Capítulo 27 – Ecos na Maré Escura
O mar respirava lentamente sob a luz fria da madrugada.
As ondas quebravam contra as pedras com um ritmo constante, quase hipnótico, como se o mundo tentasse esquecer o que havia acontecido dois dias antes… mas não conseguia.
Ren caminhava sem direção.
Os passos eram pesados, arrastados, como se cada movimento exigisse um esforço que não vinha do corpo — vinha da mente.
Seu manto ainda estava manchado.
Não apenas de sangue.
Mas de memória.
A imagem não saía da cabeça.
A lâmina descendo.
O silêncio.
O rosto de Daichi.
E então—
Aoi.
O capuz caindo.
Os olhos frios.
A execução.
Ren parou perto de um penhasco baixo, olhando o mar.
O vento soprava forte, empurrando seus cabelos para trás.
— Por quê…
A voz saiu fraca, quase sem força.
Ele fechou os olhos.
Mas piorou.
As imagens ficaram ainda mais claras.
Daichi sorrindo quando eram crianças.
Daichi chamando seu nome.
Daichi dizendo que precisava contar a verdade.
Ren apertou o punho.
— Eu devia ter acreditado em você…
O vento aumentou.
E junto dele, algo mudou.
Um som.
Passos.
Leves.
Firmes.
Sem pressa.
Ren abriu os olhos e virou o rosto lentamente.
Um homem estava ali.
Não muito longe.
Observando o mar.
Como se já estivesse ali há algum tempo.
Cabelos pretos presos em um coque simples.
Roupas de viagem gastas.
Sem armadura.
Sem símbolo.
Sem arma visível.
Apenas presença.
Ren franziu o olhar.
— Quem é você?
O homem demorou alguns segundos para responder.
Como se estivesse decidindo se precisava responder.
Então virou o rosto.
Os olhos eram calmos.
Mas atentos.
— Só alguém que também está tentando chegar a algum lugar.
Ren não respondeu.
O silêncio voltou por alguns segundos.
O homem então continuou:
— Você está perdido.
Ren não gostou do tom.
— Não estou.
O homem deu um pequeno sorriso.
— Está sim.
Ren virou completamente o corpo.
Agora atento.
— Se veio atrás de problema, escolheu a pessoa errada.
O homem levantou levemente as mãos, mostrando que não queria lutar.
— Relaxa.
— Se eu quisesse lutar, você já teria percebido.
Ren ficou em silêncio.
Algo naquele homem era estranho.
Não parecia forte.
Mas também não parecia fraco.
Era… difícil de ler.
— Qual seu nome? — perguntou Ren.
— Isamu.
Uma pausa curta.
— E o seu?
Ren hesitou.
Mas respondeu.
— Ren.
O vento voltou a soprar.
Isamu olhou novamente para o mar.
— Você está tentando sair daqui.
Ren estreitou os olhos.
— Como sabe?
— Porque eu também estou.
Ren ficou atento.
— Sair… pra onde?
Isamu respondeu sem olhar para ele:
— Para um lugar que pouca gente conhece.
O coração de Ren acelerou.
Muito levemente.
— Aetheryon.
O nome saiu baixo.
Mas o suficiente.
Isamu virou o rosto lentamente.
— Então você também ouviu falar.
Ren não respondeu.
Mas o silêncio confirmou.
Isamu continuou:
— Tenho um barco pequeno.
— Não sei exatamente onde fica… mas tenho uma direção.
Ren ficou imóvel por alguns segundos.
O nome Aetheryon ainda ecoava na mente.
O lugar que Daichi mencionou.
O lugar onde talvez existissem respostas.
O lugar onde talvez…
Ele apertou o punho novamente.
— Quando você parte?
Isamu respondeu simples:
— Hoje.
Silêncio.
O vento.
As ondas.
Ren respirou fundo.
Ainda havia dor.
Ainda havia raiva.
Mas agora…
Também havia direção.
— Eu vou com você.
Isamu apenas assentiu.
Como se já esperasse isso.
A Vila
Enquanto o mar carregava dois destinos desconhecidos para longe, a vila permanecia presa ao peso do que aconteceu.
A praça ainda estava vazia.
Mesmo dois dias depois.
Ninguém queria passar por ali.
O chão havia sido limpo.
Mas não completamente.
Sempre restam marcas.
A igreja estava silenciosa.
Mais silenciosa do que o normal.
Dentro dela, velas queimavam lentamente.
O ar era pesado.
E tenso.
Kanzaki
No pátio interno, Kanzaki treinava.
Sozinho.
Como sempre.
Mas hoje… era diferente.
Os movimentos estavam mais agressivos.
Mais diretos.
Sem pausa.
Sem contemplação.
A lâmina cortava o ar com velocidade absurda.
Cada golpe fazia o vento se dividir.
Cada movimento carregava peso.
Não físico.
Mas mental.
Ele parou.
Respirou fundo.
O olhar ficou distante por um instante.
Daichi.
O garoto tinha coragem.
Mais do que muitos adultos.
Kanzaki fechou os olhos.
Não havia prazer algum naquilo.
Nunca houve.
Mas havia dever.
E ele nunca falhava com o dever.
Aoi
Do outro lado da vila, perto do mar…
Aoi estava sentada sobre uma pedra.
O vento movia seus cabelos.
Seus olhos estavam fixos no horizonte.
Mas não estavam vendo o mar.
Estavam vendo lembranças.
Ela lembrava de Ren.
De Daichi.
Dos três correndo pela vila.
Treinando.
Rindo.
Prometendo coisas que agora pareciam pertencer a outra vida.
Aoi apertou levemente a própria mão.
O rosto continuava neutro.
Como sempre.
Mas por dentro…
Algo não estava em paz.
Ela sabia que Ren havia fugido.
E sabia também…
Que ele não voltaria o mesmo.
— Eu fiz o que precisava ser feito…
A frase saiu baixa.
Quase como uma tentativa de convencer a si mesma.
Mas o vento levou as palavras embora.
Sem responder.
A Igreja
Dentro do salão principal, o velho padre conversava com outros membros superiores.
O clima era tenso.
— O garoto espalhou dúvidas — disse um deles.
— Dúvidas são mais perigosas que espadas — respondeu o padre.
— E o outro?
— Ren?
O padre ficou em silêncio por alguns segundos.
— Ele ainda é jovem.
Mas então seus olhos ficaram mais sérios.
— Porém… o ódio cresce rápido.
O salão voltou ao silêncio.
O Caminho para o barco
O sol já começava a subir quando Ren e Isamu caminhavam por uma trilha estreita perto das falésias.
Nenhum dos dois falava muito.
Mas não era um silêncio desconfortável.
Era um silêncio necessário.
Ren ainda estava mergulhado em pensamentos.
Isamu percebia.
Mas não perguntava.
Depois de alguns minutos, Ren falou:
— Você sempre viaja sozinho?
— Sempre.
— Não tem reino?
— Não.
— Nem lado?
Isamu deu um pequeno sorriso.
— Ainda não.
Ren olhou para frente novamente.
— Isso muda.
Isamu respondeu:
— Eu sei.
O barco apareceu entre as pedras.
Simples.
Pequeno.
Mas resistente.
Isamu começou a ajustar as cordas.
— Não vai ser uma viagem rápida.
Ren apenas respondeu:
— Não precisa ser.
O vento começou a soprar mais forte.
As nuvens se moviam lentamente.
Como se o mundo estivesse empurrando os dois para frente.
Para algo maior.
Para algo inevitável.
Ren olhou uma última vez para a direção da vila.
Nenhuma emoção apareceu no rosto.
Mas por dentro…
Tudo estava em guerra.
Ele virou.
Entrou no barco.
Isamu soltou as amarras.
A madeira rangeu.
As ondas empurraram lentamente a embarcação.
E então…
Eles partiram.
Sem saber que, naquele momento, três destinos começavam a se cruzar:
A igreja.
Aetheryon.
E um reino distante que observava tudo das sombras…
Vorthal.
Mas essa história…
ainda estava começando.