Capítulo 5
O sol ainda estava subindo quando o chamado veio.
Um soldado Kurogane bateu na porta da pequena casa onde Ren, Daichi e Aoi estavam reunidos.
Não foi um toque educado.
Foram três batidas secas.
Autoritárias.
Ren abriu a porta.
Dois soldados estavam ali.
Armaduras negras completas. Nenhuma expressão.
— O General Raizen convoca vocês.
Não era pedido.
Era ordem.
Aoi cruzou os braços.
— Agora?
— Agora.
Daichi trocou um olhar rápido com Ren.
Os três já sabiam que algo estava errado na presença daquele exército.
Mas ainda não sabiam o quanto.
Diante de Raizen
O campo militar improvisado na praça estava mais organizado do que nos dias anteriores.
Mapas abertos sobre uma mesa de madeira. Marcadores vermelhos fincados em pontos específicos da ilha. Caixas de minério recém-extraído empilhadas ao fundo.
Raizen estava de pé, analisando um mapa.
Quando os três se aproximaram, ele não levantou o olhar imediatamente.
— A ilha possui formações geológicas incomuns ao norte — ele disse, como se estivesse continuando uma conversa já iniciada.
Um capitão ao lado dele apontou para uma região marcada.
— Desfiladeiro Kōrin.
Raizen finalmente ergueu os olhos.
Eles não eram agressivos.
Eram calculistas.
— Detectamos instabilidade espiritual naquela região.
Ren franziu o cenho.
— Instabilidade causada por vocês?
Silêncio.
Alguns soldados se moveram levemente.
Raizen não.
— Essa ilha guarda coisas antigas — ele respondeu. — Vocês cresceram aqui. Conhecem melhor os caminhos. Irão investigar.
Aoi deu um passo à frente.
— E se dissermos não?
O olhar de Raizen pousou nela.
Sem raiva.
Sem provocação.
Apenas peso.
— Então eu envio soldados.
A pausa foi curta.
— E soldados não têm o mesmo cuidado que vocês.
Aquilo era uma ameaça velada.
Mas também era lógica fria.
Daichi falou, pela primeira vez:
— O que exatamente estamos procurando?
Raizen tocou um dos marcadores vermelhos.
— Fonte de energia. Origem. Estrutura.
Ele se aproximou um pouco.
— E tragam qualquer artefato que encontrarem.
Ren não gostou disso.
Mas assentiu.
Porque naquele momento, recusar significaria colocar a vila inteira em risco.
A Saída
Os três atravessaram a vila sob olhares silenciosos.
Moradores observavam pelas frestas das portas.
Alguns soldados Kurogane já ocupavam pontos estratégicos próximos aos armazéns.
Aoi percebeu.
— Eles aumentaram o contingente.
Daichi respondeu baixo:
— Estão espalhados demais pra ser só “uso temporário”.
Ren não disse nada.
Mas estava sentindo algo estranho.
Como se a ilha estivesse… inquieta.
Quando passaram pela capela, Kanzaki estava sentado na escadaria.
Aoi parou por um segundo.
O pai apenas assentiu levemente.
Não era despedida dramática.
Era confiança silenciosa.
E talvez preocupação escondida.
Caminho ao Norte
O som da vila ficou para trás.
Substituído pelo farfalhar das árvores e pelo eco distante do mar batendo nas falésias.
O clima estava estranho.
Não natural.
Daichi percebeu primeiro.
— Vocês sentem isso?
Ren fechou os olhos.
Sim.
Uma vibração leve no chão.
Intermitente.
Aoi tocou o tronco de uma árvore.
A energia espiritual ali estava mais fraca do que o normal.
— Eles estão drenando a ilha — ela murmurou.
Continuaram andando.
Sem saber que, naquele exato momento, o estopim estava sendo aceso atrás deles.
Enquanto Isso — Na Vila
A praça estava mais cheia do que o comum.
Não de moradores.
De soldados.
Carroças carregadas de madeira da floresta sagrada. Barricas de óleo. Caixas de artefatos espirituais.
O Padre caminhou até o centro da praça.
As vestes brancas balançavam levemente com o vento.
Kanzaki estava um passo atrás.
Observando.
O capitão Kurogane responsável pela ocupação estava dando ordens.
— Levem tudo para o depósito central. Não deixem nada para trás.
Um sacerdote tentou intervir.
Foi empurrado ao chão.
O Padre falou:
— Capitão.
A palavra ecoou.
O capitão virou lentamente.
— Sim?
— O acordo não incluía extração irrestrita de recursos.
— Estamos dentro da margem estratégica.
— Não estão.
Silêncio.
Alguns soldados começaram a se posicionar ao redor.
— Vocês estão removendo madeira da floresta sagrada — continuou o Padre. — Estão recolhendo artefatos da Igreja. Estão escavando o subsolo.
O capitão deu um passo à frente.
— A ilha pertence ao Estado maior.
— A ilha pertence à fé e ao povo que a guarda.
O clima mudou.
Um soldado agarrou um caixote sagrado.
Outro sacerdote tentou impedir.
Foi jogado contra a parede.
Kanzaki se moveu um centímetro.
Só isso.
Mas o ar ao redor dele ficou mais pesado.
O Padre respirou fundo.
Última tentativa.
— Reduzam imediatamente as operações. Definam prazo de retirada.
O capitão riu.
Baixo.
— Retirada?
Ele levantou a mão.
E dois soldados avançaram para afastar o Padre à força.
Um deles ergueu a espada.
Não para matar.
Mas para impor submissão.
A lâmina começou a descer.
E nesse exato momento —
O ar mudou.
A espada parou no meio do caminho.
Não por bloqueio metálico.
Mas porque Kanzaki estava ali.
Entre o golpe e o Padre.
Ele segurava a lâmina com a mão nua.
A energia azul-escura envolvia sua palma como névoa comprimida.
Os olhos dele estavam diferentes agora.
Mais profundos.
Mais frios.
Ele falou apenas uma frase:
— Eu avisei.
E o metal da espada começou a rachar entre os dedos dele.
O primeiro estalo ecoou pela praça.
E a guerra deixou de ser possibilidade.
Agora era inevitável.
E os três protagonistas?
Ainda estão longe.
Ainda não sabem.
Mas já começaram a sentir.