Água quente... vapor... e paciência.
Foi o que meu velho mestre me ensinou sobre restaurar velhos arquivos, antes de a academia me expulsar.
Não é apenas umidade. Theron derramou o próprio sangue aqui pra colar estas duas páginas. Não foi acidente por causa da perna ferida — ele esfregou a mão encharcada sobre o papel antes de fechá-lo. Queria selar as palavras. Fazer com que qualquer um que encontrasse o diário precisasse rasgá-lo pra ler.
Ele não queria que o Círculo soubesse o que fez depois daquela noite.
Consegui.
As letras estão borradas pelo sangue que secou há tanto tempo — mas a caligrafia ainda é dele.
Ele sobreviveu à noite na cabana. O BloodMaren maior fugiu daquele artefato. Mas a caligrafia dele nesta página... os traços da pena estão afundados no papel. Não é letra de quem encontrou segurança. É letra de um homem caçado.
Dia 5. O frio da manhã cortou a madeira podre do teto e me acordou antes do sol.
Rasguei o lenço azul de Mara e usei como torniquete acima do ferimento da perna. Ela ficaria furiosa se me visse rasgar a seda daquele jeito — era o único presente caro que eu já tinha conseguido comprar pra ela com o soldo da academia. Quando amarrei o tecido sobre o ferimento, sujo de neve e sangue escuro, o cheiro fraco de lavanda seca ainda estava ali.
Por um segundo, esqueci o gosto metálico na boca. Esqueci o frio. Esqueci a dor aguda da costela esquerda quebrada, que não me deixa respirar fundo.
Lembrei da nossa última noite em Solarion antes da missão. Sentados perto do fogo do nosso pequeno quarto, dividindo um chá ralo de erva-doce. Ela com a cabeça encostada no meu peito, os dedos dela desenhando círculos no tecido áspero do meu casaco, bem por cima da marca dos Luminares. Um mundo tão pequeno, tão seguro e silencioso. Nosso escudo invisível contra a guerra com o Vórtice.
Mas o som da floresta lá fora, quebrando sob o gelo, me puxou de volta pro inferno desta cabana perto do rio congelado.
Amarrei as botas. A perna latejou. Tive que continuar andando pro sul, pelos vales mais baixos — fora das estradas de pedra, fora das rotas de patrulha. A mochila nas minhas costas pesa não pelo tecido, mas porque o estojo de ferro negro guarda algo que parece estar acordado. Juro que posso sentir aquela coisa pulsando contra as minhas costas. Como um coração vivo que não bate no meu ritmo.
Alcancei a Estalagem da Rota Quebrada pouco antes da noite cair.
É um buraco escavado direto na rocha da montanha. O lugar onde contrabandistas, Luminares desertores e velhos informantes que falharam com o Círculo afogam o medo em álcool barato. Meu contato era Garrick — um velho batedor do norte que devia a própria vida à lâmina do meu irmão.
Quando sentei na mesa suja, nas sombras dos fundos, longe do fogo, Garrick veio limpar a madeira com um pano molhado. A caneca cheia quase caiu das mãos dele. Ele arregalou os olhos. Disse, com a voz tremendo, que eu devia ser um fantasma.
As corujas mensageiras do Círculo já tinham chegado à fronteira naquela manhã. O relatório oficial do Alto Comando sobre Varin já tinha se espalhado. A história que as autoridades contaram é que o posto foi atacado e dizimado por uma horda de Voraks famintos. Disseram que eu morri lá como mártir da academia — lutando sozinho até a morte pra que os colonos dos assentamentos do sul pudessem fugir a tempo.
Voraks.
Uma mentira perfeita e conveniente pro povo. Criaturas que atacam pelo frio e pela fome. O Círculo nunca admitiria em voz alta que um bando coordenado de BloodMarens organizou um massacre.
Quando contei a Garrick o que realmente destruiu Varin — quando contei como a armadilha funcionou, e mencionei o objeto quente dentro do estojo de ferro — o velho suou frio. Se levantou, foi até a porta pesada dos fundos e passou a tranca dupla.
Ele me contou os boatos que ouvia dos contrabandistas de rotas antigas. Disseram que o Alto Comando estava revirando tumbas há meses, nas regiões banidas. Em busca de algo relacionado aos Arcani.
Arcani. O nome soa estranho e, ao mesmo tempo, enraizado em algum lugar obscuro da nossa história. Ninguém sabe o que eles foram. Mas Garrick foi claro, batendo o dedo na mesa: se o que o estojo lacrado guarda pertence a eles, eu não posso voltar a Solarion vivo.
Ele me olhou nos olhos e disse que o Círculo queimaria a cidade inteira. Começariam matando Mara na minha frente, só pra ter aquilo de volta nas mãos deles.
Dia 6.
Saí da estalagem deixando metade do meu soldo por bandagens limpas, meia garrafa de uísque e o silêncio de Garrick. Ele não vai me trair. Mas os batedores de elite do Círculo vão acabar refazendo meus passos até encontrar o buraco na rocha. É questão de tempo.
Olhei pro pequeno objeto negro de novo quando o sol tentou nascer hoje. A manopla de aço vibra a cada passo que dou.
Mentiram sobre os BloodMarens. Mentiram sobre as ordens. Queriam que as criaturas do Vórtice levassem isso embora — só não entendo o motivo real.
Eu tinha jurado levar flores pro túmulo da mãe de Mara na primavera. Mas Garrick está certo. Sou um fantasma agora. Voltar pra Solarion é a sentença de morte dela. Então não vou voltar.
Vou em direção à fronteira mais profunda. Longe dos mapas da academia. E vou enterrar isso tão fundo que nem as patrulhas do Círculo, nem os BloodMarens do Vórtice consigam achar.
A história que os Luminares ensinam aos novatos diz que Voraks destruíram Varin por fome. Ensinam isso há décadas. Tudo pra esconder o que aquele estojo guardava.
Não foi erro de estratégia. Foi encoberto de propósito.
Entre os Morakens, só existe uma razão pra Theron ser lenda: ele desceu ao Vórtice sozinho, e voltou andando. É só isso que contam sobre ele. Nunca contaram sobre Varin. Nunca contaram sobre Mara. Nunca contaram sobre esse estojo.
O que restou daquele objeto dos Arcani? E o que aconteceu entre esta cabana, perto do rio congelado, e o dia em que ele voltou do Vórtice como lenda?
Ninguém... bate na minha porta no meio da noite...