Capítulo 11
A vila começou a voltar ao normal.
Ou pelo menos fingia que estava.
As crianças voltaram a correr entre as casas reconstruídas. Pescadores retomaram os barcos. A igreja mantinha as portas abertas como se nada tivesse acontecido.
Mas a verdade era simples: todos olhavam mais para o horizonte agora.
Ren estava ajudando a erguer uma parede quando Daichi passou por ele carregando dois livros finos debaixo do braço.
— Você virou padre agora? — Ren provocou.
Daichi bufou.
— São registros antigos. Só curiosidade.
— Curiosidade mata.
— Ignorância também.
Ren ergueu uma sobrancelha.
— Você anda estranho.
— Só tô lendo.
E era verdade.
Ele não estava descobrindo segredos proibidos.
Ainda não.
O que ele lia eram registros históricos comuns. Datas de batalhas. Nomes de sacerdotes mortos. Relatos de rituais de “proteção”.
Mas algumas palavras voltavam com frequência:
“Selamento.”
“Pacto.”
“Equilíbrio.”
Nada explícito.
Só fragmentos.
E isso incomodava mais do que respostas.
No campo de treino, Aoi e Ren lutavam novamente.
Dessa vez, Kanzaki não falava nada.
Apenas observava.
Ren avançava com mais controle. Menos impulso, mais leitura.
Aoi bloqueou, girou, tentou um golpe baixo.
Ren saltou para trás — por pouco.
Ela sorriu.
— Tá começando a aprender.
— Eu sempre soube.
Ela atacou de novo. Ele bloqueou melhor. A força do impacto fez o chão tremer levemente.
Kanzaki percebeu.
O fluxo de energia de Ren estava mudando.
Mais firme.
Menos descontrolado.
Ele fechou os olhos por um segundo.
Ainda são jovens.
Ainda dá tempo.
Naquela noite, Kanzaki e o padre conversavam dentro da igreja.
— Informações chegaram do continente — disse o padre.
Kanzaki permaneceu em silêncio.
— Movimentações do que restou dos Kurogane.
Os olhos de Kanzaki ficaram mais duros.
— Raizen não é homem de aceitar derrota.
— Ele perdeu muitos homens aqui.
— Ele perdeu orgulho.
Isso era pior.
Enquanto isso…
Em alto mar.
Um navio negro cortava as águas.
Velas escuras.
Símbolo dos Kurogane rasgado, mas ainda visível.
Raizen estava na proa.
O vento agitava seus cabelos.
O braço ainda enfaixado do último confronto.
Um dos generais ajoelhou atrás dele.
— Restam poucos, senhor.
— Poucos bastam.
A voz de Raizen era baixa.
Controlada.
— A vila se recompõe. A Igreja acredita que vencemos apenas uma escaramuça.
Ele fechou os olhos.
— Eles ousaram me enfrentar dentro de um território que chamam de sagrado.
O general engoliu seco.
— O plano?
Raizen virou-se lentamente.
Os olhos queimavam.
— Não vamos conquistar.
— Então…?
— Vamos ferir.