Capítulo 18
A Verdade Tem Peso
Aetheryon
A mão de Eryndor era firme.
Não fria.
Não agressiva.
Firme.
Daichi sentiu algo diferente ao tocá-la.
Não era energia sagrada.
Não era aquela pressão esmagadora como a de Kanzaki.
Era estabilidade.
Como se o chão não pudesse ser movido enquanto ele estivesse ali.
Eryndor soltou a mão dele e caminhou até o centro da sala.
Mapas espalhados.
Marcas vermelhas.
Linhas estratégicas atravessando territórios dominados pela Igreja.
— Você veio cedo — disse Eryndor, sem virar o rosto.
— Cedo pra quê?
— Para alguém que ainda não perdeu tudo.
Silêncio.
Daichi fechou o punho.
— Eu quero saber o que realmente aconteceu com os ancestrais.
Eryndor virou finalmente.
Os olhos claros não tinham ódio.
Tinham cálculo.
— Eles não foram demônios.
— Eu sei.
— Não. Você suspeita.
Daichi não respondeu.
Eryndor caminhou até um painel lateral e puxou um tecido grosso que cobria uma inscrição antiga gravada na pedra.
Não era símbolo religioso.
Era um pacto.
Símbolos entrelaçados.
Assinaturas.
Marcas de selamento.
— Isso é uma cópia — disse Eryndor. — O original está sob custódia da Igreja.
O coração de Daichi acelerou.
— Pacto entre quem?
Eryndor o encarou.
— Entre os líderes ancestrais… e os primeiros representantes da Igreja.
O ar ficou pesado.
— A guerra foi real.
— A destruição foi real.
— Mas o extermínio… não.
Daichi deu um passo atrás.
— Então eles mentiram.
— Eles reescreveram.
Eryndor se aproximou.
— Quando a guerra ficou impossível de vencer, fizeram um acordo.
Os ancestrais seriam selados.
A Igreja assumiria controle dos territórios.
E a narrativa seria alterada.
— Por quê?
Eryndor respondeu sem hesitar:
— Porque o medo é mais fácil de governar do que a coexistência.
Silêncio absoluto.
Daichi sentiu o mundo inclinar.
— E você quer quebrar o selo?
— Eu quero quebrar a mentira.
Eryndor se aproximou mais.
— Mas para isso… preciso de pessoas que já começaram a duvidar.
Os olhos dele analisavam Daichi como se avaliasse estrutura interna.
— Você ainda está no meio do caminho.
— Então me leva até o fim.
Eryndor sorriu de leve.
Não arrogante.
Satisfeito.
— Veremos se você aguenta.
Ilha — O Desconforto Cresce
Ren não conseguia dormir.
Desde a conversa com Kanzaki, algo estava errado.
Ele estava treinando mais.
Pensando mais.
Questionando mais.
Mas o que realmente o incomodava era outra coisa.
Kanzaki evitava responder.
Não negava.
Mas não confirmava.
Naquela noite, Ren foi até o arquivo antigo da vila.
Um lugar pouco usado.
Registros velhos.
Cartas.
Relatórios.
Ele não estava procurando prova.
Estava procurando inconsistência.
Horas depois, encontrou.
Um relatório antigo de patrulha.
Datado de anos atrás.
Descrição de “movimentação suspeita”.
Localização: fronteira leste.
Assinatura: Kanzaki.
Mas o trecho final estava rasgado.
Arrancado.
Ren ficou encarando aquilo por muito tempo.
— O que você está procurando?
A voz de Aoi surgiu atrás dele.
Ele quase não reagiu.
— A verdade.
Ela se aproximou.
— Você acha que meu pai está mentindo?
Ren fechou o livro devagar.
— Eu acho que ele está protegendo algo.
Aoi respirou fundo.
— Ele sempre protegeu a vila.
— E se agora ele estiver protegendo outra coisa?
Aquilo doeu.
Ela não respondeu.
Porque, no fundo…
Ela também começou a sentir.
Aetheryon — Teste
No dia seguinte, Daichi foi levado a um campo de treino.
Mas não era combate comum.
Era leitura de fluxo.
Um instrutor colocou dois soldados diante dele.
— Você não vai lutar.
— Vai observar.
Os dois começaram a trocar golpes.
Mas não era força bruta.
Era controle de energia.
Linhas quase invisíveis se formando entre movimentos.
Padrões.
Estruturas.
— Aqui não treinamos explosão — disse o instrutor. — Treinamos arquitetura.
Daichi estreitou os olhos.
— Arquitetura?
— A Igreja ensina poder vertical.
Nós ensinamos poder distribuído.
Um dos soldados errou o tempo.
O outro não atacou.
Reposicionou.
Controlou.
Imobilizou.
Sem brutalidade.
Eficiência pura.
— Vocês querem guerra?
— Queremos vitória sustentável.
Daichi sentiu algo estranho.
Ali não havia fanatismo.
Havia estratégia.
Eryndor observava à distância.
Sem interferir.
Apenas avaliando.
E então falou:
— Ele tem base forte demais da Igreja.
O instrutor assentiu.
— Vai demorar.
— Não importa.
Eryndor desviou o olhar para o horizonte.
— O tempo está acabando de qualquer forma.
Ilha — Sinal no Mar
Naquela mesma noite…
Um clarão distante surgiu no mar.
Não era tempestade.
Não era barco.
Era energia.
Curta.
Intensa.
Desapareceu em segundos.
Ren e Kanzaki viram.
Ao mesmo tempo.
De pontos diferentes da vila.
Kanzaki fechou os olhos.
Ele reconheceu aquele tipo de pulso.
Ren sentiu um arrepio.
— O que foi isso…?
Aoi apareceu na muralha.
— Pai?
Kanzaki abriu os olhos devagar.
A expressão dele não era medo.
Era confirmação.
— Eles começaram a se mover.
Ren virou para ele.
— Eles quem?
Silêncio.
Longo demais.
E então:
— Aetheryon.
O nome caiu como uma lâmina.
Ren sentiu o estômago apertar.
Daichi estava lá.
E algo tinha começado.