Capítulo 16
A vila estava quieta demais.
Não era o silêncio da paz.
Era o silêncio depois do choque.
Madeira sendo serrada ao longe. Martelos batendo devagar. Vozes baixas. Ninguém falava alto perto da igreja.
O corpo de Raizen já havia sido levado dias atrás. Os poucos Kurogane sobreviventes tinham desaparecido no mar.
Mas a sensação de que algo maior estava se movendo… permanecia.
Ren treinava sozinho.
Pela primeira vez, Kanzaki não estava ali para corrigir postura.
Aoi estava ajudando nos reparos internos da igreja.
Ren golpeava o poste de treino repetidamente.
Um.
Dois.
Três.
A madeira já estava rachando.
Ele lembrava das palavras de Raizen.
“Você estava lá.”
“No primeiro selamento.”
Ele nunca tinha visto Kanzaki hesitar.
Mas naquele momento final…
Houve algo.
Algo que não era raiva.
Nem culpa.
Era peso.
Ren parou o golpe no meio do movimento.
Respirou fundo.
Ele precisava ficar mais forte.
Isso era tudo que ele sabia.
Daichi estava diferente.
Não drasticamente.
Não visivelmente.
Mas diferente.
Ele continuava ajudando na vila.
Continuava conversando.
Continuava presente.
Mas os olhos…
Os olhos estavam mais distantes.
Ele passava mais tempo sozinho.
Voltava ao depósito antigo da igreja.
Não estava lendo nada proibido.
Ainda.
Mas estava juntando peças.
Datas.
Relatos contraditórios.
Registros que falavam de “negociação” em vez de “extermínio”.
Ele não entendia completamente.
Mas começava a perceber padrões.
E aquilo não saía da cabeça.
Uma noite, ele chamou Ren para fora da vila.
Sem alarde.
Sem drama.
Apenas um gesto discreto.
Os dois caminharam até a praia.
A lua refletia no mar.
O vento era frio.
Daichi estava segurando algo dobrado nas mãos.
Um pedaço de papel.
— Você anda estranho — Ren disse.
— Você também.
Ren respirou fundo.
— Aquilo que Raizen falou…
Daichi o interrompeu.
— Você acredita que ele mentiu?
Ren ficou em silêncio.
Não respondeu.
Daichi olhou para o mar.
— Eu acho que tem coisa que a gente não sabe.
— Sempre tem.
— Não. Eu digo… coisa grande.
Ren franziu o cenho.
— O que você quer dizer?
Daichi ficou alguns segundos em silêncio.
Depois estendeu o papel.
— Guarda isso.
Ren pegou.
— O que é?
— Se eu demorar pra voltar… você lê.
O coração de Ren acelerou.
— Voltar de onde?
Daichi finalmente olhou para ele.
E havia decisão ali.
— Eu preciso sair daqui por um tempo.
Ren sentiu um aperto no peito.
— O quê? Por causa do que aquele cara falou?
— Não só por isso.
— Você tá ficando maluco?
Daichi deu um pequeno sorriso.
— Talvez.
O vento soprou mais forte.
— Eu preciso saber se a gente tá lutando pelo que acha que tá lutando.
Ren segurou o papel com força.
— Você falou com a Aoi?
O olhar de Daichi mudou levemente.
Mais fechado.
— Não.
— Por quê?
Ele demorou para responder.
— Porque eu não sei mais em quem eu posso confiar totalmente.
Aquilo doeu mais do que deveria.
Ren ficou irritado.
— Você tá exagerando.
— Eu espero que sim.
Silêncio.
Só o mar.
Daichi deu um passo para trás.
— Não me procura.
— Você tá falando sério?
— Eu sempre falei sério demais.
Ren deu um passo à frente.
— Pra onde você vai?
Daichi hesitou.
Por um segundo.
Mas decidiu não dizer.
— Quando eu souber a verdade… eu volto.
Ren queria agarrá-lo.
Impedir.
Mas algo nos olhos de Daichi dizia que ele já tinha partido por dentro.
— Não faz merda — Ren murmurou.
Daichi sorriu de lado.
— Eu vou tentar.
Ele virou.
E começou a caminhar.
Sem olhar para trás.
Ren ficou parado na areia.
Segurando o papel.
O vento quase arrancou da mão dele.
Mas ele segurou.
Forte.
Muito forte.
Na manhã seguinte…
Daichi não estava na vila.
Nenhum anúncio.
Nenhuma despedida pública.
Aoi perguntou por ele durante o almoço.
— Ele saiu cedo?
Ren respondeu seco:
— Saiu.
— Pra onde?
Ren desviou o olhar.
— Não sei.
E pela primeira vez…
Ele mentiu para ela.
O mar estava calmo naquele dia.
Mas no horizonte distante…
Uma pequena embarcação seguia em direção ao continente.
Em direção a um reino novo.
Em direção a respostas perigosas.
E o caminho que Daichi escolheu…
Não tinha volta simples.