Capítulo 9
Poeira Antiga
A vila ainda carregava as cicatrizes do confronto.
Rachaduras na praça. Madeira trocada. Silêncio mais pesado entre os moradores.
O exército Kurogane havia recuado temporariamente para os limites externos da ilha após o embate entre Raizen e Kanzaki.
Mas ninguém era ingênuo.
Eles ainda estavam ali.
E a tensão não havia diminuído.
—
O Silêncio de Daichi
Desde o retorno do desfiladeiro, Daichi estava diferente.
Não mais calado por exaustão.
Mas por processamento.
Ele não falava sobre Eryndor. Não falava sobre o Reino de Aetheryon. Não falava sobre “Primeira Era”.
Mas aquelas palavras estavam rodando na cabeça dele.
Primeira Era.
Ruptura.
Cicatrizes.
E “a Igreja protege o que pode controlar”.
Ele sabia que Aoi havia sentido o peso daquela frase também.
Mas ela não comentou.
Ren estava inquieto. Impulsivo como sempre. Mas com dúvida nos olhos.
Daichi, diferente deles dois, não era movido por impulso.
Era movido por lógica.
E lógica exige dados.
Então ele começou a procurar.
—
A Biblioteca Interna da Igreja
A capela da vila possuía um pequeno arquivo interno.
Não era a grande biblioteca central da Igreja no continente.
Mas guardava cópias de textos antigos, registros históricos e compilações doutrinárias.
Kanzaki autorizou o acesso sem hesitar.
— Está buscando algo específico? — ele perguntou.
Daichi respondeu com naturalidade:
— Quero entender melhor os Ancestrais.
Kanzaki observou por um segundo a mais do que o normal.
Mas assentiu.
— Tome cuidado com interpretações isoladas.
Daichi inclinou a cabeça.
— Sempre tomo.
—
Primeiros Textos
Os registros oficiais eram claros.
Narrativa linear.
Os Ancestrais eram entidades caóticas que surgiram na Primeira Era. A Igreja foi fundada para selá-los. O Pacto Espiritual concedeu à Igreja autoridade divina para proteger o mundo. O Império Kurogane surgiu depois, como braço secular de estabilidade.
Tudo organizado. Limpo demais.
Daichi percebeu a primeira inconsistência no terceiro dia.
Datas.
As datas não batiam.
O Pacto Espiritual, segundo um registro antigo, ocorreu antes da fundação formal da Igreja como instituição.
Mas outro livro dizia que o Pacto foi mediado por líderes já organizados.
Ele fez anotações.
Pequenas.
Discretas.
—
Conversa com Ren
Uma noite, Ren o encontrou na biblioteca.
— Você vai virar sacerdote agora?
Daichi não levantou o olhar do livro.
— Você já percebeu que ninguém fala sobre o que aconteceu antes da Primeira Era?
Ren cruzou os braços.
— Porque foi caos.
— Isso é resumo oficial.
Ren suspirou.
— Você tá pensando demais.
Daichi finalmente olhou para ele.
— E você tá pensando de menos.
Silêncio breve.
Ren se aproximou.
— Você acredita naquele cara?
Daichi respondeu com honestidade:
— Eu acredito que ele sabe mais do que nos disseram.
Ren ficou quieto.
Isso o incomodava.
Mas não sabia explicar por quê.
—
Fragmentos Escondidos
No quinto dia de estudo, Daichi encontrou algo diferente.
Um manuscrito danificado. Não catalogado corretamente.
Guardado atrás de registros litúrgicos comuns.
O texto mencionava algo chamado “Pacto de Subjugação”.
Não “Pacto Espiritual”.
Subjugação.
A palavra aparecia apenas uma vez.
O restante do texto estava parcialmente queimado.
Mas havia uma frase legível:
“Para conter o despertar, aceitou-se a barganha.”
Barganha.
Daichi sentiu o estômago gelar.
Barganha implica troca.
Troca implica concessão.
Ele continuou procurando.
E percebeu algo ainda mais estranho:
Nenhum texto descrevia claramente o que eram os Ancestrais.
Sempre vagos. Sempre descritos como caos. Nunca definidos.
Como se alguém tivesse removido a definição.
—
Mudança de Foco — Vila
Enquanto Daichi mergulhava nos livros, a vila seguia sob tensão controlada.
Raizen mantinha seus homens fora da praça central.
Mas patrulhas constantes circulavam os arredores.
Kanzaki e Raizen haviam estabelecido uma paz armada.
Nenhum confiava no outro.
Aoi estava mais próxima do pai agora.
Participava de reuniões internas da Igreja.
Aprendia estratégias. Hierarquias. Protocolos.
Ela estava crescendo politicamente.
Ren estava treinando.
Mais intenso.
Mais agressivo.
Ele sentia que algo estava se movendo e não gostava de ficar para trás.
—
O Segundo Fragmento
Na sétima noite, Daichi encontrou um registro ainda mais antigo.
Escrito em linguagem arcaica.
Tradução incompleta.
Mas havia uma passagem clara:
“Os Ancestrais não foram derrotados. Foram vinculados.”
Vinculados.
Não selados. Não destruídos.
Vinculados.
Abaixo, quase ilegível:
“O custo será herdado pelas próximas gerações.”
Daichi fechou o livro lentamente.
O coração acelerado.
Se isso fosse verdade…
A Igreja não salvou o mundo.
Ela fez um acordo.
E esse acordo ainda estava ativo.
—
A Primeira Mentira
No dia seguinte, Daichi perguntou diretamente a Kanzaki:
— Os Ancestrais foram destruídos?
Kanzaki respondeu sem hesitar:
— Foram contidos.
Daichi sustentou o olhar.
— Contidos como?
Uma pausa.
Curta.
Mas existiu.
— Isso não é conhecimento necessário para você.
Daichi assentiu.
Mas dentro dele algo se quebrou.
Não era desconfiança ainda.
Era lacuna.
E lacunas pedem preenchimento.
—
Última Cena do Capítulo
Daichi estava sozinho na biblioteca.
Luz de vela baixa.
O manuscrito antigo aberto à sua frente.
Ele sussurrou para si mesmo:
— O que vocês fizeram…
E pela primeira vez, ele pensou no nome:
Aetheryon.
Se Eryndor disse que sabia como parar os Ancestrais…
Então ele sabia sobre o pacto.
E se sabia…
Sabia a verdade.
Daichi fechou o livro.
O arco dele começou.
Ainda silencioso. Ainda invisível para os outros.
Mas irreversível.