ele, certo? — Sem ver uma rota de fuga viável, o garoto decidiu apelar para a técnica "amaldiçoada" que havia aprendido com o Sr. Cadeirante: negociar.
Oliver virou o rosto na direção do jovem caçador.
— Nós podemos simplesmente te matar e arrancar o braço.
— Vocês não vão me matar — rebateu Kaleb. — Se quisessem, a minha cabeça já estaria assando nessa fogueira.
— Quanto quer pelo braço? Podemos arcar com qualquer preço. — Assim que Izma disse "qualquer preço", seu parceiro olhou para ela com uma expressão estranha.
“O absoluto Senhor Cadeira da Silva disse que precisaria de pelo menos um milhão de créditos para financiar a terceira fase da ‘Missão de Restauração de Madagascar’... mas acho que tenho que separar alguma gorjeta para os pobres, mesmo não sendo tão importante assim”, pensou Kaleb, calculando mentalmente o seu lucro.
— Um milhão e duzentos mil créditos.
— Como é que é?! — O veterano abriu a boca, profundamente indignado.
— Ele disse "um milhão duzentos e cinquenta mil créditos" — a ruiva esclareceu o valor.
— Isso aí. Um milhão e trezentos mil créditos — emendou Kaleb, ajustando o próprio.
— Você realmente não sabe contar... — Izma suspirou com genuíno pesar. — Meu primeiro lance é um milhão e quinhentos mil créditos.
— O QUÊ?! — Oliver praticamente despencou no chão.
— Dois milhões? Eu fecho! — Kaleb já erguia a mão para selar o acordo.
— C-calma aí, vamos negociar! — tentou intervir o vendado.
— Dez milhões? Fechado. — A ruiva não hesitou em agarrar e apertar a mão do moreno com firmeza.
“Um braço do Cadáver do Santo por uma pechincha dessas? Ele realmente não sabe matemática”, refletiu Izma, sorrindo vitoriosa.
“Acho que saí perdendo nessa negociação”, pensou Kaleb, de repente aflito.
Ajeitando a postura após o colapso nervoso, Oliver suspirou completamente derrotado.
— Eu não ando com todo esse dinheiro no bolso. A fortuna está guardada lá na minha terra natal.
— E onde fica isso? — Kaleb arqueou a sobrancelha, desconfiado.
— Em canaã na terra prometida.