Capítulo 17
Mar Aberto
O barco era pequeno demais para o oceano.
Daichi sabia disso.
Mas não voltou.
O vento cortava o rosto. As mãos doíam de tanto segurar as cordas. Ele nunca tinha navegado sozinho por tanto tempo. O pescador que o deixou na rota continental não fez perguntas — apenas cobrou caro demais e foi embora rápido demais.
O mar aberto não era como a costa da vila.
Ali, o horizonte parecia infinito.
E silencioso.
Daichi passava horas olhando para as próprias mãos.
Ele lembrava da batalha.
Da energia esmagadora de Kanzaki.
Da frase de Raizen.
“Eles não eram demônios.”
O que eram então?
E por que isso estava sendo escondido?
Ele abriu a bolsa de couro e puxou um dos livros que trouxe escondido. Não os registros oficiais — mas cópias antigas que encontrou esquecidas.
Nada explícito.
Mas suficiente para apontar algo:
Os ancestrais não foram exterminados.
Foram selados.
E “selamento” implica acordo.
O barco balançou forte.
Daichi fechou o livro.
— Se eu estiver errado… eu volto.
Mas no fundo ele sabia.
Ele não estava indo confirmar uma dúvida.
Estava indo confirmar uma traição.
Ilha — Vila
Ren estava diferente.
O treino agora era mais agressivo.
Mais silencioso.
Kanzaki já conseguia ficar de pé novamente, mas ainda não podia lutar com intensidade. Mesmo assim, estava no campo observando.
Ren atacava o poste de treino com força demais.
A madeira quebrou.
Ele não parou.
Aoi segurou o braço dele.
— Já acabou.
Ele puxou o braço.
— Não.
— Você não precisa provar nada.
Ele virou para ela.
— Eu preciso.
— Pra quem?
Ele não respondeu.
Kanzaki caminhou lentamente até os dois.
Mesmo ferido, a presença dele ainda era pesada.
— Força sem direção vira destruição.
Ren respirava pesado.
— Então me dá direção.
Os olhos de Kanzaki estreitaram levemente.
— Você quer respostas.
Ren não negou.
Kanzaki olhou para o horizonte por um momento.
— Algumas respostas mudam a forma como você enxerga tudo.
— Então por que esconder?
Silêncio.
Aoi observava o pai com atenção.
— Porque nem toda verdade pode ser dita antes do tempo.
Ren deu um meio sorriso amargo.
— Parece coisa que alguém que esconde algo diria.
O ar ficou tenso.
Aoi sentiu.
Mas Kanzaki não reagiu com raiva.
Apenas respondeu:
— Continue treinando.
E saiu.
Ren ficou parado.
A dúvida agora existia.
Pequena.
Mas real.
Aetheryon — Primeiro Vislumbre
Dias depois.
Daichi finalmente viu terra.
Mas não era um reino imponente.
Não havia muralhas douradas.
Não havia torres majestosas.
Havia algo diferente.
Estruturas sendo erguidas.
Fortificações ainda em construção.
Bandeiras que ele não reconhecia.
Símbolos circulares com traços verticais — como pilares atravessando o céu.
Homens treinavam em campo aberto.
Mulheres armadas discutiam mapas.
Não era um reino antigo.
Era um reino nascente.
E parecia… determinado.
Quando o barco atracou, dois soldados se aproximaram.
Armaduras leves.
Olhar atento.
— Identifique-se.
Daichi desceu devagar.
— Eu vim procurar respostas.
O soldado não sorriu.
— Isso não é resposta.
— Eu vim da ilha sob domínio da Igreja.
Os dois trocaram um olhar rápido.
— Nome.
— Daichi.
Silêncio.
O segundo soldado fez um gesto.
— Venha.
Ele foi conduzido por ruas ainda em construção.
Não era caos.
Era organização crua.
Pessoas trabalhavam com disciplina.
Mas não havia símbolos religiosos.
Nenhum templo dominante.
Nenhuma cruz.
Nenhum selo sagrado.
Havia treinamento.
Havia estratégia.
Havia preparação.
Eles chegaram a uma estrutura central de pedra ainda inacabada.
Antes de entrar, o soldado disse:
— Se mentir, morre.
Daichi assentiu.
Ele não estava ali para mentir.
As portas se abriram.
Lá dentro, mapas cobrindo paredes.
Marcas vermelhas espalhadas por territórios da Igreja.
E no centro da sala…
Um homem de cabelos longos e claros.
Postura tranquila.
Armadura simples.
Mas presença absurda.
Ele não estava sentado em trono.
Estava de pé.
Olhando diretamente para Daichi.
Como se já soubesse que ele viria.
O homem não sorriu.
— Você demorou.
Daichi sentiu o peso daquelas palavras.
— Eu não vim por convite.
— Não. — o homem respondeu calmamente. — Você veio por dúvida.
Silêncio.
— E dúvida… é sempre o primeiro passo.
Daichi deu um passo à frente.
— Eu quero saber a verdade sobre os ancestrais.
O homem inclinou levemente a cabeça.
— Então você já sabe que a versão da Igreja é incompleta.
— Eu sei que algo não fecha.
O homem se aproximou.
Não havia arrogância.
Mas havia confiança absoluta.
— Aqui não oferecemos conforto.
Oferecemos conhecimento.
Ele estendeu a mão.
— Se entrar… não sai igual.
Daichi olhou para aquela mão.
Pensou em Ren.
Pensou na vila.
Pensou nas palavras de Raizen.
E segurou.
—
Ilha — Noite
Aoi estava sozinha no topo da muralha improvisada da vila.
O vento balançava o cabelo.
Ren se aproximou.
— Você sabia?
Ela não virou.
— Sobre o quê?
— Que ele ia embora.
Silêncio.
— Não.
Ren segurava a carta dobrada no bolso.
Ainda não tinha lido.
— Você confia totalmente na Igreja?
A pergunta foi direta.
Ela virou devagar.
— Você não confia?
Ren olhou para o mar.
— Eu confio no seu pai.
Ela sentiu o peso da diferença.
E não respondeu.
Aetheryon — Primeira Noite
Daichi caminhava pelos corredores do quartel central.
Não havia luxo.
Mas havia propósito.
Ele passou por uma sala onde soldados treinavam técnicas que ele nunca tinha visto.
Fluxos de energia diferentes.
Não sagrados.
Não sombrios.
Mais… estruturais.
Controlados.
Uma mulher de olhos cinzentos o observou enquanto ele passava.
— Outro da Igreja?
Um homem respondeu:
— Talvez não mais.
Daichi sentiu.
Ele já não era apenas um visitante.
Era alguém sendo avaliado.
Eryndor ainda não havia revelado tudo.
Nem mencionado pactos.
Nem falado de controle.
Mas Daichi sentiu uma coisa clara:
Aqui… eles sabiam algo que a Igreja escondia.
E ele estava prestes a descobrir.