Capítulo 21 — O Peso das Respostas
O céu sobre Aetheryon estava cinza claro naquela manhã.
Não havia tempestade.
Mas havia tensão.
O vento soprava constante entre as torres altas do reino oculto, atravessando bandeiras antigas marcadas por símbolos que Daichi ainda não compreendia totalmente.
Ele estava no mesmo lugar onde passara boa parte dos últimos dias: uma das plataformas externas da fortaleza, de frente para o mar infinito.
Ali, o mundo parecia distante.
Mas não estava.
Porque agora ele sabia.
Sabia sobre a igreja.
Sabia sobre os ancestrais.
Sabia que nada era tão simples quanto parecia.
E sabia que precisava voltar.
Aetheryon — O Controle Antes da Força
Lysera observava enquanto Daichi treinava.
Nada de explosões.
Nada de ataques grandes.
Somente controle.
Uma pequena chama azulada surgia na palma da mão dele, tremendo levemente.
Instável.
Mas viva.
— Não force — disse Lysera.
— Controle vem antes do poder.
Daichi respirou fundo.
A chama diminuiu.
Depois estabilizou.
O esforço era visível.
Ele ainda estava no início.
Muito no início.
Mas a diferença era clara.
Antes ele apenas reagia.
Agora ele compreendia.
— Você evoluiu rápido — disse Lysera.
Daichi respondeu:
— Eu só estou tentando acompanhar.
Ela deu um leve sorriso.
— Ainda não viu o que significa acompanhar.
O vento aumentou.
E então—
O sino ecoou pela fortaleza.
Um som metálico profundo.
Grave.
Daichi percebeu imediatamente que não era um som comum.
Lysera também.
— Visita.
— Ou problema.
O Intruso de Outro Reino
O pátio central já estava cercado quando Daichi chegou.
Soldados posicionados.
Clima pesado.
No centro…
Um homem.
Armadura escura.
Capa longa.
Uma espada larga apoiada no chão.
Confiança excessiva.
Perigo evidente.
Eryndor já estava ali.
Calmo.
Imóvel.
Observando.
O homem falou:
— Então este é o famoso Aetheryon.
Silêncio.
— Esperava algo… mais impressionante.
Nenhum soldado respondeu.
Daichi percebeu rapidamente:
Aquilo não era uma visita diplomática.
Era provocação.
— Meu nome é Kael Dravorn — disse o homem.
— Represento o Reino de Vorthal.
Alguns soldados trocaram olhares discretos.
Vorthal.
Um reino conhecido por expandir território através de força e submissão.
Eryndor respondeu:
— Aetheryon não busca alianças.
Kael sorriu.
— Não é um pedido.
Silêncio.
— É um aviso.
O vento atravessou o pátio.
A tensão aumentou.
O Desafio
Kael ergueu a espada lentamente.
— Dizem que você é o mais forte deste lugar.
— Quero ver.
Eryndor respondeu:
— Não preciso provar nada.
Kael inclinou a cabeça.
— Precisa sim.
O ar começou a vibrar.
Uma aura pesada começou a surgir ao redor do invasor.
Energia real.
Treinada.
Condensada.
Daichi sentiu.
Aquilo era muito diferente dos soldados comuns.
Kael continuou:
— Se for fraco, Vorthal toma Aetheryon.
— Se for forte…
Ele sorriu.
— Talvez possamos conversar.
Silêncio absoluto.
Eryndor deu alguns passos à frente.
Calmo.
Sem liberar energia.
Sem postura exagerada.
Apenas presença.
— Um ataque — disse ele.
Kael sorriu.
— Só isso?
— É o suficiente.
A Luta Começa
Kael avançou primeiro.
Explosivo.
Rápido.
A espada desceu em um golpe vertical brutal.
CLANG.
Eryndor bloqueou com sua katana.
Sem esforço.
Sem recuar.
Mas então—
Ele desapareceu.
Daichi arregalou os olhos.
Eryndor surgiu atrás de Kael.
Um corte rápido.
Limpo.
A armadura do invasor abriu em uma linha precisa.
Kael saltou para trás imediatamente.
Surpreso.
Mas não ferido.
Ainda.
— Hm…
A energia dele explodiu.
O chão rachou sob seus pés.
Ele avançou novamente.
Agora mais rápido.
Golpes pesados.
Sequências brutais.
Impactos fortes o suficiente para quebrar pedra.
Mas então Daichi percebeu algo.
Eryndor não estava apenas lutando.
Ele estava se movendo como água.
Cada passo fluía para o próximo.
Cada golpe parecia surgir no momento exato.
Sem desperdício.
Sem esforço aparente.
Sem movimentos desnecessários.
Era uma técnica refinada ao extremo.
Como se cada ação tivesse sido repetida milhares de vezes.
Kael tentou aumentar o ritmo.
Mas não conseguia acompanhar.
Porque Eryndor não reagia.
Ele antecipava.
O Estilo de Aetheryon
Eryndor começou a atacar.
Cortes rápidos.
Precisos.
Sem força exagerada.
Mas perfeitos.
Cada golpe atingia exatamente onde precisava.
O braço.
O ombro.
A lateral da armadura.
Não eram golpes para matar.
Eram golpes para dominar.
Kael começou a perder controle do ritmo.
Respiração pesada.
Movimentos ficando mais lentos.
Desorganizados.
— O que… você é?
Eryndor respondeu calmamente:
— Disciplina.
Então—
Ele desapareceu novamente.
Três movimentos.
Três cortes.
Kael caiu de joelhos.
A espada escapou de sua mão.
O silêncio tomou o pátio.
O Fim do Desafio
Kael tentou levantar.
Não conseguiu.
A armadura estava destruída em vários pontos.
Seu corpo ainda estava inteiro.
Mas a derrota era absoluta.
Eryndor aproximou-se lentamente.
— Vorthal não precisa virar inimigo.
Silêncio.
— Mas também não será aliado.
Kael respirou com dificuldade.
Ele entendeu.
Aetheryon não era um reino comum.
Era um limite.
Eryndor virou as costas.
A luta havia terminado.
Sem espetáculo.
Sem exagero.
Somente domínio.
O Impacto em Daichi
Daichi permaneceu parado por alguns segundos.
Aquilo não foi apenas força.
Foi controle absoluto.
Era o tipo de poder que não dependia de raiva.
Nem de impulso.
Dependia de compreensão.
Lysera falou ao lado dele:
— Agora entende por que Aetheryon ainda existe?
Daichi respondeu em silêncio.
Mas algo dentro dele havia mudado.
Muito.
A Conversa Antes da Partida
Mais tarde, no topo da fortaleza…
O mar se estendia novamente diante deles.
Daichi estava pronto.
O barco já aguardava.
Eryndor apareceu ao lado dele.
— Você vai voltar.
— Sim.
— E o que fará com o que aprendeu?
Daichi demorou alguns segundos para responder.
— Ainda não sei.
Eryndor olhou para o horizonte.
— Saber demais também é perigoso.
Silêncio.
— Mas ignorar é pior.
Daichi assentiu.
Ele sabia.
A Vila — O Tempo Continua
Enquanto isso…
Na vila…
A vida seguia.
Mas não da mesma forma.
Ren
Ren treinava sozinho perto da área externa da igreja.
Golpes mais rápidos.
Mais fortes.
Mas menos leves.
Havia tensão.
Ele parou por alguns segundos.
Respirando.
Pensando.
Daichi.
As palavras dele voltaram à mente.
"Nem tudo é como parece."
Ren fechou os olhos.
Antes aquilo parecia absurdo.
Agora…
Não parecia tanto.
Mas ele ainda não estava pronto para aceitar.
Aoi
Aoi treinava no campo principal.
Movimentos precisos.
Postura perfeita.
Controle total.
Mas emocionalmente distante.
Uma das garotas perguntou:
— Você acha que o Daichi volta?
Aoi respondeu imediatamente:
— Não importa.
O tom era frio.
Sem hesitação.
— Ele escolheu questionar a igreja.
Silêncio.
— Pessoas que fazem isso…
Ela continuou treinando.
— Já fizeram sua escolha.
Ela não demonstrava emoção.
Mas estava evitando pensar.
O Porto de Aetheryon
O mar estava calmo.
O barco aguardava.
Lysera já estava lá.
Alguns soldados também.
Daichi caminhou lentamente até a embarcação.
Eryndor apareceu por último.
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos.
O vento atravessava o local.
— Quando eu voltar…
— Você não será o mesmo.
Daichi soltou um leve sorriso.
— Acho que já não sou.
Eryndor assentiu.
— Então está pronto.
Daichi entrou no barco.
As cordas foram soltas.
A embarcação começou a se afastar lentamente.
Ele olhou uma última vez para Aetheryon.
Depois para Eryndor.
O mestre falou:
— Não ignore a verdade.
O barco continuou avançando.
O horizonte começou a engolir o reino.
E pela primeira vez…
Daichi estava voltando para casa.
Mas agora carregando algo muito mais pesado que força.
Respostas.
E consequências.