O cheiro de poeira milenar e sangue podre não sai da roupa fácil. Disseram que a cripta estava vazia. Mentiram.
Atravessei três câmaras pra chegar até aqui — estátuas sem rosto, ossos presos à parede por raízes pretas, e guardiões que deviam estar mortos há séculos e ainda sabiam lutar.
Um deles quase abriu meu peito. Mas eu não vim por eles.
No centro do santuário, sob uma abóbada rachada, há um altar de pedra negra. Sobre ele, uma manopla de aço escuro, partida no pulso, ainda soltando faíscas azuis de Raken — a energia espiritual que só um Moraken aprende a canalizar. Presa a ela por uma corrente enferrujada, está isto.
Um diário. Couro grosso, marcado por três riscos fundos — como garras.
Eu sei de quem era essa manopla. Entre os Morakens, ainda dizem esse nome como quem reza. Theron. O Único Que Voltou do Vórtice.
E, pelo jeito, o único que terminou esquecido numa cripta sem nome.
Peguei o que vim buscar. Agora preciso sair antes que os donos desta casa acordem.
Minha biblioteca fica longe da academia o bastante pra ninguém fazer perguntas. Perto o suficiente pra eu ainda ouvir os sinos quando querem que todos acreditem que o mundo está seguro.
O diário está aberto diante de mim. A manopla, ao lado. Mesmo rachada, sinto a energia dela vibrar na madeira da mesa.
Entre os Morakens, Theron é quase um deus — o homem que desceu ao Vórtice sozinho e voltou andando. Nenhum humano fora da ordem ouviu essas palavras, e é bom que continue assim.
Mas nenhuma lenda me disse como ele foi parar numa cripta esquecida, sem nome sobre a pedra.
A primeira página do diário não tem glória nenhuma. Uma lista de mantimentos, um desenho malfeito de uma flor, um nome riscado tantas vezes que o papel quase rasgou. A letra é firme no começo. No fim da página, aperta e afunda no couro — mão cansada, mão com medo.
A partir daqui, não sou eu quem fala.
Dia 1 da travessia norte. Escrevo antes de dormir porque Mara diz que esqueço os dias quando estou longe. Ela acha que esquecer é abandonar. Não é. Às vezes é só o jeito que um homem encontra pra continuar andando.
Saí de Solarion antes da primeira luz. O padeiro da rua baixa já estava acordado, me vendeu pão duro e fingiu não ver a marca dos Luminares no meu casaco. Muita gente faz isso. Vê, entende, decide não perguntar.
Mara estava na janela quando parti. Não me abraçou — nunca faz isso quando sabe que posso não voltar. Só disse que eu prometi levar flores pro túmulo da mãe dela quando a primavera chegasse.
Eu prometi.
Carrego três coisas que não estão na lista da missão: o lenço azul dela, uma pedra lisa que meu irmão usava pra afiar facas, este diário. Coisas que me lembram que eu existia antes de vestir uma manopla e receber ordens.
A ordem veio do Círculo. Um posto avançado ao norte parou de responder há nove dias. Batedores viram luzes na floresta. Depois viram corpos. Depois não viram mais nada.
Disseram que eu encontraria uma criatura isolada. Contenção, não guerra.
Não acredito em missão fácil quando o Círculo manda um homem sozinho.
Há outra coisa na mochila: um estojo de ferro lacrado. Sem nome, sem selo, sem explicação. Instruções pra levá-lo até o posto e não abrir sob nenhuma circunstância.
Isso sempre significa que alguém já abriu antes.
Dia 2. Escrevo dentro do posto avançado de Varin. Ou do que restou dele.
Cheguei pouco antes do anoitecer. A porta principal estava aberta, sem sinal de arrombamento. Nenhuma arma no chão, nenhum corpo no pátio. Lugares atacados deixam sinais de luta. Este estava arrumado demais.
Encontrei o primeiro homem no depósito de grãos, sentado contra a parede, mãos nos joelhos, como se descansasse. Sem ferimentos visíveis. Só vazio — pele afundada, lábios azuis, olhos sem foco.
O sangue de um BloodMaren cheira a ozônio queimado. Senti o cheiro antes de ver a mancha no teto.
Achei que era o único caçador daquela noite. Estava errado, e demorei a perceber o tamanho do erro.
O primeiro caiu de cima — pequeno, rápido, do tamanho de um lobo. Acertei a mandíbula dele com a lâmina antes que fechasse os dentes no meu pescoço. O segundo veio pelo corredor. O terceiro atravessou uma janela que eu tinha acabado de olhar.
Usei Raken pra empurrar o segundo contra a parede; a parede quebrou antes dele. O terceiro abriu minha perna — fundo o suficiente pra encharcar a bota.
Matei os três, mas demorei mais do que devia. Quando terminei, ouvi outros dois do lado de fora.
Não entrei em pânico — pânico é desperdício de ar. Fechei as portas, movi os corpos pra longe das janelas, acendi fogo nas duas alas do posto. Não pra queimá-los. Pra ver as sombras se mexendo lá fora.
Foi então que percebi: os dois restantes não olhavam pra mim.
Olhavam pro estojo de ferro.
Dia 3. Se a data estiver errada, não importa — perdi a noite e parte da manhã tentando ficar vivo.
Os dois menores recuaram quando ouviram o vidro estalar entre as árvores. Não era vidro. Era o som que a coisa maior fazia ao se mover.
Eu a vi uma única vez, sob a luz do incêndio. Alta demais pra entrar pela porta. Magra demais pra ser viva. Pele cinza e rachada, olhos que não refletiam fogo nenhum.
O BloodMaren maior não olhou pra mim quando chegou. Olhou pra mochila.
E entendi: não era uma missão de contenção. Eu era a isca.
Peguei o estojo, saí pela janela dos fundos, corri pra mata antes que a porta principal cedesse. Não escrevo isso pra parecer corajoso — coragem não serve de nada quando algo que você não consegue matar está atrás de você.
Corri até o ar rasgar meus pulmões. As raízes agarravam minhas botas, minha perna ferida deixava sangue na neve, e eu ouvia a criatura deslizando atrás de mim — sem passos, sem respiração, sem pressa.
Tentei uma lâmina de Raken quando alcançou meu ombro. Entrou, mas não fundo — a carne dela era dura como pedra fria. Recuou um passo. Ganhei segundos.
Usei os segundos pra saltar um desfiladeiro baixo. Caí mal; minha costela esquerda não vai me deixar esquecer isso. A criatura não saltou — contornou o desfiladeiro. Foi o primeiro momento, desde que saí do posto, em que tive tempo pra pensar.
Abri o estojo.
Não vou desenhar o que havia dentro, nem escrever o nome. Meu irmão dizia que nomear algo é abrir uma porta por onde isso pode entrar. Talvez tivesse razão.
Posso dizer isto: cabia na palma da mão. Negro, liso, quente apesar do frio. Quando o toquei, a manopla respondeu como se lembrasse de algo enterrado dentro dela.
A criatura apareceu do outro lado do desfiladeiro.
Fiz a única coisa que um Luminar desesperado faz quando a ordem falha, o plano falha e ninguém vem ajudar. Quebrei a ordem. Canalizei Raken pela manopla e deixei a coisa tocar o objeto.
O som que ela fez não foi um grito. Foi o som de uma porta antiga sendo arrancada das dobradiças.
A floresta tremeu inteira. Os dois menores fugiram. O BloodMaren maior caiu de joelhos, as garras abrindo sulcos na pedra — e pela primeira vez vi medo nos olhos dele.
Não medo de mim. Medo do que eu carregava.
Não fiquei pra entender. Corri até encontrar esta cabana velha, perto do rio congelado. Há teto, porta, lenha seca o bastante pra durar até o amanhecer.
A criatura não me seguiu até aqui. Ainda.
Dia 4. Minha perna está infeccionando, a costela dói a cada respiração. O estojo continua fechado, mas sinto a coisa lá dentro como um segundo coração na mochila.
Mara riria de mim agora. Diria que sempre achei que podia carregar o peso do mundo numa mão e um segredo na outra.
Não fui ao norte pra matar BloodMarens. Fui pra devolver isto ao lugar de onde o Círculo o tirou. Mas alguém mudou as ordens antes que chegassem até mim. Queria que eu levasse o objeto ao posto. Queria que a criatura o encontrasse. Queria saber o que aconteceria quando os dois se tocassem.
Se eu sair daqui, não volto ao Círculo sem respostas.
Se eu não sair, e alguém encontrar este diário: procurem o que os Luminares registraram sobre aquela noite. Não os relatórios públicos. As páginas que foram arrancadas.
A próxima página está colada. Sangue seco. Ou algo pior.
Theron não roubou um artefato do Círculo. Foi mandado pra devolvê-lo. E alguém transformou a missão numa armadilha.
O que era aquela coisa pequena, negra e quente? Por que um BloodMaren teria medo dela?
Ele sobreviveu ao Vórtice. Sobreviveu a isso tudo. Então o que finalmente conseguiu matá-lo?
Amanhã, vou tentar soltar as páginas restantes. Se elas não se desfizerem antes.
Se você quer descobrir o que matou o homem que voltou do Vórtice, se inscreva. No Episódio 2, as páginas coladas começam a revelar a missão que os Luminares enterraram.