Capítulo 15
A poeira ainda caía como cinza.
O campo central da vila não existia mais.
Onde antes havia praça, casas e caminho de pedra… agora havia uma cratera larga e profunda, com rachaduras se espalhando como veias pelo chão destruído.
No centro dela, dois homens ainda estavam de pé.
Kanzaki.
Raizen.
Ambos ensanguentados.
Ambos respirando com dificuldade.
As espadas ainda cruzadas.
Mas a lâmina branca de Kanzaki havia atravessado a guarda de Raizen o suficiente para deixar um corte profundo abaixo da clavícula. Não era um ferimento superficial. Era fatal.
Mesmo assim…
Raizen não caía.
Ele empurrou a espada de Kanzaki para o lado e recuou um passo.
Depois outro.
O sangue escorria pelo peito, pingando na terra quebrada.
Mas ele sorriu.
— Então… você ainda é o mais forte.
Kanzaki manteve a postura.
Sua própria armadura estava partida no ombro e no flanco. O lado esquerdo do corpo queimava por dentro. A técnica final tinha cobrado um preço alto.
— Isso nunca foi sobre força — respondeu Kanzaki, voz baixa.
Raizen riu.
Tosseu sangue.
— Sempre é.
O vento atravessava o campo devastado.
Ao redor, o combate havia cessado.
Os poucos Kurogane restantes estavam ajoelhados ou imobilizados.
Soldados da Igreja também estavam feridos.
Mas ninguém se movia.
Todos observavam.
Ren sentia as mãos tremerem.
Aoi estava imóvel.
Ela nunca tinha visto o pai daquele jeito.
Nunca.
Raizen apoiou a espada no chão para se manter de pé.
— Você protege… uma instituição que apodrece o mundo.
— Eu protejo as pessoas que vivem nele.
— Mentira.
Os olhos de Raizen se ergueram.
Não havia ódio agora.
Havia algo pior.
Convicção.
— Você sabe.
O silêncio pesou.
Kanzaki não respondeu.
Raizen deu um passo à frente, mesmo sangrando.
— Você estava lá.
Ren franziu o cenho à distância.
Aoi também.
Raizen continuou:
— No primeiro grande selamento… você viu o que foi feito.
Os dedos de Kanzaki apertaram o cabo da espada.
— Cale-se.
— Você viu que eles não eram demônios.
O ar pareceu ficar mais frio.
— E mesmo assim… escolheu ficar.
Kanzaki avançou um passo.
A aura branca ainda tremulava ao redor dele, mais fraca agora, mas firme.
— Você matou inocentes hoje.
— Para impedir um mal maior!
— Decidido por você!
Raizen riu novamente.
— E não é exatamente isso que a Igreja faz?
A pergunta não teve resposta imediata.
Ren sentiu algo estranho no peito.
Uma dúvida pequena.
Rápida.
Mas real.
Raizen ergueu a espada com dificuldade.
— Eu perdi… mas você não venceu.
Kanzaki ergueu a própria lâmina.
— Acabou.
Raizen sorriu.
— Ainda não.
Ele reuniu o resto da energia negra que ainda ardia dentro de si.
Não como antes.
Não como uma tempestade.
Mas como uma chama final.
A aura ao redor dele começou a se desfazer, consumindo o próprio corpo.
Uma técnica suicida.
Ren arregalou os olhos.
— Ele vai explodir?!
Aoi sentiu.
— Não… ele vai tentar levar o pai junto.
Raizen avançou.
Não rápido.
Mas determinado.
Cada passo deixava um rastro de sangue.
A energia negra concentrava-se na ponta da lâmina.
— Se eu cair… você cai comigo!
Ele desferiu o golpe final.
Uma estocada carregada com tudo que restava de sua vida.
Kanzaki não recuou.
Não desviou.
Ele deu um passo à frente.
Entrou no alcance.
A lâmina negra perfurou sua lateral — profunda, mas não no ponto vital.
Ao mesmo tempo—
A espada branca de Kanzaki atravessou o peito de Raizen.
Direto.
Limpo.
Preciso.
As duas lâminas ficaram presas por um segundo.
Os dois rostos a centímetros.
Raizen piscou.
O brilho nos olhos começou a diminuir.
O sangue escorreu pelos lábios.
— Heh…
Ele tentou rir.
— No fim… você ainda escolheu… ser carrasco.
Kanzaki manteve o olhar firme.
— Eu escolhi proteger.
Raizen tossiu.
O sangue caiu sobre a lâmina branca.
— Quando… a verdade emergir…
Os olhos dele se moveram levemente na direção da igreja.
— Você não poderá protegê-los.
O corpo dele perdeu força.
Kanzaki puxou a espada.
Raizen caiu de joelhos.
Mas não caiu imediatamente ao chão.
Ele tentou se manter ereto.
Mesmo morrendo.
— Eu… não me arrependo.
O vento soprou mais forte.
E então ele caiu.
Pesado.
Imóvel.
Silêncio.
A energia negra ao redor se dissipou completamente.
As nuvens começaram a se abrir lentamente.
O combate havia terminado.
Raizen estava morto.
Kanzaki permaneceu de pé por alguns segundos.
Depois a espada caiu de sua mão.
Ele cambaleou.
Aoi foi a primeira a correr.
— Pai!
Ren veio logo atrás.
Kanzaki ainda estava consciente.
Sangue escorria da lateral onde a lâmina negra o havia perfurado.
Mas ele estava vivo.
Ele olhou para Aoi.
Pela primeira vez… exausto.
— Está… tudo bem.
— NÃO está! — ela respondeu, segurando ele.
Ele olhou para Ren.
Longo.
Profundo.
Como se estivesse avaliando algo além da superfície.
— Você viu.
Ren assentiu.
Mas sua mente ainda ecoava as palavras de Raizen.
“Você estava lá.”
“No primeiro selamento…”
“Eles não eram demônios.”
O padre se aproximou com sacerdotes.
Começaram a conter o sangramento de Kanzaki.
A vila estava parcialmente destruída.
Havia mortos sendo carregados.
Feridos sendo atendidos.
Choro.
Fumaça.
Mas não havia mais bandeiras negras.
Não havia mais Kurogane.
A ameaça externa havia sido eliminada.
Só que…
O silêncio que ficou depois parecia mais pesado do que a guerra.
Kanzaki foi levado para dentro da igreja.
Antes de entrar, ele olhou uma última vez para o corpo de Raizen sendo coberto.
Sem ódio.
Sem vitória.
Apenas peso.
Muito peso.
O céu finalmente clareou.
Mas ninguém na vila sentiu que aquilo era luz.
Era apenas o fim de uma guerra.
E o começo de algo muito maior.