Behemoth rugiu, e toda a caverna tremeu. Todos olharam com os olhos arregalados de espanto. Sienna voltou o olhar para Lyra, que entendeu exatamente o que ela queria.
Os olhos de Lyra se fixaram nos da fera. Sua ideia era colocá-la em uma ilusão, mas algo inesperado aconteceu: Lyra agora estava em um local totalmente escuro. Ela olhou em volta, sentindo-se completamente perdida, até que avistou dois olhos dourados. Naquele momento, ela entendeu: estava dentro da mente da fera milenar.
Sienna viu Lyra desabar no chão, inconsciente. Mas ela tinha outra coisa com que se preocupar: a fera avançou com tudo em direção a eles. Sienna pegou Lyra e se teleportou para um lugar próximo, mas seguro. Em seguida, voltou ao campo de batalha.
Ela olhou para Zephyr e Adrian, que corriam da fera. Com um rugido, espinhos de pedra surgiram do solo em direção aos dois. Adrian explicou o que estava acontecendo para Zephyr, que rapidamente começou a se mover em alta velocidade, usando a eletricidade. Já Adrian fez seu corpo ficar intangível.
Após isso, ele começou a correr em direção à fera gigantesca que estava à sua frente, segurando uma espada longa. Ao se aproximar o suficiente da criatura, ele pulou. Sienna apareceu e pegou sua mão. Os dois se olharam e acenaram um para o outro. Em seguida, Sienna e Adrian desapareceram e reapareceram em cima do Behemoth. Ambos caíram com as espadas direcionadas ao pescoço colossal da fera, mas, infelizmente, não causaram nenhum dano. As espadas dos dois assassinos apenas se quebraram.
Os dois caíram no chão. Sienna abriu um portal e pegou duas espadas, jogando uma para Adrian. Ele olhou para ela com uma expressão séria e solena. Sienna tirou mais uma espada e a jogou para Adrian, que, ao pegá-la, exibiu um sorriso selvagem e animado.
Ele começou a correr em direção à fera.
"Não me importa o que você seja uma fera milenar ou apenas um rato. Todos temos um ponto fraco, e você não é diferente", disse ele com um sorriso Escárnio. Seus olhos estavam fixos na criatura. Ele pulou e entrou dentro dela.
Um pouco distante do combate, Zephyr estava criando um arco com uma flecha de eletricidade. Ele concentrava ao máximo seu poder, enquanto também formava várias esferas de eletricidade ao seu redor. Com toda a sua energia, ele não estava preocupado em errar a criatura, pois sabia que seu alvo era enorme.
Então, seria muito difícil até para ele errar.
'Eu só tenho uma chance. Tem que dar certo', ele pensou. Foi quando sentiu seu corpo totalmente exausto. Naquele momento, Zephyr soube que era a hora de atacar.
Sua flecha e suas esferas de eletricidade foram lançadas contra o enorme corpo de Behemoth, que realmente sofreu um dano imenso, a ponto de não conseguir se mover direito. Ao mesmo tempo, ele sentia algo se mexendo dentro dele, era Adrian, que cortava os órgãos da fera.
À frente da fera, estava Sienna, que sorria. Ela abriu um portal embaixo de cada perna da fera, que não conseguia se mover, e, em seguida, fechou todos os portais, fazendo Behemoth cair enquanto gritava de dor.
A força da fera desaparecia lentamente. Sem conseguir se mover, seus olhos se fecharam. Logo depois, Adrian saiu de dentro da fera, exausto. "Os órgãos desta besta pareciam ser feitos de pedra", disse ele, ofegante, notando que tanto Sienna quanto Zephyr também estavam exaustos.
"A propósito, onde está Lyra?", ele perguntou, olhando em volta.
Lyra ainda estava dentro da mente de Behemoth. Seus olhos mostravam uma calma diferente daquela que ela havia visto alguns minutos atrás. Seria essa a fera irracional que ela havia encontrado antes? Não, isso era impossível.
A fera se aproximou dela. Seus olhos se encontraram, e Lyra viu algo através dos olhos da criatura: era medo. Medo de tudo que poderia acontecer com o mundo. Medo do que poderia acontecer com ele mesmo.
'Mas por que uma fera milenar teria medo?', Lyra se perguntou. No início, ela não entendia, mas logo compreendeu: o medo era, e sempre foi, algo irracional, assim como a raiva. Esses sentimentos serviam como mecanismos de defesa.
Ela continuou a olhar para a fera, que via nos olhos de Lyra desgraça, arrependimento, frustração e ódio. Mas, acima de tudo, o que mais se via através dos olhos de Lyra era tristeza.
O peso de ter perdido tudo que amava por conta de erros do passado. A solidão que ela sentia não tinha fim. Seu peito doía com a angústia de estar viva. Mas havia algo mais no fundo dos olhos da garota, algo que Behemoth nunca tinha visto nem sentido antes.
Era esperança.
Era a esperança de que as coisas iriam melhorar e que momentos bons surgiriam. Ela acreditava que tudo o que havia sentido de desesperador serviria para torná-la mais forte no futuro, e não para quebrar seu espírito novamente.
Sua alma acreditava que, no futuro, se ela se esforçasse, conseguiria superar as adversidades do destino. Afinal, este era um mundo tão cruel, mas, ao mesmo tempo, tão belo.
Lyra lembrou-se das pessoas que estavam com ela naquele momento, apoiando-a. Ela olhou para Behemoth, que se impressionava ao observar a humana à sua frente.
Ela sorria.
Como uma criatura tão frágil podia sorrir diante dele? Isso o deixou profundamente intrigado.
Lyra estendeu a mão em direção à fera, tocando seu nariz. Nesse momento, ela se assustou: Behemoth tinha outro sentimento. Ele estava tomado por um ódio incontrolável e irracional. Lyra rapidamente se afastou da fera, que mudava sua aparência diante dela.
Agora com uma forma humanoide, sua cabeça tinha chifres, e espinhos saíam de quase todo o seu corpo. Seus olhos ainda eram dourados, e sua pele, cinza. Seu tamanho havia diminuído, e ele media apenas dois metros de altura. Ele encarava Lyra, que, por sua vez, também o encarava.
Sienna, ao ouvir a pergunta de Adrian, foi até onde Lyra estava, esperando que ela já estivesse acordada. No entanto, Lyra ainda dormia. Sienna, com os olhos arregalados, voltou para onde estavam Zephyr e Adrian, que continuavam sentados no mesmo lugar.
"Levantem-se! A criatura talvez ainda esteja viva!", disse Sienna. Assim que terminou de falar, Behemoth começou a se mover. Mais precisamente, algo dentro da fera estava se mexendo. Algo saiu do cadáver da fera: um ser totalmente diferente de antes. Agora com uma forma humanoide, sua cabeça tinha chifres, e espinhos saíam de quase todo o seu corpo.
Seus olhos agora eram vermelhos, e sua pele, cinza. Seu tamanho havia diminuído, e ele media apenas três metros de altura.
Seu olhar era intimidador.
Com os olhos vermelhos, sangue escorria de suas órbitas. Seu corpo se moveu tão rápido que assustou os três, que não sabiam o que fazer. Zephyr foi arremessado para longe com um chute, batendo contra as paredes da caverna e, em seguida, caindo no chão, vomitando sangue.
Adrian movia as duas espadas em direção ao pescoço de Behemoth. Para sua surpresa, as espadas se quebraram com o impacto. Seus olhos arregalados tremiam até que ele recebeu um soco no peito, que o arremessou para longe.
A fera se virou para Sienna, que deu dois passos para trás. Seus olhos estavam fixos na criatura à sua frente. Qualquer erro poderia levar à sua morte. Em um piscar de olhos, Behemoth apareceu na frente dela, com o punho indo em sua direção.
Mas, rapidamente, Sienna se defendeu usando sua espada. Mesmo assim, ela foi jogada um pouco para trás. A espada quase se quebrou com o impacto do soco da fera milenar, que a olhava intrigada. Seus olhos notavam algo.
Behemoth sentia uma nostalgia inexplicável, sem saber o motivo. Ele rapidamente avançou em direção a Sienna, que começou a se esquivar com muita dificuldade, lutando para manter o equilíbrio. Zephyr apareceu ao lado dela e a tirou do alcance da fera, deixando-a mais aliviada.
"E agora, o que devemos fazer?", perguntou Zephyr, tentando ao máximo se manter em pé. Sienna olhou ao redor, mas não conseguia pensar em uma resposta.
"Eu não sei", disse ela, com a voz carregada de frustração.
Lyra olhava para Behemoth, que se aproximava dela. Com as duas mãos, ele tocou o rosto de Lyra, que não desviava o olhar.
"Você não tem medo de mim?", perguntou a criatura, com uma voz carregada de peso. Fumaça saía de sua boca ao falar. Inicialmente, Lyra se assustou, mas logo se acalmou. Seus olhos continuavam focados um no outro.
"Eu não tenho motivo algum para estar com medo. Mas e você? Por que tem tanto medo? O que você teme?", perguntou Lyra, colocando a mão no rosto da fera. Parecia que ela ia chorar ou talvez gritar.
A tristeza se transformou em ódio, mas, no final, tudo era apenas tristeza.
"Eu tenho medo da ira dos deuses, medo de vocês, medo de mim mesmo. Eu vivo com medo. Não importa o que eu seja, nem quem me criou, eu sempre terei medo", disse ele, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
Lágrimas de frustração escorriam.
"E por que você está tão triste? Isso eu também não consigo entender. O que te entristece tanto, grande criatura milenar?", perguntou Lyra, que estava realmente muito curiosa com todos os sentimentos de Behemoth.
A complexidade da criatura era intrigante.
"O fato de eu ter sido criado apenas para morrer sozinho, sem nem mesmo poder sentir o amor do meu criador... Eu fui criado há muito tempo e, ainda assim, me lembro de como ele era. Mas nunca o verei novamente. Morrerei sozinho, sem ninguém ao meu lado para me dizer se tudo o que fiz estava certo", disse Behemoth, com os olhos lacrimejantes.
Lágrimas escorriam de seus olhos enquanto Lyra o abraçava com força.
Behemoth olhava para Sienna, que observava Adrian se aproximando da fera, cambaleando e quase caindo no chão. Seus olhos estavam fixos em um ponto no peito da criatura. Sienna apareceu ao lado de Adrian e o levou para trás da fera.
Adrian rapidamente colocou sua mão intangível dentro de Behemoth, pronto para arrancar seu coração. Mas ele não encontrou nada. A criatura se virou e atingiu o rosto de Adrian, que foi arremessado contra uma parede e caiu no chão, todo ensanguentado. Um dos espinhos de Behemoth havia atravessado seu ombro. Mesmo assim, ele tentou se levantar, mas logo caiu novamente.
Sienna começou a correr em direção à criatura, que agora estava evoluída. Sua espada foi direcionada ao pescoço da fera, mas ela apenas levantou o braço e quebrou a lâmina da espada de Sienna, que arregalou os olhos, assustada.
Behemoth se agachou e deu uma rasteira em Sienna, fazendo-a cair no chão. Antes que ela pudesse reagir, a fera acertou um soco em seu peito, arremessando-a para longe. Seu corpo bateu no chão, e ela sentiu vários de seus ossos se quebrando.
Sienna se levantava com muita dificuldade, lutando para se manter acordada. Sua visão estava embaçada, e ela via o sangue escorrer de sua testa e cair no chão. Cuspiu o sangue que estava em sua boca. Seu corpo já não tinha mais força para se mover direito. Agora, o que ela poderia fazer?.
Behemoth se virou para ela com um olhar feroz, mas, antes que pudesse fazer qualquer coisa, uma espada de eletricidade atingiu seu pescoço. A fera ficou impressionada com a velocidade de Zephyr.
'Acertei! Que bom, não sabia que daria certo', ele pensou, um pouco preocupado se seu plano funcionaria. A espada se transformou em eletricidade pura e penetrou no corpo da fera, que gritou de dor. Agora, seu corpo estava paralisado.
Lyra, que ainda estava na mente de Behemoth, o abraçava e olhava para ele com pena. A solidão da criatura era algo que ela entendia, pois também havia sentido isso. Mas, ao contrário da fera, ela tinha pessoas ao seu lado. Behemoth estava sozinho há muito tempo, preso em um lugar do qual não podia sair.
Lyra olhou nos olhos da criatura, encarando-a como um igual. Seus olhos dourados pareciam ouro, ou talvez algo ainda mais valioso. Mas aquele olhar sombrio não combinava com aqueles olhos tão belos.
Lyra sorriu para a criatura. Behemoth gostou daquele sorriso, mas não sabia o motivo.
"Não se preocupe, eu estou com você. Você não está mais sozinho. Eu estou com você, não precisa mais se preocupar com nada", disse Lyra, abraçando a fera com força. Um calor desconhecido percorreu o corpo de Behemoth.
Era algo que ele não conhecia: uma nova sensação, um carinho que lhe faltava. Uma memória passou por sua mente: um homem de cabelos pretos e olhos castanhos escuros o segurava. Essa pessoa era seu criador. Uma mulher de cabelos brancos e olhos verdes sorria para ele e o abraçava.
Essa mulher usava um bracelete, o mesmo que ele protegia. Sua atenção voltou-se para Lyra, que o abraçava. Os olhos da fera começaram a lacrimejar.
Lágrimas logo escorreram de seus olhos algo que nem ele sabia ser possível. Ele começou a chorar, um choro que parecia o de uma criança, e não o de uma fera.
Sienna olhava para Behemoth, que estava paralisado. Com muita dificuldade, ela levantou a mão, e o espaço ao redor da fera começou a se comprimir. Sienna levantou a outra mão em direção à fera, que se contorcia. Seu corpo estava sendo esmagado, e seus sentidos começavam a se apagar.
Sienna tentou ao máximo torcer o pescoço da fera, colocando toda a sua força. Sangue começou a escorrer de seus olhos, e ela sentia o gosto do sangue em sua boca. Zephyr criou outra espada de eletricidade e atacou a fera, acertando seu pescoço.
Lyra olhava para a fera, que não parava de chorar.
"Está tudo bem. Eu estou aqui com você, não precisa se preocupar", disse Lyra, continuando a sorrir enquanto ele chorava. Suas mãos se aproximaram do pescoço da fera e começaram a apertar. A fera não tentou lutar; ele já estava cansado de viver.
Ele olhava para Lyra, que chorava enquanto o enforcava. "Adeus, Behemoth". Essas foram as últimas palavras que a fera milenar ouviu.
Sienna estava quase conseguindo, até que Zephyr atingiu novamente a parte de trás do pescoço da fera, fazendo sua cabeça cair.
Após isso, Sienna e Zephyr caíram no chão, ofegantes. Seus corpos estavam doloridos.
"Sienna, você ainda está viva?", perguntou Zephyr com um sorriso sarcástico.
Sienna olhou para ele e respondeu: "Infelizmente, sim. Mas e você? Está vivo ou é só um fantasma do meu amante que veio me atormentar?". Ela terminou com um sorriso brincalhão.
"Acho que virei um fantasma e agora vou te atormentar até seus últimos dias", disse ele, ofegante. Seus olhos se encaravam.
"Nossa, que legal! Um fantasma de estimação. Sempre quis um", brincou Sienna, deitada no chão e olhando para cima.
"Nunca pensei que a minha morte te deixaria tão feliz. Que mulher traiçoeira", zombou Zephyr, com o corpo todo dolorido.
Lyra acordou com lágrimas escorrendo pelo rosto. Suas mãos tremiam, mas logo ela as fechou e limpou o rosto. Ela se levantou e começou a procurar os outros, encontrando-os rapidamente.
Sienna, que estava rindo junto com Zephyr, olhou para o lado e viu Lyra se aproximando com um sorriso forçado. As duas acenaram uma para a outra.
"Que bom que vocês conseguiram", disse uma voz desconhecida. Lyra se virou, assustada, enquanto Sienna e Zephyr tentavam se levantar. Um homem totalmente encapuzado segurava o bracelete em suas mãos, e um sorriso podia ser visto sob o capuz.
"Obrigado, vocês me ajudaram bastante", disse o homem, observando Lyra se aproximar rapidamente.
Ele se transformou em uma sombra e desapareceu sem deixar nenhum rastro. Lyra observou aquilo, e a única coisa que sentia era frustração e decepção. Mas ela tinha outra coisa com que se preocupar: o local onde estavam começava a colapsar.
A caverna estava desmoronando.
