Capítulo 24 — O Peso do Destino
A noite caiu mais rápido do que o normal.
Ou pelo menos foi assim que pareceu para Daichi.
Quando percebeu que estava sendo procurado, o mundo ao redor perdeu o ritmo comum. Os sons da vila já não eram mais familiares — cada passo distante parecia uma ameaça, cada sombra parecia observar.
Ele caminhava pelas áreas mais externas, onde as casas eram mais espaçadas e a iluminação mais fraca.
Ali, o vento era mais forte.
Ali, o silêncio era mais honesto.
Ali… ainda era possível pensar.
O Esconderijo
Daichi entrou em uma pequena construção abandonada perto das falésias.
Era um antigo depósito de redes de pesca.
O cheiro de madeira úmida e sal ainda permanecia.
A porta rangia, mas não o suficiente para chamar atenção.
Ele se sentou lentamente no chão.
Respiração controlada.
Coração acelerado.
Mas não por medo.
Por compreensão.
Ele abriu suas anotações mais uma vez.
Não para estudar.
Mas para confirmar.
Confirmar que não estava errado.
Confirmar que aquilo não tinha sido em vão.
Seus dedos passaram pelos símbolos desenhados.
Pactos antigos.
Marcas de contenção.
Representações dos ancestrais.
Cada traço agora parecia mais pesado.
Mais perigoso.
Mais real.
— Então… era isso.
Sua voz saiu baixa.
Cansada.
Ele não estava surpreso.
No fundo… sempre soube.
Enquanto Isso — A Igreja
A igreja estava iluminada mesmo com a noite avançando.
Velas acesas.
Sacerdotes reunidos.
Soldados posicionados.
O clima não era de oração.
Era de decisão.
No salão interno, Kanzaki permanecia em silêncio diante de uma longa mesa de madeira escura.
Ao redor dele estavam outros membros importantes da igreja local.
Mas havia algo diferente naquela reunião.
Algo mais pessoal.
Porque ali também estava Aoi.
Ela permanecia de pé.
Braços cruzados.
Olhar firme.
Mas o silêncio dela não era tranquilidade.
Era conflito.
Um dos sacerdotes terminou de falar:
— Os rumores já se espalharam.
— Ele mostrou símbolos proibidos.
— Disse que existem pactos.
Silêncio.
Todos olharam para Kanzaki.
Ele não respondeu imediatamente.
Seus olhos estavam fixos na mesa.
Pensando.
Calculando.
Finalmente, ele falou:
— Existe prova concreta?
— Não.
— Apenas relatos e anotações copiadas.
Outro sacerdote completou:
— Mas isso já é suficiente.
— Questionar a estrutura da igreja é perigoso.
Silêncio novamente.
Então…
Kanzaki olhou para Aoi.
— Você conhece Daichi.
Ela respondeu sem hesitar:
— Sim.
— Ele não mentiria.
Essa frase mudou o clima.
Alguns sacerdotes trocaram olhares.
Kanzaki manteve a expressão neutra.
— Isso não significa que ele esteja certo.
Silêncio.
Aoi não respondeu.
Mas também não concordou.
O Momento Difícil
A reunião terminou aos poucos.
Os sacerdotes saíram.
Os soldados também.
Restaram apenas dois.
Kanzaki.
E Aoi.
O silêncio entre eles era pesado.
Mas diferente do silêncio de uma conversa comum.
Era o silêncio de algo inevitável.
Kanzaki caminhou até uma janela.
A lua iluminava parcialmente o salão.
— Você entende o que está acontecendo?
Aoi respondeu sem emoção:
— Sim.
— Ele está sendo acusado de heresia.
Kanzaki virou lentamente.
— Não apenas heresia.
— Instabilidade.
— Desordem.
— Risco estrutural.
Aoi apertou levemente a mão.
— Ele só está procurando respostas.
Kanzaki não levantou o tom de voz.
Mas a firmeza aumentou.
— Respostas podem destruir civilizações.
Silêncio.
Aoi desviou o olhar por um momento.
Um pequeno momento.
Mas foi o suficiente para mostrar algo.
Algo que ela não queria demonstrar.
Kanzaki continuou:
— Existem verdades que não podem ser reveladas sem consequências.
— E existem pessoas que precisam impedir isso.
Aoi respirou fundo.
— E essa pessoa sou eu?
Silêncio.
Kanzaki não respondeu imediatamente.
Mas não precisava.
Ela já sabia.
O Conflito Interno
— Eu não quero fazer isso.
Foi a primeira vez que Aoi demonstrou emoção.
Pequena.
Controlada.
Mas real.
Kanzaki se aproximou lentamente.
— Não é sobre querer.
— É sobre necessidade.
— Sobre estabilidade.
— Sobre evitar algo pior.
Aoi respondeu:
— Ele não é uma ameaça.
— Ele é nosso amigo.
Silêncio.
Kanzaki manteve o olhar firme.
— Você ainda está pensando como amiga.
— Precisa pensar como alguém que protege este lugar.
Essa frase ficou no ar.
Pesada.
Fria.
Inevitável.
Aoi fechou os olhos por um instante.
Respirou fundo.
Quando abriu novamente…
A emoção havia desaparecido.
— Entendi.
Kanzaki observou.
Sabia o que aquilo significava.
Mas também sabia o custo.
A Noite Antes do Destino
Daichi permaneceu escondido até o amanhecer.
Algumas vezes ouviu passos ao longe.
Patrulhas.
Buscas.
Mas ninguém encontrou o depósito.
Ele sabia que aquilo não duraria.
Era apenas tempo.
E ele precisava usar esse tempo.
Não para fugir.
Mas para se despedir.
Ele pegou um pequeno pedaço de papel.
Escreveu apenas uma frase:
"Encontre-me onde sempre fomos."
Dobrou.
Guardou.
E saiu.
O Lugar de Sempre
O sol começava a se pôr quando Ren chegou ao penhasco.
Era o mesmo lugar de anos atrás.
Onde brincavam.
Onde treinavam com espadas de madeira.
Onde imaginavam aventuras.
Onde nada parecia complicado.
O vento soprava forte.
As ondas batiam contra as pedras abaixo.
O céu estava tingido em tons de laranja e vermelho.
Era bonito.
Mas também melancólico.
Ren chegou primeiro.
Confuso.
Preocupado.
Então viu Daichi.
Sentado.
Olhando o horizonte.
Como sempre fazia quando precisava pensar.
— Você tá maluco?
Ren caminhou rápido até ele.
— A vila inteira tá te procurando!
Daichi sorriu.
Mas era diferente.
Mais calmo.
Mais distante.
— Eu sei.
Ren parou.
Algo estava errado.
Muito errado.
— Daichi… o que tá acontecendo?
Silêncio.
O vento passou entre eles.
Daichi não respondeu imediatamente.
Em vez disso, disse:
— Você lembra… do dia em que a gente se conheceu?
Ren piscou.
Confuso.
— O quê?
Daichi continuou olhando o horizonte.
— Você estava andando sozinho pela rua.
— Sujo.
— Com fome.
— Sem saber pra onde ir.
Ren ficou em silêncio.
Memórias começaram a voltar.
Daichi continuou:
— Minha mãe foi quem te chamou.
— Ela disse que ninguém deveria ficar sozinho daquele jeito.
Os olhos de Ren começaram a mudar.
Daichi continuou:
— A gente te levou pra casa.
— Você ficou dias sem falar direito.
— Mas depois…
Ele sorriu levemente.
— Depois você começou a correr com a gente.
— Brigar com a gente.
— Treinar com a gente.
Ren respirou mais pesado.
— Para com isso…
Daichi finalmente virou o rosto.
Os olhos estavam brilhando.
Mas ele não chorava.
Ainda não.
— Aqueles foram os dias mais felizes da minha vida.
O silêncio ficou pesado.
Muito pesado.
A Decisão
Ren começou a entender.
E não queria.
— Daichi…
— Não faz isso.
Daichi falou com calma.
— Eu não vou fugir.
O vento pareceu parar por um instante.
— O quê?
— Eu vou me entregar.
Ren deu um passo para trás.
— Você ficou louco?!
— Eles vão—
Daichi interrompeu.
— Eu sei.
Silêncio.
Ren sentiu o peito apertar.
— A gente pode ir embora.
— A gente foge.
— A gente dá um jeito!
Daichi balançou a cabeça lentamente.
— Não.
— Porque isso não vai parar.
— Não enquanto eu existir como ameaça pra eles.
Ren apertou os punhos.
— Você não é ameaça nenhuma!
Daichi respondeu:
— Para eles… eu sou.
Silêncio.
Então…
finalmente…
uma lágrima caiu.
Não de Ren.
De Daichi.
— Eu só queria entender.
A voz dele falhou.
— Eu só queria saber a verdade.
O céu estava completamente laranja agora.
O vento ficou mais forte.
Ren não conseguia falar.
Não conseguia aceitar.
Não conseguia impedir.
O Último Pedido
Daichi respirou fundo.
— Promete uma coisa?
Ren respondeu imediatamente:
— Não.
— Não promete nada!
Daichi sorriu.
Mesmo assim.
— Continua vivo.
Ren sentiu o mundo quebrar um pouco.
— Continua sendo você.
Silêncio.
O sol começava a desaparecer.
Daichi levantou lentamente.
O vento movimentava suas roupas.
O mar brilhava atrás dele.
Era uma imagem bonita.
Mas também… final.
— Obrigado.
Ren não respondeu.
Não conseguia.
Daichi começou a caminhar.
Não para longe.
Mas em direção à vila.
Em direção ao próprio destino.
O vento aumentou.
As ondas bateram mais forte.
E o sol desapareceu completamente.
O dia terminou.
E com ele…
a última chance de mudar o que estava prestes a acontecer.